©Paul Gauguin

Dera-se que Iô Isnar trouxera-me a caçar a anta, na rampa da serra. Sobre sua trilha postávamo-nos em ponto, à espera, por onde havia de descer, batida pelos cães. Sabia-se, a anta com o filhote. Acima, a essa hora, ela pastava, na chapada.
Vistosa, seca manhã, entre lamas, a fim de assassinato; Iô Isnar se regozijava, duro e mau como uma quina de mesa. Eu olhava os topos das árvores. Fizera-me vir. Era o velho desgraçado.
— “A carne é igual à da vaca: lombo, o coração, fígado…” Matava-a, por distração, suponha-se; para esquecer-se do espírito. Iô Isnar tinha problema. — “Ecô”! — deu a soltada dos cachorros, aplicados rumo arriba.
— “Mora no beira-córrego, em capão de mato. Faz um fuxico, ali, uns ramos; nesse enredado, elas dormem.” A anta, que ensina o filhote a nadar: coça-o leve com os dentes, alongando o trombigo.
— “Sai dos brejos, antes do sol. Sobe, para vir arrancar folhas novas de palmeiras, catar frutinhas caídas, roer cascas do ipê, angico, peroba…”
O problema de Iô Isnar era noutro nível, de dó e circunstância, viril compungência. Seu filho achava-se em cidade, no serviço militar. — “Haverá mais guerra? O Brasil vai?”… perguntara, muito, expondo a balda.
A anta, e o filhote — zebrado riscado branco como em novos eles são — tão gentil.
— “Ah, o couro é cabedal bom, rijo, grosso. Dá para rédeas, chicotes, coisas de arreios…”
Sobre lá, a mil passos, a boa alimária fuçava araticuns e mangabas do chão, muricis, a vagem da faveira. Ao meio-dia buscava outros pântanos, lagoas, donde comia os brotos de taquaril e rilhava o coco do buriti, deixada nua a semente. Com pouco ia desastrar-se com os cães, feia a sungar a afilada cabeça, sua cara aguda, aventando-lhes o assomar.
Eram horas episódicas.
De tocaia, aqui, no rechego, a peitavento, Iô Isnar comodamente guardava-a, rês, para tiro por detrás da orelha, o melhor, de morte. Dava osga, a desalma. Moeu-me. Merecia maldição mansamente lançada. Iô Isnar, apurado, ladino no passatempo.
Havendo que o obstar?
Levantavam-na quiçá já os cães anteiros afirmados, cruza de perdigueiros e cabeçudos. Acossada, prende às vezes o cachorro com o pé, e morde-o; despistava-os?
— “É peta, qualquer cachorrinho prático segura uma anta!”
Valesse-lhe, nem, andar escondida nos matos, ressabiando os descampados. Sem longe, sem triz, ao grado de um Iô Isnar, em sórdido folguedo: condenada viva.
Mas, que, então, algum azar o impedisse — Anhangá o transtornasse!
Só árvores através de árvores. Doer-se de um bicho, é graça. De ainda aurora, a anta passara fácil por aqui, subindo do rio, de seu brejo-de-buritis, dita vereda. Marcava-se o bruto rastro: aos quatro e três dedos, dos cascos, calcados no sulco fundo do carreiro, largo, no barro bem amarelo, cor que abençoa.
Havia urgência.


Podia-se uma ideia.
À mão de linguagem. A de meneá-lo, agi-lo, nesse propósito, em farsamento, súbito estudo, por equivalência de afetos, no dói-lhe-dói, no tintim da moeda! Iô Isnar, carrasco, jeito abjeto, temente ao diabo. A pingo de palavras, com inculcações, em ordem a atordoá-lo, emprestar-lhe minha comichão. Correr aposta.
Ponteiro menor, a anta; ponteiro grande, os cães.
E dependi daquilo.
— “Sim, o Brasil mandará tropas…” — deixei-lhe; conforme à teoria. Sem o fitar: mas ao raro azul entre folhagens de árvores.
— “Cruz!?” — ele fez, encolhera elétrico os ombros.
Eu, mais, numa ciciota: — “É grave…” Luta distante, contra malinos pagãos, cochinchins, indochins: que martirizavam os prisioneiros, miudamente matavam. Guerra de durar anos…
Iô Isnar, voz ingrata, já ele em outras oscilações: — “Deveras?” — coçou a nuca, conquanto. Acelerava seu sentir; pôs-se cinco rugas na testa, como uma pauta de música. Vi o capinzal, baixas ervas, o meigo amarelo do lameiro, uma lama aprofundada. Ele era um retrato.
Tomei uns momentos.
Devagar, a ministrar, com opinião de martelo e prego: — “Seu filho único…” Disse. Do ominoso e torvo, de desgraçados sucessos, o parar em morte, os suplícios mais asiáticos. — “Se a sorte sair em preto…” — o tema fundamental.
Iô Isnar — a boca aberta ainda maior, porque levantara a cabeça — e um olhar homicida. Malhava-me fogo?
Só futuras sombras não logravam porém o desandamento de um cru caçador, seu coração a desarrazoar-se. Talvez a menção prática de providências vingasse sacudi-lo: — “Ajudo-o… Mas tem de vir comigo à cidade…” — propinei.
Iô Isnar sumiu a cor do rosto, perdera o conselho; o queixo trêmulo. Valha-o a breca! Operava, o método. Vinha-lhe ao extremo dos dedos o pânico, das epidermes psíquicas. Ele estava de um metal. Ele era maquinalmente meu. Obra de uns dez minutos.
No súbito.
A alarida, a pouco e pouco, o re-eco — trupou um galope, em direitura, à abalada, dava vento.
E foi que: mal coube em olhos: vulto, bruno-pardo, patas, pelo estreito passadouro — tapiruçu, grã-besta, tapiira… — o coto de cauda. Com os cães lhe atrás.
Iô Isnar falhara, a cilada, o tiro; desexercera-se de mãos, não afirmara a vista.
Travavam-se, em estafa, os cães, com latidos soluçados.
Embaixo, lá a anta soltara o estridente longo grito — de ao se atirarem à água, o filhote e ela — de em salvo.
Refez-se a tranquilidade.
Iô Isnar rezava, feito se moribundo, se derrubado, tripudiado pelo tapir, que defeca mesmo quando veloz no desembesto: seu esterco no chão parecia o de um cavalo.

— João Guimarães Rosa, no livro “Tutaméia: Terceiras estórias”. 9ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Saiba mais sobre João Guimarães Rosa:
João Guimarães Rosa – o demiurgo do sertão

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