sábado, janeiro 24, 2026

A consciência da consciência, por Edgar Morin

O dicionário Larousse nos diz da consciência que ela é: “1. Conhecimento intuitivo ou reflexo imediato que cada um tem da sua existência” e “2. Representação mental clara da existência, da realidade desta ou daquela coisa”.

Desde o começo, a noção de consciência contém duas definições indicando dois tipos de consciência: uma remetendo a si mesma, a outra referindo-se ao mundo exterior. Imediatamente a definição oscila entre o seu aspecto intuitivo e o seu aspecto reflexivo. Podemos, quem sabe, superar a antinomia entre esses dois termos?

O uso da palavra “consciência” é recente na história.[1] A sua etimologia, cum scientia (ou seja, “com conhecimento”), indica que a consciência engloba o conhecimento numa atividade cognitiva de tipo reflexiva: a consciência é um conhecimento que reflete sobre si mesmo. Assim, “estou consciente do perigo ao atravessar a estrada” significa, ao mesmo tempo, que minha atenção é alertada por um carro que vem na minha direção e que esse perigo me diz respeito. A consciência de um fenômeno externo mobiliza a subjetividade porque ela não se refere somente ao objeto da atenção (o carro), mas também a mim como observador que percebe o perigo. Mas essa consciência, ao mesmo tempo, do perigo externo e do fato que esse perigo me diz respeito é imediata, quase intuitiva; a reflexividade que a suscita é inconsciente. Esse caráter imediato, quase intuitivo, oculta o caráter reflexivo espontâneo da consciência.

Portanto, a consciência é simultaneamente reflexiva, intuitiva, subjetiva e objetivante.

A consciência humana como emergência

A consciência humana resulta em toda evidência de atividades neuronais inseparáveis do conjunto das atividades do cérebro. O pensamento reducionista de certos neurocientistas tende a dissolver a consciência em operações interneuronais. Esse reducionismo ignora um fenômeno fundamental próprio a todo sistema vivo: a emergência de propriedades inexistentes nos elementos constitutivos do sistema. Assim, a água possui propriedades que não estão presentes nos seus componentes: o hidrogênio ou oxigênio tomados isoladamente. Da mesma forma, uma bactéria é composta de moléculas físico-químicas, mas a sua organização complexa produz atividades, como a autorreprodução, a autorreparação, a nutrição e a cognição, que são propriedades emergentes. Uma célula viva é composta de elementos físico-químicos (átomos, moléculas), mas possui qualidades próprias complexas inoperantes e invisíveis na escala somente das suas moléculas. Essas emergências podem ser chamadas de “Vida”.

  • A consciência é a emergência de uma emergência

A cognição emerge das atividades organizadoras do cérebro.

A consciência de si emerge ela mesma da atividade cognitiva. Podemos dizer também que a mente é uma realidade emergente originária das atividades neurocerebrais, mas que adquiriu certa autonomia em relação a elas. Como todo sistema autônomo, a mente humana depende do que a produz e nutre. A cognição emerge das atividades cerebrais e se alimenta de informações, trocas, de comunicação. Do mesmo modo, a consciência emerge das atividades cognitivas e delas se alimenta enquanto acede à sua própria realidade.

Como não se pode deduzir um fenômeno de emergência simplesmente dos elementos que o constituem, a cognição e a consciência não podem ser deduzidas das atividades cerebrais que as produzem.

Nesse sentido, a consciência, como qualquer fenômeno emergente, não pode ser explicada pelas atividades cerebrais das quais depende. Pode ser observada, concebida, mas não “explicada”.

  • Quando a consciência vem à mente

A consciência só emerge em certos momentos: quando a cognição se transforma em atividade reflexiva, quando a mente se vê ela mesma agir. No resto do tempo, a consciência de si não está ausente, mas em espera.

No cinema, por exemplo, minha mente está imersa no filme, invadida por personagens de ficção com os quais me identifico. Nesse momento, minha consciência de mim (espectador na sua poltrona) permanece em modo de espera.

Acontece-lhe de enfrentar tempestades, delírios, eclipses. Às vezes, até mesmo, no auge do êxtase, a consciência parece se apagar no sentimento de fusão cósmica que Romain Rolland chamava de “consciência oceânica”.

