photo: Florian Bachmeier

“Um refugiado é um ser humano cuja tragédia pessoal tornou-se uma mercadoria pública numa terra estranha. Uma pessoa que está em exposição para todo mundo. Que tem que dar satisfação a todos. Que depende de qualquer um. Que não é protegida por ninguém.”
– Ruwanthie de Chickera (fundadora do Stage Theatre Group – Sri Lanka), em “Para onde? 21 questões sobre fuga e migração”. Goethe institut, 2016.

No projeto “Wohin?” (“Para onde?”), escritores e intelectuais de diversos países receberam questionários sobre o tema fuga e migração. A fonte de inspiração foram os questionários do escritor suíço Max Frisch, formulados de forma concisa em seus diários, e que abordavam temas genéricos, como amizade, casamento, morte e dinheiro. Achamos que valeria a pena abordar o tema fuga em profundidade de forma semelhante. Ao contrário da impressão evocada pela mídia até agora, chegar à Europa é a meta de apenas uma pequena parte dos mais de 60 milhões de pessoas em fuga atualmente. Isso já é motivo suficiente para considerarmos essencial a diversidade geográfica em relação ao país de origem dos participantes.

Einstein levou seu violino. Freud levou seu divã. Béla Zsolt, fugindo de Budapeste para Paris um dia antes da eclosão da guerra, levou nove malas – “todas as minhas posses, minhas roupas e as roupas de minha mulher e todas as necessidades e pequenos caprichos que fomos acumulando em nossa vida: os objetos, os fetiches”. Ao longo da guerra, as nove malas se convertem numa mochila, a mochila numa caixa de sapatos, a caixa de sapatos numa caixa de biscoitos dada a ele por um conhecido. Esta, diz Zsolt, “é toda a bagagem que eu tenho”.”
– Frances Stonor Saunders (historiadora britânica), em “Para onde? 21 questões sobre fuga e migração”. Goethe institut, 2016

 

“O lar não é um lugar físico. É um sentimento. É o acolhimento por outras pessoas. Ele é concedido ou não é. Quando é concedido, é o que basta.”
– Ruwanthie de Chickera (fundadora do Stage Theatre Group – Sri Lanka), em “Para onde? 21 questões sobre fuga e migração”. Goethe institut, 2016.

Leia as respostas dos escritores e intelectuais:

Luiz Ruffato – foto: Tadeu Vilani

LUIZ RUFFATO (BRASIL)

O que o termo refugiado significa para você?

Refugiado é o sujeito obrigado a deixar a terra onde nasceu, acuado por guerras, por perseguição ideológica, étnica ou religiosa ou ainda por razões de consciência. Creio que esse conceito deveria ser estendido a todo aquele que foge da miséria e da fome em seu lugar de origem.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

A pobreza é o resultado da desorganização econômica, provocada em geral por corrupção e concentração de renda. Quanto mais pobre a população de um país, menos acesso ela tem à educação, à saúde, ao transporte público e ao lazer e mais exposta está à violência. Em alguns países, a violência, urbana ou rural, mata mais que muitas guerras em curso e a manutenção da miséria e da ignorância atua como mecanismo de opressão política. O Brasil, por exemplo, contou cerca de 60 mil homicídios em 2014, um número equivalente à média anual de mortos na guerra civil da Síria. A taxa brasileira é de 32,4 assassinatos por 100 mil habitantes, considerada epidêmica pela Organização Mundial da Saúde, e a maioria das vítimas é homem (92%), jovem entre 15 e 29 anos (54%) e negro (77%). Uma pesquisa intitulada Mapa da Desigualdade mostrou que a expectativa de vida de um morador da região rica da cidade de São Paulo é 25 anos maior, em média, que a de um morador da periferia da mesma cidade.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

Os problemas ambientais são resultado da ambição desmedida. Os países ditos desenvolvidos exortam os países ditos em desenvolvimento a produzir para exportar mais e mais alimentos (por meio da expansão da agricultura e da pecuária) e a extrair mais e mais matérias-primas vegetais e minerais, destruindo amplas áreas de cobertura natural; e a importar produtos industrializados altamente poluentes, como veículos automotores. O Brasil, controlado por uma elite predatória, vem destruindo sistematicamente as florestas nativas (e não só a Floresta Amazônica, que é mais visível) e o cerrado para a produção de soja, implantação da pecuária de corte e retirada de madeira nobre. Além disso, o nosso processo de industrialização ocorre com o crescimento descontrolado das cidades, e o resultado são rios poluídos, complexos ecológicos destruídos, favelas inabitáveis e violência urbana. A degradação da natureza está diretamente ligada à má gestão dos recursos naturais, devido ao afã consumidor dos países ricos, que alimentam a corrupção e a concentração de renda nos países pobres.

Quando se deixa de ser um refugiado?

O trauma do rompimento com as raízes é extremamente doloroso. O refugiado a qualquer tempo carrega consigo a sensação de não pertencimento, fazendo com que sua história tenha que ser continuamente refundada. Partir não é somente deixar para trás uma paisagem, uma língua, uma culinária, uma forma de viver, enfim. Partir é principalmente cortar os laços com os antepassados, é quebrar a continuidade da história. Certa feita, conversando com uma senhora judia, em Zürich, ela me disse, com aquele humor típico, que superar a dor da imigração (ou do deslocamento, não faz diferença) não é tão difícil, pois a gente sofre apenas nos primeiros 50 anos.

Existe um direito ao asilo?

Sim. Não fosse por nenhum outro motivo, deveria ser pelo simples fato de sermos, na origem, todos refugiados. A Europa, por exemplo, como a conhecemos hoje, é resultado de vários deslocamentos de populações inteiras, ao longo da História, provocados por guerras, por epidemias, por pobreza, por desastres naturais, por perseguições étnicas, políticas, religiosas, culturais. É dever ético de todo ser humano proteger um semelhante em perigo, seja por que razão for. Até porque os países dito desenvolvidos, particularmente a Europa e os Estados Unidos, são responsáveis diretos pela existência de boa parte dos refugiados do mundo, devido à desorganização econômica que promoveram e promovem em suas ações visando a hegemonia geopolítica.

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou se pode perdê-lo?

O direito de asilo deve ser o mais amplo possível, embora possa ter alguns condicionantes – mas, nesse caso, sempre individuais, nunca coletivos. Por exemplo, pode-se rejeitar o pedido de um indivíduo que incite o ódio (seja ideológico, religioso, étnico), mas nunca negá-lo às comunidades que pertençam àquela ideologia, religião ou etnia.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Sim, devem ser respeitadas as realidades econômica e social de cada país.

Caso existam limites, quais são eles?

Os refugiados devem ser abrigados com pelo menos as mínimas condições de dignidade. Isso significa acesso a alojamento, alimentação, assistência social e psicológica, ensino da língua e da cultura, e principalmente perspectiva de inserção na sociedade. Caso contrário, em vez de estar resolvendo ou procurando resolver a situação do refugiado, poderemos estar apenas empurrando-o para a marginalização – piorando a sua vida e criando um problema a mais para a própria sociedade que o acolheu.

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo: por quê?

Embora signitário dos principais tratados internacionais de direitos humanos, o Brasil recebe poucos refugiados. Segundo o Conselho Nacional de Refugiados, órgão do governo federal, o Brasil registra 8.863 refugiados de 79 nacionalidades distintas, sendo 70% deles homens. A maioria da Síria (2.298), Angola (1.420), Colômbia (1.100), República Democrática do Congo (968) e Palestina (376). Já se levarmos em conta os imigrantes (pobres que fogem da miséria em seus países de origem), o perfil muda bastante: os dois principais grupos são formados por bolivianos (entre 30 mil, oficialmente, e 60 mil, conforme dados da Pastoral do Imigrante, ligada à Igreja Católica) e haitianos (cerca de 44 mil, chegados após o terremoto que destruiu o país em 2010).

Em sua opinião, os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

Se pensarmos apenas no refugiado-padrão (ou seja, não levarmos em conta o imigrante), o tratamento é correto, embora tenha características específicas, de acordo com a proveniência. Por exemplo, os cidadãos sírios e palestinos em geral possuem parentes nas comunidades já estabelecidas por aqui, ligadas ao comércio, e portanto são rapidamente incorporados à sociedade, até porque, cristãos ou muçulmanos, são brancos. O Brasil é um país racista, então os refugiados negros (angolanos, congoleses) e os imigrantes negros (haitianos) e indígenas (bolivianos) sofrem para colocar-se no mercado de trabalho e são segregados no dia a dia.

