Sertão, de Marcelo Toledo

“Não me surpreenderia, com efeito, fosse
verdade o que disse Eurípedes: Quem sabe a vida
é uma morte, e a morte uma vida?”
Platão, “Górgias”.

Sei, irmãos, que todos já existimos, antes, neste ou em diferentes lugares, e que o que cumprimos agora, entre o primeiro choro e o último suspiro, não seria mais que o equivalente de um dia comum, senão que ainda menos, ponto e instante efêmeros na cadeia movente: todo homem ressuscita ao primeiro dia.
Contudo, às vezes sucede que morramos, de algum modo, espécie diversa de morte, imperfeita e temporária, no próprio decurso desta vida. Morremos, morre-se, outra palavra não haverá que defina tal estado, essa estação crucial. É um obscuro finar-se, continuando, um trespassamento que não põe termo natural à existência, mas em que a gente se sente o campo de operação profunda e desmanchadora, de íntima transmutação precedida de certa parada; sempre com uma destruição prévia, um dolorido esvaziamento; nós mesmos, então, nos estranhamos. Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até à hora da liberação pelo arcano, a além do Lethes, o rio sem memória. Porém, todo verdadeiro grande passo adiante, no crescimento do espírito, exige o baque inteiro do ser, o apalpar imenso de perigos, um falecer no meio de trevas; a passagem. Mas, o que vem depois, é o renascido, um homem mais real e novo, segundo referem os antigos grimórios. Irmãos, acreditem-me.
Não a todos, talvez, assim aconteça. E, mesmo, somente a poucos; ou, quem sabe, só tenham noção disso os já mais velhos, os mais acordados. O que lhes vem é de repente, quase sem aviso. Para alguns, entretanto, a crise se repete, conscientemente, mais de uma vez, ao longo do estágio terreno, exata regularidade, e como se obedecesse a um ciclo, no ritmo de prazos predeterminados — de sete em sete, de dez em dez anos. No demais, é aparentemente provocado, ou ao menos assinalado, por um fato externo qualquer: uma grave doença, uma dura perda, o deslocamento para lugar remoto, alguma inapelável condenação ao isolamento. Quebrantado e sozinho, tornado todo vulnerável, sem poder recorrer a apoio algum visível, um se vê compelido a esse caminho rápido demais, que é o sofrimento. Tenhamo-nos pena, irmãos, uns dos outros, reze-se o salmo Miserere. Todavia, ao remate da prova, segue-se a maior alegria. Como no de que, ao diante, vos darei notícia.
Aconteceu que um homem, ainda moço, ao cabo de uma viagem a ele imposta, vai em muitos anos, se viu chegado ao degredo em cidade estrangeira. Era uma cidade velha, colonial, de vetusta época, e triste, talvez a mais triste de todas, sempre chuvosa e adversa, em hirtas alturas, numa altiplanície na cordilheira, próxima às nuvens, castigada pelo inverno, uma das capitais mais elevadas do mundo. Lá, no hostil espaço, o ar era extenuado e raro, os sinos marcavam as horas no abismático, como falsas paradas do tempo, para abrir lástimas, e os discordiosos rumores humanos apenas realçavam o grande silêncio, um silêncio também morto, como se mesmo feito da matéria desmedida das montanhas. Por lá, rodeados de difusa névoa sombria, altas cinzas, andava um povo de cimérios. Iam, por calhes e vielas, de casas baixas, de um só pavimento, de telhados desiguais, com beirais sombrios, casas em negro e ocre, ou grandes solares, edifícios claustreados (claustrados), vivendas com varandal à frente, com adufas nas janelas, rexas, gradis de ferro, rótulas mouriscas, mirantes, balcões, e altos muros com portinholas, além dos quais se vislumbravam os pátios empedrados, ou, por lúgubres postigos, ou por alguma porta deixada aberta, entreviam-se corredores estreitos e escuros, crucifixos, móveis arcaicos. Toda uma pátina sombria. Passavam homens abaçanados e agudos, em roupas escuras, soturnas fisionomias, e velhas de mantilhas negras, ou mulheres índias, descalças, com sombreiros, embiocadas em xales escuros (pañolones), caindo em franjas. E os arredores se povoavam, à guisa de ciprestes, de filas negras de eucaliptos, absurdos, com sua graveolência, com cheiro de sarcófago.
Ah, entre tudo, porém, e inobstante o hálito glacial com que ali me recebi, de começo não pude atinar a ver o transiente rigor do que me aguardava, por meu clã-destino, na mal-entendida viagem, in via, e que era a absoluta cruz, a vida concluída, para além de toda conversação humana, o regresso ao amargo. É que o meu íntimo ainda viera pujante, quente, rico de esperanças e alegrias.

