©David Cox, 1849

Quando José Alves viu Brandão chegar a sua porta, pensou em coisa má, porque boa não devia ser. Brandão era senhorio, vinha talvez aumentar o aluguel. Ou, então, dizer que os meninos estragavam muito a casa, a começar pelo lado de fora. José Alves pagava mais ou menos em dia, salvo ocasiões de doença. Era condutor de bonde, vale dizer, tinha dinheiro curto. Mas o jeito de Brandão era benigno, e sua voz, logo às primeiras palavras, denotava algo que parecia emoção ou, mais simplesmente, embaraço.
— Bom dia, Zé. Seu pessoal vai bem? Tudo legal? Vim aqui cedinho com medo de não encontrar mais você. Careço de um favor seu.
— Vamos ver, seu Brandão.
— Até não queria vir, para não amolar um cristão, mas a patroa insistiu. A patroa disse assim: Procura o Zé Alves que ele atende. O Zé Alves é camarada e compreende essas coisas. Acontece o seguinte, Zé, nós tínhamos lá em casa um cachorro de estimação, o Sentinela, não sei se você reparou nele, nem era cachorro, era um amigo da gente, com perdão do exagero, até parecia um filho de rabo. Criação, quando a gente se apega, é o diabo. Pois o Sentinela morreu ontem de noite.
— Sinto muito, seu Brandão.
— Obrigado. Ele merecia. Mas agora está um caso sério, porque eu não vou jogar o bichinho no lixo nem dar sumiço nele. Tenho de enterrar, não acha? E lá em casa, você sabe, é apartamento de instituto, sem um palmo de terra. Então a patroa lembrou: O Zé Alves tem um quintalzinho, fala com ele.
— Tá certo, seu Brandão, disponha.
O outro agradeceu e saiu afobado para voltar uma hora depois, com um caixotinho fechado e um crioulo munido de enxada. Não quis abrir o caixote, por causa da exalação. Num átimo, a cova estava pronta e o sepultamento se fez. José tinha saído para o batente. Brandão agradeceu muito à senhora dele.
No batente, José ficou pensando aquilo que não tivera tempo de pensar na rapidez da conversa. História esquisita, essa de enterrar cachorro no quintal dos outros. Enfim, cada um com sua mania. Mas à noite, na cama, ideias estranhas lhe afloraram à cabeça. A mulher de Brandão era parteira, tinha fama de fazer anjinho. Era muito possível que… Minha Nossa Senhora, em que burrada me meti. E não dormiu um segundo, pensando naquela coisinha humana no frio da terra, e ele preso, processado, poxa! A mulher tinha o mesmo pensamento negro. Ia dar bode.

No outro dia, José madrugou no distrito e contou ao primeiro sujeito com cara de autoridade que lá encontrou. O sujeito coçou o queixo, indagou aborrecido: “Tem certeza?”. Ele respondeu: “Quer dizer, certeza mesmo não, mas estou quase jurando que ali tem coisa”. Um investigador foi buscar Brandão, que apareceu de cara amarrada, veio também um médico-legista, e a caravana partiu para a ruinha de subúrbio, onde já estava apinhada pequena multidão em frente à casa de Zé Alves. O povo tem radar para esses casos.
Abriu-se a cova, apareceu o caixotinho lambuzado de terra. O mau cheiro não perturba aqueles homens habituados, mas a qualidade do mau cheiro não passou despercebida ao médico. O círculo de curiosos tapou o local da diligência. “Desafasta!” resmungou um investigador. Abriu-se o caixotinho. O doutor se debruçou profissionalmente. Brandão tapou os olhos, apertou os lábios…
Era cachorro.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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