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para você se servissem para facilitar a recepção de mais refugiados?

O Brasil já possui um péssimo sistema de segurança social para os seus cidadãos. Não haveria como piorá-lo.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados?
– da parte dos cidadãos do país anfitrião?

Os refugiados podem manter suas características religiosas, linguísticas e culturais, mas devem procurar compreender e aceitar os hábitos e costumes do novo país. E os cidadãos do país que acolhe os refugiados devem respeitar as singularidades desses grupos e buscar aprender algo novo com eles. Assim, ambas as partes saem enriquecidas, pois, como escreveu o escritor Danilo Kiš, a leitura de uma grande quantidade de livros conduz à sabedoria, e a leitura de um único à ignorância armada de loucura e ódio.

Você conhece refugiados pessoalmente?

Não. São pouquíssimos neste Brasil enorme.

Você apoia refugiados concretamente?

Não.

Como a situação dos refugiados no seu país evoluirá

a) nos próximos dois anos?
b) nas próximas duas décadas?

Não saberia responder a essa pergunta, porque trata-se de políticas públicas, decisões tomadas nos altos escalões governamentais, mas creio que não diferirá muito do que se pratica atualmente, que é não fazer quase nada em relação ao problema.

Você consegue imaginar um mundo sem refugiados?

Infelizmente não. Parece que as guerras e suas consequências, a desorganização política, econômica e social, são partes inerentes à história da caminhada da Humanidade.

Você ou a sua família já passaram por alguma experiência de fuga no passado?

Se incluirmos no conceito de refugiado – e eu incluo – o imigrante que busca escapar da pobreza, a resposta é sim. Meus avós maternos fugiram da miséria no norte da Itália (região do Vêneto) e meus avós paternos da miséria do interior de Portugal, e aportaram no Brasil no final do século 19. Aqui enfrentaram as dificuldades com o clima, com o mandonismo de uma sociedade escravocrata, com hábitos e costumes diferentes, e, no caso dos italianos, de uma língua e uma culinária inteiramente desconhecidas.

Você acredita que alguma dia poderá se tornar um refugiado

Não acho que qualquer um de nós possa afirmar categoricamente que nunca será um refugiado. O mundo é estranho e tudo muda muito rápido, principalmente se se vive em um país do Terceiro Mundo. No Brasil, o mais preocupante são as questões políticas. Vivemos a um passo do rompimento do Estado de Direito – grupos ideológicos se confrontam e o que mais transparece é a intolerância. Intolerância também é a marca dos fundamentalistas cristãos, denominados pentecostais, que vêm ampliando sobremaneira o espaço dentro da sociedade. Nossa democracia é jovem, portanto frágil, e a elite brasileira tem um apego imenso aos privilégios de que desfruta desde sempre.

Portanto, não se pode eliminar a possibilidade de que, em havendo um retrocesso politico, necessitaria me refugiar em outro país. Mas a questão, como disse no principio desta entrevista, é que o refugiado nunca o é por opção, mas sempre por falta de opção. Portanto, não há como prever absolutamente nada e urge viver e lutar por um mundo melhor, onde a ideia de mudar de lugar seja apenas expressão do desejo de conhecer outras culturas e não necessidade de romper com a própria.

Quanto de “casa” você precisa?*

“Casa” para mim é meu corpo – um pequeno lugar no mundo onde existo plenamente – ligado ao mundo exterior, mas apartado dele.

*Esta pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa).

Autor
Luiz Ruffato, nascido em 1961 em Cataguases-MG, é escritor e especialista em literatura, tendo recebido vários prêmios por seu primeiro e aclamado romance Eles eram muitos cavalos. Desde então, tem sido considerado uma das vozes contemporâneas mais importantes da literatura brasileira. Entre 2005 e 2011, publicou um ciclo de cinco volumes com o título Inferno provisório. Posteriormente, publicou Estive em Lisboa e lembrei de você.

Frances Stonor Saunders – foto: Sophia Spring

FRANCES STONOR SAUNDERS (GRÃ-BRETANHA)

O que o termo refugiado significa para você?

Significa alguém que está buscando refúgio, e que é, ou deveria ser, protegido por convenções antigas e modernas de concessão de abrigo e proteção diante do perigo. A Odisseia de Homero, épico fundador da trágica condição do desterrado, define como sagrados os direitos de quem pede asilo: Zeus é o “protetor dos estrangeiros”, padroeiro de um código universal de conduta no qual o altruísmo é essencialmente uma questão de interesse próprio – você alimenta, veste e hospeda o forasteiro porque um dia poderá precisar da mesma ajuda. Assim, fazer exceção à regra, ou excluir-se dessa lei de hospitalidade mútua, é em última instância uma forma de prejudicar a si mesmo.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

Não é menos legítima, mas é legalmente distinta. O status de refugiado é definido por uma necessidade urgente, imediata, de abrigo: você se torna um refugiado para salvar sua vida, ao passo que se considera que o migrante de motivação econômica está se deslocando voluntariamente com o intuito de melhorar de vida. É espantoso como são contraditórias as atitudes perante os migrantes econômicos: por um lado, são descritos como oportunistas, egoístas, que portanto devem ser privados dos privilégios e direitos de outros egoístas (aqueles de nós que vivem em circunstâncias incomparavelmente mais ricas). Por outro lado, são recrutados ativamente como peças de reposição de nossa máquina de trabalho, como mão de obra extra para escorar economias ameaçadas pela estagnação ou pela retração das taxas de natalidade.

No entanto, qualquer diferenciação entre o refugiado e o imigrante econômico naufraga junto com o barco de borracha em que ambos viajam. O cenário atual, no qual tantas pessoas estão se esforçando para embarcar em seu próprio carro funerário antes de morrer de fato, sinaliza o momento em que a globalização colide com sua própria propaganda enganosa, segundo a qual os limites da geografia não seriam mais os limites para as nossas vidas. A globalização, em vez disso, parece ter proporcionado um mundo de barricadas e divisões, no qual populações inteiras parecem estar vivendo – e morrendo – numa história diferente da minha. A mudança radical no controle do acesso territorial na última década é mais evidente nos Estados Unidos e na União Europeia, cujos celebrados princípios liberais de abertura e mobilidade estão agora sendo encurralados por uma política de exclusão. É o liberalismo da posse dos domínios, defendidos por fronteiras cada vez mais rígidas, orçamentos de defesa aumentados drasticamente, novas e mais invasivas tecnologias de vigilância, além de outros mecanismos de rejeição. As pessoas podem ser barradas na fronteira, mas seus lamentos a atravessarão.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

A globalização colidiu com e exacerbou as condições ambientais que causam grandes dispersões de pessoas. Sendo assim, os beneficiários do capitalismo global devem ser responsabilizados pelas consequências desastrosas do fracasso em proteger o ambiente. E no entanto reagimos a essa realidade com um ato de emigração mental coletiva, um processo que Max Frisch descreveu como “empurrar nossa admissão de culpa para alguma região imensurável onde nós mesmos podemos deixar de acreditar nela. Isso evidentemente é uma fuga para a sublimação, que nunca é capaz de fazer a mudança acontecer”. O então recém-eleito Papa Francisco, em sua primeira viagem oficial fora de Roma em julho de 2013 – para a ilha de Lampedusa – abordou esse tema da fuga rumo à negação. Ao proferir sua homilia sobre a aflição dos migrantes (num altar construído a partir de um antigo barco), perguntou: “Onde está seu irmão? Quem é responsável por este sangue? Na literatura espanhola temos uma comédia de Lope de Vega que conta como o povo da cidade de Fuente Ovejuna mata seu governante porque ele é um tirano. Fazem de uma tal maneira que ninguém sabe quem é o verdadeiro assassino. Então quando o juiz régio pergunta: ‘Quem matou o governador?’, todos respondem: ‘Fuente Ovejuna, senhor’. Todo mundo e ninguém! Hoje também a pergunta tem que ser respondida: Quem é responsável pelo sangue desses nossos irmãos e irmãs? Ninguém! […] A globalização da indiferença nos torna a todos ‘anônimos’; responsáveis, no entanto sem nome e sem rosto.”