Tanto cheguei…
Mas, o frio, que era insofrível. Aqui longínquo, tão só, tão alto, e me é dado sentir os pés frios do mundo. Não sou daqui, meu nome não é o meu, não tenho um amor, não tenho casa. Tenho um corpo?
Assustou-me, um tanto, sim, a cidade, antibórea, cuja pobreza do ar exigiria, para respirar-se, uma acostumação hereditária. Nem sei dizer de sua vagueza, sua devoluta indescriptibilidade. Esta cidade é uma hipótese imaginária… Nela estarei prisioneiro, longamente, sob as pedras quase irreais e as nuvens que ensaiam esculturas efêmeras. “En la cárcel de los Andes…” — dizem-se os desalentados viajantes que aqui vêm ter, e os velhos diplomatas, aqui esquecidos. Os Andes são cinéreos, irradiam a mortal tristeza. Daqui, quando o céu está limpo e há visibilidade, nos dias de tempo mais claro, distinguem-se dois cimos vulcânicos, de uma alvura de catacumba, esses quase alcançam o limite da região das neves perpétuas. E há, sobranceiros e invisíveis, os páramos — que são elevados pontos, os nevados e ventisqueiros da cordilheira, por onde têem de passar os caminhos de transmonte, que para aqui trazem, gelinvérnicos! Os páramos, de onde os ventos atravessam. Lá é um canil de ventos, nos zunimensos e lugubrúivos. De lá o frio desce, umidíssimo, para esta gente, estas ruas, estas casas. De lá, da desolação paramuna, vir-me-ia a morte. Não a morte final — equestre, ceifeira, ossosa, tão atardalhadora. Mas a outra, aquela.
Há sonhos premonitórios. Esta cidade eu já a avistara, já a tinha conhecido, de antigo, distante pesadêlo.
E, contudo, tinha de acontecer assim; agora, ouso que sei. Houve, antes, simples sinais, eu poderia tê-los decifrado: eram para me anunciar tudo, ou quase tudo; até, quem sabe, o prazo em algarismos. Não me achasse eu tão ofuscado pelas bulhas da vida, de engano a engano, entre passado e futuro — trevas e névoas — e o mundo, maquinal.
Mas eu vinha bem-andante, e ávido, aberto a todas as alegrias, querendo agarrar mais prazeres, horas de inteira terra. Por que vim? Foi-me dado, ainda no último momento, dizer que não, recusar-me a este posto. Perguntaram-me se eu queria. Ante a liberdade de escôlha, hesitei. Deixei que o rumo se consumasse, temi o desvio de linhas irremissíveis e secretas, sempre foi minha ânsia querer acumpliciar-me com o destino. E, hoje em dia, tenho a certeza: toda liberdade é fictícia, nenhuma escôlha é permitida; já então, a mão secreta, a coisa interior que nos movimenta pelos caminhos árduos e certos, foi ela que me obrigou a aceitar. O mais-fundo de mim mesmo não tem pena de mim; e o mais-fundo de meus pensamentos nem entende as minhas palavras.
Vim, viajei de avião, durante dias, com tantas e forçadas interrupções, passando por seis países. Por sobre a Cordilheira: muralhão de cinzas em eterno, terrível deserto soerguido. De lá, de tão em baixo, daquela lisa cacunda soturna, eu sentia subir no espaço um apelo de negação, maldição telúrica, uma irradiação de mal e despondência; que começava a destruir a minha alegria. Ali, em antros absconsos, na dureza da pedra, no peso de orgulho da terra, estarão situados os infernos — no “sono rancoroso dos minérios”?
Na penúltima parada, em outra capital, onde passei uma noite, eu tinha um conhecido, ele veio receber-me, convidou-me para jantar, acompanhou-me ao hotel. À hora de nos despedirmos, já estava ele à porta, e mudou súbito de ideia, voltou, desistiu de ir-se, subiu comigo ao quarto, quis fazer-me companhia. Que teria ele visto, em meu ar, meu rosto, meus olhos? — “Você não deve dormir, não precisa. Conversemos, até à hora de sair o avião, até à madrugada…” — assim ele me disse. Não quis beber, ele que apreciava tanto a bebida, e tinha fama nisso. Falava de coisas jocosas, como quem, por hábito e herança, tenta constantemente recalcar a possibilidade de dolorir íntimo, que sempre espreita a gente. Teria em si alarmes graves. — “Vamos fazer subir pão, manteiga e mel: cada colherinha de mel, diz-se, dá a substância de uma xávena de sangue”… — ele falou. Passamos aquelas tolas horas a tomar café com leite, e a conversar lembranças sem cor, parvoíces, anedotas. Tudo aquilo não seria igual a uma despedida vazia, a um velório?
O meu. Ali, à hora, eu não sabia, mas já beirava a impermanência. Como dum sonho — indemarcáveis bordas. Aquele companheiro ficou para trás. Eu viajei mais.
E me é singular lembrar como, já na última escala, já na véspera de chegar ao ponto de meu destino indefinitivo, ali em uma cidade toda desconhecida, já ante o fim — travei ainda conversa cordial com um homem, também esse desconfiou em meu aspecto algo de marcado por não olhar, não mãos. Esse homem veio ver-me ao hotel, estávamos no bar, aceitou uma bebida. O que falava, soava-me como para algum outro, que não para mim. — “¿Y qué?…” Assustara-se. — “Lo que sea, señor…” O homem notara o que para mim ficaria despercebido. O que deve de ter durado fração de segundo. A terra tremera. Vi-lhe, no olhar, o espanto. Um mínimo terremoto. Mas um quadro ainda oscilava, pouquíssimo, na parede. — “Lo ha sentido, Don…?” A terra, sepultadora. O homem se despedia. — “Me alegro, mucho.” Esse homem era alto empregado nas Aduanas, as menções em meu passaporte haviam-no impressionado. Agora, sei, penso. Recordo-me do trecho de um clássico, em que se refere a um derradeiro ponto de passagem — pela que é a “alfândega das almas”…
Com que assim, agora aqui estou. Aqui, foi como se todo o meu passado, num instante, relance, me aguardasse; para deixar-me, de dolorosa vez. O que eram gravíssimas saudades. Recordo-me. A cidade era fria. Aqui, tão alto e tão em abismo, fez-se-me noite. Cheguei. Era a velha cidade, para meu espírito atravessar, portas (partes) estranhas. Transido, despotenciado, prostrado por tudo, caí num estado tão deserto, como os corpos descem para o fundo chão. E tive de ficar conhecendo — oh, demais de perto! — o “homem com a semelhança de cadáver”. Esse, por certo eu estava obrigado a defrontar, por mal de pecados meus antigos, a tanto o destino inflexível me obrigava.
Três dias passei, porém, sem que o mal maior me vencesse. Apenas vivia. Foi na quarta manhã que Deus me aplicou o golpe-de-Job. Nessa manhã, acordei — asfixiava-me. Foi-me horror. Faltava-me o simples ar, um peso imenso oprimia-me o peito. Eu estava sozinho, a morte me atraíra até aqui — sem amor, sem amigos, sem o poder de um pensamento de fé que me amparasse. O ar me faltava, debatia-me em arquejos, queria ser eu, mal me conseguia perguntar, à amarga borda: há um centro de mim mesmo? Tudo era um pavor imenso de dissolver-me. Aquilo durou horas?
Quando alcancei o botão da campainha, a camareira me acudiu. Ela era velha e bondosa. Sorriu, tranquilizou-me, já assistira à mesma cena, com outros hóspedes, viajantes estrangeiros, não havia que temer, não havia perigo. Era o soroche, apenas, o mal-das-alturas. Chamaria o médico. E eu, reduzido a um desamparo de menino indefeso — meu quarto era no quinto andar — perguntei: — “Será, se eu me mudar para o andar térreo, que melhoro?” Ela riu, comigo, tomou-me a mão. Essa mulher sabia rir com outrem, ela podia ajudar-me a morrer.
Chamou o médico, um doutor que ela dizia ser o melhor — clandestino e estrangeiro. Moço ainda, e triste, ele carregava longos sofrimentos. Era um médico judeu, muito louro, tivera de deixar sua terra, tinha mulher e filhos pequenos, mal viviam, quase na ínfima miséria. — “Aqui, pelo menos, a gente come, a gente espera, em todo o caso. Não é como nos Llanos…” Nos primeiros tempos, fora tentar a vida num lugarejo perdido nas tórridas planuras, em penível desconforto, quase que só de mandioca e bananas se alimentavam. Lá, choravam. Longe, em sua pátria, era a guerra. Homens louros como ele, se destruíam, de grande, frio modo, se matavam. Ali, nos Llanos, índios de escuros olhos olhavam-no, tão longamente, tão afundadamente, tão misteriosamente — era como se o próprio sofrimento pudesse olhar-nos. Ao sair, apertamo-nos as mãos. Era uma maneira viril e digna de chorarmos, um e outro.
Não, eu não tinha nada grave, apenas o meu organismo necessitava de um período, mais ou menos longo, de adaptação à grande altitude. Nenhuma outra coisa estava em meu poder fazer. E esse ia ser um tempo de deperecimento e consumpção, de m a r a s m o. Teria de viver em termos monótonos, totalidade de desgraça. Meus maiores inimigos, então, iriam ser a dispneia e a insônia. Sob a melancolia — uma águia negra, enorme pássaro. Digo, sua sombra; de que? Como se a minha alma devesse mudar de faces, como se meu espírito fosse um pobre ser crustáceo. Os remédios que me deram eram apenas para o corpo. E, mais, eu deveria obrigar-me, cada manhã, a caminhar a pé, pelo menos uma hora, esse era o exercício de que carecia, o prêço para poder respirar um pouco melhor. Disseram-me, ainda, e logo o comprovei, que, nessas caminhadas, por vezes sobrevir-me-ia automático choro, ao qual não devia resistir, mas antes ativar-me a satisfazê-lo: era uma solução compensadora, mecanismo de escape. Um pranto imposto.
