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Tarik
Escrito por Pedra

Tarik era imigrante marroquino na cidade espanhola de Algeciras. Com 36 anos, ele deixou a mãe doente e tetraplégica sob os cuidados de uma vizinha em sua pobre aldeia e veio para a Europa num bote com outros 40 marroquinos, numa atitude de desespero e luta. Como sempre cuidara da mãe, por ter sido o irmão mais novo de uma família de cinco filhos, ele nunca se casou. Sua vida era trabalhar em serviços pesados para poder ganhar alguma coisa que pagasse o pão e ainda fazer todo o trabalho doméstico, que a mãe, acamada, não podia fazer.

Dos irmãos, ele só tinha notícias de dois. Os outros dois sumiram no mundo em busca de uma vida melhor e aos poucos foram perdendo contato. Ninguém sabia onde eles moravam e nem ao menos se ainda viviam, se estavam bem, se tinham se casado… Os dois que ainda de vez em quando vinham à aldeia visitar a mãe ajudavam com dinheiro e Tarik podia assim, com muitas dificuldades, sobreviver e cuidar de sua mãe. O pai deles morrera há muito tempo, quando Tarik ainda era um bebê. Os tios e primos também eram pobres e não podiam ajudar com muita coisa.

Não havia como contar com serviços médicos de qualidade. Tarik, para levar sua mãe a algum hospital, tinha de alugar uma carroça para pô-la deitada nela e percorrer uma distância de vinte quilômetros até uma cidadezinha em que podiam pegar um ônibus velho e quase sem condições de uso para uma cidade maior, onde as filas para o atendimento hospitalar demandavam que eles dormissem na calçada, para poderem pegar uma senha. Assim, ele só levava a mãe quando ela se queixava de alguma dor ou mal estar novos. Até porque, era difícil continuar os tratamentos e os remédios eram caros demais.

No mais, a pobre velha nunca se queixava. O filho via em seu rosto seu sofrimento, mas ao indagá-la sobre como estava passando, ela sempre respondia que tudo estava bem e que Deus era Grande e Misericordioso. Isso cortava o coração de Tarik, que sabia que a despeito de sua força moral, o corpo decrépito padecia, mas o que fazer?!

Os anos se passaram sem que muitas novidades viessem a ocorrer. Uma vez, Tarik quase se casou, mas a moça desistiu. Ele se convenceu de que este rompimento se deu por influência da família dela e que o motivo foi a doença de sua mãe e o medo das dificuldades que ela poderia causar. Valente, ele tentou não demonstrar fraqueza, mas quando ia ao campo trabalhar a terra, longe de todos, chorava muito. Sozinho, sob um Sol escaldante, Tarik deitava de bruços na terra e chorava até não poder mais. Ficou assim alguns meses, depois desistiu de se casar e tentou sempre resistir à tentação de se envolver com mulheres.

A mulher sentia-se um peso para seu filho e rogava a Deus que a levasse logo. Ele, por outro lado, encarava sua vida com uma missão duplamente sagrada: sagrada porque o amor à sua mãe fazia dela uma pessoa quase divinizada para Tarik, que muito admirava sua coragem diante do sofrimento e sua força, e sagrada pelo dever divino de amparar os pais, que a religião exigia. No entanto, isso não impediu que o filho viesse muitas vezes, durantes estes anos, a se revoltar contra a vida e contra Deus. Ele nunca chegou a reclamar para sua mãe das dificuldades que ela lhe causava, mas ela percebia que ele sofria com isso, pois em alguns dias ela o via triste e em outros ríspido e bravo.

