[A ANDRÉA AZULAY]
Rio, 28, sexta-feira
Querida Andréa,
Você quer me explicar o que quer dizer um sonho que tive hoje de noite? Ontem fui dormir tão cansada, mas tão cansada, que fiquei com medo de cair na rua. Dormi de oito e meia da noite até quatro e meia da manhã. Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo o meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo.
Mas depois eu fiz uma coisa de gente rica. Por exemplo, tenho uma minissauna em casa, com essência de eucalipto. Tomei a sauna e logo em seguida um banho bem quente com espuma revigorante. Depois tomei café bem quente. E agora estou bem.
Eu vou lhe dar de presente uma coisa. É assim: borboleta é pétala que voa.
Está bem?
Sua Clarice
— Clarice Lispector, no livro “Correspondências“. [organização Teresa Montero]. Rocco, 2015.
***
SOBRE O LIVRO 
“Desculpe, não estou mais ouvindo, a distância é grande, minha ‘aura’ está acabando e o esforço desta comunicação é tão sobre-humano que mal tenho força de assinar”, lamentava a jovem Clarice Lispector ao escritor Lúcio Cardoso, num bilhete curto, o silêncio do amigo e leitor cuidadoso de seus primeiros textos.
Como revirar a velha caixa de cartas, a recente publicação de Correspondências, de Clarice Lispector, traz à tona os enfrentamentos cotidianos da autora, expostos em 129 cartas trocadas com outros escritores, artistas, intelectuais e familiares, sendo 70 cartas de autoria de Clarice e 59 recebidas por ela. A coletânea — idealizada pela família de Clarice e organizada por Teresa Montero, também autora de uma biografia da escritora — reúne cartas, inéditas em sua maior parte, que permitem a compreensão da produção literária da escritora, assim como um encontro com sua intimidade.
Correspondências cobre quatro décadas da vida de Clarice Lispector, da década de 1940 até pouco antes da sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro, em dezembro de 1977. Entre seus correspondentes estão o marido, Maury Gurgel Valente, os amigos Bluma Wainer e Fernando Sabino, com quem manteve uma rica e frutuosa correspôndência, até trocas mais pontuais, como as de Manuel Bandeira e Fernanda Montenegro.
Há também cartas que tratam de seu trabalho como romancista e contista, a negociação com editoras e, sobretudo, a necessidade de interlocução expressa por Clarice e o retorno encorajador e maravilhado dos autores e amigos com quem conviveu. As angústias, as descobertas, a relação com os filhos e as amizades, vividas e registradas no Brasil e no exterior, estão presentes nesta coletânea, que permite ao leitor mergulhar no mundo de Clarice Lispector e perceber que o segredo do mito foi o de ser tão humano quanto qualquer um de nós.
.
FICHA TÉCNICA
Título: Correspondências
Páginas: 368
Formato: Digital (Kindle)
Lançamento: 07/2015 (1ª edição)
ISBN: 978-8581225739
Selo: Rocco Digital
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.
***
Saiba mais sobre Clarice Lispector:
:: Leia outros contos, crônicas e entrevistas aqui
:: Clarice Lispector – crônicas e contos
:: Clarice Lispector – a última entrevista
:: Clarice Lispector – fortuna crítica
:: Clarice Lispector – um mistério
“E era bom. ‘Não entender’ era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.”
– Clarice Lispector, no livro “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres“. Rocco, 2018.


