©Vladimir Kush

Que livro é este? Talvez um complemento ao Rio do meio, de 1996. Escrito na mesma linha, retomando vários dos que são meus temas. Toda a minha obra é elíptica ou circular: tramas e personagens espiam aqui e ali com nova máscara. Fazem isso porque não se esgotaram em mim, ainda as vou narrando. Provavelmente assim continuarei até a última linha do derradeiro livro. Que livro é este, então? Eu não o chamaria de ensaios, porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são ensinamentos – que não os tenho para dar. Como em muitos campos de atividade, surgem novos modos de trabalhar ou criar que precisam de novos nomes. Cada um dê a esta narrativa o nome que quiser. Para mim é aquela mesma fala no ouvido do leitor, que tanto me agrada e faço em romances ou poemas – um chamado para que ele venha pensar comigo. O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar.
Encontro um amigo, pianista consagrado, e conto que estou começando um livro, mas como sempre no início de um novo trabalho ainda estou buscando “o tom” certo. Ele acha graça, então escritor procura o tom?
Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mesma coisa: encontrar o nosso tom. O da nossa linguagem, da nossa arte, e – isso vale para qualquer pessoa – o tom da nossa vida. Em que tom a queremos viver? (Não perguntei como somos condenados a viver). Em meios-tons melancólicos, em tons mais claros, com pressa e superficialidade, ou alternando alegria e prazer com momentos profundos e reflexivos. Apenas correndo pela superfície ou de vez em quando mergulhando em águas profundas. Distraídos pelo barulho em torno ou escutando as vozes nas pausas e nos silêncios – a nossa voz, a voz do outro. Nosso tom será o de suspeita e desconfiança ou serão varandas abrindo para a paisagem além de qualquer limite? Parte disso depende de nós.
No instrumento de nossa orquestração somos – junto com fatalidades, genética e acaso – os afinadores e os artistas. Somos, antes disso, construtores de nosso instrumento. O que torna a lida mais difícil, porém muito mais instigante. Sento-me aqui no computador e penso no tom deste livro, que preciso encontrar. Eu o sinto, neste momento inicial, um murmurar para o leitor: “Vem refletir comigo, vem me ajudar a indagar.” Embora seja uma fala íntima, este pode parecer em certos momentos um livro cruel: digo que somos importantes, e bons, e capazes, mas também digo que somos tantas vezes fúteis, que somos medíocres demasiadas vezes. Digo que poderíamos ser muito mais felizes do que geralmente nos permitimos ser, mas temos medo dos preços a pagar. Somos covardes. Mas há de ser um livro esperançoso: sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada “ser feliz”. (Vejo sobrancelhas arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação.) Cada um em seu caminho e com suas singularidades. Na arte como nas relações humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o partilhamento completo é inexequível. O essencial nem pode ser compartilhado: é descoberta e susto, glória ou danação de cada um – solitariamente. Porém numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu espectador ou seu leitor – como dois amantes. E assim, rasgando joelhos e mãos, a gente afinal vai. Por isso escrevo e escreverei: para instigar o meu leitor imaginário – substituto dos amigos imaginários da infância? – a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que estamos fazendo com o tempo que nos é dado. Pois viver deveria ser – até o último pensamento e o derradeiro olhar – transformar-se. O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora em que teria sido melhor falar. Escrevo continuamente sobre sermos responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece. Somos autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o tempo presente. Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais. De modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão contraditória quanto, instigantemente, somos.
Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar.
Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê. Se meu leitor e eu acertarmos nosso tom recíproco, este monólogo inicial será um diálogo – ainda que eu jamais venha a contemplar o rosto do outro que afinal se torna parte de mim. Então a minha arte terá atingido algum tipo de objetivo.

— Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006

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