Paul Geraldy

alguns poemas de paul géraldy (edição bilíngue)

Serenidade
Que foi que você disse, há pouco, ao despedir-se?
Que nós não nos gostamos mais?… Gostamos, sim!
Você chorou? Por que você há de ser assim?…
Mas se eu digo que sim! Não ouviu o que eu disse?…
Seja mais simples, mais humana! Não complique
as coisas! Hoje em dia, entenda bem, já são
ridículas demais essas preocupações
de se escrever, sob pretexto de ser “chic”,
com maiúsculas só, Amor e Coração.
Usamos expressões inúteis, expressões
que atrapalham até… Nós dizemos: o meu,
o nosso Coração… E fazemos questão.
Se a gente não tivesse essa preocupação,
simplificava muito as coisas, compreendeu?
Não existe o que é nosso: existe eu e você.
Sim, um eu e um você sem nada de especial.
A gente embriaga-se de frases afinal,
e vive exagerando tudo, para quê?
Se a realidade nunca alcança uma ilusão…
Por favor, deixe o seu, deixe o meu Coração!
Vamos ser nós, só nós!… Sim, é verdade, agora,
quando a gente se vê, já não é como outrora,
não se embaraça mais… Mas é assim mesmo… O quê?
Mas não há nada, aí, de trágico! Você
e eu estamos mais calmos só. É natural.
É o hábito. Nós já nos habituamos. E,
se é sem paixão que nós nos vemos, cada qual,
quando o outro não está, sente-se mal, tão mal,
e aborrece-se, e sofre muito, e fica tão
desgraçado… Mas isto é alguma coisa, então!
.

Sérénité
Qu’est ce que tu m’as dit encore, en me quittant:
que’l on ne s’aimait plus? …Mais si, mais si, on s’aime!
tu as pleure? tu seras donc toujours la meme?
Mais puisque je te dis qu’on s’aime! tu m’entends?
Sois donc plus simple! il faut toujours que tu compliques
les choses! dis-toi donc qu à notre epoque, enfin,
cela devient par trop poncif et ridicule,
sous pretexte qu’on est des amants un peu fins,
d’ecrire Amour et Coeur avec des majuscules.
Nous employons des mots qui servent a rien,
et qui sont tres génants..et dangereux! On pose!
On dit: mon coeur , notre Coeur… On y tient.
je te jure que’l on s’en passerait tres bien,
et que ce la simplifierait beaucoup les choses.
il n y a pas nos Coeurs: il y a toi et moi, oui, toi et moi,
qui n’avons rien d’extraordinaire.
Mais on se grise avec des mots, on s’exagere
l’importance de tout, et puis on s’aperçoit
que la realite n’est pas a la hauteur…
je t’en supplie, laissons mon Coeur, laissons ton Coeur!
soyons nous!… Eh! bien, oui, c’est vrai, quand on se voit,
on n’est plus tres troublé.. C’est moins bien qu’autrefois.
tu ne t’affoles pas.. Moi non plus. Eh bien, quoi?
Il n y a là rien de bien tragique. Nous sommes
un peu calmés? Mais c’est tout naturel, cela.
C’est l’habitude. On est habitué. voilà.
Si nous nous retrouvons sans passion, en somme,
chaq un de nous s’ennuie quand l’autre n’est plus là.
On se croit malheureux, on n’a de gout à rien,
on se sent seul … Eh ! bien, mais c’est deja tres bien!
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Mea Culpa
Afinal, meu gesto doido,
meu erro, querida,
foi ter posto em você
todo o peso da minha vida.
Ao começar este amor
num coração tão diverso do meu
pensei poder pôr
todo o meu universo.
E é desse erro tão profundo
que vamos sofrendo então.
Não se pode pôr um mundo
sobre um coração.
O seu coração é sincero,
ardente comigo
Mas, só, será suficiente
para afastar-me dos parentes
e dos meus amigos?
.

Mea Culpa
Au fond, vois-tu, mon erreur,
ma grande folie,
c’est d’avoir charge ton coeur
de tout le poids de ma vie.
Le jours où l’on s’est aimé,
j’ai cru qu’en ce coeur offert
j’allais pouvoir enfermer
tout mon univers.
C’est de cette erreur profonde
que maintenant nous souffrons.
On ne fait pas tenir le monde
derrière un front.
Ton coeur est tendre et sincère,
ardent et soumis.
Mais, tout seul, pouvait-il faire
que je me passe de ma mère
et de me amis?
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Sabedoria
Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.
.

