Rastros apagados, atalhos achados - Carlos Walker

Não tenho me avistado dentro da paisagem, ultimamente. Como me via, outrora; algo vivente, interativo  e pulsante  sob a abóbada azul. Vibrando  minha aura com a aura dos raios solares e sentindo  os   cheiros  entranhados, inumeráveis brotados  da terra. Sentia-me comum  entre os  objetos naturais e mesmo os manufaturados.

Mas hoje, é como se uma estranha e misteriosa energia-força estivesse desfragmentando e deslocando tudo, planos  de órbitas, rotações, polos magnéticos, meridianos  numa  nova  e incógnita eclíptica,  quem sabe em torno de um outro sol  ainda  oculto, invisível, monstruosamente  imenso!

A sensação de estar sendo levado num salto quântico para uma  orbe e dimensão diferentes. Não caindo num abismo. Mas expelido e puxado  como motor de arraste, helicoidal e em espiral, tudo  ao mesmo tempo.

Como aquela árvore que se vê no horizonte da estrada, sendo arrastada, desfigurada, já desfolhando-se sob os  raios tétricos da tempestade… Tal qual  estranhas, altas e  transparentes  persianas  movendo-se  e  revelando  no sumidouro da mecânica celeste, um vazio sem fundo.

E eu tentando me orientar neste  assoalho   3D  do espaço-tempo terrestre,  pensando na chuva  de  astros  e  asteroides,   em  mil riscados, cadentes  letras  em sinais incandescentes, num  vaticínio de  cataclisma cabalístico – ruído de  grito seco e  céu sem eco.

Porque a humanidade quer  tecnologizar  tudo? Até os mais puros, singelos e simples sentimentos?

Na mesa, antes lauta, lugar de pouso das abelhas douradas e dos sobrevoos das borboletas azuis e amarelas, agora o zumbido de moscas verdes e escuras rondando…

Rastros apagados, atalhos achados – Carlos Walker

Como se os  5 sentidos, anteriormente  interligados aos nossos órgãos  e membros, estivessem aos poucos  se desconectando. E a estranha sensação em  ver fileiras  de  gentes foragidas, saindo de todos os vilarejos do mundo, e que irá perder aos poucos as suas culturas de origem, seus idiomas e dialetos, os cheiros, os sons,  que evocavam  imagens,  nascidas das  formas mais  sagradas de seus sonhos.

Porque não  gradualmente, lentamente pelos milênios?  Mas  assim, tão de repente e de uma vez, como estamos vendo. Porque a humanidade decidiu que precisa implodir e explodir a sua existência e o reino planetário de sua origem num último ato suicida?

Dizem os maquinais internautas que é o “Doomsday Clock”, o  relógio  simbólico e sincrônico,  criado por   cientistas atômicos para marcar a zero hora do fim deste  mundo atual. Ponteiros acertam, ajustam os últimos  macro-segundos: das mudanças climáticas com as armas atômicas e químicas, dos HAARPs  com os  ciberataques  mundiais, do  caos social, religioso e moral com o caos  econômico e político. Há 70  anos atrás   esse relógio nem existia, eles dizem. O  que  deflagrou   de 70 anos pra cá a chegada deste gigante vórtice  destruidor do  apocalipse? Aqueles  que estudam ciências politicas e sociais ou religiões  provavelmente  saberão  exatamente  o real motivo… Parece  até  aquele  filme  hollywoodiano,  assustador,  em que  se vê  a assombrosa invasão de  Aliens  reptilianos  sobre  a cidade de Jerusalém.

As degradações são indignas. Mas as extinções são terminais. Dentre  as  coisas colapsantes,  as  que mais me entristecem  são as  céleres   extinções. Tudo o que o tempo em feituras engendradas  impregnou de histórias a seu modo:  bichos – insetos, mamíferos, pássaros e peixes;  as plantas – recantos paradisíacos, biomas, os tipos de cultivos, as  frutas, legumes, cereais  e principalmente  as  línguas humanas  –  esses  rastros de histórias  decodificadas  em signos e sinais, criptografadas  em nossa  memória.

As formas de comunicações, os  sons vocálicos, idiomáticos repletos de  incríveis sotaques, informações  transmitidas  boca a boca, palavra por palavra,  através de étnicas e rítmicas  entonações,  tantas e tão ricas, saídas muitas vezes  das  fontes  e bosques inacessíveis, dos subterrâneos, dos  lugares secretos da Terra para  as mentes de seus habitantes…
Na última década, mais de 100  línguas desapareceram, outras 400 línguas estão sumindo e  apenas  60 línguas são faladas  por uma única pessoa  remanescente. O que contavam suas falas, seus sinais, a sua gramática? Que bio-sintaxe  brotava daquelas células linguísticas,  nas mãos de seus velhos sábios e  suas milenares sabedorias?

Segundo a Unesco, a cada 14 dias morre  em algum  lugar deste planeta, uma língua. Mais de 7 mil idiomas morrerão nos próximos anos; e com eles seus verbos substanciais;  e todos os múltiplos , incontáveis  apetrechos de adjetivos e utensílios semânticos raros. Também as  lendas, os  ritos e as  danças, toques de aviso  de tambores, gritos e assovios codificados, cantos e mantras, símbolos e yantras, desenhos mapeados. E  os receituários orais, nas pedras, na pauta de estrias das folhas, as  técnicas mágicas e ecossistêmicas, ainda imantadas, de primitiva ciência contendo  simultaneamente  a  mística e o noético. Não temos  a dimensão das perdas culturais e medicinais que sofreram nossas tribos indígenas. Pouco a pouco, os seres humanos vão  desfazendo  seus elos com a terra e em consequência com o universo.

Estamos perdendo as lições  ancestrais das antigas raças  e o tesouro de suas  psicologias.  Estamos aos poucos  desmemorizando   referências  e  aprendizados  especiais. Perdendo a mão na escrita, apagando os nossos rastros… Estamos vivendo como autômatos, digitando, cegos, computadores que nos espionam. À espera do  black out  fatal, que as hecatombes  naturais já  nos antecipam. E como será essa  tecno modernidade, sem luz, sem água, sem capa de ozônio, a mercê da barbárie coletiva e ignara  e das  alterações  climáticas? Será o Nada.

Na cerração da neblina e dos vapores industriais, entre  rios, mares, montanhas e cachoeiras, pelas calçadas urbanas, estradas, ruas, avenidas e vales  tudo vai sendo extinto e degradado. Será que teremos que reconstituir  somente com a mente e  com a sobra  dessas  maquinarias, de  validade já vencida, todas as sementes perdidas, todos os reinos moleculares? E  esperar  por  uma  desconhecida e perigosa  nova tabela periódica trazida quem sabe  por alienígenas?

Se poucos de nós  sobrarem pelos escombros, que rastro  vivente  manterá os nossos últimos traços humanos, que nos eram  tão diferenciais e  caros e  definiam  a mágica marca  de cada indivíduo? A se/mente de todas  as pa/lavras compondo um  ideograma, um dervixe semiótico, rodopiando  volátil  no  coração de  cada ente vivo. E nesta  dádiva , a constatação e o reconhecimento  de que somos realmente Devas, o deus em nós, em aparência  humana e  a serviço da sua  humanidade.

Rastros apagados, atalhos achados – Carlos Walker

É hora  de colher dicionários vetustos e perdidos. De lembrar  os  sabores esquecidos. Outro dia, pesquisando, lí  que um dos primeiros  sinais  de que alguém está prestes a morrer  é  através  da perda gradual  da sua capacidade olfativa. O laudo da morte: “ morreu porque  não sentia mais  os perfumes da vida ”. Se perdermos nuances de aromas e sabores, morreremos  sem  nos ater a nossa  alma-essência, arca pessoal e  translúcida de cada segundo/vivência. Cada coisa tem um  corpo com seu nome. O invólucro e seu conteúdo. O sânscrito e o aramaico. O que seria da borboleta sem o processo interior  e exterior da crisálida? Uma sociedade que não respeita a morte, que valor dará ao tempo e a natureza, aos seres  e a  existência? O que os pais em casa e os professores, na escola estão ensinando a essas crianças?

É hora de religar.  Não  com  religiões  tradicionais, corporativas baseadas em livros antigos e adulterados. Não com tablets-robôs, educadores binários. Mas criar uma religião  orgânica, com a lavra  dos pés, a enxada, a viola e o  lápis nas mãos. E  com músicas de todas as geografias cantadas  em voz alta. É hora de visualizar  parapsicologicamente  os nossos amigos, cúmplices de viagens  e anseios,  e projetar, construir  uma nova comunidade  de sistemas e valores reais. Coletar  palavras  bonitas de significado,  pinçadas de cada língua, idioma e cultura,  que tragam  recados implícitos e explícitos,  proferindo-as como se fossem  encantamentos. E ativar a  micro-roda  dos  nossos chacras ainda tão adormecidos.  Só assim espantaremos os  maus espíritos, esses  algozes  das extinções e do  futuricídio  e  desta  maneira  poder  transformar  a qualidade energética do mundo.

Como dizia o poeta  do linossigno, Cassiano Ricardo,  em seu poema sobre-vivente: –  “Se Deus já  não mais nos salva, nós,  os sobreviventes é que o salvaremos”.

Carlos Walker

* Carlos Walker ou simplesmente Wauke. Músico, Escritor e Astrólogo há 40 anos. Carlos Walker começa a cantar em 1969 através de Festivais no Brasil. Têm livros publicados e discos gravados. Gravou para trilhas sonoras de novelas da TV Globo… Seu primeiro disco (1975) reúne um elenco estelar: os arranjadores Laércio de Freitas, Alberto Arantes e o grande Radamés Gnatalli. O disco conta também com participações de Hélio Delmiro, João Bosco, Piry Reis, Peter Daulsberg, José Roberto Bertrami, Gilson Peranzetta, entre outros. O acalanto “Alfazema”, que consta deste primeiro disco, alcançou sucesso nacional com arranjo de Waltel Branco. Walker gravou com seu parceiro Piry Reis, para o selo Carmo, com participações de Egberto Gismonti, Romero Lubambo, Vanderlei Pereira, Mauro Senise. Um outro disco-referência, antecipador de tendências é ONDA (Wauke Celebrates Jobim) em que o cantor vem acompanhado pela Banda Hig Life: Nico Assumpção, Ricardo Silveira, Luís Avelar, Carlos Bala, Márcio Montarroyos e Marçalzinho. Este disco foi aplaudido pela crítica e pelo público. Walker é parceiro de Aldir Blanc, Piry Reis, Hermeto Paschoal, Lúcio Gregori. Conviveu na intimidade com João Gilberto, seu mestre influenciador, e teve em Elis Regina, a sua primeira incentivadora em 69. (fonte: letras)
* Escreve na Revista Prosa, Verso e Arte.

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Conheça mais sobre Carlos Walker:
Wauke Astrologia

 

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