Enrico Bianco - boiadeiros

Sei onde, em maio, em Minas, o céu se vê azul. Feio é, todo modo, passar-se do sertão uma boiada, estorvos e perigos dos dois lados, por espaço de setenta léguas. Doriano, de gibão e jaleco, havendo de repartido olhar, comandava dependuradamente aquilo. Destino às porteiras do patrão e dono, Seo Siqueira-assú, Fazenda Capiabas, movia para o sul o trem de vaqueiros lorpas patifes e semi-selvagens bois.
Marinheiro de primeira nem de última viagem, moço maltratado e honrado pela vida, não confiava nas passadas experiências. Só esmava três-metades os azares, em mente a noção geralista: Tudo, o que acontece, é contra a gente. Mas não queria errar de próprio querer.
E estava-se na marcha do quinto dia, tomado o vento da banda da mão esquerda. Tem o gado de ir demais moroso, respeitado, por não achacar, não afracar, não sentir. Vêm de propósito pelos espigões as estradas boiadeiras.
Doriano exigia de si, de redobramento, rédeas endurecidas. Fiava nem-menos no comum dos vaqueiros, rabujos; só, o tanto, no amistoso cozinheiro, Duque, e no esteira Seistavado, dos tristonhos. Desordeiro sarnava por exemplo um Rulimão, de pôr-lhe abrolhos; tão-tudo, diligente destro. Esses, quais, descareciam de apurar ramos de cruz, nem preferir real ou ceitil. Dá é na cabeça, a dor das coisas.
E havida segunda boiada, que também de Seo Siqueira-assú, à vara dum Drujo, porfiador, três vezes rival, desamigo; não se tendo ora estima de por onde andasse, de rebuço, senão que vinda navegando igual passo — atrás, adiante, a par — resvés.
Doriano pegara defluxo. O vento rebulia, frio, apesar do destempo de calor. O gado estranhava. Dali ainda a longe, etapas, rumo-a-rumo, ao vice e versa da estrada, viviam aquelas em que Doriano cuidava, as duas, amores contrários, que a esperarem seu resolver. A Aquina e a Bici.
Antes, aqui os tropeços se antojavam, um a um, o mau diário bastante. Forçoso sendo guiar-se frentemente a boiada, o possível, inteira e sã, até às Capiabas, currais de bem, casa edifícia. Doriano protelava o pensar, não devendo encurtar ânimo nem abusar com a sorte. Tudo consigo não falava. Sofria só a dificuldade: a de escolher.

Foi no noveno dia, faltava água. Em o Laranjado, o Buriti-de-Dentro, o Se-Mexido, as esperadas grotas se acharam secadas. Rixavam os vaqueiros, queixosos, grossa parda de poeira cada cara, só fora os vermelhos beiços. O gado berrava. Doriano, chefe, perrengue trotava, a de-cá a de-lá e da guia à culatra, nessa confusão e labirinto, sem certeza do melhor e pior.
Entupia-o o constipado, apertada a testa, de nulo espírito do que fazer. Se em esvio do direito roteiro se botava, desladeado, desta ou da outra parte — água aí sobejasse, avonde, no campo baixo. Mas, por porém: iria tortear caminhos, sem a certa conhecença, mais uma boiada pesada de vagarosa, desdobradamente, ao retraso transtornoso. À Capiabas com ela chegar, não depois da do Drujo, competente, virava o que valia, nem um boi perdido, adoecido ou estramalhado. O nenhum encalacro.
Trepou a um outeiro alto, constante a cavalo. Espiou o poente: nem nada. Erguido firmado nos estrivos, espiou o nascente. Por cima de cerradão, se enxergava bolo de poeira, suspendida, que o vento rebate e desairada se esfaz. Delatava boiada costumada, que orçasse, já a-de-longe. Fosse o Drujo, estando de fortuna? Doriano disse: — “Deus te e me leve!” Por enfrouxecido.
Temeu que também os vaqueiros vissem a poeireira, nem nuvem conforme abelhas enxames, lhe dando dúvida. Tão então, se isso dos outros receava, não era sinal de que devia somente continuar a seguir, por diante, aquela própria serra diretiva, como pelas apagadas linhas de um documento? Obedecendo a segredas coisas assim o espiritado da boiada — o balanceio.
Seus vaqueiros lhe vinham às costas, de enrufo, a xingos, reardendo. Malsinavam-se. Reinava o Rulimão, ladino no provocar o Seistavado, costaneiro-espontador. A quanto e quando moderar esses rebelamentos?
Mas, só até — de estupefa! — já à dôida melhoria. As grotas se topavam com água, no Buriti-Formoso, no Buriti-da-Cacimba. Os vaqueiros abriam a natureza, cantavam letrilhas. Doriano quis esquecer o Drujo, e se lembrar daquelas, demais, a Bici, a Aquina; no mastigar da carne-seca, que o Duque assava gordurenta.
Tinha de travar plano; e o coração não concordava. Aquina, ociosa meretriz, na Caçapa, banda da mão direita. A Bici, moça para ser nôiva, à beira da lagoa Itãs, do lado do outro lado. Ele espontâneo se gemeu, mediante pragalhão, que meio puxava pelo nariz. Decidir logo formava danada ação; as verdades da vida são sem prazos. E o Drujo, invejador, que essas, uma e outra, por garapa e mel, também cobiçava!
Doriano caçasse do fino do ar a resolução; na sela, no calor do dia. Só o vento zazaz e as tripas lhe doendo na barriga. A iazinha Bici, flor de rososo jardim, de brancura, palhacinho de lindeza, água em moringa. A feitiçosa Aquina, no sombreado, relembrada, xodó e chamego, uso vezo. E a gente sem folga sujeito ao que puxa, ombro e ombro, homem nunca tem a mente vazia.
Devia tomar sentido no do Drujo, tramoias. Ter mão no Rulimão. Buscar os duvidados pastos, para se estanciar, o pernoite. Estimava os bois, juntos, o mexente formato, que ajuda a não razoar. A boiada cruzava um aniquilo de paragens, sem o que quase comer, em nhenhenhenha cafundura.
Pois vieram, ao Buritis-Cortados, senão onde, de um fazendeiro Pantoja.
Aquele estava à porteira, muito alto magro, de colete sem paletó e chapéu aboso. Se tinha um pasto, não alugava: por promisso com outro, de pronto chegar. Dava de ser o Drujo! Doriano não se coçou. Tomou bom fôlego. Lhe disse: — “O sr. no seu se praz…” — e tem-te se arredou, para se ver acontecer. Fez o gesto de cansado; pensaram que era o de forte decisão. Saía, espirrando e cuspindo, como todo boiadeiro tem medo de gostar dos bois.
Porém o fazendeiro Pantoja se adiantou, segredado compondo: que possuía outro pasto, o reservo melhor, a quarto-de-légua, seja se a três tiros de espingarda. Falou: — “Se vê, o sr. não precisa de ninguém. Por isso, merece e convém ter ajuda!” — assim ele desempatava.
Toque.
Vezes outras jornadas, o rumo no chão, gado e gente, nem tanto à várzea nem tanto à serra. Doriano o mole pensava. Aí embora até ao não delongável; da véspera para o dia. Iam pousar onde, de onde, as duas diversas moravam, banda a banda. Socapo, leleixento, não havia o Drujo de, de tresnoitação, tretear e caçar de se tremeter com a alguma delas, a qual? — em brio ele temeu. E viu, tangendo o cargueiro, o Duque, amigo. Disse-se: — “Tudo tem capacidade…”
Tranqueou o cavalo. Mandou. Ir o Rulimão fosse, mão direita, à Aquina, à Caçapa, com dinheiro, o alforrio; quisesse, lá ficasse, os três tempos, por espalhar o bofe, dias e mais — e desmoderado brabo renhir qualquer vindiço… Sorriu, com boa maldade.
Mas, empunhando arma contra quem intruso ali aparecesse, ir o Seistavado à Itãs, mão canhota, com a sua palavra de homem: de que, breve, ele Doriano, nas praxes, visitava a Bici moça e a Mãe e Pai, pelo pedido, finitivo. Tudo desvirava do incerto, remoído bem, depois das núncias e arras.
Tão o primeiro, quite, trouxe a boiada conduzida, ao Seo Siqueira-assú, afinal, em Capiabas, sem arribada, sem dano. Tossisse, a barba grada, no empoeiramento, condenado nisso, mais uns vaqueiros esfalfados. E já de noite: enchida a lua. Então, apalpou de repente no coração a Bici, que notou que amava; que o amor menos é um gosto para se morder que um perfume, de respirar. Tinha o nome dela, levantado sozinho, feito prendida no tope do chapéu branquinha flor.
Desapeava e olhando para trás em frente olhava, Doriano e tal, somenos espantado — do vão do sertão donde viera, a rota nada ou pouco entendida — nem sabendo o que a acontecer. Tendo a perfeita certeza.

— João Guimarães Rosa, no livro “Tutaméia: Terceiras estórias”. 9ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Saiba mais sobre João Guimarães Rosa:
João Guimarães Rosa – o demiurgo do sertão

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