sábado, janeiro 24, 2026

Filmes Proibidos: coragem e liberdade, por Paulo Baía

O romance Filmes Proibidos, de Bruna Lombardi, publicado originalmente em 1990 e relançado em edição revista em 2025, é uma obra que ultrapassa o tempo histórico de sua primeira aparição e chega até nós como um gesto literário de coragem, liberdade e ousadia. Bruna Lombardi, até então amplamente reconhecida como atriz, poeta e figura pública, decidiu arriscar-se no terreno da prosa de ficção em um momento em que o Brasil saía das sombras da ditadura e redescobria a democracia, mas também em um contexto cultural em que o campo literário, ainda fortemente dominado por vozes masculinas, demonstrava resistência à inserção de escritoras de origem pública e midiática. O gesto de publicar Filmes Proibidos já era, em si, um desafio, e a recepção dividida à época mostrava que Bruna não se contentava em ocupar o lugar confortável de musa ou ícone cultural, reivindicando para si a posição de autora, criadora de mundos e intérprete de subjetividades. O relançamento de 2025, revisado e reposicionado, reafirma a pertinência da obra, que agora dialoga não apenas com os dilemas de sua geração original, mas também com os dilemas femininos entre 2020 e 2025, mostrando-se um espelho da continuidade e da permanência de questões centrais na vida urbana e afetiva.
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É impossível analisar Filmes Proibidos sem reconhecer a marca da poesia de Bruna Lombardi, que tem raízes profundas na influência de Mario Quintana. O poeta gaúcho foi mestre em revelar o extraordinário no cotidiano, em construir epifanias a partir do banal e em atribuir ao detalhe uma dimensão transcendente. Essa lição está presente em toda a prosa de Bruna, que escreve como quem ainda é poeta, construindo imagens líricas, metáforas sutis, passagens introspectivas que se aproximam mais da música que da narrativa linear. Há uma musicalidade no texto, uma cadência que flui em ondas, e essa característica foi extremamente criativa para a época, desafiando fronteiras entre gêneros, rompendo com convenções rígidas da narrativa tradicional. O resultado é um romance que pensa como poema, que observa como ensaio e que se arrisca como literatura experimental.

A protagonista do romance é uma mulher de trinta anos, inserida na vida urbana de São Paulo na transição entre as décadas de 1980 e 1990. Essa mulher não é descrita como heroína no sentido clássico, mas como sujeito fragmentado, atravessado por desejos, angústias e contradições. Ela trabalha como produtora de filmes alternativos, busca sobreviver em meio à publicidade, circula pelos ambientes de boemia cultural, convive com amigos, psicanalistas, cartomantes e familiares que funcionam como personagens de apoio e espelhos de sua condição existencial. A cidade é parte integrante da narrativa, não apenas como pano de fundo, mas como personagem coletivo: São Paulo aparece como organismo vivo, caótico, vibrante, sufocante e libertador, capaz de organizar e desorganizar ao mesmo tempo a subjetividade da narradora.
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Do ponto de vista sociológico, a obra é um retrato valioso da nova classe média cultural brasileira que emergia no final do século XX. Jovens escolarizados, consumidores de cinema de arte, de bares alternativos, de experiências espirituais e terapêuticas, formavam uma geração que buscava autenticidade em meio ao consumo e liberdade em meio à precariedade. Esse grupo social, embora privilegiado em muitos aspectos, vivia um permanente mal-estar: a sofisticação cultural convivia com a instabilidade financeira, a autonomia convivia com a solidão, o desejo de autenticidade convivia com a dificuldade de sustentar vínculos sólidos. Filmes Proibidos registra, quase como uma etnografia involuntária, as práticas, ritos e contradições desse universo social urbano que se expandia com a redemocratização brasileira.