Quando se deixa de ser um refugiado?

A etimologia latina incorpora o desejo de retornar: “re”, “retorno”, “fugere”, “fugir”, ou “escapar”. O Odisseu de Homero não é um refugiado quando vai combater em Troia, é alguém que se move por interesse próprio. Mas ele se torna um refugiado quando tenta empreender seu caminho de volta para casa e é retido durante dez anos por contratempos e reviravoltas, fustigado pelo mar, naufragado, despojado de tudo. Escapa por pouco dos ciclopes, que invertem os direitos dos estrangeiros ao comê-los em vez de lhes oferecer o que comer. “Seu bárbaro”, vocifera Odisseu contra seu anfitrião moralmente disléxico, “como pode um homem qualquer da terra vir visitá-lo depois disto?” Hoje, Odisseu seria celebrado pela destinação de sua viagem porque o refugiado que deseja voltar para casa é sempre mais bem recebido do que aquele que aceita que seu lar se perdeu e busca compensar a perda construindo uma nova vida num novo lugar.

Quem sabe um refugiado deixe de ser um refugiado apenas quando ele ou ela passa a ter condição de oferecer hospitalidade ao anfitrião, quando o direito do requerente de receber é transformado no direito de dar?

Existe um direito natural ao asilo?

Todos os assim chamados direitos naturais são valores humanos, e os valores mudam de acordo com quem está fazendo a avaliação e quando. O ideal do valor equitativo da liberdade está consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. É o documento de direito internacional mais abrangente do mundo, e declara no Artigo 14 (parágrafo 1) que “Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países”. Em seguida declara que “Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade” e “Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade” (Art. 15, parágrafos 1, 2). De modo problemático, ao mesmo tempo em que apresenta o direito de asilo como uma lei natural, a Declaração silencia sobre como ele deve ser assegurado pelo direito positivo. Não há nada nela sobre obrigações dos Estados, o que significa que esses direitos não têm destinatários específicos. Com isso, o direito de emigrar é reconhecido, mas não o direito de imigrar, presenteando o indivíduo que busca asilo com o que os filósofos do século 17 chamaram de “realidade impossível” (exemplo: “escuridão visível”, ou “substância imaterial”).

Bizarramente, um criminoso na Inglaterra medieval gozava de um privilégio maior de asilo geral do que um refugiado atual (cumpridor da lei). Um criminoso que ingressasse nos limites de uma igreja ou de outra zona definida como de imunidade tinha o direito de asilo, às vezes indefinidamente.

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou pode ser confiscado?

Não é incondicional porque o direito de uma pessoa requer a obrigação de outra pessoa. Todos os direitos são uma negociação. Assassinos ou perpetradores de crimes de guerra, por exemplo, não podem se esconder por trás do processo de asilo. Para os ciclopes de Homero, são Odisseu e seus homens os culpados de abusar dos direitos de estrangeiros, singrando os mares “como piratas,/ lobos do mar invadindo à vontade, que arriscam suas vidas/ ao saquear outros homens”.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Ah, a questão dos números, com seu constante mas insincero (falso?) apelo por uma resposta. Dez? Dez mil? Cem mil, como a ex-ministra do Interior do gabinete paralelo Yvette Cooper sugeriu para o Reino Unido, uma cifra que se converte em dez famílias para cada município do país? O milhão de Merkel? Como chegar às incômodas frações por meio das quais são calculadas vidas humanas? Por que nos damos ao trabalho de tentar? Max Frisch de novo: “Toda resposta humana, como bem sabemos, está aberta a ser atacada desde o momento em que transcende o pessoal e se apresenta como válida em geral, e a satisfação que obtemos ao contradizer as respostas dos outros deve-se ao fato de que isso nos possibilita pelo menos esquecer a pergunta que está nos atormentando. Em outras palavras: não queremos de verdade uma resposta, só queremos esquecer a pergunta. Para nos livrar da responsabilidade.”

Em caso afirmativo: onde você traça a linha divisória, e por quê?

Um pensamento: a sugestão de Yvette Cooper teria sido aceita se os cem mil fossem todos Einsteins?

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo: por quê?

Gostamos de refugiados que são celebridades. Quando Malala Yousafzai ainda estava em coma depois de ter sido baleada pelos talibãs, tornou-se um troféu a ser conquistado: sua família recebeu ofertas mundo afora, concordando inicialmente que ela fosse levada de avião à Alemanha, depois aceitando por fim a oferta do governo britânico de trazê-la ao Reino Unido. Dali em diante, a extraordinária ampliação da história de uma menina se acelera, com camada sobre camada de significado construído e iconografia, até ela ser transformada num símbolo universal. “A vida dela é um milagre”, diz seu pai. “Acho que não sou a única pessoa que a tem como filha. Ela é propriedade de todos. É a filha do mundo.”

Outros refugiados célebres cuja acolhida ajudou a satisfazer o complexo de salvação ocidental: Einstein, Freud, Heinrich e Golo Mann, Hannah Arendt, Anna Seghers, Simone Weil, Victor Serge, Walter Benjamin (morto durante a fuga), Franz Werfel e sua esposa, Alma Mahler, Lion Feuchtwanger, Marc Chagall, Jacques Lipchitz, Moïse Kisling, o jovem Claude Lévi-Strauss, Max Ernst, André Breton

Os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

A justiça é distribuída de modo muito desigual no Reino Unido, e não apenas em relação aos refugiados. Já que ninguém é capaz de apresentar uma explicação melhor para essa injustiça, os forasteiros geralmente recebem o chumbo (malditos estrangeiros).

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para você se servissem para facilitar a absorção de mais refugiados?

Não, isso seria um nivelamento por baixo para todo mundo. Que tal cortar os orçamentos inflados do enorme sistema de vigilância e segurança que hoje está transformando a paisagem física e mental num cerco medieval-moderno? Você não pode ter segurança se não souber qual é o aspecto dela.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados
– da parte dos cidadãos do país anfitrião?

No inverno de 2015, enquanto fazia um documentário radiofônico sobre refugiados na Áustria, eu me deparei com um folheto recém-publicado pela cidade de Salzburgo. O folheto, que é entregue em mãos aos refugiados quando chegam, aborda valores cruciais – igualdade de gênero, neutralidade do Estado quanto à religião, etc. –, mas também adverte contra fazer barulho demais num domingo (cortando a grama, por exemplo), não respeitar o “espaço pessoal”, chegar atrasado a um compromisso. É uma espécie de código de trânsito cultural, cheio de placas ordenando que o forasteiro dê passagem para o fluxo do tráfego que é o modo de vida austríaco. O que ele expressa, muito educadamente, é a inquieta esperança de um país de que aqueles que buscam ali uma nova vida entrem em seu contrato social. Não é um alerta assimilacionista, do tipo “enquadre-se ou caia fora”, mas uma cartilha do bem-estar como assunto coletivo, mútuo, uma apólice de seguro na qual todos – anfitrião e hóspede, visitado e visitante – devem investir.

É possível hoje ter uma identidade básica sem uma disposição para complicar essa identidade? Por que tememos isso como um despedaçamento? Podemos imaginar a identidade em vez de simplesmente herdá-la?

Você conhece pessoalmente algum refugiado?

Conheço muitas pessoas que foram refugiadas, mas muito poucos refugiados atuais.

Você apoia concretamente algum refugiado?

Sim, mas muito aquém do que determina o código homérico.

Como a situação dos refugiados no seu país evoluirá

a) nos próximos dois anos?
b) nas próximas duas décadas?

O referendo do Brexit me ensinou que a previsão é uma moeda falida. Se eu tivesse que arriscar uma resposta, seria algo entre “vai ficar pior” e “vai ficar muito pior” (para os refugiados).

É possível imaginar um mundo sem refugiados?

Eu não desejaria imaginar isso, é como tentar imaginar um sistema “tão perfeito que ninguém precisará ser bom” (T. S. Eliot). Cuidado com a utopia. O paraíso, escreveu Frisch, é “um título de crédito de Deus para os pobres e oprimidos”. O pensamento mágico é uma fuga da realidade, um dispositivo ficcional que pode trazer algum alívio aos dissabores cotidianos de um ser humano, mas não tem o poder de resolver tais dissabores. Se partirmos de uma falsa premissa, acabaremos com um falso resultado. Sempre haverá refugiados.

