©Marion Roso

Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando na cantina. Zuzéé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro mata-ratos. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. Entao, assim contam os que viram, ele vomitou um corvo vivo. O pássaro saiu inteiro das entranhas dele. Estivera tanto tempo lá dentro que já sabia falar. Embrulhado nos cuspes, ao princípio não parecia. A gente rodou volta do Zuzéé, espreitando o pássaro caído da sua tosse. O bicho sacudiu os ranhos, levantou o bico e, para espanto geral, disse as palavras. Sem boa pronúncia, mas com convicção. Os presentes perguntaram:
— Está falar, o gajo?
Riram-se, alguns. Mas a voz das mulheres interrompeu-lhes:
— Não riam-se.
Zuzé Paraza aconselhou:
— Isto não é um pássaro qualquer. É bom ter respeito.
— Ei, Zuzé. Traduza lá o discurso dele. Você deve saber o dialecto do corvo.
— Com certeza, sei. Mas agora não, agora não quero traduzir. — Já centro das atenoes, acrescentou: — Esse corvo é dono de muitos segredos.
E arrumando a ave no ombro esquerdo, retirou-se. Atrás ficaram os comentários. Agora já entendiam os ataques de tosse do pintor. Era um pedaço de céu que estava-lhe dentro. Ou talvez eram as penas a comicharem-lhe a garganta. As dúvidas somavam mais que as respostas.
— Um homem pode parir nos pulmões?
— Dar parto um pássaro? Só se o velho namorava as corvas lá nas árvores.
— Vão ver que a alma da mulher falecida que transferiu no viúvo.
No dia seguinte, Zuzé confirmou esta última versão. O corvo vinha lá da fronteira da vida, ninhara nos seus interiores e escolhera o momento público da sua aparição.
Os outros que aproveitassem obter informações dos defuntos, situação e paradeiro dos antepassados. O corvo, através da sua tradução, responderia às perguntas. Os pedidos logo acorreram, numerosos. Zuzé já não tinha quarto, era gabinete. Não dava conversa, eram consultas. Prestava favores, adiava as datas, demorava atendimentos. Pagava-se com tabela: morridos no ano corrente, cinquenta escudos; comunicação com anos transactos, cento e cinquenta; mortos fora de prazo, duzentos e cinquenta.
E aqui entra na histria Dona Candida, mulata de volumosa bondade, mulher sem inimigo. Recém-viúva, já ex-viva. Casou rápido segunda vez, desforrando os destemperos da ausência. Quando recasou, escolheu Sulemane Amade, comerciante indiano da povoação. Não tinha passado tempo desde que morrera Evaristo Muchanga, seu primeiro marido.
Mas Candida não podia guardar a vida dela. Seu corpo ainda estava para ser mexido, podia até ser me. Verdade é que, nesse intervalo, nunca foi muito viva. Era uma solitária de acidente, não de crença. Nunca abrandou de ser mulher.
— Casei. E depois? Preciso explicar o quê?
E nestas palavras, Dona Candida começou sua queixa para Zuzé Paraza. Quando se soube solicitado, o adivinho até adiantou a data da consulta. Nunca tinha chegado uma mulata. Os préstimos de Zuzé nunca tinham sido chamados tão acima.
— Não sou qualquer, Sr. Paraza. Como é que me sucede uma coisa dessas?
A gorda senhora explicou suas aflições: o segundo casamento decorria sem demais. Até que o novo marido, o Sulemane, passou a sofrer de estranhos ataques. Aconteciam à noite, nos momentos em que preparavam namoros. Ela tirava o soutiã, o Sulemane chegava-se, pesado. Era então que aparecia o feitiço: grunhidos em lugar da fala, babas nos lábios, vesgueira nos olhos. Sulemane, confessava ela, o meu Sulemane salta da cama e assim, todo despido, gatinha, fareja, esfrega no chão e, por fim, focinha no tapete. Depois, todo suado, o coitadinho pede água, acaba um garrafão. Não fica logo-logo o mesmo: demora a recuperar. Gagueja, só ouve do direito e adormece de olhos abertos. A noite inteira, aqueles olhos tortos a mentir que olham, um horror. Ai, Sr. Zuzé, me salve. Sofro de mais, até tenho dúvidas de Deus. Isto é obra de Evaristo, maldição dele. Éramos felizes eu e Sulemane. Agora, nós ambos já somos três. Meu Deus, por que não esperei? Por que ele não me deixa?
Zuzé Paraza cruzou as mãos, acariciou o corvo. Tinha suas suspeitas: Evaristo era de raça negra, natural da região. Dona Candida, com certeza não cumprira as cerimónias da tradição para afastar a morte do primeiro marido. Engano seu, ela cumprira.
— Cerimónias comptetas?
— Claro, Sr. Paraza.
— Mas como? A senhora assim mulata da sua pele, quase branca da sua alma?
— Ele era preto, o senhor sabe. Pedido foi da família dele, eu segui.
Paraza, intrigado, parece ainda duvidar.
— Matou o cabrito?
— Matei
— O bicho gritou enquanto a senhora cantava?
— Gritou, sim.
— E que mais, Dona Candida?