revistaprosaversoearte.com - Filmes Proibidos: coragem e liberdade, por Paulo BaíaNo enredo, destaca-se a figura fugaz de um homem, paixão intensa e instável, que aparece e desaparece, deixando a protagonista em estado de espera, desejo e frustração. Esse personagem é menos um indivíduo e mais um símbolo, funcionando como mito ou totem em torno do qual se organiza a experiência afetiva da narradora. A impossibilidade de consolidar esse vínculo amoroso não é apenas uma questão pessoal, mas uma metáfora das transformações sociais que tornavam os laços mais frágeis, instáveis e efêmeros. Antecipando o diagnóstico que Bauman formulou sobre a modernidade líquida, o romance mostra como o amor já era vivido como intensidade passageira, como promessa sempre adiada, como encontro que se desfaz tão rapidamente quanto se anuncia. O amor aparece como experiência instável em um mundo em que instituições sólidas – família, casamento, carreiras vitalícias – já haviam perdido sua força reguladora.
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Esse núcleo narrativo, ao mesmo tempo íntimo e universal, abre espaço para reflexões filosóficas mais amplas. A protagonista encarna o ethos de Nietzsche, vivendo a vida como vontade de potência, desejando intensidade, recusando papéis tradicionais, abrindo-se ao risco e ao excesso. No entanto, essa liberdade não produz plenitude, mas vazio. O que deveria ser emancipação se converte em niilismo afetivo, em sentimento de desamparo, em angústia diante da ausência de garantias. A filosofia de Kierkegaard aparece como chave de leitura, pois a vida da protagonista é atravessada pela angústia da escolha e pela consciência da impossibilidade de segurança existencial. Do mesmo modo, Simone de Beauvoir ilumina a narrativa ao mostrar que a emancipação feminina não elimina dilemas, mas intensifica tensões, produzindo novas formas de aprisionamento subjetivo. Bruna, ao criar uma personagem feminina que é sujeito de desejo e pensamento, afirma um gesto feminista e literário que se mantém atual.
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Se o enredo de Filmes Proibidos se estrutura em torno de fragmentos de vida, encontros casuais, paixões intensas e perdas inevitáveis, o que se revela por baixo dessa superfície é uma reflexão sobre a própria condição humana em meio à modernidade urbana. Bruna Lombardi descreve a vida da protagonista com delicadeza e intensidade, sem cair em idealizações, mas assumindo as fissuras e contradições da experiência. A narrativa é construída em pedaços, como se imitasse a própria fragmentação da vida moderna. Essa escolha estilística é coerente com o que se narra: em um mundo em que os vínculos são instáveis e as experiências se esfarelam em instantes, a forma narrativa não poderia ser rígida, mas deveria refletir a descontinuidade.
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Do ponto de vista antropológico, a cidade descrita em Filmes Proibidos funciona como laboratório social. São Paulo surge como espaço em que múltiplas culturas se encontram e se confrontam. A cartomante que interpreta destinos, a mãe hipocondríaca que dramatiza doenças, os amigos cínicos que relativizam os valores, o psicanalista que tenta dar sentido ao caos, todos esses personagens representam microcosmos de uma metrópole plural, fragmentada e tensa. A cidade se torna cenário ritual de iniciações e provas: nela se aprende a esperar, a perder, a amar de maneira fugaz, a sobreviver em meio ao excesso. O valor antropológico do romance está em registrar esses modos de vida, que, embora marcados por uma classe social privilegiada, refletem experiências compartilhadas em diferentes níveis da sociedade urbana.
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O aspecto temporal do livro também merece atenção. Situado no final dos anos oitenta, ele nos mostra um mundo sem internet, sem redes sociais, em que os encontros dependiam do acaso, das chamadas telefônicas fixas, das esperas prolongadas em bares ou esquinas. A ansiedade tinha ritmo mais lento, pois estava ligada à ausência física, à incerteza material. Comparado ao presente, percebe-se como a aceleração tecnológica transformou radicalmente a experiência do tempo e do encontro. Contudo, os dilemas centrais permanecem: a dificuldade em sustentar vínculos sólidos, a sensação de vazio, a busca por autenticidade em meio ao excesso de possibilidades. Assim, o romance funciona como cápsula do tempo e, ao mesmo tempo, como espelho do presente.
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É importante sublinhar a coragem de Bruna Lombardi ao publicar essa obra. Inserida em um meio cultural que poderia facilmente reduzi-la ao estereótipo de atriz e musa, ela escolheu escrever um romance que desafiava convenções e que se expunha às críticas mais severas. A virtude de Bruna foi não recuar diante da possibilidade de ser subestimada, mas assumir sua condição de escritora com plena consciência de risco. Esse gesto é político e literário ao mesmo tempo: político porque rompe com as fronteiras impostas a mulheres em espaços de criação; literário porque assume a literatura como campo de liberdade, onde imperfeições não são falhas, mas sinais de autenticidade.

