“A Cabeça – de Fred Demarca e Roberto Didio” é o segundo álbum de Fred Demarca, com lançamento em 30 de outubro. O disco celebra a parceria entre Roberto Didio e Fred Demarca, compositores prolíficos e versáteis de grande destaque no atual cenário da música brasileira.
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O recente encontro dos autores nasce de uma afinidade profunda, originando um conjunto muito especial de canções, aliando fundamentos do cancioneiro brasileiro e criativas combinações estéticas. Frescor e sutileza, costura de gêneros que estruturou um sólido enredo e evidencia o melhor retrato da produção contemporânea autoral de música popular, que finca os pés em solo brasileiro e mantém os olhos abertos para o mundo.
O violonista João Camarero foi convidado para assinar a direção musical do trabalho ao lado de Demarca e Didio, contribuição coletiva que conferiu ao disco potência, assinatura e poder de síntese. Os arranjos ficaram por conta de Camarero e Demarca; a percussão geral estava sob a batuta de Marcus Thadeu; o cavaquinho de Ana Rabello está presente em quatro faixas.
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O disco também brilha pelo jogo de vozes que permeia cada faixa em contracantos e densidade. A experiente Ilessi e o cantor Diogo Mirandela emprestaram seus materiais vocais, espelhados e distintos, fusionando timbres de maneira única. Há momentos em que as vozes ganham ainda mais corpo no coro que conta com as vozes de Luísa Lacerda, Nívea Magno, Miguel Rabello, Muato (além de Ilessi e Diogo).
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A concepção geral do trabalho apresenta a consonância entre violões, percussão diversificada e vocalises, conduzidos pela beleza e visceralidade da voz de Fred Demarca.
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Um álbum de artesania fina, onde a composição é louvada pelo calor das madeiras, das peles e das vozes.

A Cabeça | de Fred Demarca e Roberto Didio, por Hugo Sukman
“Alguém sonhando?”, pergunta sem maiores delongas a melodia simples que qualquer sambista assinasse, um samba daqueles que parece sempre ter existido (mas que, como por milagre, foi composto agora e por alguém, como aquele sonho do Caymmi de fazer uma música para o povo pensar que foi feita por ninguém, ou que foi ele, o povo, que a compôs pelo tempo, mas que é dele Caymmi como “Alguém sonhando?” é de Demarca e Didio. Por nós).
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“No mundo que não pode mais sonhar”, e “num tempo/sem tempo de contemplar” arrisco dizer que é exatamente aqui, neste mundo e neste tempo, que se situa este “A Cabeça”, as dez canções compostas por Fred Demarca e Roberto Didio em menos de três meses – canções urgentes, pois: modernas e atuais. Mas que parecem buriladas por anos – eternas, inatuais.
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Como não pensar em urgência e eternidade – conceitos aparentemente contraditórios mas aqui, não – diante de “Daquela voz”, uma canção-monumento a Milton Nascimento no momento em que ele se aposenta (“Salve, Bituca!/Som pra te agradecer/Fica com Deus”), agora; mas uma tentativa de captar sua eternidade (“Morros e mares/Trilhos e serras/Minas e Rio na voz/Príncipe banto/Timbre de santo…”). Na verdade, como em qualquer canção do álbum, “Daquela voz” é quase uma aula clássica de parceria musical: Demarca mandou uma melodia sinuosa como uma estrada de ferro morro abaixo, como se a montanha, Minas, despencasse no mar, Rio; como o retrato de Milton, como se a letra já estivesse contida ali na melodia e na harmonia, mas principalmente no ritmo tão evidentemente afro-brasileiro (“Olodumare/Vibra na Terra/Dentro daquela voz/Voz que liberta”) que o autor de “Raça” e de “Circo marimbondo” como que brotasse da melodia.
É que foi assim: como das coisas poderosas que acontecem, Demarca intuiu que Didio poderia ser seu parceiro e enviou-lhe melodias, não uma – embora a ambição fosse apenas essa, fazer uma canção – mas várias, dez, para que o futuro parceiro tivesse escolha. Didio no entanto percebeu que as dez melodias contavam uma história, e passou a escrevê-la. Aí que entra a parceria clássica, aquela de Tom e Vinicius, Edu e Chico, João Bosco e Aldir, Baden e Paulinho Pinheiro e tantas da canção brasileira: a música do compositor já contém as ideias que se transformam em palavras pelo letrista.
