ATENÇÃO: Este texto contém spoilers do anime e mangá “The Summer Hikaru Died”, obra de Mokumokuren.
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Há histórias de terror que nos assustam pelo que mostram. Outras, pelo que sugerem.
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The Summer Hikaru Died, mangá escrito por Mokumokuren, adaptado para anime em 2025, pertence a uma terceira categoria mais incômoda: aquelas que nos perturbam pelo que revelam sobre nós mesmos.
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À primeira vista, a premissa do anime e do mangá parece familiar para quem é fã do gênero horror. Fantasmas, aparições sobrenaturais, horrores cósmicos misteriosos, lendas locais folclóricas e o isolamento de um vilarejo rural. A história começa quando Yoshiki repara que seu melhor amigo, Hikaru, está… “Diferente”, depois de retornar, misteriosamente, de um sumiço de uma semana nas montanhas.
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Pouco depois, o mistério dá lugar a uma virada visceral: Yoshiki descobre que o verdadeiro Hikaru morreu, e o que voltou em seu lugar é uma entidade sobrenatural que usa sua pele e suas memórias. Mesmo perturbado, Yoshiki toma uma decisão no mínimo curiosa: ele escolhe aceitar a ‘coisa’. Tudo para não perder a única conexão que lhe resta com a memória do melhor amigo, e, enquanto isso, fenômenos estranhos começam a consumir a vila em que ele mora.
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Sabemos que o coming of age sempre foi um território fértil para narrativas sobre descoberta: do corpo, do desejo, da identidade. Todavia, em The Summer Hikaru Died, essa jornada é atravessada por um elemento essencial, até sufocante de tão primal: o medo.
Como já fica claro desde cedo, o antigo Hikaru não apenas desaparece, ele morre e retorna como algo que não é exatamente humano. Ainda assim, o novo “Hikaru” fala, age e ama como ele. E ama, sobretudo, Yoshiki.
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É nessa intimidade que o anime escancara a contradição que Yoshiki vive: não há dúvidas sobre o que ‘Hikaru’ é, mas o apego e os sentimentos do protagonista são tão intensos que o mantém próximo da entidade, incapaz de se afastar da figura de ‘Hikaru’. Nessa convivência, vemos verdadeiramente quais são os conflitos de Yoshiki. Entendemos que ele não teme apenas o que Hikaru se tornou. Ele teme o que ele próprio sente pelo melhor amigo.
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‘Hikaru’, ao contrário, não reprime nada.
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Há algo profundamente desconcertante na maneira como o anime constrói essa dinâmica. A entidade que retorna no lugar de Hikaru não esconde seu afeto por Yoshiki, ela o explicita de maneiras até gráficas, mesmo que metafóricas. ‘Hikaru’ vive a vida pela primeira vez: há desejo ali, há curiosidade, há uma vontade quase infantil, e ao mesmo tempo intensa, lúbrica, de se aproximar, de tocar, de experimentar o mundo e, principalmente, de experimentar tudo com Yoshiki.
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Ele tem fome de viver, ao passo que Yoshiki teme encarar a vida.
Isso é demais para o protagonista; Yoshiki recua, Yoshiki tenta negar, a princípio. E esse recuo não nasce do desconhecido, mas sim do reconhecimento.
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Para entender essa dualidade, é preciso contextualizar que o anime se passa nos tempos atuais, mas em um contexto social extremamente conservador e isolado. Os personagens vivem em um vilarejo rural japonês, marcado por valores conservadores, espiritualidade rígida e uma noção muito clara do que é aceitável e do que deve ser silenciado.
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Yoshiki cresce dentro de uma lógica que não apenas reprime o desejo, mas o reconfigura como ameaça. Isso porque o desejo de Yoshiki não é heteronormativo, e, dentro de uma sociedade tradicional e conservadora, quem destoa da norma não é só visto como estranho, mas como indesejado e marginal.
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Como errado.
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Os conflitos de Yoshiki não são simplesmente sobre ele ser gay e saber que é gay. Ele sofre por ter aprendido, desde cedo, que viver sendo quem você é pode ser interpretado como algo que é antinatural.
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Algo monstruoso, que deve ser evitado, que deve ser escondido.
A entidade que ocupa o lugar de ‘Hikaru’ cria um estranhamento, sim. Mas ela não é cruel e muito menos é violenta em essência. Ela é doce, ingênua e até mesmo pura.
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Ela ama. Ela deseja viver, ter experiências. Ela deseja Yoshiki. E, ainda assim, é vista como um erro da natureza. Como algo que não deveria existir, ou seja, é um espelho, justamente, das emoções e desejos do protagonista, que é apaixonado pelo falecido melhor amigo.
