Cemitério do Parque Tarumã, em Manaus, onde foram enterradas vítimas do massacre em presídio. foto Raphael Alves - AFP/Getty

Tim Vickery: Quem aplaude massacre de presos já teve o senso ético decapitado, o coração arrancado

Algumas semanas atrás minha mulher – carioca da gema – foi assaltada perto de casa.

Tive uma visão depois. Na minha imaginação, a gente estava caminhando para o metrô quando ela apontou o assaltante na rua. Peguei uma barra de ferro, me aproximei do sujeito por trás e bati nele com todas as minhas forças, tanto que seus miolos derramavam no meio da rua.

Em 2013, fui assaltado em Salvador por um jovem grosseirão com uma pistola e uma bicicleta. Logo depois, me peguei sonhando acordado com uma visão parecida: o vi pedalando rápido, o empurrei para o chão, aproveitei sua confusão para pegar a pistola e atirei várias vezes no rosto, comemorando que sua mãe ia ter de enterrá-lo num caixão fechado.

Achar esses sentimentos ali dentro é preocupante, repugnante, vergonhoso – mas desconfio que nas grandes cidades brasileiras virou algo normal. Uma sociedade brutal acaba brutalizando geral.

As provas disso são fornecidas pelos acontecimentos recentes nas cadeias – e a reação fora delas. Muitos – até um secretário do governo federal – comemoraram as mortes causadas pelo reinado de barbárie em Manaus e Boa Vista.

Se alguns prisioneiros morreram de uma forma terrível, uma coisa parecida já aconteceu, de maneira simbólica, com quem enxerga isso como um acontecimento para ser aplaudido. Já tiveram o seu senso de ética decapitado e seu coração arrancado.

Tim Vickery – foto: Eduardo Martino

A sociedade nas grandes cidades, em todos os seus níveis sociais, anda traumatizada pela questão da violência urbana. Não é para menos: os assaltantes são altamente nocivos para o tecido social, espalhando medo e esvaziando as ruas.

Claro que podemos botar a culpa em cima de um sistema que reproduz pobreza, que distribui tão mal renda e oportunidades. Mas, no final das contas, cada um é responsável por suas ações. Tem mesmo que condenar e punir. Mas sem perder a humanidade.

É óbvio que há medidas capazes de melhorar a situação nas cadeias – de uma política mais esclarecida para o assunto de drogas até as penas alternativas para crimes sem violência.

Mas, de qualquer maneira, os esforços para civilizar as condições dos presos sempre vão bater contra uma pergunta pertinente e pesada: como o Estado vai reabilitar os prisioneiros quando faz tão mal a função de habilitar os cidadãos?

Não há resposta fácil – especialmente numa época de vacas magras. Tirar recursos da saúde, educação, obras de infraestrutura para investir no sujeito que te assaltou? Politicamente, isso sempre vai ser polêmico.

Estamos lidando aqui com a sujeira da realidade. Não há utopias nesse assunto – mas tem várias distopias. Porque sem uma abordagem mais humana, a alternativa se trata de terror permanente e piorando.

Uma das grandes lições da historia é a seguinte: a partir do momento em que a opção por uma linha autoritária e desumana é feita, a tendência é que as políticas fiquem cada vez mais autoritárias e mais desumanas.

O guia de exemplo: os nazistas não deram início à ideia do Holocausto.

Durante um tempo, trabalhavam com outros planos para os judeus da Europa, como transportá-los para Madagascar. No andar dos anos, de uma forma incremental, as preferências e as possibilidades de medidas mais extremas foram crescendo, até que se chegou num dos maiores crimes na história de nossa espécie – a matança em escala e com métodos industriais de milhões de pessoas.

E uma advertência terrível do que somos capazes, do que pode acontecer se perdemos os valores básicos de civilização.

Aquela voz ali dentro, que quer vingança, sempre vai existir. Às vezes, um desabafo verbal é necessário. Mas nunca deveria guiar as nossas ações como indivíduos e, principalmente, como sociedade.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

5 problemas crônicos das prisões brasileiras ─ e como estão sendo solucionados ao redor do mundo

Fonte: BBC Brasil

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