Isso não impediu que os dois, de algum modo, tivesse momentos de felicidade, sobretudo quando a doença abrandava um pouco e a pobre velha sentia-se mais animada. Então, eles conversavam o tempo todo em que Tarik estava em casa e ele até deixava de ir à roça, adiantando o serviço de casa, para poder passar mais tempo com a mãe. Conversavam sobre tudo e viviam a sorrir, nestes dias. Alguns diziam, admirados, que melhor filho que Tarik não podia haver. Sobretudo, por este carinho e companheirismo. Ele não cuidava apenas das necessidades físicas de sua mãe, mas também da sua necessidade de afeto e convívio humano. Afinal, ele sempre podia sair e ir onde quisesse, encontrar outras pessoas e conversar. Ela, coitada, só ficava na cama o dia todo, sem ninguém para conversar e sem nada para a distrair.

Outros momentos de alegria eram quando Tarik conseguia arrumar algum tipo de pão ou legume que a mãe gostasse de comer; às vezes, muito raramente, até carne. Quando chegava a primavera e algumas flores brotavam na terra árida e desértica, Tarik as colhia e levava à sua mãe. Alguns zombavam, dizendo que eles pareciam até namorados. Outros diziam o mesmo, mas admirados da solicitude e do carinho de um homem tão bom como aquele.

Pena os irmãos pouco ajudarem. Também, mal tinham condição de fazê-lo. Às vezes, Tarik pensava sozinho, durante o duro labor da terra, na ingratidão dos dois irmãos que sumiram no mundo sem nem ao menos dar notícias, mas logo se censurava por isso. Só a Deus cabe julgar. E ele preferia pensar que eles estavam mortos. Com o tempo, as sombras se desfaziam em sua mente.

Tudo aconteceu assim, até que a doença da pobre velha se agravou; já não era mais possível passar sem os remédios e a mãe, que sempre fora tão forte, chorava diante de seu filho, dizendo a ele que não suportava mais tanta dor e uma vida tão sofrida. Isso foi demais para o pobre Tarik e ele decidiu agir. Chamou os irmãos e disse que era preciso buscar os outros dois, pois precisavam de dinheiro para os remédios da mãe. Tarik tinha a esperança de encontrá-los por meio de uma tia que vivia na aldeia vizinha. Ela poderia saber onde um deles estaria, pois seu filho trabalhara com ele. Este primo morava longe, mas Tarik foi atrás dele, deixando a mãe uns dias com uma vizinha que também era sua parenta. O primo não via o irmão de Tarik há vinte anos, mas disse que poderia tentar encontrá-lo na distante cidade em que trabalharam e moraram juntos. O preço das passagens de ida e volta, porém, teria de ser pago por Tarik. Ele não tinha este dinheiro. Era uma alta quantia e era bem possível que seu irmão não estivesse mais lá, depois de tanto tempo. Se tivesse tal quantia, ele gastaria com remédios e não com este devaneio.

Os dois irmãos prometeram ajudar com mais dinheiro, mas ainda assim não daria para os remédios. Tarik, então, partiu em busca de gente poderosa, que pudesse fazer esta caridade e podia fazer o governo ajudar. Por meses, ele foi à cidade maior de sua região quase que toda semana. Tudo em vão. Apenas gastou dinheiro com isso, sem nada conseguir.

Desesperado, ele resolveu partir em busca de dinheiro que pudesse remeter a seus irmãos para que sua mãe não sofresse mais. A velha chorou, pedindo para ele não ir. O filho amoroso chorou também, mas estava decidido: ele não aguentava ver a mãe naquele sofrimento, muito pior que antes. A cada viagem em busca de auxílio, ele rezava, implorando a misericórdia de Deus. Por incrível que pareça, Tarik, desta vez, não se revoltou. A dor o deixou mais humilde e ele não fazia senão implorar auxílio divino, enquanto caminhava pelo chão tórrido.

Tarik encontrou outros aldeões que também desejavam partir e combinaram ao dia e a hora. A esperança era encontrar trabalho na Espanha e remeter o dinheiro e, se possível, economizar um pouco também. Tarik não se importaria em dormir na rua para economizar e em realizar qualquer tipo de trabalho, desde que pudesse com isso cumprir seus deveres sagrados para com aquela que era a razão de seu viver: sua pobre mãe. Mais que nunca, ele se afeiçoara a ela e decidira sacrificar a própria vida, se preciso, pelo bem da velhinha.