Você ou sua família já foram refugiados alguma vez?

Meu pai e sua família foram refugiados da Romênia durante a Segunda Guerra Mundial. Quando fugiram, a Romênia Maior já não era grande, mas uma zona de possibilidade cada vez menor, cercada pelo medo e pela incerteza. Eles foram refugiados por cinco anos, entre o final da infância e o início da adolescência de meu pai. A experiência ensinou-lhe mais sobre partir do que sobre chegar.

Você acha que alguma vez virá a ser (refugiada)?

Às vezes imagino como seria ter que empacotar às pressas minha vida e partir. O que eu levaria? Um mapa do mundo (não tenho smartphone com GPS, talvez eu arranjasse um, e também um carregador de bateria), botas de caminhada, minha bicicleta, incluindo bomba de encher pneus e kit de consertos, uma mochila às costas, com roupa impermeável, meias, uma escova de dentes, comida, água, um isqueiro, tabaco para enrolar cigarro, uma lanterna, caixa de primeiros-socorros, ferramentas multiuso. Dinheiro (escondido). Ah, e meus óculos, sem os quais eu estaria perdida (ou mais perdida), embora não ser capaz de enxergar nada à minha volta talvez fosse uma vantagem. Será que consigo armar uma barraca? Levo saco de dormir? O que os refugiados fazem com as chaves da casa? Levo carteira de identidade ou não?

Einstein levou seu violino. Freud levou seu divã. Béla Zsolt, fugindo de Budapeste para Paris um dia antes da eclosão da guerra, levou nove malas – “todas as minhas posses, minhas roupas e as roupas de minha mulher e todas as necessidades e pequenos caprichos que fomos acumulando em nossa vida: os objetos, os fetiches”. Ao longo da guerra, as nove malas se convertem numa mochila, a mochila numa caixa de sapatos, a caixa de sapatos numa caixa de biscoitos dada a ele por um conhecido. Esta, diz Zsolt, “é toda a bagagem que eu tenho”.

Para que lado você vai quando deixa para trás um futuro promissor? Em Journal of the Plague Year (no Brasil, Um Diário do Ano da Peste), de Daniel Defoe, um personagem escapa da peste: ele caminha rumo ao norte para que o sol não bata em seu rosto e essa é sua única razão.

Quanto de “lar” você precisa?*

Como Frisch provavelmente estava ciente, a mesma pergunta foi feita por Jean Améry, em suas memórias filosóficas de Auschwitz, Jenseits von Schuld und Sühne (no Brasil, Além do Crime e Castigo: Tentativas de Superação), publicado pela primeira vez em 1964. Eu nunca conseguiria fazer justiça à investigação profunda, agudamente cuidadosa de Améry sobre o exílio e o desabrigo – a perda de tudo o que antes preenchia a consciência de um indivíduo, “a busca febril de identidade”, o vazio de uma vida arrancada à força do contexto do lar e da realidade particular que ele proporciona. Améry, banido de seu lar por seus concidadãos, viu-se numa “condição totalmente impossível, neurótica”, na qual a terra natal que ele estava disposto a odiar continuava a demandar sua saudade. O significado inicial da palavra alemã para desgraça envolve exílio. Em resumo, Améry conclui: “Não é bom não ter um lar”.

*Esta pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa).

Autora
Frances Stonor Saunders é uma historiadora cuja obra inclui Who Paid the Piper? The CIA and the Cultural Cold War (no Brasil, Quem Pagou a Conta? – A CIA na Guerra Fria da Cultura), traduzido em 14 línguas desde sua primeira publicação em 1999. Escreve para várias publicações, incluindo o London Review of Books, e em 2016 ministrou a LRB Winter Lecture (Palestra de Inverno do LRB) no Museu Britânico acerca do tema das fronteiras. Seguiu-se a isso uma série em três partes para a BBC Radio 4, Borders: An Odissey (Fronteiras: Uma Odisseia). Atualmente está escrevendo um livro sobre o impacto das fronteiras em nossas vidas.
(tradução: José Geraldo Couto. [Goethe-Institut e. V.]. Outubro de 2016)

Ruwanthie de Chickera

RUWANTHIE DE CHICKERA (SRI LANKA)

O que o termo refugiado significa para você?

Um refugiado é um ser humano cuja tragédia pessoal tornou-se uma mercadoria pública numa terra estranha. Uma pessoa que está em exposição para todo mundo. Que tem que dar satisfação a todos. Que depende de qualquer um. Que não é protegida por ninguém.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

Não é um direito legítimo de uma pessoa jovem o sonho de conhecer um país que não aquele onde nasceu? O deslocamento – seja para longe de algo familiar e terrível ou em direção a algo estranho e desconhecido – é um instinto humano inerente. É legítimo – porque está no fundo de todos nós. Cercear o deslocamento é cercear algo da essência do espírito humano.
Nosso mundo proporciona a apenas algumas pessoas o direito de se deslocar; o direito de partir como desejam, entrar como desejam, o direito de ser bem recebido, de explorar, de decidir ficar, de ir embora, de se expandir, de desaparecer. Para muitos e muitos outros, este é um mundo de muros, barreiras e celas. Nada é muito legítimo nisso. As perguntas fundamentais que estamos fazendo estão erradas.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

Se você está deixando seu lar é porque ele se tornou insuportável. Você só deixa seu lar quando ele de fato já ficou insuportável. O sofrimento e o trauma já ficaram intensos. Mesmo na melhor das circunstâncias, eles vão continuar. Vamos oferecer algum alívio.

Quando se deixa de ser um refugiado?

Quando a pessoa pode optar por não contar a sua história para justificar sua presença.

Existe um direito ao asilo?

Deveria haver um direito natural de viajar. Se as pessoas tivessem direitos iguais de viajar, direitos iguais de se assentar, as coisas se estabilizariam. Haveria uma onda numa direção e em seguida uma onda em outra – como, no interior de um país, cidades grandes e pequenas crescem e se acomodam, no âmbito do mundo, nações cresceriam e se acomodariam. É a instituição de fronteiras que cria a loucura e a histeria.
Vamos imaginar, por um momento, que dividimos as cidades e metrópoles em nossos próprios países como dividimos as nações no mundo; com muros, leis de imigração, policiais, passaportes e requerimentos para se deslocar de uma cidade ou metrópole para a aldeia seguinte ou para o mato; com detenção e deportação para os considerados inconvenientes. Que desperdício colossal de tempo, dinheiro e vidas. Que maluquice. Quando foi que deixamos de perceber isso?

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou se pode perdê-lo?

É mais do que incondicional. É natural. Mas nós nos afastamos muito de nossa humanidade. A lente da nossa percepção básica ficou tão distorcida que não somos mais capazes de reconhecer o bom senso com que nascemos. Não somos mais capazes de nos conectar com nosso estado mais natural – que é o de união com os outros, com o meio ambiente e com o universo.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Nenhuma sociedade já arrebentou alguma vez por absorver gente demais. A sociedade é uma coisa sem costuras. Ela cresce, encolhe, se transforma, se expande. As pessoas chegam e partem em ondas. Se uma situação se torna insustentável, cara demais, ruidosa demais, violenta demais, vai haver gente partindo e buscando seu próprio espaço. A migração está acontecendo o tempo todo – com ou sem refugiados. Quando convertemos uma experiência humana transitória numa forma permanente de identidade – e isso é o que tem acontecido com a experiência de um refugiado –, obrigamos um infortúnio que deveria ser passageiro e mutável em algo permanente, que vai persistir e atormentar. Se facilitarmos sua transformação, ele desaparecerá.

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo: por quê?

Li em algum lugar que dividimos facilmente as pessoas em “expatriados” e “imigrantes” com base na cor da pele. Do mesmo modo creio que alguns refugiados são encarados de maneira diferente de outros. Esses preconceitos são muito profundos.

Na sua opinião, os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

Não. Nosso sistema não sabe como lidar com eles

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para você se servissem para facilitar a recepção de mais refugiados?

Não consigo imaginar um país qualquer sendo posto de joelhos por ter concedido ajuda a pessoas que necessitavam. Refugiados não chegam com doenças e furúnculos e a intenção de nos saquear pelo resto de suas vidas. Eles chegam com a determinação de mostrar que são cidadãos respeitáveis, e com a resolução de transformar seus sonhos em realidade. Eles se esforçarão por isso mais do que podemos imaginar. É quando os relegamos ao desamparo que eles continuam sendo um fardo. É quando permitimos que os políticos os usem como bodes expiatórios que caímos na armadilha de culpá-los por tudo o que acontece de ruim na sociedade.
Grande parte do mundo tal como o conhecemos hoje foi construído com os sonhos, a coragem e a determinação de refugiados, condenados, escravos e degredados. Pessoas destituídas de sua família, seu lar, sua dignidade – mas felizmente não de um futuro. Não vamos esquecer quem somos e como chegamos até aqui.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados?

Penso que essa pergunta é inadequada. Os refugiados são vítimas de perseguição e trauma. Não deveria haver expectativa alguma de integração por iniciativa deles. Eles deveriam ser acolhidos e receber o apoio e o ambiente – ou, no mínimo, o espaço e a oportunidade – para começar de novo a viver. Interpele um refugiado sobre sua responsabilidade quanto à integração quando ele tiver deixado de ser um refugiado.

– da parte dos cidadãos do país anfitrião?

Nenhuma civilização floresceu quando se fechou em si mesma. Na verdade, todas as civilizações e impérios que desmoronaram naturalmente desmoronaram quando seu povo se tornou convicto demais de sua própria verdade, de seu próprio estilo de vida, e fechou-se à mudança, aos desafios e ao desenvolvimento. Uma civilização próspera se constrói com um povo confiante, generoso, sem medo do desafio e da mudança, estimulado pelas diferenças e por novas perspectivas.
Lembra quando éramos crianças? E nossos jogos se tornavam mais empolgantes à medida que mais gente entrava na brincadeira? Todos parávamos para incorporar as crianças desconhecidas, de pés descalços, que estavam assistindo a nossos jogos, e juntos encarávamos novos desafios. E a comida de que dispúnhamos era sempre suficiente para todos – não importava quantas crianças novas se juntassem. Quando foi que deixamos de viver de acordo com essas verdades muito simples?

Você conhece refugiados pessoalmente?

Mais uma vez, a pergunta transforma uma condição transitória, uma experiência humana, numa identidade. Um refugiado é uma pessoa cuja vida, tal como ele a conhecia, cessa de repente de existir. Alguém que é subitamente impelido a uma situação de extremo desamparo e dependência. Experiências humanas similares a essa são as de pessoas que sofrem acidentes, ou perdem todo o seu dinheiro, ou perdem a memória. As pessoas entram numa condição. E então, muitas vezes com a ajuda dos outros, elas a superam. Ocorre o mesmo com a situação de um refugiado. É uma fase da vida. Não uma identidade. Sim, conheço pessoas que foram obrigadas a se tornar refugiadas. Lembro que quando eu era criança tivemos uma leva de visitantes morando em nossa casa por um bom tempo. Era maravilhoso ter outras crianças em volta. Só mais tarde fui perceber a razão de elas terem estado ali. Mais adiante na vida trabalhei com grupos de refugiados por meio da minha atividade no teatro. Descobri que eram pessoas que tinham enfrentado o mais profundo dos medos humanos. Isso lhes proporcionou uma perspectiva que era tão ampla que eu nem era capaz de dimensionar. Aprendi muito com eles.

Você apoia refugiados concretamente?

No momento, não.

Você consegue imaginar um mundo sem refugiados?

Isso só acontecerá num mundo sem fronteiras.

Em caso afirmativo: o que é necessário para isso?

Será necessário que os seres humanos tenham a coragem de admitir que os Estados-nações são um equívoco. Os países são um construto. Muros simplesmente são coisas do passado. A lei de imigração é uma violência. E a paranoia, que devora a nossa alma e impede nosso desenvolvimento como seres humanos, cresce por causa de todas essas coisas.

Você ou a sua família já passaram por alguma experiência de fuga no passado?

Não.

Você acredita que alguma vez poderá se tornar uma refugiada?

Sim, claro.

Em caso afirmativo: por quê?

Nenhum refugiado jamais pensou que viria a sê-lo.

Como você se prepara?

Do mesmo modo que a gente se prepara para a morte. Você tem uma vaga percepção de que poderia acontecer. Espera que a pessoa que você está construindo dentro de si seja forte o bastante para enfrentar a situação com coragem.

Em que país você se refugiaria?

Se eu tivesse opção, procuraria um país onde as pessoas são mais curiosas do que paranoicas.

Quanto de “casa” você precisa?*

O lar não é um lugar físico. É um sentimento. É o acolhimento por outras pessoas. Ele é concedido ou não é. Quando é concedido, é o que basta.

*Esta pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa).

Autora
Ruwanthie de Chickera é fundadora do Stage Theatre Group, o mais renomado grupo teatral do Sri Lanka. Ao longo dos últimos 15 anos ela trabalhou em mais de vinte produções internacionais de teatro e cinema. Por seu primeiro roteiro de cinema, Machan, conquistou um prêmio no Festival de Veneza de 2008. À parte seu trabalho como diretora de teatro e cinema ela leciona na Universidade Nacional de Artes Visuais e Performáticas no Sri Lanka.
(tradução: José Geraldo Couto [Goethe-Institut e. V.]. Outubro de 2016)

Alexander Kluge – foto: Markus Kirchgessner

ALEXANDER KLUGE (ALEMANHA)

O que o termo refugiado significa para o senhor?

O comandante da retaguarda de Troia, Eneias, é um refugiado impressionante: ele cruza o Mar Mediterrâneo. A desgraça de Troia está grudada nas solas de seus pés. Assim, ele traz à bela rainha Dido sua paixão, mas pouca sorte. Torna-se o patriarca de Roma. Roma destrói a cidade grega de Corinto. Esse refugiado é o mensageiro de uma vingança de longo prazo pelo que os gregos fizeram a Troia.

Um exemplo contrário é a avó de minha avó, Caroline Louise Granier, uma refugiada da França. Ela encontrou seu marido alemão no sul da região montanhosa do Harz. Mais tarde, leram juntos atentamente “Hermann e Doroteia”, de Goethe, um reflexo de seu destino. Sem essa refugiada, eu não existiria. Aliás, foram os huguenotes – refugiados como essa mulher – o motor que impulsionou o progresso da Alemanha em mais de 50 anos. Esses são golpes de sorte. Associo o termo “refugiado” com “sorte” e com “mensageiro da desgraça”, e portanto com uma grande quantidade de contos e romances.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

A fuga por motivos do coração, ou por necessidade, é legítima. Pobreza, guerra ou opressão não fazem a diferença.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

Martinho Lutero se posicionou várias vezes por seu século frente à questão: Quando se pode fugir? Quando é necessário ficar, mesmo sob a ameaça da peste, da devastação da terra ou de catástrofes naturais? Ele diferenciou a questão em relação a titulares de cargos, ou seja, sacerdotes e pessoas com responsabilidades políticas, e a cidadãos comuns do país. As repúblicas dos Países Baixos surgiram da defesa frente às catástrofes ambientais do Mar do Norte. Os holandeses construíram diques e desenvolveram assim repúblicas fortes, que também souberam se defender com sucesso da “inundação católica” que penetrou no país com o Duque de Alba, da Espanha. Fugir por causa de problemas ecológicos não é justificado genericamente. A avaliação depende da questão: a resistência é possível? Ou é completamente vã? Se as condições climáticas de nosso planeta piorarem permanentemente, teremos torrentes de pessoas em fuga. A questão da justificativa não irá detê-las. E não quero ser o juiz.

When does one cease to be a refugee?

Em certas zonas do coração e da sensibilidade epidérmica, nunca. Mas é possível escapar do “destino de refugiado” quando se constrói uma nova base. Em termos tradicionais, isso significaria: contruir uma casa, plantar uma árvore e conceber um filho. Em nosso século 21, isso é mais complexo: onde está a chance de estabelecer uma nova base no caso individual concreto? Eu deixo de ser um refugiado quando fundo uma nova pátria. Quando me torno patriota de uma nova forma. Posso desenvolver patriotismo em relação a livros sagrados, à profissão, a relações amorosas e, como já mencionei, quando contruo uma casa nova.