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A genialidade de The Summer Hikaru Died é essa ironia quase cruel da narrativa. Enquanto a entidade ‘Hikaru’ luta para compreender o que é ser humano, o que é viver e amar, Yoshiki luta para esconder condições naturais que o tornam humano em primeiro lugar. Seu afeto, seu desejo… Sua própria identidade.
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Em termos de história, roteiros, a presença desse horror cósmico, da entidade sobrenatural, frequentemente associada ao desconhecido absoluto, ao incompreensível… Por aqui, é diferente. O horror desse anime não se fundamenta em uma presença que escapa às categorias humanas.
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Se fundamenta, pelo contrário, na terrível incapacidade e crueldade de muitos humanos de não aceitarem algo que é, justamente, natural.
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Percebemos que o “indizível” não é o monstro. O luto não é apenas pela morte do antigo Hikaru. É pela tentativa de matar em vida o desejo, o amor romântico, reprimido por um contexto homofóbico que o próprio Yoshiki internaliza e enfrenta diariamente. Como ele pode amar tanto, quando esse amor é entendido pelos outros, e até por si mesmo, como “monstruoso”?
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The Summer Hikaru Died é, assim, um anime doloroso, que não precisa de sustos fáceis, nem de violência explícita para causar desconforto. Basta observar a rotina do protagonista. Os fantasmas dos seus silêncios. Seus desvios de olhar. Sua constante tentativa de racionalizar, afastar, controlar aquilo que insiste em emergir. Que é parte fundamental de quem ele é.
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Em última instância, o que Yoshiki teme não é perder Hikaru mas, sim, se reconhecer nele.
Se reconhecer no olhar daquela entidade que o deseja e o aceita por inteiro, sem as amarras que as pessoas ao redor lhe ensinaram a carregar.
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E é aqui que, inevitavelmente, preciso deixar claro que meu texto deixa de ser apenas análise. Como mulher bissexual, há algo profundamente familiar, quase íntimo demais, nessa narrativa. Não no literal, claro, mas no sentimento. Na sensação de deslocamento. No aprendizado precoce de que certos afetos precisam ser filtrados, escondidos, adaptados para caber em um mundo que não foi pensado para acolhê-los.
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Crescer é, muitas vezes, um processo de tradução. Traduzir quem você é para algo que seja aceitável.
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Suavizar arestas, reconfigurar desejos e silenciar impulsos.
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E, em muitos casos, aprender a olhar para partes de si com a mesma rejeição e violência que o mundo projeta sobre você.
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Nesse sentido, Yoshiki não é apenas um personagem. Ele é um espelho desconfortável de um processo coletivo que todos nós, pessoas LGBTQIA+, passamos.
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O anime The Summer Hikaru Died é excelente porque não oferece respostas fáceis, não há catarse imediata e muito menos há redenção clara.
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O que há de sobra é tensão e ambiguidade, um constante estado de inquietação.
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Entendo que isso seja proposital. Porque algumas histórias não existem para resolver conflitos, existem para nomeá-los. E, se há algo que essa obra propõe, mesmo que de maneira sutil, é um deslocamento de perspectiva: e se o problema nunca foi o “monstro”?
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E se o verdadeiro horror estiver nas estruturas que nos ensinam a temer aquilo que, no fundo, apenas quer existir? E que MERECE existir?
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Há desejos que não desaparecem. Eles não cedem ao silêncio, não se dissolvem na negação, apenas mudam de forma, e esperam.
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O horror persiste enquanto Yoshiki entender que sentir é perigoso e que existir fora da norma é errado.
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Talvez, no fim, o mais assustador não seja aquilo que retorna da morte.
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Mas tudo aquilo que, em vida, fomos ensinados a enterrar dentro de nós mesmos.
O que retorna das montanhas não é só um novo ‘Hikaru’, é tudo o que nunca pôde ser nomeado e vivido entre eles. Por isso, quando o silêncio deixa de ser possível, só restam duas opções: continuar fugindo… Ou finalmente se reconhecer.
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Longa vida a Yoshiki e Hikaru, e a todos nós que, mesmo atravessados pelo medo, insistimos em não desaparecer. E em sermos, por inteiro, quem somos. Desejando e amando quem amamos.
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* Clarice Lippmann, colunista da Revista Prosa, Verso e Arte, roteirista, assistente de direção em formação, fã de cinema e cultura pop, estudante entusiasta de filosofia e advogada.
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