Sagesse
Ne soyons pas trop exigeants:
le Bonheur n’est pas accessible
à toutes les sortes de gens.
Il faudrait être moins sensible,
ou bien avoir beaucoup d’argent…
Ne demandons pas l’impossible.
Nous devons nous trouver contents
d’être les êtres que nous sommes:
des amoureux intermittents
qui sont fous l’un de l’autre en somme
de temps en temps.
C’est déja beaucoup d’être deux,
deux côte à cote sur la Terre,
qui peuvent souffrir entre eux
et vivre sans trop se taire.
Et si l’on est plus exigeant,
si l’on se sent en y songeant
l’âme encor trop célibataire,
c’est qu’on a mauvais caractère…
ou qu’on est trop intelligent.
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Derrota
Mas isso não é justo! Eu sou muito sensível…
Qualquer maldade que você me faça e que eu tente
retribuir, não consigo, é impossível!
Eu sofro mais do que você.
Você suporta bem os acintes sem fim,
os silêncios ruins e os olhares brutais…
Mas não seja cruel, tenha pena de mim!
Quando eu sofro, eu sofro demais…
… Mas, não! Não ouça! Eu confessei
ingênuo e fraco, uma cousa que eu não devia confessar…
Você sabe agora o meu fraco:
e vai talvez se aproveitar…
.

Défaite
Ce n’est pas juste enfin! Moi je suis trop sensible.
Quand tu m’as fait du mal, je tente bien parfois
de te le rendre. Mais ça n’est jamais possible!
Je souffre toujours plus que toi.
Toi, tu sais supporter les longues bouderies,
les regards durs et lês silences obstines…
Ah! ne sois pas méchante avec moi, ma chérie!
J’ai trop de chagrin quand j’em ai…
… Mais je suis fou! N’écoute pas! Je te confesse
naïvement de dangereuses vérités…
Tu sais à présent ma faiblesse:
tu vas peut-être em profiter…
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Meditação
A gente começa a amar,
por simples curiosidade,
por ter lido num olhar
certa possibilidade.
E como, no fundo, a gente
se quer muito bem,
ama quem ama somente
pelo gosto igual que tem.
Pelo amor de amar começa
a repartir dor por dor.
E se habitua depressa,
a trocar frases de amor.
E, sem pensar, vai falando,
de novo as que já falou.
E então continua amando
Só porque já começou.
.

Méditation
On aime d’abord par hasard,
par jeu, par curiosité,
pour avoir dans um regard
lu des possibilites.
Et puis comme au fond soi-même
on s’aime beaucoup,
se quelqu’un vous aime, on l’aime
par conformité de goût.
On se rend grâce, on s’invite
à partager ses moindres maux.
On prend l’habitude, vite,
d’échanger de petits mots.
Quand on a longtemps dit les mêmes,
on les redit sans y penser.
Et alors, mon Dieu, l’on aime
Parce qu’on a commencé.
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Expansões
Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse? …
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
Para que você sinta? …
O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito…
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer cousa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
Essas palavras e que eu diga,
E você saiba… Mas, o que?
Se eu soubesse falar
Como um poeta que sente,
Diria eu mais do que
Quando tomo entre as mãos
Essa cabeça linda
E cem mil vezes, loucamente,
Digo e repito
E torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!
.

Expansions
Ah! Je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou…
Je dis des moi, toujours lês mêmes…
Mais je vous aime! Je vous aime! …
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
Pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen…
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise…
Il faut que tu saches… Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus – résponds-moi –
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!…
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Confissão
Eu bem sei que, ciumento, exigente, impulsivo, irritado,
infeliz por cousas tão banais,
eu vivo a provocar discussões sem motivo…
Mas eu amo tão mal porque eu amo demais.
E atormento você, e persigo…
Você havia de ser melhor amada e mais feliz também,
se não fosse você a minha única alegria,
e se este amor não fosse o meu único bem.
.

Aveu
Je sais bien qu’irritable, exigeant et morose,
insatisfait, jaloux, malheureux pour un mot,
je te cherche souvent des querelles sans cause
Si je t’aime si mal, c’est que je t’aime trop.
Je te poursuis. Je te tourmente. Je te gronde…
Tu serais plus heureuse, et mieux aimée aussi,
si tu n’étais pour moi tout ce qui compte au monde,
et si ce pauvre amour n’était mon seul souci.
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Dúvida
Você diz: “Eu penso apenas em você
todo o dia.”
Mas pensa em mim muito menos
que no amor.
E diz: “Meus olhos magoados
que vivem só de desejo
passam horas acordados
quando me deito.”
Mas sua alma é mais satisfeita
do que louca.
Você pensa mais no beijo
que na boca.
Você não se inquieta
Tem certeza de que este bem
é somente seu e meu.
Mas o amor é uma necessidade.
Você gostaria mesmo menos de mim, muito menos
se eu não fosse eu?
.