Eis o paradoxo da consciência humana: ela pode atingir picos de lucidez, alerta e vigilância e, em seguida, mergulhar na quase inconsciência, mesmo desperta, até subitamente acordar. Temos aí um profundo paradoxo: a consciência, às vezes, assume o controle e vigia nossas atividades mentais, nossos conhecimentos, e, outras vezes, entra em modo de espera.

A consciência de si está sempre virtualmente presente, sem que tenhamos de sempre pensar quem somos. Só estamos realmente conscientes de nós mesmos nesses momentos reflexivos particulares em que a consciência se toma ela mesma como objeto: quando surge a “consciência da consciência”.

Descartes, depois Husserl, considerava a consciência humana como um fundamento e uma realidade primeira. Mas a maior parte do tempo a consciência não passa de um brilho tênue, um vigia hesitante.[2] Essa faculdade da qual os seres humanos se orgulham tanto está, contudo, sempre exposta à ambiguidade e à incerteza.

A consciência de si

Há, na impossibilidade de explicá-la, um medo de conceber a consciência, partindo-se da noção de autorreferência.

Para compreender a consciência de si, deve-se romper com a interpretação puramente intuitiva e dedutiva do cogito cartesiano.

No cogito, “penso, logo existo”, “penso” implica um “penso que penso”, o que induz a um “eu me penso”. Em me pensando meu Eu faz emergir meu Ser como uma realidade objetiva. Assim, o cogito dá consciência plena à consciência de si, ao mesmo tempo como Eu subjetivo e Ser objetivo.

O Ser como faceta objetiva do Eu implica a existência de um Eu com o qual se identifica. Por isso podemos dizer “eu sou eu”. A conclusão do cogito é então a seguinte: “Eu sou objetivamente um ser subjetivo”.

Encontramo-nos aqui numa situação de complexidade em que o sujeito é seu objeto, permanecendo sujeito.

A verdadeira conclusão a tirar é esta: eu sou um sujeito pensante, consciente de si mesmo graças a um anel retroativo que liga o Eu ao Ser e o Ser ao Eu. Um duplo anel se formou: eu posso me representar como um Ser objetivo e como um Eu sujeito. Subjetividade e objetividade do “eu sou” são intrinsecamente inseparáveis. A consciência de si pressupõe a tomada de consciência da identidade do Eu e do Ser.

O duplo anel recursivo de onde emerge o “eu sou” é evidentemente autorreferente. Não se refere a uma constatação exterior a si tanto quanto não nasce de uma introspecção. Eis a ideia capital a reter: a consciência de si é produzida por um dispositivo de autorreferência que leva em anel do Ser objetivo ao Eu subjetivo (e inversamente). Eu sou um ser subjetivo que existe objetivamente e tomo consciência disso.

O que é ser sujeito? Ser sujeito é se autoafirmar colocando-se no centro do mundo, ou seja, privilegiando sua posição de modo egocêntrico. Mas esse egocentrismo é submetido a uma força antagônica: a que consiste em poder nos integrar em um Nós e nos devotarmos a nossos próximos ou à nossa comunidade.

Há um aspecto autorreferente na medida em que, no sujeito, o eu está a serviço de si mesmo. Mas esse sujeito se torna auto-hétero-referente quando se coloca a serviço dos outros ou de uma comunidade à qual pertence – e que faz parte dele.

Penso o mundo e me penso de modo inseparável.

Às fontes vivas da consciência

Como veremos, a consciência de si humana é um desenvolvimento especialmente complexo do princípio de autorreferência presente em qualquer vida.

Toda organização viva é um sistema auto-organizado de maneira cognitiva. Mesmo os organismos unicelulares possuem formas de cognição (percepção, memória, comunicação[3]). Mas essa cognição biológica já supõe uma autocognição do organismo por ele mesmo.[4] Além disso, para poder se reproduzir (dividindo-se), a bactéria deve se autoconhecer, ou seja, duplicar o seu material genético. Enfim, a bactéria deve se alimentar de fontes de energia exterior, o que implica um conhecimento, certo, limitado, mas real, do seu meio ou ambiente.

