“Macalé decidiu, então, que ia “desistir de viver”.
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Começou a ligar para os amigos. Um por um. Queria, pela última vez, ouvir a voz deles. Seria sua despedida, embora os amigos não soubessem. Depois de conversar com vários, discou, por fim, para um companheiro com quem não falava havia bastante tempo: João Gilberto.
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João gostava muito de Macalé, a quem chamava, carinhosamente, de “Macala”. De vez em quando, João aparecia de surpresa na casa de Macalé para ouvir a mãe dele, Lígia, cantar músicas antigas. “Macala, sua mãezinha está aí?, indagava o cantor baiano.
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“Daí, João vinha, pedia meu violão emprestado e perguntava:
– Mãezinha, você não canta pra gente?
– Claro que canto, seu João.
– Me chama de Joãozinho.
– Tá bom, seu Joãozinho.”
Macalé chegava a ficar enciumado: Mãezinha é o caralho! É minha mãe, porra!”.
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João Gilberto adorava ouvir dona Ligia cantar. Ela não tinha estudado música, mas possuía, nas palavras do filho, “um senso de harmonia fora do normal”. Certa vez, acompanhada por João, dona Lígia começou a entoar “Nanci”, um dos clássicos do repertório de Francisco Alves: “Ouve esta canção,/ que eu fiz,/ pensando em ti,/ é uma veneração, Nanci…”. De repente, ela parou de cantar e reclamou:
– O acorde está errado, não é esse, não, seu Joãozinho.
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Ao telefone, quando se despedia para todo o sempre de João Gilberto, o compositor ouviu: “Macala, vem pra cá, quero te mostrar uma coisa”. Foi uma surpresa. Não era comum o misantropo e recluso João Gilberto convidar alguém para ir ao seu apartamento. Macalé chegou ao local e se surpreendeu outra vez: a porta de entrada estava aberta. Uma voz soou lá dentro: “Entra, Macala, vem aqui pro quarto”.
O quarto estava escuro. Na penumbra, ele conseguiu identificar João, sentado num canto. “Macala, deita aqui, com as pernas pra lá”, disse o baiano, apontando para um sofá grande e confortável. Macalé deitou, como se estivesse no divã de um psicanalista. João Gilberto pegou um violão e começou a tocar “No Rancho Fundo”, de Ary Barroso e Lamartine Babo: “No rancho fundo/ de olhar triste e profundo/ um moreno conta as mágoas/ tendo os olhos rasos d’água…”.
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“Ele tocou por horas, foi uma coisa hipnotizante”, lembra Macalé. “Eu comecei a ouvir aquela música e fui relaxando, relaxando, me deixando levar, até que apaguei.” Macalé dormiu profundamente. Quando acordou, no dia seguinte, João Gilberto estava à sua frente, lhe oferecendo um café. “O sol entrava pela janela do apartamento, e toda a tristeza tinha desaparecido de mim. Foi uma coisa profundamente humana o que o João fez. Ele percebeu que eu estava numa pior e usou o que tinha à mão, a música, pra me ajudar.”
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[14. Prólogo – ‘Como seu Joãozinho salvou Macalé’]
Pavões misteriosos: 1974-1983: a explosão da música pop no Brasil / de André Barcinski – 2ª edição, Editora Terreno Estranho, 2023
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O livro conta a história de um período negligenciado pela bibliografia musical brasileira: o surgimento da cena pop brasileira em meados dos anos 1970. Logo após o Milagre Econômico, a indústria do disco se multiplicou no Brasil. O público consumidor tornou-se maior e mais jovem. Se, até então, a MPB e a música romântica haviam dominado as paradas, a partir de 1974 uma nova geração de artistas se tornaria campeã de vendas: Secos e Molhados, Novos Baianos, Raul Seixas, Guilherme Arantes, Frenéticas, Gretchen, Rita Lee, Ritchie e muitos outros. “Pavões Misteriosos” conta a história de como a música jovem – o pop – dominou o Brasil, abrindo caminho para a geração do BRock de Legião Urbana, RPM e Ultraje a Rigor. Entre os temas abordados estão o sucesso dos discos de novela, a popularização das rádios FM, a explosão da discoteca no Brasil e o fenômeno dos “falsos gringos”, cantores brasileiros que faziam sucesso cantando em inglês.