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Senão, como explicar “Que vai além”. Demarca mandou um samba com uma primeira parte toda torta, pontiaguda (como pareceu a Didio), mas que desemboca numa segunda oposta: fluente e confortável, como um velho samba de carnaval. E aí Didio psicografou o que estava na alma do samba, mantendo a dicotomia urgência e eternidade que perpassa o álbum: se na primeira parte “É samba desconstruído/Não vai passar na peneira da velha patota/Não vai ter/Sampler de astro divino/Mesa no Grammy Latino”, num retrato pontiagudo da atual indústria cultural, na segunda busca a perenidade, “Mas se meu samba tocar alguém/Mesmo que seja uma alma só/Saiba que o samba já foi além…”.
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Samba de feitio clássico, velha guarda, como se composto por Mauro Duarte e que Clara Nunes cantasse, “Pois é, artista” é, neste sentido, um recado da eternidade da criação para a atualidade volátil. Artistas profissionais de hoje, Demarca e Didio têm, digamos, lugar de fala, o primeiro para fazer um samba bonito e clássico como este, o segundo para perceber a história que o samba velha guarda conta, do “Artista de vanguarda/Cobiçando vencer/Perdeu a tessitura de quem ama”.
Novos ainda, mas muito experientes e experimentados – Demarca como integrante do Pietá, das bandas mais interessantes da atualidade; e Didio letrista mais prolífico da atualidade, de parcerias e produções musicais sólidas com novos como Miguel Rabello e Breno Ruiz mas que também já entrou no seleto grupo de parceiros de Dori Caymmi – os dois perceberam que na música brasileira atual da produção independente e da recepção fragmentada nos “strimings”, não basta aos compositores simplesmente escreverem as canções. Ambos, melodista e letrista, são também diretores musicais do álbum, cuidando de cada detalhe, ao lado de João Camarero – violão ao mesmo tempo virtuose e suingado, culto e refinado, que em várias faixas dialoga com o cavaquinho de Ana Rabello, que acha levadas e acordes incríveis no seu instrumento e assinou os arranjos do disco com Fred. Ou a percussão de Marcus Thadeu, com seus infinitos recursos, como se todo naipe de percussão, erudito ou brasileiro, se reunissem num músico só. Ou os vocais de Diogo Mirandela e Ilessi (outra cantora de ponta desta geração) e do coro presente em várias faixas. São poucos instrumentos mas que, pelo refinamento e inteligência de quem os executa soam como arranjos grandiosos.
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Com esse arcabouço – violão, coro e percussão – Demarca e Didio não se avexem de fazer um novo e belo hino à “Cecília Santa”, a padroeira da música. Nada há de mais eterno. Ou de encarar o grande tema, o derradeiro tema de qualquer artista em “No mistério”, a melodia sentida e reflexiva de Demarca, levada por violões e vocais, insuflando a poesia de imagens agudamente desconcertantes de Didio sobre a finitude, imagens que por serem tão cotidianas – “Mesa de bar desmontada/Canção de fazer chorar/Cheiro de mar na calçada/Calçada que não tem mar”- doem de imaginar que findarão. “Olerê, camaradas/Entardeceu demais/ Meu sol se pôs”, avisa o poeta sobre melodia, canção de fazer chorar, sim, urgente e eterna como tudo por aqui.
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Canções de combate, cada uma à sua maneira, “A cabeça” e “Rosa Pequena” concentram em si a forma artística e a, digamos, ideologia da parceria Demarca e Didio. A primeira, nordestina e macumbeira como na tradição das canções épicas brasileiras, é antes de tudo uma conversa interna, uma declaração de princípios (artísticos, éticos, políticos): “Perfume de rosas na fala/No pouco que fala, sorri/Sozinha cuspiu maré brava/Não deixa veneno fluir/Nos becos não sai dando pala/É firme, não fala de si”, dizem seus versos sábios, ao mesmo tempo misteriosos e claríssimos como mensagens do Orí, o orixá individual, a consciência de cada um (no caso a consciência de uma entidade única de dois, a parceria musical de letra e melodia).