Como todo ser vivo, a bactéria dispõe, portanto, de uma qualidade de sujeito, que se autoproduz. Ela se autoafirma também atuando de modo “egocêntrico”. Ela possui outra qualidade do sujeito, a capacidade de se integrar em um Nós, o que faz cooperando com outras bactérias de diferentes maneiras: por exemplo, fornecendo a suas “irmãs” um gene de proteção contra os antibióticos, unindo-se em entidades policelulares provisórias ou em associações mais duráveis das quais nascerão organismos policelulares, que se tornarão vegetais ou animais.

Computo ergo sum

Assim, todo ser vivo possui qualidades de sujeito, ao mesmo tempo antagônicas e complementares: egocentrismo (preocupação consigo e com sua sobrevivência) e altruísmo (preocupação com os outros e com a sobrevivência deles). Egocentrismo e altruísmo podem ser encontrados em qualquer ser vivo, unicelular, vegetal ou animal, e são equivalentes do Ser-Eu e do Nós dos humanos.

A bactéria tem uma atividade cognitiva, ao mesmo tempo, para si e para o outro.[5] O cogito humano não é mais do que o prolongamento complexo de um dispositivo já presente em escala unicelular. Nesse estágio, é totalmente legítimo falar em “consciência de si” da célula, da árvore, do animal, mas essa consciência não é mental, não é cerebral, mas orgânica e, portanto, inconsciente em termos mentais.

  • Conhecimento auto-exo-referente

A consciência de si é o produto das atividades cognitivas presentes na organização de qualquer célula. Pode-se, então, inferir que um organismo pluricelular, vegetal ou animal, mesmo desprovido de cérebro, produz uma forma de cognição emergente associada à sua auto-organização e à sua sobrevivência.

Além disso, cada bactéria, ou todo ser pluricelular, inclui na sua organização um tipo de conhecimento auto-exo-referente: “auto”, para uma organização de si, e “exo” para o conhecimento do meio exterior. Esse “auto-exo” representa uma verdadeira dialética própria a todo ser vivo. A organização do ser vivo comporta formas de autoconhecimento ativas, reativas e preditivas necessárias para sobreviver.

No que diz respeito ao ser humano, esse conhecimento auto-exo-referente está presente não apenas no seu organismo, mas também na sua mente e na sua consciência. Essa consciência de si humana pressupõe, evidentemente, o desenvolvimento cerebral originário da hominização e do surgimento da cultura e da linguagem.

  • Uma consciência de si sem cérebro, sem mente e sem pensamento

Toda consciência de si pressupõe a separação entre eu e não-eu, que é a base das reações imunológicas e de toda ação de preservação de si. Contém a consciência do não-eu, que é o seu meio, e do que lhe é útil ou prejudicial no seu ambiente.

Chegamos a esta constatação paradoxal: existe mesmo uma consciência sem mente, sem cérebro, sem pensamento. Essa consciência vegetal ou animal, por mais arcaica que seja, não está menos na origem, por complexificações sucessivas, de nossa consciência humana.

Rumo à uma tomada de consciência planetária?

Em conclusão: a consciência é uma realidade emergente que nunca seremos capazes de explicar a partir de dados somente biológicos ou cerebrais. Ela pode ser concebida, mas não “explicada”, pois não é redutível aos elementos que a produzem.

A consciência nasce do caráter autorreferente dos circuitos de ação e retroação que emergem em todo organismo vivo. A vida implica, de fato, a auto-organização e a distinção entre o si e o não-si, o que pressupõe também formas de cognição bastante elementares em qualquer organismo vivo, seja ele unicelular, vegetal ou animal.

A consciência de si alimenta-se também de elementos estranhos a ela, que integra em si mesma.

O problema específico da consciência de si humana faz de nós um sujeito particular: consciente de ser sujeito. Um sujeito egocêntrico, mas que possui também a capacidade de empatia em relação a outros seres vivos e, sobretudo, a capacidade de integração em um Nós formado por todos os nossos “congêneres”.

Todavia, essa consciência estando, com frequência, em modo de espera ou adormecida, os clarões da verdadeira consciência só representam uma parte da nossa vida mental.