As imperfeições do romance, de fato, são visíveis. Há momentos em que a prosa parece excessivamente lírica, beirando o risco de diluir a narrativa em imagens poéticas. Há também trechos em que o recorte de classe se impõe, revelando uma visão restrita de mundo. Mas essas marcas não diminuem a força da obra, pelo contrário: reforçam a ideia de que se trata de um texto sincero, escrito a partir de uma experiência situada e autêntica. Filmes Proibidos não pretende ser universal em sua representação, mas sim particular em sua intensidade. E, ao ser particular, consegue tocar questões universais.
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A presença masculina, construída como mito de desejo e ausência, é outro aspecto que merece análise filosófica. Esse homem é figura espectral: surge como promessa, desaparece como sombra, retorna como ilusão. Ele não é tanto um personagem com densidade psicológica, mas uma encarnação do impossível. Representa o eterno retorno do desejo não satisfeito, a pulsão pelaquilo que não se concretiza. Nesse sentido, pode-se ler a relação entre protagonista e esse homem à luz da psicanálise, como experiência marcada pelo objeto de desejo inalcançável, que sustenta a falta e o movimento. É também uma metáfora da própria condição humana em busca de sentido, sempre projetando no outro a promessa de completude que nunca se realiza.
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Se expandirmos a leitura para o campo da filosofia social, vemos que o romance antecipa uma crítica à promessa moderna de felicidade através da liberdade individual. A protagonista é livre, emancipada, independente, mas sua liberdade não garante felicidade. Pelo contrário, expõe-na ao risco do vazio, da solidão, do excesso de possibilidades. É a contradição fundamental da modernidade: a mesma liberdade que emancipa também condena ao desamparo. Zygmunt Bauman mostraria, anos mais tarde, que a liquidez da vida moderna transformava a liberdade em carga pesada, em responsabilidade insustentável, em fonte de ansiedade. Filmes Proibidos já encenava esse dilema.
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Do ponto de vista literário, é notável como Bruna Lombardi une lirismo e crítica social. Sua escrita carrega marcas da poesia de Mario Quintana, mas ao mesmo tempo se abre para a dureza da realidade urbana. A narrativa tem passagens de delicadeza lírica, em que sentimentos são descritos como se fossem notas musicais, e outras em que a crueza da vida se impõe, mostrando personagens cínicos, relações quebradas, ilusões desfeitas. Essa alternância é justamente o que dá força ao livro: não se trata de romance de idealização, mas de uma narrativa que assume fissuras, contradições, fragmentos.
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A atualidade do romance nos anos de 2020 a 2025 é particularmente reveladora. Ao reler o livro hoje, percebe-se que ele continua sendo espelho das experiências femininas contemporâneas. Mulheres continuam a enfrentar instabilidade nos laços afetivos, solidão em meio à multidão, excesso de possibilidades que gera paralisia e vazio. O que mudou foi a forma como esses dilemas se manifestam. Se antes a espera se dava em bares e esquinas, hoje ela se dá em aplicativos e redes sociais. Se antes o desaparecimento era físico, hoje é digital, marcado por silêncios virtuais e bloqueios repentinos. Mas, no fundo, o dilema é o mesmo: como sustentar vínculos em um mundo que fragmenta continuamente as relações.