Já “Rosa Pequena” retoma também uma vasta tradição do samba brasileiro, a da artista pobre que brota do povo para construir a beleza do carnaval, cujo “enredo esse ano/Questiona/O porquê de ser assim”, político a não mais poder. De inspiração nitidamente bosco-blanquiana, ou seja, totalmente calcada em tradições as mais profundas da canção brasileira, “Rosa Pequena” é no entanto originalíssima não só em sua bela personagem, Rosa Pequena de Iansã, que daria filmes, romances, cordéis, enredos, mas no estilo de samba que Demarca desenvolveu neste trabalho e no tema-obsessão da poesia de Didio, a injusta divisão social do trabalho na distopia pós-capitalista em que vivemos (e aí, notem, mais uma vez a eternidade do carnaval convive com a efemeridade da realidade social, uma constante do disco). A voz de Demarca, segura e brilhante nos seus agudos, e a participação vocal de Ilessi, cantora ao mesmo tempo rigorosa, técnica e força da natureza reforçam a pinta de clássico deste samba cheio de nuances.
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Levado pelo violão de 7 de João Camarero, o cavaquinho de Ana Rabello, a percussão variada de Marcus Thadeu – três que parecem 300 – além da batucada dos mestres Robson Zoinho e Klemen Gioz e do coro (e aí sim parecem de fato 300), “Zaragateira” é um samba daqueles: daqueles de fechar disco, de fazer festa, de celebrar, “toma a plateia, toma o teatro, assim que é”. Ou, “Chega, chegando, não tem terror/Acerto de contas em tom maior”, e cada verso de Didio descreve a música de Demarca, assim que é, a melodia como provocação, tudo urgente e elaborado, o RG, o DNA dos autores muito fortes, ao mesmo tempo traduzindo-se em composições para entrar direto no cancioneiro (e este “Zaragateira”, em outros tempos poderíamos dizer que tem vocação de sucesso), no inconsciente coletivo.
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Mas é num outro samba do disco que talvez melhor se revele a história, as nuances e os segredos desta nova parceira Demarca/Didio. “Do túnel pra cá” é um samba clássico que celebra a Zona Norte, o subúrbio, onde “a vida já me recebeu rasgada”. Esse rasgo de pastel de feira, bola no pé, carambola, quintais, botequins em festa e outro tantos “saberes na contradição da jogada” revela uma nada desprezível coincidência biográfica dos dois autores. Nascido (diz-se por lá naiscido, com o i pronunciado como em nenhum outro lugar em que se fale o português) e criado no Andaraí, porta do subúrbio do Rio – ali ao lado de Mangueira, Maracanã,
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Vila e Salgueiro mencionados na letra – Demarca hoje vive em São Paulo. Nascido (agora sem o i pronunciado) e criado entre o Tatuapé e a Vila Carrão, em plena Zona Leste de São Paulo, Didio escolheu viver no Andaraí.
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Parece ser nessa ponte espiritual entre subúrbios das maiores cidades do país, onde “cada qual com seu recorte” observa e recria um Brasil mais intenso, que se escondem os segredos dessas canções. “Pode parecer banal”, diz não sem ironia suburbana o verso final do samba.