Tarik pediu àquela mesma vizinha e parenta que cuidara de sua mãe durante suas viagens para levar ele novamente para sua casa e cuidar do que for preciso para amenizar o sofrimento daquela boa mulher. Na véspera da partida, mãe e filho choraram abraçados a noite toda. Isso só foi possível porque a dor havia diminuído naquele momento. Certamente, um presente de Deus. Tarik partiu com lágrimas nos olhos e a convicção de que jamais veria de novo sua amada mãe.

Na caminhada até a cidade em que pegariam o decrépito ônibus até o litoral, Tarik era o mais calado do grupo que seguia em direção à Espanha. No bote em que atravessaram o mediterrâneo, ele só chorara, certo de que morreria. Ele nunca havia visto o mar e não sabia nadar. Tinha muito medo.

Tudo deu certo, porém, e eles chegaram em Algeciras. Logo, encontraram outros imigrantes marroquinos. Há mesmo uma parte desta cidade, a mais próxima do mar, que parece mesmo uma parte do Marrocos, em que se come kebab e se fala árabe e até berbere. Tarik se sentiu muito feliz ao perceber isso. Afinal, ele não falava uma palavra de castelhano. Ao chegar, os que tinham parentes ou dinheiro arrumaram lugar para ficar: quartos coletivos fétidos e mal iluminados. Tarik e mais alguns desafortunados teve mesmo que dormir na rua. Este, agora, era seu novo lar.

Durante o dia, ele procurava trabalho entre os imigrantes que já estavam a mais tempo na Espanha e podiam ajudá-lo a conseguir alguma coisa. Aproveitando-se de que Tarik não falava espanhol, alguns o exploraram, fazendo ele trabalhar como jardineiro ou servente de pedreiro e recebendo o pagamento por ele, retendo para si mais que a metade e lhe dando apenas uma miséria. Tudo era caro para comer e Tarik tentava ter forças para resistir à fome e guardar dinheiro para remeter a seus irmãos. Quando comprava algum pão para saciar a fome, sentia-se culpado durante dias e rezava a Deus, implorando perdão.

Quieto, humilde e cabisbaixo, mesmo dentre os seus conterrâneos, e sobretudo diante dos espanhóis, ele era sempre humilhado e dele zombavam constantemente. Ele nunca reagia; nada dizia. Apenas abaixava o rosto e esperava eles dizerem o que quisessem e troçarem dele.

Houve quem se compadecesse do pobre Tarik, porém, e vendo sua mansidão e humildade, resolveu ajudá-lo. Deus é grande e perdoador. Tarik, acostumado a cozinhar desde menino, era muito hábil nesta atividade. Um imigrante que já estava há anos no país estava precisando de auxílio em sua lanchonete de kebab. O irmão, que era quem o auxiliava, conseguira um emprego melhor. O normal seria colocar um primo ou outro parente, mas ele teve dó de Tarik e o empregou, ainda que a um salário baixíssimo; menor do que pagava a seu irmão e do que pagaria seu primo. Como imigrante ilegal e sem conhecer o idioma local, Tarik aceitou de bom grado e mesmo se considerou rico como nunca dantes em sua vida. Ele chorou de emoção, agradecendo ao patrão por esta oportunidade.

Cortês com os clientes e bom cozinheiro, Tarik fez as vendas aumentarem. Mesmo sendo um prato simples, o kebab tem seus segredos e Tarik logo os aprendeu. Com isso, já podia enviar dinheiro aos irmãos e pelas contas que o patrão lhe fez, a quantia era suficiente para que fossem comprados os remédios da mãe. Ele já não passava fome com tanta frequência e não dormia mais na rua, pois dormia no chão da pequena lanchonete. Conseguira até comprar uma muda de roupa e se lavava com a água da pia do banheiro de vez em quando. Tarik estava feliz, embora morrendo de saudades da mãe e de sua aldeia. O sorriso da velhinha não saía de sua memória e aqueles olhinhos brilhantes sempre apareciam em seus sonhos.

