©Vladimir Kush

As casas são navios que, enquanto mergulhamos no sono, levantam âncora para a travessia da noite. A imagem é de uma novela de André Gide, mas qualquer um pode recriá-la na solidão do quarto. Mesmo antes de cerrarmos os olhos, a casa navega. Sentimos a flutuação silenciosa, e nos deixamos ir ao embalo desse deslocamento surdo, sobre águas oleosas e invisíveis. No dia seguinte, a vida está no mesmo lugar.
Tudo iria bem, não fosse esse sopro que faz estremecer levemente um galho de árvore e deposita uma primeira folha sobre o nosso rosto horizontal. Vem com ela um cheiro (ou sabor) acre de poeira, pois nessa fase da desintegração da consciência, paladar e olfato já se emaranharam numa percepção confusa, e não sabemos classificar a sensação. De qualquer modo, não é uma brisa tímida, que se detém um instante e se anula; é o vento organizado, que pretende conduzir também as árvores para o cruzeiro noturno, quando é sabido que árvores devem permanecer em vigília. Os troncos recusam, e ele, de mau, os desfolha, e pela janela aberta um pouco de árvore e de luta vem depositar-se na cama.
O corpo a corpo com as amendoeiras se ativa, e temos de fechar a janela, para que o tropel do combate não se instale em nosso peito. Agora a escuridão nos defende, mas pela frincha das venezianas começa a filtrar-se um rumor diverso, o vento é ao mesmo tempo irado e triste, silva mais agudo, e na madeira e no ar se esboçam ranhuras de pânico.
Não adiantou a providência, pois nesse momento, lá fora, são portas e janelas que estalam em várias direções. Também as casas foram atacadas, casas desprevenidas ou indefesas, que ainda não acabaram de ser construídas, e navegam sem equipagem. Os edifícios em formação tornam-se laboratório de ecos e fábrica de gritos, com esquadrias em alvoroço. Há uma porta bêbada, no centro da noite, batendo mais espetacularmente contra o marco, empenhada em abafar, sozinha, a bulha do vento, mas os pelotões agressores investem numa salva de injúrias e arrancam-na das dobradiças, num último estrondo.
E é o saque. A lingerie dos terraços vem para a rua, entre vasos e ramos de trepadeira, com outros objetos disparatados que foi possível subtrair aos interiores mal protegidos. Coisas cirandam no espaço, chocam-se contra postes, e, como o vento sabe furtar mas não sabe recolher, acabam dispersas no chão, despojos largados pelo vencido como pelo vencedor.
É a natureza roendo os bens do homem, divertindo-se em assustá-lo no escuro, convocando velhos medos, modelando fantasmas novos. Deitamo-nos tão seguros de nossa estabilidade em um mundo a que presidiam a lei e a técnica, nutríamos tamanha confiança nos materiais de construção e na ordem dos elementos, e bastou que certa massa de ar se deslocasse de maneira abrupta para que nossa calma, nossa segurança e mesmo nossa vida se vissem ameaçadas por um obscuro e implacável inimigo, a que nos submetemos. Porque não há outra coisa a fazer senão esperar que o furacão amaine sua cólera, depois de derrubar, aqui, a igreja evangélica Assembleia de Deus; mais adiante, a lona do circo Apolo, ferindo a uns, matando a outros, assustando todos. Perdemos o sono e o sentimento da nossa orgulhosa integração na cidade, pois toda a cidade curva a espinha sob essa visita errante, que brinca de assombração, de desabamento e de morte, e não podemos pensar em serviços públicos de proteção, já não somos donos da terra, mas apenas seres acuados no fundo do quarto de dormir, sem possibilidade de evasão. E há no vento, mais do que a ameaça que talvez não se cumpra, uma zombaria ruidosa, ávida por desmoralizar-nos.
Mas a risada e o furor se fatigam, e, aos poucos, o vento se contrai e retira-se. A grande frota silenciosa das casas retoma sua navegação, entre os restos de noite, e o sono volta a estender sobre nós, piedosamente, o seu feltro.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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