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Hugo Sukman, do lado de lá do túnel, outubro de 2025

Disco ‘A Cabeça’ • Fred Demarca e Roberto Didio • Selo Garapa • 2025
Canções / compositores
1. A cabeça (Fred Demarca e Roberto Didio)
2. Alguém sonhando? (Fred Demarca e Roberto Didio)
3. Daquela voz (Fred Demarca e Roberto Didio)
4. Cecília Santa (Fred Demarca e Roberto Didio)
5. Rosa pequena (Fred Demarca e Roberto Didio)
6. No mistério (Fred Demarca e Roberto Didio)
7. Que vai além (Fred Demarca e Roberto Didio)
8. Do túnel pra cá (Fred Demarca e Roberto Didio)
9. Pois é, artista (Fred Demarca e Roberto Didio)
10. Zaragateira (Fred Demarca e Roberto Didio)
– ficha técnica –
Faixa 1 – Violão e voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Viola de gamba: Fred Ferreira; Caixa do divino, caixa, xequerê, surdo, queixada, efeitos: Marcus Thadeu; Feat: Diogo Mirandela, Ilessi | Faixa 2 – Voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Cavaquinho: Ana Rabello; Repique de anel: Marcus Thadeu; Coro: Diogo Mirandela, Ilessi, Luísa Lacerda, Miguel Rabello, Muato, Nívea Magno | Faixa 3 – Violão 7 e voz: Fred Demarca; Violão: João Camarero; Xequerê com escovas, congas, caxixi, block, efeitos: Marcus Thadeu; Vocalise: Diogo Mirandela, Ilessi | Faixa 4 – Voz: Fred Demarca; Violões: João Camarero; Moringa, congas, efeitos: Marcus Thadeu; Coro: Diogo Mirandela, Ilessi, Luísa Lacerda, Miguel Rabello, Muato, Nívea Magno | Faixa 5 – Voz: Fred Demarca e Ilessi; Violão 7: João Camarero; Moringa, congas, agogô: Marcus Thadeu; Vocalise: Diogo Mirandela, Ilessi | Faixa 6 – Violão e voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Vocalise: Diogo Mirandela, Ilessi | Faixa 7 – Violão e voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Tamborins, surdo: Marcus Thadeu; Vocalise: Ilessi | Faixa 8 – Voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Cavaquinho: Ana Rabello; Repique de anel, tamborins, ganzá, pandeiro, surdo, cuíca: Marcus Thadeu | Faixa 9 – Voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Cavaquinho: Ana Rabello; Repique de anel, tamborins, cuíca: Marcus Thadeu; Coro: Diogo Mirandela, Ilessi, Luísa Lacerda, Miguel Rabello, Muato, Nívea Magno | Faixa 10 – Voz: Fred Demarca; Violão 7: João Camarero; Cavaquinho: Ana Rabello; Congas, pandeiro, surdo, caixa: Marcus Thadeu; Caixa, tamborim, repinique: Mestre Zoinho; Caixa, tamborim, repinique: Klemen Gioz; Coro: Diogo Mirandela, Ilessi, Luísa Lacerda, Miguel Rabello, Muato, Nívea Magno || Direção musical: Fred Demarca, João Camarero, Roberto Didio | Arranjos: Fred Demarca, João Camarero | Arranjos vocais: Fred Demarca | Concepção rítmica: Marcus Thadeu | Estúdios: Conexão (SP), técnico: Ricardo Cassis – base e complementos / Frigideira (RJ), técnico: Felipe Larrosa Moura – vocalise, coro, participação especial / Colmeia (RJ) – viola de gamba: Fred Ferreira / O Som da Ladeira (SP), voz: Fred Demarca | Mixagem e masterização: Ricardo Cassis | Arte de capa: Vicente Magalhães | Design gráfico: Flávia Tonelli | Selo: Garapa | Distribuição digital: Nikita | | Formato: CD digital e físico | Ano: 2025 | Lançamento: 30 de outubro | ♪Ouça o álbum: clique aqui.

EIS, AS LETRAS
1. A CABEÇA
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Perfume de rosas na fala
No pouco que fala, sorri
Sozinha cuspiu maré brava
Não deixa veneno fluir
Nos becos não sai dando pala
É firme, não fala de si
Destino que tem sua lavra
Palavra que vai se cumprir
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À frente da linha de frente
Serpente que tem dois Orís
Tem aura de borda dourada
À prova de balas, eu vi
Abriu duas asas de arara
Pousou num teatro de arena
Curvou pra saudar seu Orí
E pro sol colorir suas penas
.
Orí olóore ori jẹ̀ o / Orí olóore ori jẹ̀ o
Orí orirê, orirerê / Meu Orí
.
Na ginga que nem mestre-sala
Na flecha que vai por aí
No meio de meias-palavras
Não deixa o caô conduzir
À boca miúda se cala
Centrada no seu oríkì
Qualquer inimigo desbrava
No golpe de flor que se abrir
.
À frente da linha de frente
Serpente que tem dois Orís
Tem aura de borda dourada
À prova de balas, eu vi
Abriu duas asas de arara
Pousou num teatro de arena
Curvou pra saudar seu Orí
E pro sol colorir suas penas
.
Orí olóore ori jẹ̀ o / Orí olóore ori jẹ̀ o*
Orí orirê, orirerê / Meu Orí
——–
*Provérbio iorubá que se traduz como “A cabeça do vencedor vencerá”.