— Fui ao rio lavar-me da morte dele. Levaram-me as vivas, banharam comigo. Tiraram um vidro e cortaram-me aqui, nas virilhas. Disseram que era ali que o meu marido dormia. Coitadas, se soubessem onde o Evaristo dormia…
— E o sangue saiu bem?
— Hemorragia completa. As vivas viram.
Pelo sangue disseram que me entendia bem com ele. Não desmenti, preferi assim.
Zuzé Paraza meditou, teatroso. Depois, soltou o corvo. O bicho esvoaçou e pousou no ombro amplo da Candida. Ela encolheu as carnes, arrepiada das cócegas. Espreitou o animal, desconfiada. Olhado assim, o corvo era feio por de mais. Quem quiser apreciar a beleza de um pássaro não pode olhar as patas. Os pés das aves guardam o seu passado escamoso, herança dos rastejantes lagartos.
O corvo rodou no poleiro redondo da mulata.
— Desculpe, Sr. Zuzé: ele não me vai cagar em cima?
— Não fale, Dona Candida. O bicho precisa concentrar.
Por fim, o pássaro pronunciou-se. Zuzé escutava de olhos fechados, ocupado no esforo da tradução.
— Que foi que disse ele?
— Não foi o pássaro que falou. Foi o Varisto.
— Evaristo?— desconfiou ela. — Com aquela voz?
— Falou através do bico, não esqueça.
A gorda ficou séria, ganhando créditos.
— Sr. Zuzé aproveite a ligação para lhe pedir… peça-lhe…
Arrependendo-se, Dona Candida desiste do intermediário e começa ela de berrar no corvo poleirado no seu ombro:
— Evaristo, me deixa em paz. Faça-me o favor, deixa-me sozinha, sossegada na minha vida.
O pássaro, incomodado com a gritaria, saltou do poiso. Paraza impôs a ordem:
— Dona Candida não vale a pena agitar. Viu? O pássaro sustou.
A consultante, esgotada, chorou.
— A senhora escutou o pedido do falecido?
Com a cabeça, ela negou. Ouvira só o corvo, igual aos demais, desses que saltitam nos coqueiros.
— O falecido, Dona Candida, está pedir uma mala cheia com roupa dele, dessa que ele costumava usar.
— Roupa dele? Já não tenho. Eu não disse que pratiquei essas vossas cerimónias? Rasguei, esburaquei a roupa, quando ele morreu. Foi assim que me mandaram. Disseram que devia fazer buracos para a roupa soltar o último suspiro. Sim, eu sei: se fosse agora não cortava nada. Aproveitava tudo. Mas naquele tempo, Sr. Paraza…
— É uma maçada, Dona Candida. O defunto está mesmo precisado. Nem imagina os frios que dão lá nos mortos.
A mulata ficou parada, imaginando Evaristo tremendo, sem amparo dos tecidos. Apesar das maldades que ele causara, não merecia tal vingança. Remediou os ditos: havia de roubar as roupas do Sulemane e trazer tudo num embrulho escondido.
— O Sutemane não pode saber disto. Meu Deus, se ele desconfia!
— Fica descansada, Dona Candida. Ninguém vai saber. Só eu e o corvo.
E, no último instante, antes de sair, a gorda:
— Como será que o Evaristo pode aceitar, naquele ciúme que levou para o outro mundo, como é que pode aceitar a roupa do meu novo marido?
— Aceita. Roupas são roupas. O frio manda mais que ciúme.
— Tem a certeza, Sr. Paraza?
— Experiência que tenho é essa. Os mortos ficam friorentos porque são ventados e chuviscados. Daí que ganham inveja da quentura dos vivos. Vai ver, Dona Candida, que essa roupa vai acalmar as vinganças do Evaristo.
E a gorda mulata confessou o seu receio, nem bem com os mortos nem bem com os vivos:
— O meu medo, agora, é o Sulemane. Ele mata-me, a mim e ao senhor.
Zuzé Paraza levantou-se, confiante. Colocou a mão no braço da cliente e acalmou-a:
— Estive assim pensageiro, Dona Candida. E encontrei a solução. A senhora que vai descobrir o roubo e comunicar o seu marido. Pronto, foi um ladrão qualquer, há tantos deles aqui.
Uma semana depois, chegou uma mala cheiinha. Calas, camisas, cuecas, gravatas, tudo. Uma fortuna. Zuzé começou de experimentar o fato castanho. Estava largo, medida era de um comerciante, homem de esperar sentado, comer bem. Enquanto ele, um pintor, puxava tamanho menor. Era tão magro que nem pulgas nem piolhos lhe escolhiam.
Procurou na mala uma gravata a condizer. Havia mais de dez. Junto com cuecas de perna comprida, pegas sem remendos. Sulemane devia ter ficado descuecado. O seu guarda-fato era agora um guarda-nada.
Vestido das aldrabices da sua invenção, Zuzé Paraza puxou a garrafa de xicadjú. Para festejar, somou mais de dez copos. Foi então que o álcool começou a aldrabar a esperteza dele, também. Havia uma voz que teimava de dentro:
— Essas roupas são minhas próprias, não foi ninguém que deu, não vieram de nenhuma parte. São minhas!
