©Kestutis Kasparavicius (detalhe)

O amigo mostra-me fotografias de granja e diz: Escreva sobre ovos de pato.
Com prazer. Ensina um manual que, em matéria de reprodução, doze mil espécies de aves, sem discrepância, optaram pela solução de botar um ovo, elaborado da maneira mais simples. Ao pato se concedeu apenas um ovo maior que o da galinha. Botado, a pata pôs-se a chocá-lo.
Se abrirmos no ovo uma janelinha, e a recobrirmos com uma lamela de vidro, que resguarde a temperatura interna, poderemos acompanhar de perto os notáveis acontecimentos da incubação. Mas passemos. A intimidade do ovo não constitui mistério para naturalistas; para nós, leigos, é preferível devassá-la através de imagens, na grande universidade popular que é o cinema. O aspecto exterior denota impassibilidade. Mas, ao fim de semanas, a periferia apresenta sinais inquietantes. Começa a trincar-se à maneira de um muro de penitenciária, atacado por dentro. Serve de picareta um dentinho calcário chamado “diamante”, que a natureza incluiu na parte superior do bico de certas espécies. Sem esse utensílio, a prisão não seria demolida, e não haveria regatas tranquilas de patos no córrego das fazendas, nem pato assado com maçã à mesa de domingo.
Nascer não é fácil, mesmo quando os pais, como os anatídeos, se lembram de oferecer facilidades recusadas à dolorida raça dos mamíferos. A casca do ovo é a primeira luta biológica, e a vida do pato é cheia de doenças que vão da diarreia à apoplexia. Por isso mesmo, hesita em vir ao mundo. Nascerá ganso? marreco? pato? cisne? Este último é, no fundo, um pato parnasiano, com o pescoço em alexandrino. Por motivo estético, ou porque sua carne não apeteça, conquistou a consideração humana, e pode deslizar majestoso no lago do Itamaraty; quanto ao pato, se lhe der igual veneta, será capturado pelos vigilantes da casa e, por ordem do chefe do cerimonial, assado na panela do ministro.
Mas a resolução foi tomada. Um pequeno ser dispõe-se a vir ao mundo. O que se percebe através da fenda aberta no ovo é uma fisionomia ambígua, tão indeterminada ainda que mais parece a cara grotesca de um velho, com imenso nariz e a calva camuflada pelos cabelos remanescentes. Já a fase seguinte é bela. A cabeça desaparece sob o palpitar de asas aflitas, que tentam criar um ritmo. Tudo está molhado pela seiva da vida, e sente-se a presença desse maravilhoso poder de voo, concedido até à espécie rasante dos patos.
Meio ovo tombou em fragmentos. A operação continua, mas o bichinho, cansado, deixa pender o busto para fora. A cabeça lembra a forma nobre e melancólica de um equino — pelo menos de um equino convertido em figura de proa de barco do São Francisco. A plumagem assume aparência vegetal, no emaranhamento úmido desse primeiro contato com o mundo exterior.
O resto da carapaça não precisa ser destruído. O animal dispõe de recursos para safar-se sem trabalho maior. Ei-lo integralmente nascido, mas tão exausto que a cabeça pende e se apoia no bico, tombado verticalmente. Pobre coisa caída e suja, com a neutralidade de um morto.

Bastou uma hora para que o sol secasse e esticasse as penas do patinho. Porque se trata indubitavelmente de um patinho branco, vivo, tão à vontade no mundo de Deus, que nada recorda a rude operação.
Mais uma hora, e algo divertido aconteceu: surpreende-se o sorriso do pato para a vida, nessa manhã inaugural de águas, plantas e insetos comestíveis. Dizem que o homem é o único animal que ri; o homem também ri bastante depois de um humilde pato, que o faz ao nascer. Sorriso civilizado de ave que já não cultiva hábitos migratórios ou a natural reserva do pato selvagem. Seu portador está orgulhoso de cumprir o rito imemorial. Uma infinidade de espécies, na ordem dos anseriformes, nasceu antes dele, e depois continuará nascendo. E a todas o patinho resume em seu sorriso ingênuo de quem não prevê os lamentáveis acontecimentos futuros, nem mesmo a utilização do seu nome para exprimir a exagerada inocência de espírito.
Observe o leitor, no sítio, a graça desse sorriso primeiro. E em recompensa à lição de boa vontade, vença por duas semanas a tentação sádica de comer o seu Canard à la Rouennaise, cuja receita assim começa: “Estrangule-se um patinho novo, ou enfie-se-lhe uma agulha comprida na cabeça; depene-se ainda quente, e corte-se o pescoço, depois a ponta das asas…”.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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