-♪-
2. ALGUÉM SONHANDO?
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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A névoa subiu pra turvar teus sonhos
Não deixa o destino sair do cais
Inverte o passado que foi vencido
Trazendo o futuro também pra trás
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A seda suave tapou teus olhos
Não deixa o levante pensar demais
Inerte cenário do amor banido
Maquete pra dissimular liberdade
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Alguém sonhando
Vida no copo vazio
De beber dia a dia
Alguém desperta
No mundo
Que não pode mais sonhar
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Alguém cantando
Gente que não desistiu
De fazer poesia
Alguém alerta
Num tempo
Sem tempo de contemplar
-♪-
3. DAQUELA VOZ
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Morros e mares
Trilhos e serras
Minas e Rio na voz
Príncipe banto
Timbre de santo
Oro contigo a sós
Choro te ouvindo a sós
Choro te ouvindo a sós
.
Olodumare
Vibra na Terra
Dentro daquela voz
Voz que liberta
Me desconcerta
Livra de gente atroz
E nos prepara
Reza que comoveu
Tantos ateus
.
Prece no palco
Salmo vibrante
Missa que tem axé
Filho de Lília
E de Maria
E de Josino é
Mano de Brant
Pele brilhante
Ele com seu boné
Não se compara
Reza que protegeu
Todos os seus
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Voz de tambor de luta
Voz de vingar a peia
Voz de tenor, batuta
Voz de nação plebeia
Voz de benzer escuta
Voz de ser odisseia
Voz que semeia
Reza que transcendeu
Todos os céus
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Salve, Bituca!
Som pra te agradecer
Fica com Deus
-♪-
4. CECÍLIA SANTA
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Cecília Santa
Virgem Santa Padroeira
No martírio, altaneira
Na fé cristã
Cecília Santa
Virgem Santa companheira
Abrigai as rezadeiras
E protegei os ogãs
.
Cecília Santa
Na medalha, na carteira
No altar, na cabeceira
Ó guardiã
Cecília Santa
Tenho harpa de madeira
No cordão de gameleira
Benzei o meu talismã
.
Cecília Santa
Na lavoura, na pedreira
No cantar das lavadeiras
E tecelãs
Cecília Santa
No chapéu, nas esmoleiras
Ou no auge da carreira
São meus irmãos e irmãs
-♪-
5. ROSA PEQUENA
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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No temporal, lá fora
Quem vai sair?
De varal em varal
Vi Rosa correr
Pra enfrentar tempestade
Ninguém melhor
Inda vão reclamar de você
Sorriu:
Ao seu dispor
Rosa Pequena de Iansã
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No carnaval, agora
Não vai sair
Feriado braçal
Não tem bem-querer
Pra mostrar lealdade
Ninguém melhor
Inda vão quizumbar com você
Partiu
Sem contrapor
Rosa Pequena
Foi comandar
A escola de samba
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Retumbou
Lá no fundo dos fundos
Tem casa
Dependência que compra
Seu tempo
Solidão sem Alafim
.
Transbordou
Solfejando em quicondo
A trama
O enredo esse ano
Questiona
O porquê de ser assim
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6. NO MISTÉRIO
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Raio de luz nas quebradas
Azul de querer voar
Pipas no céu mergulhadas
Viagens ao deus-dará
Olerê, camaradas
Amanheceu na voz das sabiás
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Cartas na mão, gargalhadas
Do filme rebobinar
Álbum de fotos douradas
Um disco que faz lembrar
Olerê, camaradas
O carrossel girou
Quem vem cantar?
.
Me vejo voltando pra casa
No caramanchão, nos ipês
A fonte ficando mais rasa
A vista embaralha vocês
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Visão de sereias nuas
Deitadas no quebra-mar
Castelo de sal sobre as águas
Hora de me deitar
A vida é uma rede trançada
No sopro que vai e vem
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Mesa de bar desmontada
Canção de fazer chorar
Cheiro de mar na calçada
Calçada que não tem mar
Olerê, camaradas
Entardeceu demais
Meu sol se pôs
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E na dispersão da jornada
O cetro do Tempo tremeu
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7. QUE VAI ALÉM
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Pra você
Meu samba não faz sentido
Não tem lugar na trincheira
Nasceu pra derrota
Bla-blá-blá
É samba desconstruído
Não vai passar na peneira
Da velha patota
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Não vai ter
Sampler de um astro divino
Mesa no Grammy Latino
Nem vai fingir não ligar
Não quer viver de chancela
Nem comandar a panela
Nem abraçar geral
.