E assim, convencido que era dono dos enfeites, decidiu sair, gingar fora. Parou na cantina, mostrou as vaidades, casacado, gravatado. As vozes em volta encheram-se de invejas:
— Aquela roupa não é dele. Parece já vi um algum com ela.
E os presentes, lembrando, chegaram ao dono: eram de Sulemane Amade. Exactamente, eram. Como foram parar aquelas roupas no Zuzé, sacana, telefonista das almas? Roubou, o gajo. Esse corveiro entrou na casa do Sulemane. E partiram a avisar o indiano.
Desconhecendo as manobras, Zuzé continuou exibindo suas despertenças. O corvo acompanhava-o, grasnando-lhe em cima. Ele, desendireitando-se, fazia o coro.
Foi então que, no cruzamento da cantina, surgiu Sulemane, espumando fúrias. Avançou no pintor e apertou-lhe o pescoço. Zuzé balançava dentro do fato largo.
— Onde é que tiraste este fato, ladrão?
O pintor queria explicar mas desconseguia. Em volta, o corvo saltitava, tentando pousar-lhe na cabeça instável. Quando o indiano aliviou, Zuzé murmurou:
— Sulemane, não me mate. Não roubei. Esta roupa fui dado.
O indiano não abandonara violências. Mudara de táctica: do pescoço para pontapés. Zuzé pulava em concorrência com o corvo.
— Quem te deu a minha roupa, grande aldrabão?
— Pára de me dar pontapés! Vou explicar.
Zuzé Paraza aproveitou uma trégua e atirou, certeiro:
— Foi a tua mulher, Sulemane. Foi Dona Candida que me deu essa roupa.
— Candida deu-te? Mentira, sacana.
Choveram murros, pontapés, bofetadas. A assistência, em volta, aplaudia.
— Fala verdade, Paraza. Não me vergonhes com essa história da minha mulher.
Mas o velho pintor não falava, demasiado ocupado em se desviar das porradas. Uma dessas bofetadas que voava na direcção do nariz do Paraza foi embater no pássaro.
Arremessado, o corvo volteou no chão, asa partida, esper-neando os finais. Todos pararam volta da agonia da ave. As vozes aflitas:
— Sulemane se você mataste o corvo, estás mal com a sua vida.
— Estou mal, o caraças! Quem é que acredita num corvo a falar com espíritos?
Zuzé a sangrar do nariz respondeu, com gravidade:
— Se você num acredita, deixa. Mas esse corvo que deste porrada vai-lhe trazer desgraça.
Má lembrança do Zuzé Paraza. O indiano recomeçou a pancadaria. Duas porradas foram dadas, três falharam. O pintor diminua resistência. O álcool no seu sangue atrapalhava-lhe os desvios. Até que um soco derruba Zuzé. Desamparado, cai em cima do corvo. No meio da poeira Zuzé Paraza retira o pássaro morto debaixo de si. Ergue o corvo mágico e aponta-o para o indiano.
— Mataste o pássaro, Sulemane! Estás lixado. Vais ver que o que te vai acontecer! Há-des gatinhar como um porco!
Então, deu-se o incrível. Sulemane começa as tremuras, grunhidos, roncos, babas e espuma. Cai sobre os joelhos, rasteja, revolve-se nas areias. O povo aterrado foge: a maldição do Zuzé ficara verdade. Sulemane, convulso, parece uma galinha a quem se cortou a cabeça. Por fim, pára, cansado dos demónios que o sacudiram. Zuzé sabe que a seguir ele vai sentir sede. Aproveita e ordena:
— Vais ficar com sede, seu porco-espinho! Vais chorar por água!
Provas do poder de Zuzé estavam ali: o Sulemane joelhado suplicando água, chorando para que matassem a sede que o matava.
A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bruxezas, realmente. No dia seguinte, todos levan-taram cedo. Correram a casa de Zuzé Paraza. Todos queriam ver o pintor, todos queriam-lhe pedir favor, encomendar felicidades.
Quando chegaram, encontraram a casa vazia. Zuzé Paraza tinha partido. Procuram no horizonte vestígios do adivinho. Mas os olhares morreram nos capins do longe onde os grilos se calam. Revistaram a casa abandonada. O velho tinha levado todas as coisas. Ficara uma gaiola pendurada no tecto. Baloiava, viva, hóspede do silncio. Com o medo crescendo dentro, os visitantes saíram para as traseiras. Foi então que, no pátio, viram o sinal da maldição: um pássaro morto, desenterrado. Sobre a vida quieta soprava uma brisa que, aos poucos, arrancava e lançava no ar as penas magras do corvo falador.
Aceitando o aviso, os habitantes começaram a abandonar a povoação. Saíram em grupos uns, sozinhos outros, e por muitos dias vaguearam errantes como as penas que o vento desmanchava na distância.

— Mia Couto, no livro “Noites anoitecidas”. Lisboa: Editorial Caminho,1987.

Saiba mais sobre Mia Couto:
Mia Couto – o afinador de silêncios (biografia)
Mia Couto – fortuna crítica
Mia Couto – poemas

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