Esse aspecto mostra como Filmes Proibidos não é apenas testemunho de uma época, mas reflexão atemporal. Bruna Lombardi, ao narrar a experiência de uma mulher em São Paulo nos anos oitenta, acabou construindo uma narrativa que ecoa ainda hoje. O livro é, portanto, não apenas memória, mas também crítica, não apenas registro histórico, mas também reflexão filosófica.
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Filmes Proibidos não deve ser lido apenas como um romance individual, mas como um documento cultural e político. A decisão de Bruna Lombardi de publicar essa obra em 1990 tem um peso que vai além da literatura, pois marca uma ruptura com estigmas e preconceitos. No Brasil do final do século XX, ainda vigorava a ideia de que a literatura era território exclusivo de autores que se encaixavam no perfil do intelectual masculino, distante das mídias e da exposição pública. Bruna, ao contrário, vinha do cinema, da televisão e da poesia, e carregava consigo a marca de celebridade. Sua escolha de escrever um romance e expô-lo ao julgamento crítico representava, em si, um desafio político às fronteiras de gênero e de classe estabelecidas pelo campo cultural brasileiro. Esse gesto é parte de sua coragem: desafiar as expectativas e afirmar a liberdade de ser múltipla, recusando a compartimentação de papéis.
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Esse caráter desafiador também aparece na construção da protagonista, uma mulher que não aceita ser objeto passivo das circunstâncias, mas que se expõe como sujeito de desejo, de pensamento e de contradições. Essa construção literária dialoga com tradições feministas internacionais. Há ecos de Simone de Beauvoir, sobretudo na ideia de que a mulher não nasce pronta, mas se torna, em um processo de escolhas, riscos e rupturas. Há também ressonâncias de Marguerite Duras, especialmente em O Amante, na maneira como o desejo é narrado a partir de uma experiência feminina que não se reduz à moral tradicional, mas que se afirma em sua complexidade e ambiguidade. E não se pode esquecer a proximidade com Clarice Lispector, na introspecção lírica, na escrita que se dobra sobre si mesma e busca nomear aquilo que muitas vezes é indizível.
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Comparar Bruna Lombardi com essas autoras não é forçar paralelos, mas reconhecer que ela se insere em uma linhagem de escritoras que ousaram narrar a experiência feminina de forma autônoma, criativa e crítica. Sua originalidade, contudo, está na forma híbrida, em que a herança poética de Mário Quintana se mistura com o experimentalismo narrativo, criando uma obra que não é mera imitação, mas criação singular. A coragem de Bruna está em assumir essa singularidade, sem se curvar à exigência de se encaixar em moldes já reconhecidos.
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Do ponto de vista sociológico, o romance também é importante por revelar as transformações da sociedade brasileira nos anos pós-ditadura. A protagonista vive em uma São Paulo marcada pela redemocratização, pela expansão do consumo cultural e pela precariedade das relações de trabalho e de afeto. Essa experiência urbana se conecta a fenômenos mais amplos da modernidade: a liquidez dos vínculos, a mercantilização da cultura, a individualização crescente das trajetórias de vida. Bruna não formula essas questões de modo explícito, mas sua narrativa deixa entrever, nas entrelinhas, como a vida urbana já carregava as marcas de um processo global que se intensificaria nas décadas seguintes.

Há também uma dimensão política na forma como o livro retrata a subjetividade feminina. Ao mostrar uma mulher emancipada, mas ao mesmo tempo dilacerada pelo vazio, o romance denuncia o peso das estruturas sociais que continuam a aprisionar as mulheres, mesmo quando elas conquistam autonomia. O feminismo que emerge do livro não é panfletário, mas existencial: não se trata de proclamar slogans, mas de mostrar vidas concretas, experiências reais, dilemas íntimos. Essa escolha é poderosa porque revela a verdade da experiência: a emancipação não é linha reta, mas campo de tensões e de contradições.
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Antropologicamente, o romance também funciona como espelho da cultura urbana paulistana da época. A descrição dos ambientes boêmios, dos bares alternativos, das práticas terapêuticas e espirituais compõe um mosaico daquilo que se poderia chamar de “tribos culturais” dos anos oitenta. Esses espaços funcionavam como lugares de socialização, de construção de identidades, de experimentação de estilos de vida. Bruna registra esses rituais com olhar atento, quase etnográfico, mostrando como a vida da protagonista se insere em um campo de práticas coletivas que dão sentido ao cotidiano.
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O tempo presente, entre 2020 e 2025, permite uma leitura renovada dessa dimensão antropológica. Hoje, as tribos urbanas se reconfiguram em torno de redes sociais digitais, aplicativos de encontro, comunidades virtuais. Mas a lógica continua a mesma: grupos de afinidade cultural que oferecem pertencimento, ainda que precário e instável. Assim, reler Filmes Proibidos é perceber como certas práticas mudaram de forma, mas mantiveram o mesmo núcleo de sentido: a busca por identidade, por autenticidade, por conexão em um mundo fragmentado.
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Filosoficamente, o romance também pode ser lido à luz de Michel Foucault. A protagonista é sujeito de sua liberdade, mas ao mesmo tempo efeito das práticas sociais e culturais que a moldam. Seus desejos não são apenas escolhas individuais, mas respostas a um campo de forças que organiza os modos de vida urbanos. O amor que busca, a carreira que constrói, os vínculos que mantém, tudo isso é atravessado por dispositivos de poder e de subjetivação que definem possibilidades e limites. O romance, nesse sentido, mostra como a literatura pode revelar, de forma concreta, aquilo que a filosofia social abstrata teoriza: a interdependência entre liberdade e estrutura, entre agência e condicionamento.
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A coragem de Bruna Lombardi não deve ser entendida apenas como traço pessoal, mas como gesto literário e político. Escrever Filmes Proibidos foi um ato de resistência contra a compartimentação de papéis, contra a exclusão de mulheres do espaço literário
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Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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