Doute
Tu m’as dit: “Je pense à toi
tout lê jour.”
Mais tu penses moins à moi
que a l’amour.
Tu m’as dit: “Mes yeux mouillés
qui ne peuvent t’oublier
restent longtemps éveillés
lorsque je me couche.”
Mais ton coeur est moins grisé
qu’amusé.
Tu penses plus au baiser
qu’à la bouche.
Tu ne te tourmentes point.
Tu sais, sans chercher plus loin,
que nos joies sont bien les nôtres…
Mais l’amour est un besoin.
M’aimerais-tu beaucoup moins
si j’étais un autre?
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Sorte
Podíamos jamais nos conhecer talvez!
Meu amor, imagine, pois,
Tudo isso que a sorte nos fez
Para estarmos aqui, para sermos nós dois!
Nós fomos feitos um para o outro – diz você.
Mas pense no que foi preciso se interpor
de coincidências, para que
pudesse haver apenas isto: o nosso amor!
Que antes de unir nosso destino vagabundo,
vivemos longe um do outro, e sós, separados,
e que é tão longo o tempo, e que é tão grande o mundo,
e a gente era capaz de não se ter encontrado.
Você nunca pensou, meu romance bonito,
e que este amor correu de risco e indecisões
quando, ao encontro um do outro, em torno do infinito,
gravitaram à toa os nossos corações?
Você não sabe então que era incerta essa estrada
que conduziu nossos ideais,
e que um capricho, um quase nada
podia não ter nos juntado nunca mais?
Nunca lhe confessei esta coisa esquisita:
quando visitei você pela primeira vez,
a princípio nem vi que você era bonita…
não reparei quase em você.
Sua amiga me atraiu muito mais, com seu sorriso.
Foi só muito depois que cruzamos o olhar…
Nós podíamos não ter lido nada disso:
e você, não compreender, e eu, nem sequer ousar.
Que seria de nós se, aquela noite, alguém
viesse buscar você antes?
Ou se, entre luzes, você não corasse também
quando eu quis ajudar a pôr o seu manteau?…
Pois foram essas razões, lembra-se ainda?
Um atraso, um impedimento,
e nada existiria deste encantamento,
desta metamorfose linda!
Nunca aconteceria o amor que aconteceu!
Você não estaria agora em minha vida!…
Meu coração, meu coração, minha querida,
penso naquela doença
que você quase morreu…
.

