Há escritores que constroem mundos e há escritores que constroem casas. Milton Hatoum pertence à segunda espécie. Desde Relato de um Certo Oriente, ele escreve a partir das frestas da memória, das portas que rangem quando o tempo decide entrar, das janelas que deixam passar o rumor abafado de Manaus, uma cidade que, em sua ficção, flutua entre o sonho e a lembrança. Suas histórias começam sempre no mesmo ponto de vertigem: alguém retorna, alguém parte, alguém tenta reunir o que o tempo espalhou. E o que era casa se transforma em espelho partido, em origem perdida, em silêncio que respira.
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Em Relato de um Certo Oriente, a casa é um labirinto de vozes que se sobrepõem como se cada uma falasse para não ser esquecida. Uma mulher retorna à cidade natal e, ao visitar a matriarca agonizante, escuta não apenas a voz da família, mas a de todos os fantasmas que habitam as sombras do passado. O Oriente do título é menos um ponto no mapa e mais uma metáfora de exílio interior, o território de quem vive entre fronteiras invisíveis. O livro é uma oração interrompida. Cheira a cedro, a tempo antigo, a distância. Cada frase é uma tentativa de recuperar o que o tempo dissolveu, mas toda tentativa esbarra no limite da linguagem. Hatoum escreve como quem acende uma vela dentro da casa escura da memória e sabe que a chama não ilumina, apenas revela as sombras que a cercam.
Em Dois Irmãos, ele ergue uma nova casa, desta vez sobre o terreno da ruína. Yaqub e Omar, os gêmeos inimigos, são como dois lados de um mesmo espelho rachado. O amor da mãe é o eixo que divide e multiplica o ressentimento. A figura ausente do pai paira como uma lembrança áspera. E Nael, o narrador silencioso, observa tudo com olhos de quem entende a dor, mas não o direito de nomeá-la. Ele é o filho da casa e o filho da sombra. Aquele que escuta o que os outros calam.
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A Manaus de Dois Irmãos é uma cidade de rios interiores. Chove dentro das pessoas, e o tempo escorre pelas paredes da casa como se fosse possível ouvir a umidade da tristeza. É o romance em que Hatoum alcança o equilíbrio raro entre o drama e a contenção. Nenhuma palavra sobra, nenhuma lágrima é gratuita. Tudo vibra na fronteira entre o dito e o não dito. Há em cada página uma sabedoria quase oriental, uma meditação sobre a desigualdade e o amor, sobre o país que se constrói pela metade e sobre os afetos que se destroem inteiros.
Depois vem Cinzas do Norte, e é como se o autor acendesse o fósforo dentro da casa. O fogo da história entra pelas janelas. A ditadura militar, a modernização de Manaus, o desencanto da arte e da política atravessam os personagens como um vento que não cessa. Mundo, o artista rebelde, tenta escapar da sombra paterna e da cidade em convulsão, enquanto Olavo, o amigo que narra, recolhe os estilhaços da esperança. O livro é mais do que um romance político, é um romance sobre a política da alma. Cada gesto, cada silêncio, cada cicatriz, é também uma metáfora do país.
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Cinzas do Norte é o ponto mais alto de uma obra que já nasceu madura. O estilo é limpo, a emoção é contida, o mundo é complexo. O Norte, ali, não é apenas geografia: é destino, é metáfora, é consciência. Hatoum transforma a derrota em beleza, a ruína em arquitetura, a memória em forma de resistência. Há uma serenidade trágica em suas frases, como se o autor compreendesse que a dor precisa de disciplina para ser compreendida. É um livro em que o amor e a política se misturam como águas turvas, e o leitor termina com a impressão de que as cinzas ainda ardem.
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Agora, o círculo se fecha com o anúncio de Dança de Enganos, o volume que chegará em breve para completar a trilogia que começou há mais de três décadas. O título é um presságio: toda memória é uma dança, todo passado é um engano, toda lembrança é um movimento de disfarce. Há algo de mágico nessa espera. Esperar um novo livro de Hatoum é como aguardar o retorno de alguém que se ama e que partiu sem prometer voltar. Sabemos que virá, e mesmo assim duvidamos, porque o tempo é sempre um personagem em seus romances, e o futuro, em Hatoum, nunca é promessa, é eco.
Dizem que o novo livro dialogará com os romances mais recentes, A Noite da Espera e Pontos de Fuga, mas também com as casas da memória que ele ergueu no passado. Será, talvez, um reencontro entre os que partiram e os que ficaram, entre as vozes que narraram e as que foram caladas. Em Dança de Enganos, tudo indica que Hatoum voltará à casa inicial, mas não para reabitá-la. Voltará para olhar de fora, como quem reconhece que toda origem é um erro necessário, uma mentira luminosa que nos dá forma e sentido.
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Ler Hatoum é entrar numa casa que reconhece o leitor como parte de sua mobília. As cadeiras parecem guardar lembranças. As paredes nos devolvem a própria respiração. Cada porta aberta conduz a um silêncio antigo, e o silêncio, em Hatoum, é sempre uma forma de eloquência. Seus livros falam baixo, mas permanecem conosco por anos, como uma canção que não se apaga.
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Essa trilogia — Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte — é uma construção de memória e sombra. São livros que respiram como cidades submersas. Hatoum escreve com a paciência dos que sabem que o tempo é o verdadeiro narrador. Suas palavras não descrevem, iluminam. Seus personagens não vivem, ecoam.
Esperar Dança de Enganos é, portanto, esperar a própria literatura reencontrar seu pulso. Porque em Hatoum o passado nunca se encerra, ele apenas muda de quarto. E o leitor, apaixonado e paciente, permanece à porta, escutando, com o coração entreaberto, o som distante de alguém que volta para contar mais uma vez o que nunca deixou de acontecer.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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