A verdadeira consciência consiste em tomar consciência de si, o que pressupõe também tomar consciência de nossa dependência dos outros.

Em Terra-Pátria[6] propus desenvolver uma “tomada de consciência da comunidade de destinos dos seres humanos entre eles”, o que implicava também uma verdadeira consciência de nossa dependência em relação à nossa frágil embarcação: o planeta Terra. Essa consciência planetária, a despeito de sua evidência, permanece muito pouco compartilhada, minoritária ou superficial, o que significa uma maioria de seres humanos vivendo ainda na inconsciência de um problema vital para todos.

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[1] Não encontramos equivalente nas filosofias grega e romana. Só o grego tardio introduziu o termo “suneidésis”, primeiro formato do que viria a ser a palavra “consciência”: sun, “com”, eidos, “ideia, ideação”. Na antiguidade grega, especialmente quando se queria falar do que nós, modernos, entendemos por “consciência”, utilizava-se a palavra noûs, que significa “espírito”.
[2] Busquei mostrar isso na Ética, sexto volume de O Método.
[3] Como bem destacou o neurobiólogo Francisco Varela (1946-2001).
[4] A auto-organização de toda célula possui um código informacional agora bem conhecido, que vai do DNA para o RNA e para a proteína, mas que compreende também uma retroação de informação em sentido inverso (da proteína para o RNA e depois para o DNA).
[5] Em A vida da vida (Método 2), chamei isso de um computo, uma computação em primeira pessoa, ou seja, uma atividade cognitiva de si para si, que trata dos dados vitais, em interação e retroação com seu ambiente.
[6] Em coautoria com Anne-Brigitte Kern. Porto Alegre: Sulina, 1995.


— Edgar Morin, no livro “Só um instante”. tradução Juremir Machado da Silva. Sulina, 2025

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SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - A consciência da consciência, por Edgar Morin
Nascido em 8 de julho de 1921, em Paris, Edgar Morin, nome adotado ao entrar na resistência clandestina ao invasor nazista da França, deixando para trás o sobrenome Nahoum, é um intelectual centenário, que escreve e publica mesmo depois de ultrapassar a invejável marca dos cem anos de idade.
Autor dos seis monumentais volumes de O Método e de dezenas de livros contundentes sobre temas antropológicos, sociológicos, epistemológicos e culturais, Morin é referência internacional por sua defesa de um paradigma da complexidade para a produção de conhecimento científico, o que implica, entre outras coisas, trazer para dentro da atividade científica a subjetividade e romper com a separação clássica entre sujeito e objeto.
Neste pequeno livro, Só um instante, ele recolhe textos publicados ao longo da vida de reflexão, pesquisa e atuação na vida pública e também acrescenta pequenos artigos de grande força intelectual e subjetiva, como um sobre a cama, ninho do qual o autor diz sentir dificuldade de se separar, e outro sobre a missão do intelectual, essa consciência comprometida com o mundo, com os outros, com a justiça e a verdade.
Há novidades guardadas durante décadas, como a deliciosa ironia sobre Stalin, “o camarada Deus”, texto recusado por uma revista importante quando foi escrito, nos anos 1950, e publicado agora sem perder o viço, o vigor e a potência da denúncia contra o personalismo praticado por quem deveria se manter em alerta contra mitificações. Impressionam o frescor da escrita e a acuidade das análises em níveis diversos: vida pessoal, cotidiano, política.
O leitor encontrará nestas páginas o centenário Edgar Morin na força da idade do pensamento, independente, visceral, leve, muito pessoal, não pertencendo, como ele mesmo disse certa vez, a ninguém. Livre, crítico e generoso. Enfim, um pequeno grande livro sobre a vida. Só um instante.
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FICHA TÉCNICA
Título: Só um instante
Páginas: 144
Formato: 14 x 0.9 x 21 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 09/05/2025 (1ª edição)
ISBN: ‎ 978-6557592120
Tradução: Juremir Machado da Silva
Selo: Sulina
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Saiba mais sobre Edgar Morin:
:: Edgar Morin: artigos, conferências e entrevistas

 


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