Sempre se deve entender que, com tanto, os dias se passaram. E nunca mais iria eu poder sair dali? Dessentia-me. Sentia-me incorpóreo, sem peso nem sexo; ultraexistia. Sentia o absoluto da soledade. Todo os que eram meus, que tinham sido em outro tempo, tão recente, algum tanto meus — parentes, amigos, companheiros, conhecidos — haviam ficado alhures, imensamente em não, em nada, imensamente longes, eu os tinha perdidos. E tudo parecia para sempre, trans muito, atrás através. Sei que era a morte — a morte incoativa — um gênio imóvel e triste, com a tocha apagada voltada para baixo; e, na ampulheta, o vagaroso virar do tempo; e, eu, um menino triste, que a noite acariciava.
Soledade. E de que poderiam aliviar-me, momento que fosse, qualquer um de entre os milhares de pessoas desta cidade, e, delas, as pouquíssimas com quem frequentarei, se não os sinto iguais a mim, pelas vidraças das horas? Passo por eles, falo-lhes, ouço-os, e nem uma fímbria de nossas almas se roça; tenta-me crer que nem tenham alma; ou a não terei eu? Ou será de outra espécie. Estarão ainda mais mortos que eu mesmo, ou é a minha morte que é mais profunda? Ah, são seres concretos demais, carnais demais, mas quase pétreos, entes silicosos. Sobremodo, assusta-me, porque é da minha raça, o Homem com o aspecto de cadáver. Ele, é o mais morto. Sua presença, obrigatória, repugna-me, com o horror dos horrores infaustos, como uma gelidez contagiante, como uma ameaça deletéria, espantosa. Tenho de sofrê-la, ai de mim, e é uma eternidade de torturas.
Por certo tempo, cumpro, todas as manhãs saio para caminhar. Procuro as ruas mais antigas, mais pobres, mais solitárias — onde, se acaso as lágrimas me acometerem, minha pessoa seja menos notada. A esta hora, os velhos sinos solenizam. Por vez, há procissões, desfilam confrarias, homens todo ocultos, embiocados em suas opas e capuzes, cuculados, seguindo enormes santos em andores absurdos. Gostaria de segui-los, no rumo que levam luz-me, para um fim de redempção, uma esperança de Purgatório. Porém, o choro me vem, tenho de ocultar-me numa betesga, entre portas. Ora, ante uma casa, levei a mão para tocar a aldrava, uma aldrava em forma de grifo. Quem podia morar ali? Eu estava implorando socôrro. Toquei, toquei. Ali, descobri a unidade de lugar: aquela casa estava há milhões de anos desabitada, de antanho e ogano. Então, mais adiante, penetrei numa igreja, San Francisco ou San Diego, todas têm a mesma cor de pedra parda, só uma torre, assim o grande terremoto de há quase dois séculos as poupou. Entrei, na nave ampla. Dentro de uma igreja é que o silêncio é coisa quebrável; e se sacodem, como cordas, largas tosses longínquas. Saí, a pressa com que saí, eu me lembrava, na penumbra, do perfil sinistro dos campanários. Um morto teme as pessoas, as coisas. Lembro-me de que, faz poucos dias, um pobre moço estudante foi morto, quando passava despreocupadamente diante da catedral, por uma grande laje que se desprendeu e caíu, justo nos milímetros daquele instante, da cimeira da torre-mór, lá de cima; como nos versos de Bartrina — por que foi? Agora, eu ofegava mais, faltavam-me os pulmões, na fome espacial dos sufocados. A cidade era fria. Por onde me metera, que agora me acho perdido, sem saber de meus passos? Indaguei, de um passante. — “Alli, no más…” — me respondeu. — “Allisito, no más, paisano…” — quis acrescentar um outro. Eles se equivocaram, tinham entendido que eu quisesse saber onde ficava a Plaza de Toros. Eu caminhava, e me admirando de, a cada momento, ser mesmo eu, sempre eu, nesta vida tribulosa. O odor dos eucaliptos trouxe-me à lembrança o Homem com o ar de cadáver — ai de mim! — com ele tenho de encontrar-me, ainda hoje, e daqui a pouco, e nada poderei fazer para o evitar, meu fado é suportá-lo. A cidade, fria, fria, em úmidos ventos, dizem que esses ares são puríssimos, os ventos que vêm dos páramos. Toda esta cidade é um páramo. No portão grande de um convento, entrei, achei-me num pátio claustrado, uma freira de ar campesino, ainda moça, estava lá, com duas órfãs. Ela perguntou, chamou-me de Su Señoría Ilustrísima, se eu viera pelos doces, assim vendiam doces, caseiros, fabricados ali manibus angelorum. Embrulhou os doces, em folha de jornal. Estendi a mão, pareceu-me que num daqueles jornais eu devesse ler algo, descobrir algo para mim importante. — “Ah, no, que eso no!” — atalhou-me ela; a boa monja escondia de mim aquela parte do jornal, onde havia anúncios com figuras de mulheres, seduções da carne e do diabo. Eu não queria os doces, queria que ela me abençoasse, como se fosse minha irmã ou mãe, ensinasse-me por que estreitos umbrais poder sair do solar do inferno, e de onde vem a serenidade? — uma fábula que sobrevive. Riu, tão pura, tão ingênua, quase tola: — “Qué chirriados son los estrangeros!…” Daquele pátio, eu trouxe novo desalento, uma noção de imobilidade. E o Homem com fluidos de cadáver espera-me, sempre; nunca deixará de haver? E o negrêgo dos eucaliptos, seu evocar de embalsamamentos, as partículas desse cheiro perseguem-me, como que formam pouco a pouco diante de meus olhos o quadro de Boecklin, “A Ilha dos Mortos”: o fantasmagórico e estranhamente doloroso maciço de ciprestes, entre falésias tumulares, verticais calcareamente, blocos quebrados, de fechantes rochedos, em sombra — para lá vai, lá aporta a canoa, com o obscuro remador assentado: mas, de costas, de pé, todo só o vulto, alto, envolto na túnica ou sudário branco — o que morreu, o que vai habitar a abstrusa mansão, para o nunca mais, neste mundo. Ah, penso que os mortos, todos eles, morrem porque quiseram morrer; ainda que sem razão mental, sem que o saibam. Mas, o Homem com a presença de cadáver ignora isso: — “Eu não compreendo a vida do espírito. Sem corpo… Tudo filosofia mera…” — ainda ontem ele me disse. Ele é internamente horrendo, terrível como um canto de galo no oco da insônia; gelam-me os hálitos de sua alma. Algo nele quer passar-se para mim; como poderei defender-me? Ele é o mais morto, sei; o mais, de todos. É o meu companheiro, aqui, por decreto do destino. Sei: ele, em alguma vida anterior, foi o meu assassino, assim ligou-se a mim. E, porcerto, aspira, para nós ambos, a uma outra morte, que sempre há mais outra: mais funda, mais espessa, mais calcada, mais embebida de espaço e tempo. Para me esquecer, por um momento, daquele Homem, entrei numa casa, comprei um livro, um passar de matérias. Um livro, um só. Suponho seja de poesias. Será o Livro. Não posso ainda lê-lo. Se o lesse, seria uma traição, seria para mim como se aderisse mais a tudo o que há aqui, como se me esquecesse ainda mais de tudo o que houve, antes, quando eu pensava que fosse livre e feliz, em minha vida. Mas devo guardá-lo, bem, o Livro é um penhor, um refém. Nele estou prisioneiro. E se, para me libertar, livrar-me do estado de Job, eu o desse ao Homem frio como um cadáver? Ah, não. Tudo o que fosse, dar-lhe qualquer coisa, seria o perigo de contrair com ele novo laço; mesmo o Livro que por enquanto ainda não deve ser lido. O Livro que não posso ler, em puridade de verdade. E, de onde vem, que eu tenho de padecer, tão próximo, este Homem? Por pecados meus, meus. Tudo o que não é graça, é culpa. Sei — há grandes crimes esquecidos, em cada um de nós, mais que milenarmente, em nosso, de cada um, passado sem tempo. Maior é o meu cansaço. Caminho para o lugar a que tenho de chamar, tristemente, de “minha casa”. Lá, uma carta me espera, há uma carta para mim. Vi, pela letra, no pequeno envelope: essa carta era da mulher que me amava, tão longe deixada, tão fortemente. Temi abri-la, meu coração se balançava, pequenino, se dependurava. Que o espírito não me abandone! Pensei em guardá-la, fechada também, por infinitos dias, metida dentro do Livro. Temia-a, temia aquele amor agônico, soubesse que ela poderia malfadar-me. A carta dizia o que era para maior sofrer de todos, desespero prolongado. Depois, havia nela o trêcho: “… tem horas, penso em você, como em alguém, muito querido, mas que já morreu…” Devo ter sorrido toda a dor. E não duvidei, senão que aceitava. Naquelas linhas, estava toda a verdade. Está. Aquilo eu pinto em vazio. Em que mundos me escondo, agora neste instante? Prendem-me ainda, e tão somente, as resistências da insônia. Ah, não ter um sentir de amor, que vá conosco, na hora da passagem! De novo, é um quadro de Boecklin que meus olhos relembram, sua maestra melancolia — o “Vita somnium breve” —: duas crianças nuas que brincam, assentadas na relva, à beira de uma sepultura.

▼ ▼ ▼

Há as horas medonhas da noite. Já disse que a insônia me persegue. Isto é, às vezes durmo. O mais, é um desaver, pausa pós pausa. A confirmação do meu traspasso, num gelo ermo, no pesadêlo despovoado. Nele, em cuja insubstância, sinto e apalpo apenas os meus ossos, que me hão de devorar. As noites são cruelmente frias, mas o peso dos cobertores me oprime e sufoca. Só o mais profundo sopor é um bem, consegue defender-me de mim, de tudo. Mas ocorre-me, mais que mais, aquele outro estado, que não é de viva vigília, nem de dormir, nem mesmo o de transição comum — mas é como se o meu espírito se soubesse a um tempo em diversos mundos, perpassando-se igualmente em planos entre si apartadíssimos. É então que o querer se apaga, fico sendo somente pantalha branca sob lívida luz mortiça, em que o ódio e o mal vêm suscitar suas visões infra-reais. Exposto a remotos sortilégios, já aguardo o surgir, ante mim, de outras figuras, algumas delas entrevistas em meus passeios de durante o dia, pelas ruas velhas da cidade. São fantasmas, soturnos transeuntes, vultos enxergados através de robustas rexas de ferro das ventanas, moradores dessas casas de balcões salientes sobre as calhes, desbotados e carcomidos. Como sempre, por extranatural mudança, eles se corporizam agora transportados a outra era, recuados tanto, antiquíssimos, na passadidade, formas relíquias. Assim é que os percebe o meu entendimento deformado, julga-os presentes; ou serei eu a perfazer de novo, por prodígio de impressão sensível ou estranhifício de ilusionário, as mesmas ruas, na capital do Novo Reino, dos Ouvidores, dos Vice-Reis.
Assombram-me. Trazem-me o ódio. Baixei a um mundo de ódio.
Quem me fez atentar nisso foi uma mulher, já velha, uma índia. Ela viajava, num banco adiante do meu, num desses grandes bondes daqui, que são belos e confortáveis, de um vermelho sem tisne, e com telhadilho prateado. Esse tranvia ia muito longe, até aos confins da cidade — aonde ainda não sei se é o Norte ou se o Sul. Sei que, de repente, ela se ofendeu, com qualquer observação do condutor, fosse a respeito de troco, fosse acerca de algo em suas maneiras, simples coisa em que só ela podia ver um agravo. A mulher ripostou, primeiro, rixatriz, imediatamente. Daí, encolheu-se, toda tremia. Ela cheirava os volumes da afronta, mastigava-a. Vi-a vibrar os olhos, teve um rir hienino. Era uma criatura abaçanada, rugosa, megeresca, uma índia de olhos fundos. Daí, começou a bramar suas maldições e invectivas. Esta lívida de lógica, tinha em si a energia dos sêres perversos, irremissiva. Clamava, vociferoz, com sua voz fora de foco, vilezas e imprecações, e fórmulas execratórias, jamais cessaria. Durou quase hora, tanto tempo que a viagem, tão longa. Ninguém ousava olhá-la, ela era a boca de um canal por onde mais ódio se introduzia no mundo. Doem-se os loucos, apavoram-se. Até que ela desceu, desapareceu, ia já com longa sombra. Aquela mulher estará eternamente bramindo. Doo-me.
Aqui, faz muitos anos, sabe-se que uma outra mulher, por misteriosa maldade, conservou uma mocinha emparedada, na escuridão, em um cubículo de sua casa, depois de mutilá-la de muitas maneiras, vagarosa e atrozmente. Dava-lhe, por um postigo, migalhas de comida, que previamente emporcalhava, e, para beber, um mínimo de água, poluída. Não tivera motivo algum para isso. E, contudo, quando, ao cabo de mêses, descobriram aquilo, por acaso, e libertaram a vítima — restos, apenas, do que fora uma criatura humana, retirados da treva, de um monturo de vermes e excrementos próprios —, o ódio da outra aumentara, ainda.
Ouço-os — crás! crás! — os indistinguíveis corvos. A gorda sombra imaginária, — transpõe uma esquina, em sotâina, sob a chuvinha, sob imenso guarda-chuva. Era um padre. Era pequeno, baixote, e, em sua loucura, dera para usar apenas objetos de tamanho enorme. Em sua cama caberiam bem dez pessoas. Seus sapatões. Seus copos. Por certo, ele praticaria a goécia, comunicava-se com o antro dos que não puderam ser homens. Esse padre gritava: — Y olé y olé! Fantasmagourava. Seus passos não faziam rumor. O que em minha ideia se fingia: os que lhe vinham em seguida — o confessor, de lábios finos; a viúva dos malefícios; o cavaleiro, equiparado; o frade, moço, que não pôde se esquecer da mulher amada, e por isso condenaram-no, perpétuo, à treva do in-pace, num aljube; os homens que recolhem os corpos mortos das rainhas e princesas, no podridero do Escorial; o farricôco de capuz. Pinto aquele da 12ª lâmina do Taro: o homem enforcado — o sacrifício, voluntário, gerador de forças. Esse, é o que me representa.
E, mesmo, nessas horas, o “Homem com alguma coisa de cadáver”, dele não consigo libertar-me, nunca, de sua livúsia, quando que. Com grave respeito, vestido à antiga. Confundo-o com o vulto daquele duro hidalgo, que era todo hombria mala e orgulho. Esse, que, uma vez, porque a jovem esposa tardou alguns minutos para atender a seu chamado, tomou por vilta, nunca mais, nunca mais dirigiu a ela uma só palavra, nesta vida. Ela era uma bela mulher, e boa, e amável. Decerto, muitas horas, ele gostaria de poder não ter havido tudo aquilo, e poder voltar ao menos a fitá-la; mas não podia, não podia mais, não podia.
Com outra espécie de ódio, que não o do orgulho, mas o da inveja, contam que, em outro país, mas também nas alturas cinéreas da Cordilheira, viveu, longos anos, um mendigo estranho, o qual nunca deixava de carregar consigo um bastão e uma caveira. Tomavam-no por um penitente. Porém, quando morreu, encontraram dentro da caveira um papel, com sua confissão: ele matara outro homem, cuja era a dita caveira, matara-o a pauladas, com o bastão; e carregava os dois objetos, a fim de manter sempre vivo aquele ódio — que era o que lhe dava forças, para viver.
O do ódio — um mundo desconhecido. O mundo que você não pode conceber. Todos se castigam. É terrível estar morto, como às vezes sei que estou — de outra maneira. Com essa falta de alma. Respiro mal; o frio me desfaz. É como na prisão de um espelho. Num espelho em que meus olhos soçobraram. O espelho, tão cislúcido, somente. Um espelho abaixo de zero.

▼ ▼ ▼

Descontando-os, dia de dia, eu levava adiante, só em sofrimento, minha história interna, a experiência misteriosa, o passivo abstrair-me, no ritmo de ser e re-ser. Não tive nenhum auxílio, nada podia. Um morto não pode nada, para o se-mesmo-ser. Em desconto de meus pecados. Nem uma imploração.
Gélido tiritando-me, e com o fôlego a falhar-me, e tão pequeno e alienado e morto, sem integridade nenhuma, eu temia ainda mais o meu destino cósmico, o peso de tudo o que nesta vida ainda está por vir, outras adversidades. Um morto teme sempre. Teme o morrer mais, no infinito Nada. Que podia eu?
Pouco a pouco, um dia, pude. Apliquei meu coração a isso, vislumbrei entre névoas, em altura longínqua profunda, a minha estrela-da-guarda. Ah, revê-la. Lembrou-me algo de maior, imensamente mor — o que podia valer-me. Como surge a esperança? Um ponto, um átimo, um momento. Face a mim, eu. Àquele ponto, agarrei-me, era um mínimo glóbulo de vida, uma promessa imensa. Agarrei-me a ele, que me permitia algum trabalho da consciência. Sofria, de contrair os músculos. Esta esperança me retorna, agora, mais vezes, em certos momentos. É quando me esforço por reunir as células enigmáticas, confiar de que possa, algum dia, conseguir-me a desassombração, levantar o meu desterro. Sofro, mas espero. Antes de experiência, profundamente anímica. Tenho de tresmudar-me. Sofro as asas.
Sem embargo, já sei que tudo é exigido de mim, se bem que nada de mim dependa. A penitência, o jejum, a entrega ao não-pensar — são o único caminho. As necessidades do retorno a zero. Quando eu recomeçar, a partir de lá, esperar-me-á o milagre? Pois “o dom dos milagres segue de perto a prática das austeridades”.
Sentado, eu, a despeito de tudo, ou de pé, imóvel, durante longos momentos, os braços erguidos em cruz, eu me impunha desesperadamente aquilo. A mim mesmo, e ao que não sei, eu pedia socôrro. Eu esperava, eu confiava. Eu precisava, primeiro que tudo, de exilar para um total esquecimento aquele que um destino anterior convertera em meu lúgubre e inseparável irmão, em castigo talvez de algum infame crime nosso, mancomum: eu tinha de esquecer-me do “Homem com o todo de cadáver”. Então, ele desapareceria, para sempre, da minha existência. Eu lutava.
Ah, com a minha melhora, leve, descubro, também, que os outros mortos não perdoam ao morto que recomeça a voltar à vida.
Eu saíra de casa, do meu tugúrio. E ia, pela rua, menos opresso, menos triste, algum calor em mim se manifestava. E eis que, quebradamente, um homem, que ia à minha frente, voltou-se, encarou-me, fitou-me de frecha, malquerente, com olhos que me perspicavam. O ódio, contra mim, inchou nele; amaldiçoou-me, por exercício de lábios e emissão pupilar. Súbito, esse ódio fuzilou, enorme, enorme. Poderia matar-me. Queria, isto é, reter-me, indefeso, nas profundezas da morte, recalcar-me mais e mais, na morte. Algo em mim resistiu, porém, sem afã, sem esforço, resisti, e eu mesmo senti que era o muito mais forte, no cruzar de olhares. O homem abaixou o seu, submetido, e foi-se, era um sandeu, sem existir, sem nome.

▼ ▼ ▼

Não mais longe daqui que três horas de automóvel, há lugares aprazíveis e quentes, tierra templada, onde é limpa a luz, um sol, os verdes, e a gente pode ter outra ilusão de vida. Desce-se a montanha por coleantes estradas, numa paisagem de estranhas belezas; o país é áspero e belo, em sua natureza, contam-no como no mundo o que possua mais maravilhosos colibris, orquídeas e esmeraldas. E há minas de sal, salinas como absurdos alvos hipogeus. Não posso ir até lá, naqueles lugares em vales amenos, onde há hotéis modernos, com piscinas, e recantos onde zunem as libélulas. O médico me desaconselha: com as idas e vindas, eu só poderia piorar. E o “Homem que é um cadáver” convidou-me, correto e amigo. Não. Essa paisagem, esses atrativos e chamativos recantos, não são para mim, seriam a minha perda; para meu bem, defendem-me deles muralhas de espinhos. Mal me consentem chegar até à célebre cachoeira, tão alta, o salto: com névoas sutis, azuis e brancas, e um íris; ali, muitas pessoas vão dispor bruscamente de seu desespero, pelo suicídio.
Aqui, à margem da estrada, um boi de carga está amarrado a árvore, modorra, sob as moscas, aguenta no lombo sacos empilhados. Olho, a Oeste, a savana, a lhanura, extensa, fugindo da Cordilheira; seu céu coberto, sua estendida tristeza. Tenho o temor de ver montanhas, o dever de escalá-las me atormenta. Alguma coisa estará por lá, a além de. Aqui, uma saudade sem memória, o carácter-mor de meus sonhos. A saudade que a gente nem sabe que tem. Sei, mesmo em mim, que houve uma anterioridade, e que a há, porvindoura. Sei que haverá o amor. Que já houve. A alegria proibida, a melodia expulsa. Só este é o grande suplício: ainda não ser. E sofro, aqui, morto entre os mortos, neste frio, neste não respirar, nesta cidade, em mim, ai, em mim; faz meses.
Melhoro, se me imponho sacrifícios, sofrimentos voluntários, e medito. Acendo uma vela. Que a esperança não me abandone, com um mínimo de alegria interior. Que a morte não me enlouqueça mais; ah, ninguém sabe quão terrível é a loucura dos mortos. Mortos — isto é — os que ainda dormem.
Tudo são perigos, mesmo o que semelha necessário consolo. Mesmo o viso de amor que fácil nos procura e rodeia, seus enfeitiçamentos, os amores falsos, tentando levar-nos por seus caminhos perdidos. Houve uma mulher, a francesa, ela se apiedou de mim, era viúva, amara imensamente seu marido, em anos de viuvez jamais o esquecera, fora-lhe entusiasmadamente fiel. E, agora, queria dar-se a mim, sacrificar-me toda a sua fidelidade, de tantos anos. Tremi, por nós ambos. Insensatos pares, que se possuem, nas alcovas destas casas… Quem me defenderia de tudo, quem para deter-nos? E, também, a russa, tão bonita, de lisos cabelos pretos, de rosto e fino queixo, ela tinha a cabeça triangular de uma serpente, levantou os olhos do livro que estava lendo, uns olhos enormes, parecia-me que girassem, chamando-me, exigindo-me. Por longos caminhos, que não eram o meu, eu teria de ir, levado por alguma daquelas duas mulheres. Salvou-me a lembrança, horrível, dele — do “Homem com o frio de cadáver”, para isso serviu-me. Eu não poderia entregar-me a nenhuma presença de amor, enquanto persistisse unido a mim aquele ser, em meu fadário. Humildemente rogo e peço, que, por alguma operação encoberta, dessas que se dão sem cessar no interior da gente, esse Homem se desligue de meu destino!
Depois, fazia luar, fazia uma canção na noite, aventurei-me a sair aquela hora, pela primeira vez, ignorei o temor de que bandidos me assaltassem, esquecia-me o frio. Andei. Tudo era um labirinto, na velha parte da cidade, nuvens tapavam a cimeira da torre, a grande igreja fechada, sonhava eu em meio à insônia? Ia, por plazas e plazuelas, as nuvens escuras consumiram o luar, a cidade se fazia mais estreita e antiga. Aqui, outrora, recolhiam-se as damas, à luz de lanternas conduzidas por criadas. Quem riu, riso tão belo, e de quem essa voz, bela e rouca voz de mulher, antes, muito tempo, como posso lembrar-me, como posso salvar a minha alma?! Numa era extinta, nos ciclos do tempo, ela dormirá, talvez, a essa hora, em seu solar, dos Leguía, dos Condemar ou mansão dos Izázaga, não descerrará a janela para escutar-me, não mais, por detrás das gelosias, das reixas de ferro do ventanal, como as de Córdoba ou Sevilha. E, todavia, não estivesse eu adormecido e morto, e poderia lembrar-me, no infinito, no passado, no futuro… Assim estremeço, no fundo da alma, recordando apenas uma canção, que algum dia ouvi:

“… Hear how
a Lady of Spain
did love
an Englishman…”

Ainda não despertei para achar a verdadeira lembrança. Por isso erro? Por isso morro? Sua visão me foge, nem há mais luar, apenas sonho; este é o meu aviso.
Pois quem?
Pois quando?
Ela, seu porte, indesconhecivelmente, seu tamanho real, todo donaire, toda marmôr e ivôr, a plenitude de seus cabelos. Sei que, a implacável sorte, separou-nos, uma vez, dobrei o cunhal daquela Casa, ela estava ao portão grande. Enrolo-me na capa. Minha alma soluçava, esperava-me o inferno; e eu disse:
— Oh, Doña Clara, dádme vuestro adiós…
Continuava uma música. Ela, vestida de preto, ao lado de outro, perto do altar, ornada de açucenas brancas, como uma santa de retábulo, bela, sussurradora. Eu olhava-a, minha alma, como se olhasse a verdadeira vida. Aquilo ia suceder mais tarde — no tempo t. Por que a perdi? Eu pedira:
— Oh, Doña Clara, dádme vuestro adiós…
Ah, ai, mil vezes, de mim, ela se fora com outro, eu nem sabia que a amava, tanto, tanto, parecia-me antes odiá-la. Iria casar-se com o outro, tranquila, com o véu de rendas, entre flores de laranjeira, cravinas e papoulas, oh, entre zlavellinas, amapolas e azahares. Tudo é erro? Eu pedira:
— Oh, Doña Clara, dádme vuestro adiós…
O mistério separou-nos. Por quanto tempo? E — existe mesmo o tempo? Desvairados, hirtos, pesados no erro: ela, orgulho e ambição, eu, orgulho e luxúria. Esperava-me ao portal.
— Adeus… — ela me disse.
— A Deus…! — a ela respondi.
De nada me lembro, no profundo passado, estou morto, morto, morto. Durmo. Se algum dia eu ressuscitar, será outra vez por seu amor, para reparar a oportunidade perdida. Se não, será na eternidade: todas as vidas. Mas, do fundo do abismo, poderei ao menos soluçar, gemer uma prece, uma que diga todas as forças do meu ser, desde sempre, desde menino, em saudação e apelo: Evanira!…