Mas se meu samba tocar alguém
Mesmo que seja uma alma só
Saiba que o samba já foi além, além
Meu samba
.
Não vai ter
Sampler de um astro divino
Mesa no Grammy Latino
Nem vai fingir não ligar
Não quer viver de chancela
Nem comandar a panela
Nem abraçar geral
.
Mas se meu samba tocar alguém
Mesmo que seja uma alma só
Saiba que o samba já foi além, além
É força que vai além
Vai além
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8. DO TÚNEL PRA CÁ
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Sob o sol da Guanabara
As praias vão efervescer floridas
Pedalar em Ipanema ai,ai
A Pedra no Arpoador esculpida
Cada grão é joia rara
Em Copa, ouro de areal 18
Dar de cara com Drummond
Sempre de pernas cruzadas
Mar de pensamentos bons
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Retornei à Zona Norte
A vida já me recebeu rasgada
Baticum, pastel de feira ai,ai
Saberes na contradição da jogada
Cada qual com seu recorte
Subúrbio é memorial de estrelas
Realejo e tocador
Bola no pé, carambola
Fonte que tem mais valor
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O sangue na veia
Do túnel pra cá fluindo
Quando a pulsação dispara
Avisto primeiro a Mangueira
E o Maracanã – sem Geral
Mas estamos aí
A Vila, o Salgueiro
Quintais, botequins em festa
Claro que vai ter virada
É meu time na final
Porta-bandeiras na rua
Pode parecer banal
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Graciosa Zona Norte…
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9. POIS É, ARTISTA
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Artista de vanguarda
Cobiçando vencer
Perdeu a tessitura de quem ama
Sorriso rastejando pra chegar, qualé?
No patamar principal do panorama
Provou a dose falsa do poder
Normal no capital
Afundar o pescoço nessa lama
A média costumeira é de amargar, ah é
Quem se perdeu no caminho sente o drama
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Um sábio velha-guarda
Costumava dizer
Sem pressa, que fervura se derrama
Delírio sideral a despencar, pois é
Cai do cometa fugaz no céu da fama
Não faz papel de tolo por querer
Astral até legal
Mas inflou na soberba que te inflama
A linha de chegada foi cruel, cruel
Embaraçou na costura dessa trama
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O poder
Que nos faz enlouquecer
Que nos faz envaidecer
Que nos faz contradizer
No poder
Quem não sabe proceder
Quem não sabe socorrer
Se puder, quer mais poder
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10. ZARAGATEIRA
(Fred Demarca e Roberto Didio)
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Chega, falange do samba
Chega subindo que nem maré
Caixas de guerra, os atabaques e xequerês
Chega, falange do samba
Pega o teatro no contrapé
Sobe as escadas, faz a matilha se arrepender
Surdos e congas passando
Couro comendo: crispou, lambeu
Veludo vermelho queimando
O templo da casta ferveu
Zero a zero, perdeu
Cobra, falange do samba
Gota por gota do teu suor
Por certo o concerto será melhor
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Chega, falange do samba
Chega subindo que nem maré
Toma a plateia, toma o teatro, assim que é
Passarinheira pastora
Chama Surica! Não tem Cloé
Heróis desatando as amarras
Faz o laquê bagunçar
E cabelo avoar
Chega, falange do samba
Chega chegando, não tem terror
Acerto de contas em tom maior
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Samba docente, roda-gigante
Gira que pira na lira ao redor do sol
Contra o relógio
Feito xirê
Doce minuto do vamovê
Samba pra frente, papo de classe
Bate no aro o disparo do seu tarol
Contra a canalha
Sem miserê
Bem resoluto no balancê
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Aroeiraraiá / de primeiraraiá / não bambeiaraiá
Desce a madeiraraiá / é na moleiraraiá / sarrafeiaraiá
Zaragateiraraiá / na saideiraraiá / incendeiarairá
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Só não bobeiaraiá / não vadeiaraiá / dá-lhe, Candeiaraiá!
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Série: Discografia da Música Brasileira / MPB / Canção / Álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske


