Da Vida e Morte: breves crônicas de Rubem Alves

“O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mario Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora… […] Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir.”
Rubem Alves ‘Sobre a morte e o morrer‘. Ilustrada, Folha de S.Paulo, 12.10.2003
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Eis as crônicas:
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MINHA VIDA…
… se divide em três fases. Na primeira, meu mundo era do tamanho do universo e era habitado por deuses, verdades e absolutos. Na segunda fase meu mundo encolheu, ficou mais modesto e passou a ser habitado por heróis revolucionários que portavam armas e cantavam canções de transformar o mundo. Na terceira fase, mortos os deuses, mortos os heróis, mortas as verdades e os absolutos, meu mundo se encolheu ainda mais e chegou não à sua verdade final mas à sua beleza final: ficou belo e efêmero como uma jabuticabeira florida.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025
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COISINHAS DE MÁRIO QUINTANA
“A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim…”
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Seu Glicínio, porteiro, acredita que rato, depois de velho, vira morcego. É uma crença que ele traz da sua infância. Não o desiludas com teu vão saber, respeita-lhe os queridos enganos. Nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou oitenta anos!
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Sempre fui metafísico. Só penso na morte, em Deus e em como passar uma velhice confortável.
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Há ruídos que não se ouvem mais; o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada; os apitos dos guardas-noturnos; os barbeiros que faziam cantar o ar com suas tesouras; a matraca do vendedor de cartuchos; a gaitinha do afiador de facas. Todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio. E hoje o que mais se precisa é de silêncios que interrompam o ruído…
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025

DOR E ESPERANÇA
Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025
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MILAGRE DA VIDA
Não haverá parto se a semente não for plantada, muito tempo antes… Não haverá borboletas se a vida não passar.
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Toda vida é sagrada, porque tudo o que vive participa de Deus. E se até mesmo o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é um pulsar da divindade, não teríamos nós, com muito mais razão, de ter respeito igual pelos nossos inimigos?
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“Amarás a mais insignificante das criaturas como a ti mesmo. Quem não fizer isto jamais verá Deus face a face.”
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Reverência pela vida: tudo o que vive é expressão de uma harmonia universal, revelação da divindade, gotas de água de um mesmo mar. As coisas vivas não existem só para nós, elas vivem também para si mesmas e para Deus. E também elas amam a doçura da vida tanto quanto nós.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025

MORTE
A vida, para ser, leva tempo, demanda paciência, exige cuidados, há que se esperar. Mas a morte vem súbita e definitiva. Uma árvore leva anos a crescer. O machado a abate em poucos minutos.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025
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O QUE REALMENTE IMPORTA
A vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me contar, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira. Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo, mosca agitada na teia das medíocres, mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso. Os não essenciais se despregam do corpo, como escamas inúteis. A Morte me informa sobre o que realmente importa.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025

CHEGADAS E DESPEDIDAS
A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia, que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe. A madrugada é alegre, luzes e cores que chegam. O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão. Madrugada e crepúsculo, alegria e tristeza, chegada e despedida: tudo é parte da vida, tudo precisa ser cuidado. A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada de quem a gente ama. É preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama. Noite e dia, silêncio e música, repouso e movimento, riso e choro, calor e frio, sol e chuva, abraço e separação, chegada e partida: são os opostos pulsantes que dão vida à vida. Chegada e despedida, vida e morte – não são inimigas; são irmãs…. Uma canção não existiria sem a palavra que a encerra. Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma permanente despedida…
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025
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DOR MAIOR
Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio é uma dor bruta, sem forma ou cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente. Com o passar do tempo, essa dor bruta se transforma. Passa a ser muitas, cada uma com um rosto diferente, falando coisas diferentes. Há aquela dor que é a pura tristeza pela ausência. Ela só chora e diz: “Nunca mais…”. Outra é aquela dor que se lembra das coisas que foram feitas e não deveriam ter sido feitas, coisas que não foram feitas e deveriam ter sido feitas: a palavra não dita, o gesto que não foi feito. É a dor da saudade misturada com a tristeza da culpa. E há outra dor: a tristeza de que o filho não tenha completado o que começara.
Rubem Alves, livro “Do universo à jabuticaba“. Paidós, 2025

“Digo-lhes: é preciso ter caos dentro de vocês mesmos a fim de dar à luz uma estrela dançante.” (Nietzsche) / In: livro ‘Do universo à jabuticaba‘. Rubem Alves. Editora Planeta do Brasil, 2015.

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SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Da Vida e Morte: breves crônicas de Rubem Alves
É NO AQUI E NO AGORA QUE A NOSSA VIDA ESTÁ ACONTECENDO.
Em Do universo à jabuticaba , um clássico do filósofo, escritor, educador e psicanalista Rubem Alves, somos convocados a saborear o mundo como quem prova uma jabuticaba: com tempo, curiosidade e entrega.
Compostos de fragmentos que ajuntam os mais diferentes tipos de pensamento, os textos formam pequenas janelas para temas imensos ― a alma, a fé, o amor, o tempo, a música, a morte e muito mais ―, tratados com leveza, beleza e profundidade, marca consagrada do autor.
Ler Rubem Alves é como conversar com um velho e sábio amigo – desses que sabem ouvir o silêncio e falar direto ao coração –, e, a cada página, vemos perguntas difíceis serem transformadas em reflexões delicadas, que lançam luz sobre o cotidiano com uma linguagem simples e encantadora.
Um livro, sem dúvidas, para todas as horas: quando se está feliz ou triste, quando se busca sentido ou apenas companhia. Da teologia à literatura, da infância à velhice, as palavras abraçam o leitor e despertam pensamentos adormecidos naqueles que desejam viver com mais alma, mais perguntas e mais poesia.

FICHA TÉCNICA
Título: Do universo à jabuticaba
Páginas: 272
Formato: 16 x 1.5 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 28/07/2025 (4ª edição)
ISBN: 978-8542236972
Selo: Paidós
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