Existe um direito ao asilo?

O asilo é um direito fundamental. A legitimação mais forte da Igreja era seu poder de conceder asilo. Immanuel Kant deriva – nos tempos modernos – o direito a asilo do direito geral à hospitalidade. Uma pessoa que respeita a si mesma (e portanto também cada sociedade que tenha autorrespeito) deve receber um forasteiro em apuros, a não ser que ele próprio “esteja sob ameaça de destruição”. Nós, literatos, devemos fornecer narrativas que respaldem, com tanto poder de imaginação quanto possível, o direito a asilo ancorado em nossa Constituição.

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou se pode perdê-lo?

Como todo direito, é possível perder o direito a asilo, se ele for mal usado.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Toda sociedade pode acolher refugiados de maneira limitada. Uma admissão sem limites só é possível a algumas sociedades por um breve período, em momentos de sorte ao longo da história. Isso se aplicou aos Estados Unidos, mas hoje não se aplica mais.

Caso existam limites, quais são eles?

É particularmente difícil expressar esses limites na forma de uma definição. O autorrespeito requerido para não colocar esses limites ou mantê-los em um âmbito restrito compete com a amarga necessidade da existência, dentro de nós mesmos, de limites objetivos para a ação voluntária e a generosidade frente aos estrangeiros. É importante sondar essa tensão. Heinrich von Kleist conta uma história terrível a esse respeito em sua narrativa Der Findling (O enjeitado). O mercador que, por repentina compaixão, acolhe uma criança estrangeira proveniente de uma cidade em que a peste reina, por fim termina no inferno, devido ao custo das consequências de sua atitude espontânea e bondosa. Sem dúvida, existe um “oportunismo sentimental”, que tenta produzir boas ações sem ser capaz de assumir os custos que elas geram. Esse não é um ideal.

Ontem mesmo, fiquei desconcertado com um texto de The Lichtenberg Figures (As figuras de Lichtenberg), de Ben Lerner. Apesar de não se referir diretamente à questão dos refugiados, sua frase mostra o quão sutil pode ser, na prática, o uso do modo subjuntivo, a interferência no chamado destino. A poesia diz: “When I first found the subjunctive, she was broke and butt-naked. Now she wants half. She wants … bullets designed to expand on impact” (Quando encontrei o subjuntivo pela primeira vez, ele estava falido e nu. Agora ele quer pensão. Quer … balas projetadas para expandir ao impacto).A capacidade de acolhimento de um país não é a única questão. A dedicação de cada um, quando se trata de receber estranhos, é elástica, mas não se pode esticá-la à vontade. Essa questão ainda vai nos ocupar bastante durante o século 21. Se observarmos os tecidos celulares de um organismo vivo, veremos que eles absorvem e descartam. São permeáveis, mas impõem certos limites. Se não contassem com membranas que os defendessem do exterior, todos nós humanos sofreríamos de edemas. Não é possível expressar isso com regras, mas com narrativas, e esse é um desafio para cada autor que segue os passos de Max Frisch.

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo, por quê?

Há, e sempre houve, refugiados privilegiados em quase todos os países. Refugiados que trazem consigo tesouros de aptidões não são apenas bem-vindos, mas são até atraídos. Os países ricos podem saquear os talentos de terras estrangeiras, atraindo para si refugiados privilegiados. Na era do Iluminismo, no século 18, essa prática era um sinal da qualidade de um ministro.

Na sua opinião, os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

Toda generalização aqui seria exagerada. Mas estou positivamente surpreso com a quantidade de ajuda concreta e dedicação que se pode observar em casos individuais. E tenho orgulho das palavras de nossa chanceler, que reagiu com bom senso em um momento específico. Daí a deduzir que há justiça suficiente em nosso país também já seria um exagero.

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para o senhor se servissem para facilitar a recepção de mais refugiados?

Para uma posição política com base no autorrespeito, cortes no sistema social precisam ser aceitos. Esses são os custos para eu gostar de mim mesmo.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados?

A boa vontade para aprender o idioma do país. A lealdade em relação às leis do país (não aos costumes). Requisitos mínimos quanto à capacidade humana de mobilizar suas próprias forças e desse modo ajudar a si mesmo. Mas não quero ser o juiz nessa questão.

– da parte dos cidadãos do país anfitrião?

Capacidade de empatia. Esforço intenso da capacidade de se colocar na cabeça do outro. Aliás, esta foi na evolução a virada para o Homo sapiens: quando nossos antepassados adquiriram a habilidade de se colocar no lugar de estranhos, fossem eles coisas, animais ou pessoas.

O senhor conhece refugiados pessoalmente?

Sim.

O senhor apoia refugiados concretamente?

Quando os encontro no contexto da minha vida profissional ou prática.

Como a situação dos refugiados no seu país evoluirá

a) nos próximos dois anos?

b) nas próximas duas décadas?

Mesmo para um período tão curto, as previsões foram quase sempre erradas. Os húngaros que atravessaram a fronteira de seu país em 1956, fugindo do Exército Vermelho, cruzaram a Alemanha e parte deles ostenta hoje cargos permanentes em Harvard e Stanford. Seus compatriotas que atravessaram a mesma fronteira em 1989 já estão quase todos integrados. Cada onda de refugiados é diferente das outras. Estou convencido de que não é possível prever nada com segurança, nem para os próximos dois anos nem para as duas próximas décadas. O que se pode consolidar e assegurar é a própria atitude – aconteça o que acontecer.

O senhor consegue imaginar um mundo sem refugiados?

Não.

O senhor ou a sua família já passaram por alguma experiência de fuga no passado?

Só em relação aos dois sistemas sociais de nosso próprio país e, tal como minha família e eu o vivenciamos individualmente, essa foi uma experiência relativamente inofensiva. Nós tivemos sorte.

O senhor acredita que alguma vez poderá se tornar um refugiado?

– Em caso afirmativo, por quê?

A segurança do momento é enganosa. Ninguém pode excluir a possibilidade de vir a se tornar um refugiado em sua vida. Pelo menos, não pode excluir isso para seus filhos.

Em que país o senhor se refugiaria?

No período de Guerra Fria, refleti sobre para que país fugiria em caso de emergência. Eu pensava na Nova Zelândia. Naquele abril de 1986 em que nuvens contaminadas de radiação nuclear regavam com sua chuva os campos de verdura, no ano de Chernobil, minha jovem esposa e meus filhos ainda pequenos fugiram comigo para Portugal. Para o limite extremo de nosso continente, por assim dizer. A pergunta não era: para que país? Mas: como me afastar o máximo possível? Ficamos ali por muitos meses. Por causa das crianças.

De quanta “casa” o senhor precisa?*

Contam de Till Eulenspiegel que, quando estava ameaçado de perseguição em Hannover, ele se costurou dentro de uma pele de cavalo. Quando seus perseguidores tentaram pegá-lo, explicou de dentro da pele que essa era sua casa. Os perseguidores aceitaram.

Outro exemplo: durante o bombardeio de Halberstadt, minha cidade natal, meu pai, minha irmã e eu ficamos deitados no chão do porão, com medo. O porão era um resto de lar. A necessidade faz com que o lar encolha. Ninguém consegue viver sem um restinho de lar. É uma espécie de pele. Na vida normal e no nosso sentimento interno (que sabemos que não é obrigado a ser realista), a casa é tão vasta quanto o horizonte. Como se vê, o conceito de “casa” está em constante movimento.

*Essa pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa).

Autor
Alexander Kluge, nascido em 1932 em Halberstadt, é escritor, cineasta e produtor de televisão. Ele é considerado tanto prática quanto teoricamente um precursor do Novo Cinema Alemão, e a crítica social e política estão sempre no centro de sua obra. Entre seus importantes trabalhos cinematográficos, pelos quais foi premiado, entre outros, em Veneza e Cannes, estão Abschied von Gestern (Anita – 1966), um dos episódios de Deutschland im Herbst (Alemanha no outono – 1977) e Der Angriff der Gegenwart auf die übrige Zeit (O ataque do presente ao resto do passado –1985). Além de seus filmes, Kluge também publica textos literários e ensaios, pelos quais recebeu, em 2003, o Prêmio Georg Büchner, o mais renomado prêmio literário da Alemanha.
(tradução: Renata Ribeiro da Silva [Goethe-Institut e. V.], Outubro de 2016)

Yvonne Adhiambo Owuor – foto: Sheila Ochugboju (2016)

YVONNE ADHIAMBO OWUOR (QUÊNIA)

O que o termo refugiado significa para você?