Chance
Et pourtant, nous pouvions ne jamais nous connaitre!
Mon amour, imaginez-vous
tout ce que le Sort dut permettre
pour qu’on soit là, qu’on s’aime, et pour que ce soit nous?
Tu dis: “Nous étions nés l’un pour l’autre.” Mais pense
à ce qu’il dut falloir de chances, de concours,
de causes, de coïncidences,
pour réaliser ça, simplement, notre amour!
Songe qu’avant d’unir nos têtes vagabondes,
nous avons vécu seuls, separes, égarés,
et que c’est long, le temps, et que c’est grand, le monde,
et que nous aurions pu ne pas nous rencontrer.
As-tu jamais pense, ma jolie aventure,
aux dangers que courut notre pauvre bonheur
quand l’um vers l’autre, au fond de l’infinie nature,
mystérieusement gravitaient nos deux coeurs?
Sais-tu que cette course était bien incertaine
qui vers un soir nous conduisait,
et qu’un caprice, une migraine,
pouvaient nous écarter l’un de l’autre à jamais?
Je ne t’ai jamais dit cette chose inouïe:
lorsque je t’aperçus pour la première fois,
je ne vis pás d’abord que tu étais jolie.
Je pris à peine garde à toi.
Ton amie m’occupait bien plus, avec son rire.
C’est tard, très tard, que nos regards se sont croisés.
Songe, nous aurions pu ne pas savoir y lire,
Et toi ne pas comprendre, et moi ne pas oser.
Où serions-nous oe soir si, ce soir-là, ta mère
t’avait reprise um peu plus tôt?
Et si tu n’avais pas rougi, sous les lumières,
quand voulus t’aider à mettre ton manteau?
Car souviens-toi, ce furent là toutes les causes.
Un retard, um empêchement,
et rien n’aurait été du cher enivrement,
de l’exquise métamorphose!
Notre amour aurait pu ne jamais advenir!
Tu pourrais aujourd hui n’être pas dans ma vie!…
Mon petit coeur, mon coeur, ma petite chérie,
je pense à cette maladie
dont vous avez failli mourir…
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Final
Pois bem, adeus. Nada esqueceu?… Tem tudo já?
Não temos nada mais a dizer face a face.
Pode ir… Mas, não! Espere um pouco!
Como está chovendo!… Espere que isso passe.
Agasalhe-se bem! Está frio lá fora.
Você devia pôr um “manteau” mais pesado.
Já tem tudo o que é seu? Nada me resta agora?
As suas cartas? O retrato?…
Já que a gente se vai separar, olhe-me ainda um instante…
Mas sem chorar: seria idiota.
Como é horrível agora a lembrança remota
Do que nós fomos numa vida antiga e linda!
Nossas vidas se confundiram totalmente…
E agora cada qual retoma o seu caminho!
Nós vamos partir, cada qual mais sozinho,
Recomeçar, vagar por aí… Certamente,
Sofreremos também… Mas há de vir, depois
O esquecimento, a única cousa que perdoa.
E há de haver eu haver você; sermos dois;
Sermos isto: uma pessoa e outra pessoa.
Veja! Você já vai entrar no meu passado!
Havemos de nos ver na rua, casualmente…
Eu hei de olhar e de ir, sem ter atravessado…
Você irá com vestidos novos, diferentes…
E viveremos nossas vidas paralelas…
E amigos contarão a você minha história…
E eu direi de você, que foi a minha glória,
A minha força e a minha fé: “Como vai ela?”
O nosso amor… era esta cousa sem valor!…
No entanto, que loucura a dos primeiros dias!
Lembra-se bem? Que apoteose, que magia!…
Se nos amávamos!… E era isto o nosso amor!
Mesmo nós, até nós então, quando dizemos “eu te amo!”,
O que é que vale o que estamos dizendo?…
É humilhante, meu Deus!… Somos todos os mesmos?
Iguais aos outros, nós?… Mas, como está chovendo!
Você não sai com um tempo assim… Fique comigo!
Fique! Vamos viver – não sei… – mais conformados…
Os nossos corações, embora bem mudados,
Se reforçam talvez às luzes do sonho antigo…
Vamos tentar. Ser bons, de novo. Que remédio!
Podem falar: a gente tem seus hábitos…
Então? Não vá! Fique! E retome ao meu lado o seu tédio,
Eu retomo ao seu lado a minha solidão.
.

Finale
Alors, adieu. Tu n’oublies rien?… C’est bien. Va-t’em.
Nous n’avons plus rien à nous dire. Je te laisse.
Tu peux partir… Pourtant, attends encore, attends.
Il pleut… Attends que cela, cesse.
Couvre-toi bien surtout! Tu sais qu’il fait très froid
dehors. C’est um manteau d’hiver qu’il fallait mettre…
Je t’ai bien tout rendu? Je n’ai plus rien à toi?
Tu as pris ton portrait, tes lettres?…
Allons! Regarde-moi, puisqu’on va se quitter…
Mais prends garde! Ne pleurons pas! Ce serait bete.
Quel effort il faut faire, hein? dans nos pauvres têtes,
pour revoir les amants que nous avons été!
Nos deux viés s’étaient l’une à l’autre données toutes,
pour toujours… Et voici que nous les reprenons!
Et nous allons partir, chacun avec son nom,
recommencer, errer, vivre ailleurs… Oh! sans doute,
nous souffrirons… pendant quelque temps. Et puis, quoi!
l’oubli viendra, la seule chose qui pardonne.
Et il y aura toi, et il y aura moi,
at nous serons parmi les autres deux persones.
Ainsi, déjà, tu vas entrer dans mon passe!
Nous nous rencontrerons par hasard, dans lês rues.
Je te regarderai de loin, sans traverser.
Tu passeras avec des robes inconnues.
Et puis nous resterons sans nous voir de longs móis.
Et des amis te donneront de mes nouvelles.
Et je dirai de toi qui fus ma vie, de toi
qui fus ma force et ma douceur: “Comment va-t-elle?”
Notre grand coeur, c’était cette petite chose!
Étions-nous assez fous, pourtant, les premiers jours!
Tu te souviens, l’enchantement, l’apothéose?
S’aimait-on!… Et voilà: c’était ça, notre amour!
Ainsi nous, même nous, quand nous disons “je t’aime”,
voilá donc la valeur que cela a! Mon Dieu!
Vrai, c’est humiliant. On est donc tous les mêmes?
Nous sommes donc pareils aux autres?… Comme il pleut!
Tu ne peux pas partir par ce temps… Allons, reste!
Oui, reste, va! On tâchera de s’arranger.
On ne sait pas. Nos coeurs, quoiqu’ils aient bien changé,
se reprendront peut-être au charme des vieux gestes.
On fera son possible. On sera bon. Et puis,
on a beau dire, au fond, on a des habitudes…
Assieds-toi, va! Reprends près de moi ton ennui
Moi près de toi je reprendrai ma solitude.
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Abat-jour
Você pergunta porque eu fico sem falar…
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar
porque é noite… e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!…
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim…
Abaixe um pouco mais o “abat-jour”! Está bem…
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos veem,
quanto menos se veem as coisas …
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia…
Abaixe ainda mais o “abat-jour”.
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!…
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café… Não podia deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!… E feche a porta!…
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer… agora o café? Se você preferir…
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!… Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que eu prove por
você?… Aqui está, minha adorada…
Mas que escuro! Não se enxerga nada…
Levante um pouco esse “abat-jour”.
.

Abat-jour
Tu demandes pourquoi je reste sans rien dire ?
C’est que voici le grand moment,
l’heure des yeux et du sourire,
le soir, et que ce soir je t’aime infiniment !
Serre-moi contre toi. J’ai besoin de caresses.
Si tu savais tout ce qui monte en moi, ce soir,
d’ambition, d’orgueil, de désir, de tendresse, et de bonté !…
Mais non, tu ne peux pas savoir !…
Baisse un peu l’abat-jour, veux-tu ? Nous serons mieux.
C’est dans l’ombre que les coeurs causent,
et l’on voit beaucoup mieux les yeux
quand on voit un peu moins les choses.
Ce soir je t’aime trop pour te parler d’amour.
Serre-moi contre ta poitrine!
Je voudrais que ce soit mon tour d’être celui que l’on câline…
Baisse encore un peu l’abat-jour.
Là. Ne parlons plus. Soyons sages.
Et ne bougeons pas. C’est si bon
tes mains tièdes sur mon visage!…
Mais qu’est-ce encor ? Que nous veut-on?
Ah! c’est le café qu’on apporte!
Eh bien, posez ça là, voyons!
Faites vite!… Et fermez la porte!
Qu’est-ce que je te disais donc?
Nous prenons ce café… maintenant? Tu préfères?
C’est vrai : toi, tu l’aimes très chaud.
Veux-tu que je te serve? Attends! Laisse-moi faire.
Il est fort, aujourd’hui. Du sucre? Un seul morceau?
C’est assez? Veux-tu que je goûte?
Là! Voici votre tasse, amour…
Mais qu’il fait sombre. On n’y voit goutte.
Lève donc un peu l’abat-jour.
– Paul Géraldy – Eu e Você (Toi et Moi). poemas. [tradução de Guilherme de Almeida; ilustrações de Darcy Penteado]. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932; 1986.

§

Paul Gérald e Colette

BREVE BIOGRAFIA
Paul Géraldy, pseudônimo de Paul Lefèvre, nasceu em 12 de maio de 1885, em Paris. Foi um dos grandes poetas da França do século XX. Sua obra passou a ser cultuada por gerações de jovens apaixonados, apesar de ser pouco exaltada e reconhecida pelos grandes críticos. Suas palavras seduzem pelo amor psicológico, a paixão erótica e latente, diluída em um suave humor íntimo e emotivo.

Poeta e dramaturgo modernista, Paul Géraldy revela um universo expansivo sobre as sutilezas psicológicas das relações amorosas, familiares e existencialistas, refletidas em um momento sublime da sociedade francesa, enlaçado nos períodos de paz entre as duas grandes guerras mundiais.
No teatro, Paul Géraldy lançou a sua visão pessoal sobre a família e o matrimônio, descrevendo a burguesia intelectual francesa da primeira metade do século XX. Fazem parte da sua dramaturgia as peças “Aimer” (1921), “Robert et Marianne” (1925) e “Duo, d’Après Colette” (1938). Sua obra é repleta dos sentimentos vividos no cotidiano, sobressaindo sempre o amor passional, os sentimentos aflorados que assustam os homens e fascinam as mulheres. O seu estilo atraiu um grande público feminino, que lhe possibilitou o sucesso.
Mas a maior consagração de Paul Géraldy veio com a poesia; através do livro “Eu e Você” (Toi et Moi), publicado em 1912, que se tornou um clássico e uma ode à paixão. De linguagem delicada e sentimentos sempre presentes no homem moderno, a obra traz uma conversa íntima entre um casal apaixonado, revelando todos os segredos do coração, todas as inquietudes dos relacionamentos diante do cotidiano. Versos livres que descrevem de forma fascinante, erótica, sensual e corajosa o amor entre duas pessoas.
:: Fonte biográfica: Virtualiaomanifesto

© Obra em domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

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