Tarik até sonhava com a voz de sua mãe e se angustiava com a saudade e a solidão. Sabia estar fazendo a coisa certa, porém, e tentava ser forte e aguentar o sofrimento. Ele nunca tivera documentos, nem mesmo no Marrocos. Era um ilegal. O dono da lanchonete tinha boas relações com a polícia. De modo que nunca nenhum policial pediu a Tarik seus documentos. Ele, porém, por medo, passava os momentos de folga trancado na lanchonete. Nunca saía. Seu almoço era pão e alguns legumes da própria lanchonete, que depois pagava ao patrão. Nunca comera um dos kebab que fazia. Não tinha dinheiro a desperdiçar.

Uma série de crimes na cidade, entretanto, fez com que a polícia aumentasse o cerco contra os clandestinos: a corta sempre arrebenta para o mais fraco. Assim, um dia, Tarik viu alguns policiais conversando de cara fechada com seu patrão. Ele nada entendia, mas viu que ele estava lhe mostrando documentos. Tarik começou a tremer: e se eles pedissem os seus? Quando os policiais começaram a falar com o patrão olhando para ele, Tarik percebeu que estava perdido. Seria preso, o dinheiro para os remédios de sua mãe cessaria e ele poderia até ser morto. Se estes policiais o levassem para um local deserto e o matassem, ninguém nunca saberia. Seu corpo poderia ser jogado no mar sem que ninguém questionasse nada. Desesperado, ele pulou uma janela e correu como nunca antes em sua vida. Este foi seu erro: imediatamente os policiais o sentenciaram como culpado e, mesmo que não fosse, eles precisavam levar alguém preso para mostrar serviço e acalmar seus superiores.

Tarik corria como nunca, mas os policiais corriam atrás dele. Tarik, sempre dentro da lanchonete, não sabia para onde correr; não conhecia bem a cidade. Apenas corria. Corria e pensava em sua mãe, em seu sorriso, na sua força diante da dor, nas flores que lhe colhia… Até que um carro acabou atropelando Tarik, que morreu na hora.

A mãe ficou muito triste ao ver que o dinheiro parara de chegar. Temia que Tarik estivesse preso e tentava não pensar que ele poderia ter morrido. A dor física era grande, mas a da alma ainda maior. Um dia, um imigrante que fôra para a Espanha com Tarik retornara à aldeia natal, com a triste notícia da morte do filho querido. A dor da mulher foi tão grande que se irou contra Deus e pediu para a matarem, pois ela só causava dor e trabalho para os que mais amava. Ela, porém, viveu ainda alguns anos assim, com a culpa e a dor de saber o que ocorrera com seu filho. Agora, pouco ou quase nada falava e alguns diziam que, por causa de tão grande tristeza, ela enlouquecera. Dizem até que às vezes babava de ódio contra si, contra a vida e contra Deus, amaldiçoando tudo baixinho e revirando os olhos em delírio. Ela só definhava.

É isso. A história acabou. Não há consolo, ensinamento ou visão positiva e reveladora. A vida às vezes é dura. Para alguns. Isso é fato.

BREVE BIOGRAFIA
Rodrigo do Prado Bittencourt, Graduado em Ciências Sociais, pela USP, não consegui deixar a paixão pela Literatura de lado e acabei fazendo mestrado em Teoria e História Literária pela Unicamp, estudando Guimarães Rosa. Agora, estudo Eça de Queirós no doutoramento, na Universidade de Coimbra.
Uma oficina literária na UNICAMP, com João Gilberto Noll, gerou em mim a paixão pela escrita, complementar à da leitura. A vinda para Portugal acentuou essa tendência a fazer do papel meu confidente preferido.
Tenho três contos publicados: um na Revista Crioula, da USP; um na Germina e um na Philos.

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