▼ ▼ ▼

E era um dia a mais, outro dia, vago e vago, como os dias são necessários. Vinha-me — e eu tinha de ser seu escravo. Qual o número dessa manhã, na sequência milenar?
Em saindo, enganou-me tonto devaneio: o que eu pudesse andar assim adiante, sempre, sem rumo nem termo, e nunca precisasse de voltar àquela casa, àquele quarto, a esta tristeza e meu frio, ah, nunca mais voltar a nenhuma parte. Trazia um livro, era o Livro de poemas, ainda não aberto, e que ainda não ia ler, tomara-o comigo apenas para que outros não o achassem, ninguém o percorresse, antes de mim, na minha ausência. Sobretudo, que “alguém” não viesse a avistá-lo sequer, o em quem não devo pensar, jamais. Animou-me a ideia, fugaz, de que esquecer-me desse alguém já me estava sendo, aos poucos, possível: com isso, começo a criar entre nós dois a eterna distância, a que aspiro.
Porém, nesse dia, muito mais custoso era o meu trabalho de respirar, pesava-me a sufocação, e para minorá-la eu teria de caminhar mais depressa, e levar mais longe o forçoso passeio. Vazio de qualquer pensamento, pois assim me recusava à percepção do que se refrata em mim, cerrava-me um tanto à consciência de viver e não viver; que é a dos mortos. Havia o frio matinal, sob um pouco de sol. Havia vultos. Indo andando meu caminho, eu mais e mais ansiava, na asmância, a contados tresfôlegos.
E deu um momento em que pensei que não pudesse aguentar mais, estreitava-me em madeira e metal a dispneia, chegava a asfixia, tudo era a necessidade de um fim e o medo e a mágoa, eu ia findar ali, no afastamento de todo amor, eu era um resto de coisa palpitante e errada, um alento de vontade de vida encerrado num animal pendurado da atmosfera, obrigado a absorver e expelir o ar, a cada instante, e efemeramente, o ar que era dôr. O pior, o pior, era que o pior nunca chegava. Contraíam-me o coração, num ponto negro. Nenhum sonho! Sim, para o que servem os sonhos, sei. Alguém se lembraria ainda de mim, neste mundo? E os que conheci e quis bem, meus amigos? Alguém iria saber que eu terminava assim, desamparado, misérrimo?
Foram minutos que duraram, se sei; muitos, possivelmente, na terrível turpitude. Eu, já empurrado, compelido, ia ao mais fundo, ao mais negro, ao mais não haver. De repente. De repente, chorei. Comecei a chorar.
Logo sendo, conforme o médico me avisara, e eu mesmo sabia, a isso já estava acostumado. O que era um choro automático, involuntário[39], qual mecanismo compensador, a fim de restabelecer a capacidade respiratória, o equilíbrio da função. Assim terminavam as crises de ânsia, era como se o organismo por si se rebelasse, para um pouco de paz, do modo que lhe seria permitido; eu via, eu mesmo, para o que é que as lágrimas servem. Fosse qual fosse o sentir, ou mesmo sob nenhum sentimento, salteava-me, livre, independente, aquele pranto, falso, como imitado, de um títere. Contentei-me chorando. Deixava-me consolabundo, desopresso.
Dessa vez, porém, ele sobreviera demasiado cedo, antes que eu o previsse ou esperasse, expunha-me assim ao desar, em via pública central, todos iam-me estranhar, eu assim num procedimento desatinado, a fazer irrisão. O escândalo, aquele pranto era movimentoso, entrecortado de soluços e ruidosos haustos, corrido a bagas, como punhos, num movimento e som, sem intermissão. Eu mesmo não conseguia (não estaria em mim) contê-lo. Tampouco de onde me encontrava, não poderia voltar o passo. Atormentei-me.
E então, sem detença, fazendo o que só estava ao meu alcance, apressei-me de lá, em busca de lugar desfrequentado. Naquela cidade, as ruas se chamavam carreras ou calles: desci pela Calle 14, cosia-me muito às paredes das casas ou aos muros. Arfava, gemia, sem moto próprio, molhavam-se-me as faces, arquejava, pragas acudiam-me à boca, também, por minha ineptitude, quase corria. Pessoas, por ali, surpresas me olhassem. Só nesse de-repente notei: tinham-me virado fantasma.
E eu tinha de chorar, sempre. Agora, achava-me em rua mais tranquila, inalcançado, talvez o mundo me desse tréguas. Entretanto, não. Alguns passantes surgiam, detinham-se para olhar-me, apontavam-me a outros. — “Uxte!”… — “Conque estás allá?”… — “Quien es? Quien es?” — pareceu-me ouvir.
Entreparei.
Vinha, de lá, um bando de gente, pelo meio da rua, gente do povo. Sucedeu nestes comenos.
Era um enterro.
Valessem-me no meu desazo. Os quatro homens, à frente, carregavam o ataúde. Homens, mulheres e meninos, seguiam-nos, de perto. E não seriam mais que umas vinte pessoas. Gente pobre e simples, os homens com os sombreros de jipijapa, os escuros ponches ou ruanas protegiam-lhes à frente e às costas os bustos. As mulheres vestidas com trajes de lanilha preta ou cor-de-café, carmelita, ou curtas saias de indiana, com chapéus de palha também, ou de feltro preto, chapéus de homens. Vinham de algum bairro pobre.
Sim, meu coração saudou-os. Passavam. Eram como num capricho de Goya. E nem soube bem como atinei com o bem-a-propósito: ato-contínuo, avancei, bandeei-me a eles.
Isto é, entrei a fazer parte do cortejo, vim também, bem pelo meio da rua, se bem que um pouquinho mais distanciado.
Onde estaria melhor, mais adequado, que ali, pudesse pois chorar largamente, crise inconclusa, incorporado ao trânsito triste?
E vim, o mais atrás, após todos. Como um cachorro.

▼ ▼ ▼

O trecho todo, vou.
Os legítimos acompanhantes não parecem ter-me notado, nem sabem de mim, vão com as frontes abaixadas. Compreenderiam meu embuste? Choro. Sigo.
Sei-me agora sob resguardo, permitir-me-ão chorar, no trajeto funebreiro, eu inclusivamente, pelo menos olhar-me-ão com caridade de olhos. Vamos pela Carrera 13, vamos para o cemitério. Livre para chorar, ilimitadamente, soluços e lágrimas que nem sei por que e para quem são. Caminho com sonambúlica sequência, assim vou, inte, iente e eúnte. Quem será o morto, que ajudo a levar?
O morto, ou a morta. O caixão é pequeno, vi bem, deve ser de adolescente, pobre ou feliz criatura, que tão pouco ficou por aqui. Donzela ou mancebo. É um caixão claro. Os outros seguem-no em silêncio, não há rezas nem lamentações. Devo guardar certa distância, não posso misturar-me a eles, pode ser que me interroguem. Que direito tenho de me unir aos donos do luto? E, se o corpo for o de uma mocinha, uma donzela — de belos cabelos em que breve dará umidade e musgo? Como explicar minha presença aqui, com sentido pranto, que não o de um cristão ou um demente?
Pasmem-se outros, que me veem passar. Minhas roupas são diferentes; meu modo, meu aspecto, saberão que sou estrangeiro, de classe diversa, de outra situação social. Vou sem chapéu, e trago comigo um livro.
Deu-me de vir, e claro, é apenas o que sei. E que, agora, choro por mim, por mim que estou morto, por todos os mortos e insepultos. Mas, pouco a pouco, choro também por este ou esta, desconhecido, por certo tão jovem, e in termino, e que a tão longo longe conduzimos.
É imensa, a marcha.
Temo a chegada.

▼ ▼ ▼

Subitamente, porém, desperto, ou é como se despertasse: chegamos ao cemitério. Jamais viera eu até aqui. Estamos ante o Cemitério Central, seu portão calmo. Aqui se processa grave capítulo da experiência misteriosa.
À entrada, vi que quase não chorava mais. Pensei: agora, lúcido, o que eu precisava era de separar-me daquela gente, ligeiro, safar-me, insalutato hospite, esconder-me deles.
Felizmente, aquela cidade de tumbas e estátuas, as filas de catacumbas e quadras de jazigos, era um labirinto, mais mar largo. Com voltas e dobras, tortuosamente, consigo entranhar-me, pelo meio dele, esquivei-me, esgueirei-me, escusamente, rápido, quase aflito. Vim longe.
Subtrair-me a de que me vejam, comigo não queiram falar. Feição tão confusa. Feitios complicados. Ali não poderiam acertar com alguém.
Agora, sim, sinto-me tranquilo, aqui, sozinho, onde os outros, os acompanhantes daquele enterro, nunca me encontrarão, retirado. Eles hão de estar bem distante deste recanto, no outro extremo do campo-santo, todos ocupados em lágrimas, neste momento confiam à funda cova da terra o caixãozinho singelo — com aquela ou aquele que permanecera tão pouco tempo no mundo em que padecemos.
O lugar aonde eu viera esconder-me, meu transfúgio, era um ponto fechado entre lápides e ciprestes, quase um ninho, só o exigido espaço, folhagem e pedra mausoléia, em luz oblíqua, em suma paz. Tudo ali perdera o sentido externo e humano, nem mesmo podia eu ler os nomes nos tituleiros[40], com as letras meio gastadas do uso do tempo. Nenhuma voz, nenhum som. Sim eu me recolhera a um asilo em sagrado, passava-se em mim um alívio, de nirvana, um gosto de fim.
Eu podia ficar, entreconsciente, milhões de épocas, séculos, no relento claustral daquele secesso, aí mais me sentisse, existisse e almejasse. Um sossego infinito, retrazido pela memória. Ah, escapar ao dia de amanhã, que já vem chegando por detrás de mim! — e amenamente voltar para o inexistente… Parei. Por um tempo, tempo, esperei. Quanto?
Eu pensava. Ali, naquele lugar, apenas ali, eu poderia ler, imperturbado dos homens, dos mortos todos, O Livro: o que eu, talvez por um sério pressentimento, tão fielmente e bem trouxera comigo. Abri-lo, enfim, lê-lo, e render-me, e requiescer. Lembrei-me, e ri: aquele livro, uma moça me vendera, custara-me setenta centavos. Tão longe agora de mim, a cidade hostil e soturna, ao curso dos dias, aos bronzes de altos sinos.
Mas, não. O repentino medo me tolheu, em sinistra agouraria. Eu não ia ler, não poderia ler o Livro. Morresse eu ali, na paz traiçoeira, e tudo ficaria incompleto, sem sentido. Não tinha direito a ler aquele Livro; ainda não tinha. Amedrontavam-me, na morte, não o ter de perder o que eu possuía e era, ou fora, essas esfumaduras. Não pelo presente, ou o passado. O que eu temia, era perder o meu futuro: o possível de coisas ainda por vir, no avante viver, o que talvez longe adiante me aguardava. A vida está toda no futuro.
E pensei: eu ia sair, logo, fugir também dali; mas, lá, deixaria o Livro. Abandoná-lo-ia, sacrificando-o, a não sei que Poderes, — a algum juiz irrecursivo, e era então como se deixasse algo de mim, que deveria ser entregue, pago, restituído. Naquele livro, haveria algo de resgatável. Pensei, e fiz. A um canto discreto, à sombra de um cipreste, e de uma lousa, larguei-o, sotoposto. O silêncio era meu, e lúcido. Aguardei ainda uns minutos, trastempo que tentava ouvir e ver o que não havia. Parecia-me estar sozinho e antigo ali, na grande necrópole.
Afinal, de lá me vim.

▼ ▼ ▼

Caminhei, cauteloso, e contudo apressado; quase ao acaso; não sei como acertei com o portão; ia sair.
Nisso, porém, dei com um homem, que vinha em direitura a mim. E assustei-me: aquele era um dos que ajudavam a trazer o enterro de havia pouco. Era um homem alto, magro, moço, tinha o ar lhano e decidido. Sua ruana, velha, era de um baetão azul muito escuro, e conservava-se descoberto, tendo na mão o velho sombreiro de jipa. Que explicação iria ele exigir de mim, no indagar ou dizer?
Parou, à minha frente. Decerto, agora, hesitava, preso de súbito acanhamento. Eu não me atrevia a encará-lo. Por fim:
— “Señor, a usted se le ha perdido esto…”
Disse. Sorria-me, um sorriso ingenuamente amistoso. E, o que ele me estendia, era um livro, o Livro.
Estarreci-me. Como fora esse pobre homem encontrar o Livro, e porque me encontrava agora, para restituí-lo? Ter-me-ia seguido, desde o começo, até ao meu esconderijo, tão longe, num recanto sombrio entre as tumbas? De que poderes ou providências estava ele sendo o instrumento? Qual o sentido de todos esses acontecimentos, assim encadeados?
Fitávamo-nos.
E, então, como se só a custo pudesse proferir a pergunta, com que tentava aproximar-nos, e ao mesmo tempo procurava o inteligível daquela situação, ele, mansa e nostalgicamente, proferiu, baixara os olhos:
— “Entonces… perdimos nuestro Pancho…”
E tornava a mirar-me. Esperaria uma resposta que viesse do coração. Seu tremer de voz era[41] demasiado sincero. Mas, eu, não pude. Aprovei com um sim simples.
O homem não se movera. E, agora, eu sabia que o nosso morto era um rapazinho, e que se chamara Pancho. Que sabia eu? Porém, tinha de falar alguma coisa.
— “Andará ya en el cielo…” — eu disse.
O homem me olhava, eternamente. Olhou-me com mais escura substância. Respondeu-me:
— “Quien sabe?…”
Estávamos tão perto e tão longe um do outro, e eu não podia mais suportá-lo. Estouvada e ansiadamente, despedi-me.
Voltava, a tardos passos. Agora, a despeito de tudo, eu tinha o livro. Abri-o, li, ao acaso: “[42] Eu voltava, para tudo. A cidade hostil, em sua pauta glacial. O mundo. Voltava, para o que nem sabia se era a vida ou se era a morte. Ao sofrimento, sempre. Até ao momento derradeiro, que não além dele, quem sabe?

—–
[39] automático, involuntário. À margem do original datilografado está a palavra espontâneo, para substituir um desses adjetivos ou para completá-los.
[40] tituleiros. À margem do original datilografado está a palavra lousas, para possível substituição.
[41] Variante: fora.
[42] Há no original um espaço, para citação, que o autor não chegou a preencher.

– João Guimarães Rosa, no livro “Estas estórias”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

Mais sobre João Guimarães Rosa:
João Guimarães Rosa – o demiurgo do sertão

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS