Robert Creeley

Canção
O que no corpo você esqueceu
e que deixou de lado
e que você não quer —
ou o que no corpo, você quer
e morreria por —
e pensa que isso basta —
se a vida é uma forma a ser esquecida
já que você partiu e sem remorso,
ninguém existe, no que você foi —
Este lugar vazio é tudo que há,
e/se o rosto é lembrado,
ou cão late, o leite do gato.
.

Song
What’s in the body you’ve forgotten
and that you’ve left alone
and that you don’t want –
or what’s in the body that you want
and would die for –
and think it’s all of it –
if life’s a form to be forgotten
once you’re gone and no regrets,
no one left in what you were –
That empty place is all there is,
and/if the face’s remembered,
or dog barks, cat’s to be fed.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Foco
Retalhos do céu
cinza linhas
das árvores janela
recorta a
planta incli-
nada ao meio.
.

Focus.
Patches of grey
sky tree’s
lines window
frames the
plant hangs
in middle.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Amor
Há palavras voluptuosas
como carne
em sua umidade,
seu calor.
Tangíveis, dizem
o ânimo,
o alívio,
de ser humano.
Não falar delas
torna todo
o desejo abstrato
e sua morte ao cabo.
.

Love
There are words voluptuous
as the flesh
in its moisture,
its warmth.
Tangible, they tell
the reassurances,
the comforts,
of being human
Not to speak them
makes abstract
all desire
and its death at last.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

La
Milhas depois
na vigília,
dias esvaídos —
noites de sono pareciam
caindo
dentro de algum torpor –
matando-o,
pensando tolices,
pensando que o corpo
estava morrendo.
Então
você mudou isso.
.

There
Miles back
in the wake,
days faded –
nights sleep seemed
falling down
into some deadness –
killing it,
thinking dullness,
thinking body
was dying.
Then
you changed it.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Alguns Ecos
Alguns ecos
pequenas peças,
caindo, pó,
luz do sol, pela
janela, aos
olhos. Seus
cabelos enquanto
você, fio
a fio, a luz
atrás dos
olhos,
o que fica disso.
.

Some Echoes
Some echoes,
little pieces,
falling, a dust,
sunlight, by
the window, in
the eyes. Your
hair as
you brush
it, the light
behind
the eyes,
what is left of it.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Algum lugar
Resolvi, eu
encontrei em minha vida
um centro e o finquei.
É a casa,
árvores além, um limite
de vista que a contorna.
O tempo
chega só como algum
vento, um pouco suspiro
amortecido. E
se a vida não fosse ?
quando algo estava para
acontecer, se eu o
tivesse fincado,
tivesse, insistente.
Nada existe que eu seja,
nada não. Um entre
lugar, eu sou. Sou
mais do que idéia, me-
nos do que idéia. Uma casa,
ventos, mas uma distância
– algo solto no vento,
sentindo o tempo como aquela vida,
anda para as luzes que ele deixou.
.

Some place
I resolved it, I
found in my life a
center and secured it.
It is the house,
trees beyond, a term
of view encasing it.
The weather
reaches only as some
wind, a little
deadened sighing. And
if the life weren’t?
when was something to
happen, had I secured
that — had I, bad
I, insistent.
There is nothing I am,
nothing not. A place
between, I am. I am
more than thought, less
than thought. A house
with winds, but a distance
— something loose in the wind,
feeling weather as that life,
walks toward the lights he left.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [organização de Régis Bonvicino; tradução Régis Bonvicino e João Almino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

A linguagem
Perceba Eu
te amo algum
lugar en-
tre dentes e
olhos, morda
mas
tome cuidado
para não ferir,
você tão
pouco quer tan-
to. Palavras
dizem tudo.
Eu
te amo
de novo,
o que
é vazio
para. Pre-
encher. Encher.
Ouvi palavras
e palavras cheias
de buracos
doendo. Fala
é a boca.
.

The language
Locate I
love you some-
where in
teeth and
eyes, bite
it but
take care not
to hurt, you
want so
much so
little. Words
say everything.
I
love you
again,
then what
is emptiness
for. To
fill, fill.
I heard words
and words full
of holes
aching. Speech
is a mouth.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

A casa
para Louis Zukofsky

Barro
sobre barro,
erguido
para um espaço,
casa
cava,
e a noite
mais fria.
Para dormir
dentro, vi-
ver dentro li-
vrar-se do calor,
toda forma derivada
dessa,
construída com isso na
cabeça.
.

The house
for Louis Zukofsky

Mud put
upon mud,
lifted
to make room,
house
a cave,
and
colder night.
To sleep
in, live in,
to come in
from heat,
all form derived
from kind,
built
with that in mind.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Para W.C.W
O prazer do sentido guarda
um vago aroma
A erva-dedal (não vista) a
flor selvagem
Muitas coisas chegam
às mãos. Em tempos difíceis –
júbilo selvagem.
.

For W.C.W.
The pleasure of the wit sustains
a vague aroma
The fox-glove (unseen) the
wild flower
To the hands come
many things. In time of trouble
a wild exultation.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Luz da noite
Olhe para a luz
entre as luzes
à noite com as luzes a-
cesas no quarto você está
sentado só de novo com
a luz acesa tentando ainda
dormir mas o tédio
e o cansaço de esperar até tarde
da noite pensando em alguma
estúpida simples luz do sol.
.

Night light
Look at the light
between the lights
at night with the lights
on in the room you’re sitting
in alone again with
the light on trying still
to sleep but bored and
tired of waiting up late
at night thinking of some
stupid simple sunlight.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

A flor
Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.
Cada ferida – perfeita -,
fecha-se numa minúscula
imperceptível pétala,
causando dor.
Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta.
.

The flower
I think I grow tensions
like flowers
in a wood where
nobody goes.
Each wound is perfect,
encloses itself in a tiny
imperceptible blossom,
making pain.
Pain is a flower like that one,
like this one,
like that one,
like this one.
– Robert Creeley, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

§

Robert Creeley – photo: Christine Krikliwy

BREVE BIOGRAFIA
O poeta norte-americano Robert Creeley nasceu em 1926 na Carolina do Norte. Creeley foi um dos membros da geração conhecida como “poetas da Black Mountain” (por causa do suplemento literário de mesmo nome) que floresceu nos anos 50 e 60. Um dos fundadores da teoria do verso projetivo, procurou transmitir sua energia emocional e intelectual direta e espontaneamente, usando ritmos naturais da fala na sua poesia e linhas determinadas para pausas na respiração. Desde a publicação da sua antologia “For Love: Poems 1950-1960” em 1962, teve mais infuência que qualquer dos seus poetas contemporâneos nas gerações seguintes, tendo inspirado o movimento da “L=a=n=g=u=a=g=e poetry” nos Estados Unidos. Robert Creeley faleceu em 30 de março de 2005.
Fonte: Elson Fróes – veja outros poemas traduzidos AQUI!.

Obra publicada em português
:: A um: poemas. Robert Creeley. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.

 

Robert Creeley

Breve nota sobre a poesia de Robert Creeley*
– por Régis Bonvicino

Na antologia From the Other Side ofthe Century: A New American Poetry 1960-1990, publicada este ano (Sun and Moon Press, 1994), incluindo de Charles Reznikoff (1894-1976) aos mais jovens poetas como Diane Ward (n. 1956), Creeley tem sua importância reconhecida: é o autor que abre — como divisor de águas — a terceira seção da coletânea. O organizador — o também poeta Douglas Messerli — justifica nestes termos sua escolha:

…o que interessa em Creeley é sua linguagem e o modo como lê (palavra falada) seus poemas, mais do que seus temas, que, geralmente, tem a ver com a história e com a sexualidade. É bastante evidente o impacto de sua poesia sobre os poetas mais novos…

Creeley nasceu em 1926 e se lançou nos anos 50 como editor da Black Mountain Review, que circulou entre 1954 e 57, publicando Charles Olson, Robert Duncan e Larry Eigner, por exemplo. Além de poeta — que, sob a influência de William Carlos Williams, estreou com For Love (1962) — Creeley é prosador de ficção e ensaísta. Entre seus livros de ficção: The Golã Diggers, The Islande Listem. Entre os de crítica: What h a Real Põem e Selected Poems ofWhalt Whitman.

Creeley pertence a uma geração que, no Brasil, lançou a poesia concreta e a neoconcreta e teve seus “independentes”: Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Mário Faustino, José Paulo Paes e Afonso Ávila. Existem semelhanças entre o início de Creeley e o dos brasileiros. A semelhança relevante é a importância conferida a Ezra Pound (exclua-se Gullar, lembrando-se que José Paulo traduziu o ABC da Literatura). A maioria das dessemelhanças reside na não menção, por parte de Creeley, de e.e. cummings. Há também diferenças: “sei que existe uma crescente escola de poesia concreta. Mas, para mim, a tipografia é apenas um modo – em sentido musical – de indicar como eu desejo que o poema seja lido” (entrevista de 1965).

Num texto de 1965, “A Note on Ezra Pound”, escrevia Creeley: “Para minha geração, o fato Ezra Pound e seu trabalho era inescapável […]. Nos anos 40, a situação de Pound era — em todos os sentidos — muito depressiva. Para a maior parte dos jovens, ele era simplesmente um traidor, um anti-semita, um obscurantista”. Creeley compara o trabalho de Pound ao dos dois poetas modernistas então aceitos: W. H. Auden (padrões de versos repetitivos) e Wallace Stevens (“but again whose use poetry had fallen to the questionable fact of device”). Em contrapartida, Creeley via nos poemas (“Personae”, “Cantos”) e nos escritos críticos de Pound (Make it New e ABC da Literatura) estímulos não à cópia mas à invenção. Creeley destaca ainda neste pequeno ensaio a importância do método ideogrâmico para a poesia: “ele presentifica mais do que comenta as coisas”. E chama a atenção para a definição poundiana de literatura: “linguagem carregada de significado”.

Williams foi outra das influências formantes, nada além disso, de Creeley: “Sinto que nós, mais novos, temos à mão uma extraordinária experimentação e construção de possibilidade oferecidas por Pound, Williams e Whalt Whitman” (1965).

Por que interessa traduzir Bob Creeley? Porque, não privilegiando a visualidade da escrita como recurso estrutural, recusa uma poesia fácil e verborrágica. Além disso, porque, numa perspectiva de poesia essencialmente verbal — logopaica —, valoriza questões de ritmo e sintaxe, pensamento e concisão. Numa cultura, como a brasileira, que confunde até hoje inspiração com confessionalismo, derramento com conteúdo, ou intimismo com falta de intimidade com a palavra, vale a pena ouvir uma voz sutil e densa.

Robert Creeley

Em A History ofModern Poetry, o crítico Dick Perkins rastreia as principais características da poesia de Creeley e sua situação relativa: “Enquanto muitos poetas norte-americanos tomavam o rumo do protesto, da confissão, e liberação, com turbulentas emoções e muitos versos, enquanto outros seguiam a moda do New Criticai, Creeley se ‘reduziu’ ao mínimo e ao mudo”. Prossegue: “seus poemas se focam numa metáfora ou num complexo de sentimentos. Frequentemente, suas frases são ilógicas, elípticas e suspensas ao indefinido. Iniciadas delicadamente, com lapsos precisos e medidos, emitem sugestões de significado” (…). E conclui: “…dor, esvaziamento, incerteza, – linha a linha -vão minando o que seus poemas tentam afirmar.”.

“O estilo de Creeley – prossegue Perkins – era considerado ‘minimalista’, significando, que, em muitas coisas que os poetas podem ser abundantes, Creeley era esparso e árido. Seus poemas têm pouca ou nenhuma descrição ou estória. Ele constrói seus refinamentos e ressonâncias pela justaposição de frases curtas e simples, com manipulações de sintaxe e ritmo, e pela metáfora”. O ensaísta chega a comparar, noutro passo, o tom de Creeley com o de Mareei Proust: “The focus of anxiety is the same as in Proust…”

De um modo claro, Creeley dialoga também com João Cabral. João Cabral: “Poesia, te escrevia / flor! conhecendo / que és fezes. Fezes / como qualquer, / gerando cogumelos (raros, frágeis cogu- / -meios) no úmido / calor de nossa boca…”, ou “flor é a palavra flor…”.

Bob Creeley: “Penso que cultivo tensões/ como flores/ num bosque onde/ ninguém vai…”. Frágeis cogumelos, imperceptíveis pétalas, que causam dor. E — contra tudo — mantém a cultura viva.

– Régis Bonvicino, em “A um: poemas. Robert Creeley”. [tradução e organização de Régis Bonvicino]. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997.
© Direitos reservados aos herdeiros

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS