Por que as crianças estão cada vez mais infelizes?

“Diálogo é cada vez menos presente nas relações humanas.”
– Renata Feldman*

“A vida para muitas crianças e jovens está no nível insuportável e, quando os escutamos, percebemos que eles falam sobre suas angústias sim. Talvez nós adultos não estejamos preparados para escutá-los, já que estamos tão imbuídos de que eles sejam lindos, felizes e bem sucedidos”
– Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, psicopedagoga e psicanalista.

Ao pensar na tristeza de crianças e adolescentes surgem muitas perguntas, dúvidas, medos e certo espanto. Afinal, são fases da vida que deveriam ser mais leves, apesar das incertezas descobertas com o amadurecimento.

Publicamos aqui excertos de uma longa reportagem realizada pela jornalista Lilian Monteiro/Uai Minas,de 8 de maio de 2017, com título: **“O que tem deixado crianças e adolescentes tão tristes e depressivos? Como resgatá-los? Especialistas orientam” quando da repercussão do jogo on-line Blue whale (Baleia Azul), uma competição cibernética.

O debate reacende diante da tragédia da última sexta-feira, 20 de outubro, na cidade de Goiânia (GO), em que um adolescente atira em 6 colegas dentro da escola, resultando na morte de 2 crianças e ferindo gravemente outras 4. É preciso conversar, refletir sobre o que está acontecendo com as nossas crianças e adolescentes.

Entre tantas, o bullying. Onde estão as falhas? O que é preciso corrigir? Como dar suporte emocional e equilíbrio racional para a criança e o adolescente? As perguntas são tantas…

Solidão, isolamento, falta de diálogo, angústia, ansiedade, bullying. São muitos os motivos que deixam crianças e adolescentes vulneráveis e desacreditados da vida

Hora de escutar
Ainda que cada um exerça e tenha um papel com pesos diferentes, pais e escola têm de assumir a responsabilidade de orientar crianças e jovens num mundo em transição contra o sofrimento psíquico

Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, psicopedagoga e psicanalista – foto Lenice Morici/Minas

Otimista por natureza, aquela pessoa que aposta no sujeito, na família, na escola e na humanidade, Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, psicopedagoga e psicanalista, acredita que passamos por uma transição no mundo e no Brasil, onde valores e crenças são revistos. “Toda crise nos fortalece, nos reorienta e nos exige determinação. Este momento é muito profícuo, se conseguirmos nos reposicionar frente aos nossos filhos. Não sou defensora do discurso vazio de sentido de fim dos tempos como: o mundo não tem mais jeito, os jovens não querem nada com nada, as famílias estão desestruturadas. Enfim, estamos onde deveríamos estar, colocamos filhos no mundo muitas vezes nos esquecendo de que querer ter um filho é diferente de ser pai e mãe. Portanto, o momento é de escutar as novas gerações e retomar o leme dessa viagem. Há algo de novo que teremos que decifrar. Por que um número tão grande de crianças e jovens se encontra em sofrimento psíquico?”

Jane conta que certa vez escutou uma historinha que a marcou muito. “Conta essa história que uma pessoa perguntou a um índio de 101 anos, um xamã, como ele fazia para que sua tribo o escutasse, e ele dizia: – Eu ensino meu povo. – O que você ensina? – Quatro coisas: primeiro, a escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não é nossa, nós é que somos da terra. Então, vale lembrar que somos seres históricos, marcados por várias esferas, psíquica, biológica, social e espiritual. A questão não é tão simples. Tudo está ligado a tudo. Sociedade, família, escola. Escutar os novos sintomas, […] o aumento de depressão em crianças e jovens, o abuso do álcool, o excesso de tecnologia, o desrespeito com os mais velhos, a busca incessante por um modelo de beleza, geralmente disseminado nas mídias, enfim, o que eles estão buscando? Talvez nem eles saibam e muito menos nós. Escuto muitas crianças e jovens que se queixam de não se sentir pertencentes àquela família, àquela escola, àquele grupo de amigos”, revela a psicopedagoga.

Para Jane Haddad, neste momento de tantos barulhos, sejam internos ou externos, vale aprender a ter uma escuta que ultrapasse a dicotomia, certo e errado. “Eles (crianças e jovens) precisam e devem ser escutados em sua dor de existir, isso é parte essencial de toda a nossa vida. Escutar o outro em suas questões é um bom começo para se ter em mente que somos todos parte de uma grande família chamada humanidade. E é por ela que devemos liderar. A vida para muitas crianças e jovens está no nível insuportável e quando os escutamos percebemos que eles falam sobre suas angústias sim. Talvez nós adultos não estejamos preparados para escutá-los, já que estamos tão imbuídos de que eles sejam lindos, felizes e bem-sucedidos.”

A psicopedagoga afirma que famílias e escolas são reflexos da sociedade em que estamos imersos e está faltando equilíbrio. Algumas pistas: “O momento é de transição e vamos decifrá-lo observando as referências familiares, os recasamentos, e como seus “novos” pais e mães entram nessas histórias. O impacto da tecnologia nas novas gerações, os fanatismos e discursos de ódio (embates sobre política, geralmente entre os pais), os pactos de amor baseados no ter, as promessas de satisfação a qualquer preço e principalmente a inabilidade de muitos adultos em colocar limites e uma certa pitada de frustração para seus filhos e filhas”.

Desejo, proteção e realidade

Jane Haddad explica que incomoda crianças e jovens não saber para onde eles vão e até onde eles têm que ser o que seus pais querem e desejam. “Certa vez, escutei de uma adolescente: ‘Jane, esse mundo em que vivo não foi o mundo que os meus pais me apresentaram, e agora não sei o que devo fazer. Não fui preparada para ele’. Uma jovem que até os 15 anos só andava com um motorista e sua “babá”, uma jovem que foi poupada (por amor) de qualquer contato com a vida real, cheia de percalços e faltas. Seus pais fizeram tudo em nome do amor pela filha. E agora? Como explicar que sua melhor amiga sofreu um acidente aos 14 anos e morreu? Como arrancá-la desse golpe? Sugiro que desaceleremos nossos ritmos frenéticos de vida e reflitamos que mundo é esse que estamos apresentando aos nossos filhos. Onde eles podem tudo, onde a falta não entra em lugar nenhum, onde tudo e todos passam a ter ganhos. Onde estão entrando as perdas e os fracassos da vida bem vivida e sentida?”

A psicopedagoga e psicanalista cobra a noção de autoridade. Ela acredita que, para boa parte dos pais contemporâneos, exercer autoridade é quase sinônimo de ter que agradar aos seus “príncipes” e “princesas”, abrindo assim um longo caminho recheado de capricho e desresponsabilização frente às obrigações e de suas necessidades imediatas. “Converso com pais que admitem saber que não estão conseguindo cumprir suas funções, já que trabalham muito e sentem ‘dó’ de ter que deixar seus filhos sozinhos. Nossos filhos não poderão pagar essa conta. O momento requer um rebalanço do nosso tempo, da qualidade dele e de que mundo estamos ofertando às novas gerações: um mundo apenas virtual (onde tudo é possível?) ou um mundo real, onde as coisas acontecem com suas dores reais?. As novas gerações estão buscando incansavelmente uma causa, algo que lhes faça sentido, algo que lhes sirva de referência e, acreditem, elas não vão parar”.

O que fazer?

Sugestão aos pais:

» Escutem seus filhos.
» “Percam” mais tempo com eles.
» Conheçam o que eles estão assistindo e frequentando on-line.
» Conversem e conversem.
» Autoridade é o primeiro passo para a conquista de uma liberdade responsável.
» Os pais devem buscar aplicativos de monitoramento aos acessos de seus filhos à internet. Isso já existe e é muito bem-vindo.
» Proporcionem momentos agradáveis, sem ser em bares ou mesmo na frente de telas.
» Em caso de separações, poupem seus filhos de ser pombo-correio, lembrem-se de que vocês são os adultos.
» Reinventem-se.

Sugestão aos professores:

» Abram rodas de conversas com os pais.
» Parem de preparar seus alunos para o futuro, existe um déficit de presente. Deem sentido em seus conteúdos.
» Abra o debate junto aos pais sobre segurança na internet. O momento é de sensibilização deste mundo em aberto por meio de um aparelhinho.
» Reconhecer seu aluno (a), sempre comparar ele com ele mesmo, ressaltar as características e seu crescimento sempre comparado com ele mesmo.
» Procurar saber o que seus alunos estão lendo, assistindo, vivenciando. E trazer dinâmicas nas quais os sentimentos possam ser colocados na roda, às vezes é importante por meio de “bilhetes” anônimos, uma caixinha…
» Procurar agregar à matemática pesquisas para leitura de gráficos com os temas: com quem moram, sua maior característica, rotinas… Assim obtemos uma leitura subjetiva bacana, além do perfil das famílias.
» Na educação infantil, sempre oferecer brinquedos com os quais as crianças possam simbolizar a relação familiar.
» No ensino médio, rodas de conversas com profissionais de diversos saberes sem o intuito de direcionar, e sim de escutar e abrir horizontes.
» Lembrar que o afeto adquire importância essencial para o processo ensino-aprendizagem. É na matriz simbólica estabelecida a partir da linguagem e da fala que constituirá ou não o sujeito. Dar voz e vez a cada um, permitir que eles se façam ser escutados, mesmo em seus silêncios.

Renata Feldman, psicóloga e psicoterapeuta humanista

Um convite a pensar

No silêncio do quarto, no choro rompido, no desânimo de acordar para mais um dia, crianças e adolescentes vêm adoecendo. *Renata Feldman, psicóloga e psicoterapeuta humanista com foco nas relações afetivas, alerta que diferente da tristeza que surge em determinados momentos, vivenciada como sentimento, reação, afeto ou estado de espírito, inerente à condição humana, a depressão é doença grave. “Apesar de não ‘combinar’ com o colorido universo infantil das brincadeiras, do riso e da fantasia, a patologia tem se manifestado de forma mais intensa nesses nossos tempos pós-modernos”, diz. Para além da genética e da hereditariedade como causas da depressão, ela ressalta que é preciso considerar a experiência de vida dessas crianças/adolescentes e a influência de fatores ambientais: ansiedade, estresse, perdas em geral (separação dos pais, mudança de escola ou cidade, doenças e mortes na família).

Renata Feldman avisa que a rotina intensa dos pais impede maior tempo de convívio, diálogo e brincadeiras em conjunto. “É preciso entrar no mundo deles, dar colo e acolhida, afeto e amparo. As mães, especialmente, precisam trabalhar sua culpa, traço significativo que detectei em minha pesquisa de mestrado (‘As várias faces da mãe contemporânea’) e reconhecer que fazem o que dão conta. E que compensá-los com presentes e concessões não preenche o vazio que se instala. É preciso dar amor, transmitir valores e colocar limites. Um caminho é compartilhar com os filhos sua história, suas dificuldades e conflitos quando crianças e adolescentes. E dizer-lhes que é possível crescer e transformar sempre: nenhum problema fica com a ‘imagem congelada’, nenhum problema dura para sempre.”

A psicóloga e psicoterapeuta revela que em seu consultório, no atendimento a crianças a partir de 9 anos, se depara com temas como medo, ansiedade, busca pela perfeição, autoestima em baixa, conflitos familiares e escolares, dificuldade de expressar e nomear sentimentos, déficit de atenção e depressão. “Com tanta dor internalizada, elas precisam falar, ouvir e acima de tudo se escutar. Precisam de uma escuta que as compreenda e de um afeto que as façam se sentir amparadas. Se não conversarem com seus pais, vão conversar com líderes de jogos digitais. Mas o problema não são esses jogos, mas como as crianças e adolescentes respondem a eles. Mentes sadias buscam, com certeza, outros tipos de caminhos e desafios para a sua vida.”

Em tempos pós-modernos, sentimos justamente a falta dele: do tempo. “Correria, agendas cheias, excesso de estímulos e atividades recaem também sobre o universo infantil, produzindo estresse e ansiedade, porta de entrada para a depressão”, avisa Renata Feldman ao lembrar que, com tantos estímulos e compromissos, há uma ênfase voltada para o pensamento, em detrimento da emoção e sua expressão.

“Regras a serem cumpridas, desempenhos a serem alcançados, pressões e cobranças permeiam o universo infantil e adolescente, gerando ansiedade, angústia e isolamento. Muitas vezes há um grito calado, abafado, dizendo ‘eu não quero, eu não dou conta’, e o resultado é uma sensação de fracasso que contribui para afetar a autoestima. E como as crianças têm mais dificuldade em reconhecer e nomear os sentimentos, vão sofrendo em silêncio ou, quando compartilham seu problema com os pais, costumam ouvir deles: ‘Isso é bobagem, chora não, vai passar!’. Muitas vezes, por não dar conta de verbalizar o que se passa no coração, psicossomatizam por meio de dores as mais diversas: dor de cabeça, dor de barriga, enjoos, náuseas, bruxismo etc. O que pode atrasar ou confundir o diagnóstico da depressão.”

Sem receita

A vontade de acertar não é garantia de sucesso. Mas os pais têm de assumir o papel de guardiões de seus filhos e estabelecer uma relação de verdade e confiança com eles

A vida reserva a todos momentos de acertos e desacertos. Muitas vezes, mesmo agindo para que tudo ocorra bem, são inevitáveis os tropeços. No entanto, só há dois caminhos: cultivar o sofrimento ou lutar para superá-lo. Essa dualidade faz parte da criação dos filhos. Não há uma receita pronta, única e garantida. Por isso, o desafio é enorme. O certo é que é preciso estar próximo deles, saber ouvi-los, tirar suas dúvidas, impor limites, dar liberdade e apoiá-los. Não é fácil.

Fonte: **Texto extraído da reportagem de Lilian Monteiro/Uai Minas, 8 de maio de 2017, título: “O que tem deixado crianças e adolescentes tão tristes e depressivos? Como resgatá-los? Especialistas orientam”. Leia o texto na integral no link. (acessado em 22.10.2017)

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