Sri Prem Baba, foto

Entre Brasil e Índia e com seguidores notáveis, o espiritualista acredita que a transformação do ser humano só acontece quando ele encontra seu propósito de vida

A busca por respostas de Sri Prem Baba começou desde criança, quando ele ainda era Janderson Fernandes de Oliveira. “Eu tinha 7 anos e perguntava pra minha mãe, ‘quem foi que fez esse mundo?’ Ela falava “foi Deus”. Mas eu perguntava: “E quem foi que fez Deus?” Ela respondia: “Não pensa nisso que você fica louco (risos)”, conta o hoje mestre espiritual brasileiro.

Nascido em São Paulo, no bairro da Aclimação, ele se formou em psicologia e, durante uma viagem, teve uma visão de que iria para a Índia com 33 anos. Ele foi. E ali começou seu processo de transformação, seguindo a linha indiana de nome Sachcha.

Hoje, Sri Prem Baba, 51 anos, cujo significado é “Pai do Amor”, divide seu ano entre Brasil e Índia e atrai, pelo País, multidões de seguidores que chegam a chorar quando o encontram. Entre eles, famosos como Bruna Lombardi, Reynaldo Gianecchini e Márcio Garcia. Além de práticas espirituais, Sri Prem Baba está à frente do movimento global “Awaken Love” – que prega a construção de uma cultura de paz e prosperidade – e recebe pessoas com queixas diversas em busca de um significado espiritual para suas vidas. O motivo de desencaixe varia, ele explica, mas o caminho do bem estar não tem milagre, requer autoconhecimento e dedicação. “O silêncio se tornou o bem mais precioso no nosso mundo, especialmente nos grandes centros”, conta. “O que eu proponho é que a gente faça isso aos poucos. Que a pessoa possa se reacostumar com o silêncio, com a presença, vagarosamente, homeopaticamente, em doses constantes”.

De passagem por São Paulo para lançar o livro Propósito – A Coragem de Ser Quem Nós Somos, da editora Sextante, o mestre conversou com a repórter Marilia Neustein, na sede da instituição.

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Por que escrever um livro sobre “propósito” neste momento?
A escolha foi movida por causa da leitura desse tormento que estamos atravessando. Tenho recebido muitas pessoas desorientadas, sem saber como lidar com os desafios desse momento. E percebo que na raiz do conflito está uma inconsciência a respeito do propósito. As pessoas se deixam levar por motivações que não estão relacionadas com o verdadeiro propósito, mas pela necessidade de sobrevivência, de agradar à família, à sociedade, etc, mas não necessariamente agradar a elas mesmas. Então, elas acabam realmente entrando num estado auto-hipnótico, se tornando um autômato, fazendo coisas sem saber o porquê.

Como uma engrenagem?
Sim, e isso acaba gerando sintomas. Esse fazer compulsivo desconectado do propósito maior acaba gerando angústia, depressão, ansiedade, uma série de doenças psicofísicas. Por isso resolvi tomar uma atitude de colaborar através do conhecimento que eu pude acumular ao longo do tempo em relação ao assunto.

Essa intensidade é maior aqui ou você acha que é uma coisa mundial?
A crise é planetária. Nós estamos no limite de um modelo de sociedade, no qual existe uma crueldade, uma violência gritante em todos os segmentos. Repare que os antidepressivos são os remédios mais vendidos no mundo e 62 pessoas acumulam metade da riqueza do planeta. Quer dizer, tem alguma coisa errada com as nossas escolhas.

Acredita que esses valores estão em crise?
Isso deriva exatamente do fato de não sabermos para que nascemos. Tento provar que a pessoa que está sendo guiada por uma crença de que o poder e o lucro trazem felicidade está equivocada. Existe um preço por a gente estar realmente se desviando do caminho do coração, do caminho da alma, que é a razão maior de estarmos aqui. E as consequências são graves.

Acha que a internet piora esses sintomas? Em especial com a comunicação por meio das redes sociais?
Não tenho dúvida disso. A tecnologia das redes sociais tem um potencial gigantesco de fazer o bem. Pode ser um tremendo aliado em uma cultura de paz. Mas, infelizmente isso não está acontecendo. Ao invés de gerar união, gera separação e isolamento. Acredito que as redes sociais precisam ser repensadas. Porque a internet está roubando nosso tempo, a presença, o nosso silêncio… Então, nós não temos mais a chance de termos relações verdadeiras, não conseguimos mais olhar nos olhos um do outro, e isso é muito nocivo.

Qual é a maior queixa das pessoas que o procuram? O que elas estão buscando?
O que elas buscam é um sentido para vida. Tem desde pessoas que atingiram um grau de realização material alto até pessoas que ainda nem começaram. Mas em todas existe um denominador comum: são pessoas que buscam um sentido depois de perceberem a vida sem significado. Elas chegam aqui cheias de questões ou uma simples confusão mental: será que estou no lugar certo? Na profissão certa? Morando na cidade certa, no relacionamento certo? É uma procura por um diagnóstico.

Acredita que os seres humanos estão perdendo a capacidade se vincular?
Sim, cada vez mais uns se distanciando de outros. E muitas pessoas acabam achando que é bobagem o que estamos dizendo porque elas estão completamente hipnotizadas. Essas pessoas precisam de um choque de consciência pra poder acordar desse pesadelo. Que é um pesadelo do qual elas não estão se dando conta.

Como é ser um ativista da paz em tempos de intolerância?
É um tremendo desafio. É curioso, todo ser humano quer ter paz no coração, mas não sabe como. Ele é levado a acreditar, como eu falei, que se acumular dinheiro vai ter paz, ser feliz… e para acumular aquele tanto de dinheiro ele machuca um tanto de gente e acaba criando uma desordem na sociedade, às vezes até mesmo rouba, como é o caso que estamos vendo com a nossa política, por exemplo.

E por que isso acontece?
Porque ele acredita que a felicidade está fora e não dentro dele. Por isso considero que uma mensagem como essa é tão fundamental que acaba sendo como uma coordenada pro GPS, como retomar o caminho de uma cultura de paz.

Sri Prem Baba, foto

Você já criticou a postura de vitimização das pessoas. Acha que o Brasil vive isso neste momento? No qual a culpa é sempre do político, do outro partido, do vizinho? Na sua opinião esse lugar de vítima pode ser tóxico para as relações?
Eu diria que talvez seja o principal veneno. As influências nefastas que se manifestam na forma do mau governo, no fato de o namorado não dar a atenção que eu preciso, de meu filho não fazer da forma que eu espero, do carro que quebrou, e assim por diante. Isso que estamos chamando de destino é construído através de nós. Precisamos nos autorresponsabilizar pelas nossas vidas. Assim, talvez a gente consiga eliminar o mais insidioso e destrutivo jogo que habita a consciência humana, que é o jogo de acusações. Estamos sempre procurando um culpado para responder pela nossa incapacidade de ser feliz, pela nossa incapacidade de amar, pela nossa incapacidade de criar paz. Temos que acabar com isso. Se nós olharmos pra nossa história, vamos ver que a ela é construída com um mar de sangue, infelizmente.

Acredita que hoje em dia existe uma relação de consumo com a espiritualidade?
É, existe esse consumo sim, existe inclusive um mercado que promete curas milagrosas, que promete felicidade instantânea. Isso é completamente ilusório. O treinamento da mente requer tempo. Essas pessoas querem uma solução como se fosse um produto congelado que você coloca no microondas e pronto. Isso não existe.

Você é um entusiasta da meditação e da busca por momentos de silêncio. Como achar o silêncio em uma vida com tantos ruídos de todos os lados? Ou em metrópoles como SP?
O silêncio se tornou o bem mais precioso no nosso mundo, especialmente nos grandes centros. E mais caro também, porque para encontrar um lugar silencioso tem que pagar muito (risos). É curiosíssimo, o que noto é que não estamos mais presentes. Somos tragados pela mente compulsiva, tagarela, que fala o tempo todo, e fala de muitas maneiras: dentro, fora, ela se mexe, vai pra cá, e vai pra lá, e vai… por quê? Porque se ela parar ela não dá conta dessa angústia de estar tão desencaixada dela mesma. Ela vai se dar conta de uma solidão, ela vai se dar conta de um terror interno.

Como fazer para reencontrar esse tempo ?
O que eu proponho é que a gente faça isso aos poucos. Que a pessoa possa se reacostumar com o silêncio, com a presença, vagarosamente, homeopaticamente, em doses constantes. Todos os dias, mesmo que seja um minuto, que se desligue do mundo lá fora, somente observando aquilo que se passa. Aos poucos, você vai ampliando a sua percepção e vai reencontrando a calma, esse silêncio interior que vai fazer com que você permaneça equilibrado mesmo diante de todo o barulho lá fora. Mas isso requer comprometimento, requer dedicação. Tem que ser diário.

Você acha que a experiência de doar, de cultura de paz, de olhar pro outro, é coletiva ou é solitária? Ou é, na verdade, as duas coisas?
Começa individualmente. A partir do indivíduo nós vamos irradiando e vamos ampliando cada vez mais esse campo para que mais pessoas também passem por esse processo de transitar do egoísmo para o autêntico altruísmo. E eu falo autêntico porque às vezes a gente também faz uma caridade de mentira. Não estou falando desse tipo de ação, em que se busca aliviar uma culpa e se libertar às vezes até do seu ego, da culpa de ser tão egoísta.

Está falando de empatia?
Exato. Se colocar no lugar do outro. Isso é uma dimensão da compaixão. E a compaixão eu sinto que é o único remédio pra esse nosso mundo, não existe outro. Se existe um remédio pra esse mundo, esse remédio é a compaixão. Nós todos carregamos muitas feridas dentro de nós – não é? – de exclusão, de humilhação, de abandono. E aí, pra se proteger a gente criou essa armadura que é o não sentir. E é por isso que a gente se distancia do outro, e por isso que nos tornamos tão insensíveis, tão congelados. E isso, inevitavelmente, começa a irradiar. Começa a irradiar, né? Você começa a fazer as pazes com os seus familiares, começa a se harmonizar com as pessoas que são próximas a você, e aí as pessoas vão sentindo que você está em uma vibração de paz boa, de união…

Fonte: Estadão/Cultura

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