Alguém em busca de refúgio. Uma criatura viva buscando abrigo, um local protegido onde esse ser vivente possa voltar à sua plenitude.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

Há tantas formas de pobreza no mundo quantos são os refugiados que não recebem esse nome, não é mesmo? Por exemplo, o jovem europeu contemporâneo que sai de sua terra para escapar de dificuldades e da falta de um futuro e encontra abrigo e refúgio em Angola e Moçambique não é um refugiado econômico também? Além disso, não se fala o bastante sobre a condição de refugiados de indivíduos chamados eufemisticamente de “expatriados”. A ideia de que uma certa plenitude ou realização de um ideal pessoal deva ser efetuada num local que não é a terra natal fala a um impulso humano profundo que precisa ser melhor contemplado fora das lentes de uma orientação política patológica e enganosa. Ser humano é se movimentar, deixar um ambiente insalubre, como acontece com qualquer organismo, de modo a encontrar solidariedade, comunidade e ar para respirar. Não acredito que seja uma questão de “legitimidade”, que é um sofisma político, mas de valores e critérios humanos.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

A mesma resposta anterior, e provavelmente isso vai piorar.

Quando se deixa de ser um refugiado?

Quando a pessoa finalmente interrompe a jornada da existência, por conta da morte, imagino, supondo que a viagem termine nessa porta de saída. Se não, nunca.

Existe um direito ao asilo?

Requer uma sociedade sofisticada, um jeito elegante de ser humano e uma capacidade de expressar solidariedade com esta humanidade, ser capaz de sentir-se confiante o bastante para abrir o coração, a mente e o lar para uma criatura em aflição temporária. Eu gostaria de imaginar que o passado apresenta tais amostras; por exemplo, a área da costa leste africana que era conhecida como Complexo Global de Monções desenvolveu uma linguagem compartilhada (o suaíli), refinou um povo (o suaíli) e formulou uma palavra – ubinadamu – e os correspondentes códigos e protocolos de ser hospitaleiro ao estrangeiro ou estrangeira e transformá-lo(a) num cidadão ou cidadã. Seria necessária uma honestidade brutal, da qual nenhuma sociedade no mundo parece ser capaz hoje em dia, para conseguir reconhecer o quanto essa sociedade está, ela mesma, envolvida na desordem que leva as pessoas a fugir; Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia são exemplos da máxima: as escolhas têm consequências.

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou se pode perdê-lo?

Eu diria que essa não é uma questão de leis, mas sim de quão profundamente uma sociedade, uma cultura e um povo sentem, compreendem e vivem a condição humana; o sentido de sua própria humanidade se reflete no modo como recebem outro ser humano, particularmente um que está em situação de profunda aflição. Perde-se a hospitalidade quando o pacto de confiança é rompido, quando as intenções declaradas de buscar abrigo/aceitação são destruídas pelo anfitrião ou pelo hóspede.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Será que a resposta não tem mais a ver com o modo como uma sociedade entende o que é um ser humano? Mais do que de um “refugiado”, a comunidade está diante de um ser humano. O que essa sociedade sente então com relação à vulnerabilidade humana, à condição fraturada, ao medo e ao movimento forçado? Ao que essa sociedade retrocede, chegando a fazer do forasteiro um bode expiatório, quando uma crise se abate sobre ela? A posição de “refugiado” é um teste e um espelho do que uma sociedade, uma civilização, realmente é, de como ela lida com a realidade de seus limites e capacidades também, de como ela expressa sua incerteza. Ela tem confiança na resiliência de sua própria cultura e percepção de si mesma para enfrentar essa surpresa? Como ela articula, reitera, põe em circulação e amplifica o que mais teme quanto à sua existência? Como ela lida com o desconforto ou o sofrimento – o seu próprio e o dos outros? Como ela demonstra sua própria percepção e significado de ser humano? Se o medo predomina e respinga lama sobre os mitos que ela sustenta sobre si mesma, então, naturalmente, sua hospitalidade e sua solidariedade com o estranho que chega sem residência fixa e data de partida serão profundamente limitadas.

Caso existam limites: ?

Ver a resposta anterior. A linha é traçada mais para baixo ou mais para cima dependendo de como uma sociedade, em sua imaginação coletiva, compreende a força (ou vulnerabilidade) de sua própria humanidade.

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo: por quê?

Sim. Os chamados “expatriados” são mais privilegiados e bem-vindos. A narrativa de quem eles são e os mitos dos motivos por que vieram viver entre nós facilitam sua entrada, sua presença e sua existência entre nós, o que inclui, em alguns casos, uma vida livre de tributos, além de acesso a um auxílio-pobreza.

Na sua opinião, os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

Não, eles não recebem tratamento justo. Nossos visitantes flagelados que são mandados para os campos de Kakuma e Dadaab têm muitas de suas liberdades cerceadas. Nega-se à maioria deles a absorção e o pertencimento à sociedade queniana mais ampla.

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para você se servissem para facilitar a recepção de mais refugiados?

Sim.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados?

Refletir a respeito e responder à pergunta: o que significa ser humano. Sentar diante do anfitrião e falar, ouvir, absorver, sonhar. Esclarecer o intuito na forma de um “pacto”: por que você veio para cá? O pacto é também de “não causar nenhum malefício”. Lembrar o ditado suaíli, com muitas variações em todas as culturas: Kazi haina ugeni. O trabalho não conhece nenhum hóspede.

– da parte dos cidadãos do país anfitrião?

Refletir a respeito e responder à pergunta: o que significa ser humano. Se esses forasteiros estão aqui por causa da guerra, como minha sociedade contribuiu para tal destino? Sentar diante do visitante e falar, ouvir, absorver, sonhar, dar ouvidos também aos temores da população anfitriã sem soterrá-los no politicamente correto. Ousar dizer a verdade: por exemplo, “Estamos vendendo armas a esses grupos, que têm sido usadas para desalojar essas pessoas que vêm a nós deixando para trás suas vidas, seus lares e sua história”. E então ativar um código e protocolo humano intrínseco de hospitalidade ao forasteiro. Mas a hospitalidade não é compulsória; ou uma cultura a possui ou não possui. Se não possui, deve admitir a mesquinhez cultural e humana, dizer francamente que não há vaga na hospedaria, alimentar o forasteiro e orientá-lo a seguir seu caminho sem hostilizá-lo, humilhá-lo e ainda por cima oprimi-lo, como está acontecendo agora na Hungria.

Você conhece refugiados pessoalmente?

Sim, tenho proximidade com vários ex-forasteiros, visitantes e viajantes que se tornaram amigos íntimos e são minhas janelas para um mundo mais amplo.

Você apoia refugiados concretamente?

I do, mostly, as a good, I hope, friend, sister and protector.

What advice would you give a refugee?

Sim, apoio, principalmente como uma boa (assim espero) amiga, irmã e protetora.

Como a situação dos refugiados no seu país evoluirá

a) nos próximos dois anos?

Virão pessoas, outras irão embora. Os números podem variar.

b) nas próximas duas décadas?

Virão pessoas, outras irão embora. Os números podem variar.

Você consegue imaginar um mundo sem refugiados?

Claro que não. Uma característica da história humana é depender do movimento, do fluxo e do intercâmbio de povos e criaturas. Além disso, enquanto sociedades supostamente civilizadas persistirem em criar guerras em ações obscenas para sustentar suas economias estrebuchantes em vez de fazer o trabalho duro de buscar soluções mais humanas, enquanto guerras humanas forem justificadas e desculpadas e, para piorar, as incertezas quanto às mudanças climáticas mundiais se fizerem sentir, nenhuma população do mundo estará livre do risco de um dia ter que se deslocar às pressas sem destino determinado e sem data certa para voltar.

Em caso afirmativo: o que é necessário para isso?

Ver resposta acima.

Você ou sua família já passaram por alguma experiência de fuga no passado?

Refugiados temporários. Viajamos pelo mundo. Todos os viajantes dependem da bondade de estranhos para trafegar por seus caminhos.

Você acredita que alguma vez poderá se tornar uma refugiada?

Sim. Sou humana. Nada do que é humano é alheio a minha existência.

Em caso afirmativo: por quê?

Eu viajo. O mundo está em fluxo. Há poucas certezas na face da Terra. A maioria das nações do mundo compõe-se de descendentes daqueles que se deslocaram, seus cidadãos são a progênie de gente em busca de refúgio.

Como você se prepara?

Procuro ser afável com o forasteiro, com o viajante, com o perdido, e me pergunto o tempo todo o que significa ser humano, de modo que eu possa ser para o forasteiro o que eu gostaria que ele fosse para mim.

Em que país você se refugiaria?

Iria para o lugar, o espaço e as pessoas entre as quais meu coração se sentisse abrigado. Procuraria um povo que tivesse a coragem de me olhar nos olhos e enxergar neles o ser humano. Felizmente, por ora, posso encontrar refúgio em meu país, o Quênia. Não dou por garantida sua existência, sobretudo levando em conta que meus ancestrais, eles próprios imigrantes vindos de outros lugares, viajaram muito para encontrar refúgio nesta terra.

Quanto de “casa” você precisa?*

À medida que fico mais velha e mais consciente da passagem do tempo e da minha mortalidade, e também da simplicidade do húmus ao qual a matéria humana deve retornar, sou tomada profundamente por um sentimento indefinido daquilo que o seu povo chama de “fernweh”, ou será “heimweh”? (em galês, “hiraeth”; em português, “saudade”; em suaíli, “huzuni”). Minha suave batalha atual é para me desapegar do que é transitório. Nisso eu suspeito (ou espero) que meu cerne mais recôndito venha a encontrar liberto seu lar mais profundo e desejado.

*Esta pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa).

Autora
Yvonne Adhiambo Owuor, nascida em 1968, é uma escritora de Nairóbi. Ela recebeu em 2003 o British Caine Prize para Escrita Africana por seu conto The Weight of Whispers. Em 2004 ela dirigiu o Festival Internacional de Cinema de Zanzibar. Seu primeiro romance, Dust, datado de 2014, é uma descrição épica da história queniana da segunda metade do século 20 e conquistou o Prêmio de Literatura Jomo Kenyatta.
(tradução: José Geraldo Couto [Goethe-Institut e. V.]. Outubro de 2016)

Noémi Kiss – foto: Valuska Gábor

NOÉMI KISS (HUNGRIA)

O que o termo refugiado significa para você?

Posso fugir de muitas situações ruins – nossa vida é cheia desses momentos em que me sinto oprimida (isso também pode ser privado, íntimo). Muitas vezes é invisível. Um momento, um sentimento – insidioso. Não posso me defender em um casamento violento, por exemplo. E pode acontecer durante a guerra. Onde se poderia pensar que a pressão é evidente. Não é. O sol nasce e volta a se por. O dia é um ritmo – mas nada é o mesmo, há guerra, eu morrerei. Posso morrer a qualquer momento. É evidente, é muito mais do que isso e terrível e quase inacreditável. O ser humano foge da guerra. Todas as guerras são brutais para a alma. E todo casamento onde há violência, onde me sinto sob pressão, é uma guerra contra a alma. Fuga por motivos políticos é naturalmente justificável. Numa sociedade patriarcal, é duplamente difícil para uma mulher durante a guerra.

A fuga da pobreza é menos legítima que a fuga da guerra ou da opressão política?

Sim. A questão polariza. Guerra e pobreza estão bem perto uma da outra. Também pode haver uma guerra interna – as pessoas sofrem sob ditaduras. Eu vivi na pobreza, assim como minha família – é possível sobreviver a muita coisa com pouco dinheiro. A uma guerra real, com armas, só raramente se sobrevive. Há pobreza sem esperança – e há esperança na pobreza. Depende de como se perceba. A pobreza tem vários lados, também os religiosos – não se pode condená-la, é até uma forma de modéstia, de fé, esperança. Mas, para mim, a guerra pode ser condenada independentemente de sua forma. Ela é uma última rodada do mundo feudal e patriarcal. Sempre voltada contra as pessoas.

E quanto à fuga como resultado de problemas ambientais?

Isso é justificável, mas não traz uma solução para o problema em si. Povoados inteiros, pais de família, jovens rapazes fogem para o Ocidente – o que isso traz? O que será do Líbano? Da Eritreia? De Burkina Faso? Da Albânia, Croácia? Hungria? Polônia? Se a mão de obra desaparece? Onde crianças e seus avós têm de ficar sozinhos? Onde os jovens casais deixam os filhos para trás, para cuidar de gente estranha – sua própria gente continua no povoado. Crianças sem mãe – isso é o Leste Europeu hoje, é a Ucrânia, Moldávia, Albânia. Individualmente isso é justificável. Não há política voltada para o futuro, nem na Europa e nem no mundo. Mas fugir – e depois? Lados escuros da alma; para mim, deixar uma pátria por necessidade e coerção é muito problemático.

Quando se deixa de ser um refugiado?

Quando se chega, ou seja, nunca. Quando o trauma foi grande, a segunda e terceira gerações vão continuar trazendo essa história dentro de si. Saxões da Transilvânia, romenos, refugiados da antiga Ioguslávia – eles são felizes? É melhor nem perguntar. Aos refugiados da Síria também não –tudo é controlado politicamente, ninguém se envolve com as biografias.

Existe um direito ao asilo?

Naturalmente.

Em caso afirmativo: esse direito é incondicional, ou se pode perdê-lo?

Não. Cada asilo traz uma biografia única. Não é possível examiná-la. E isso gera problemas.

Na sua visão o número de refugiados que uma sociedade pode absorver é limitado?

Isso soa bem, mas a pergunta não está bem colocada. Será que se pode, mesmo? Não. É horrível, pois não ter limites não é possível. Teoricamente pode-se implementar uma política muito humana a partir disso hoje. Mas não se acolherá um número ilimitado de refugiados. A realidade sobrescreve esse slogan. E com uma questão colocada de maneira tão errada fala-se pouco sobre problemas reais e destinos de pessoas.

Caso existam limites, quais são eles?

Não deveria haver fronteiras – mas, na Europa, elas já existem. E isso que elas tinham desaparecido. Novas fronteiras, ideias completamente novas sobre fronteiras. Delimitar, excluir, limitar, restringir, construção de cercas – nada pode nem deve continuar sem fronteiras. Estigmatização, xenofobia, fronteiras desejadas – essas são as novas ideias. 20 anos sem fronteiras e isso já se acabou novamente. Para mim, fronteiras invisíveis são muitas vezes mais importantes que as visíveis. Defendo veementemente uma Europa sem fronteiras. Posso reunir argumentos a esse favor. Mais ninguém ouve mais – acabou. E isso é triste.

Existem refugiados privilegiados em seu país, isto é, refugiados que são mais bem-vindos do que outros? Em caso afirmativo, por quê?

Sim. Minorias húngaras da Romênia, Ucrânia, Voivodina (Sérvia). “Refugiados econômicos” como russos, ucranianos, chineses… como em toda a Europa.

Na sua opinião, os refugiados em seu país recebem tratamento justo?

Não. Absolutamente. O governo húngaro tenta difundir uma imagem negativa dos refugiados. Xenófoba e desumana. Há um ano ou mais, refugiados são representados em cartazes como inimigos. Hoje, depois do Brexit, o governo faz até uma campanha claramente contra a União Europeia. E atualmente até os próprios húngaros são “refugiados econômicos” em toda a Europa. Empregados como enfermeiras, professores, médicos, pedreiros, garçons, técnicos em infomática… cuidadores, faxineiras, prostitutas. A maioria das famílias educa os filhos com o bordão: “Saia daqui.” “Vá para o estrangeiro.” “Fuja.” Se continuar assim, não há futuro para a Europa.

Cortes no sistema de previdência social em seu país seriam aceitáveis para você se servissem para facilitar a recepção de mais refugiados?

Eu seria muito a favor. – Mas sei que aqui, em um país “pobre”, isso é impossível. É possível fazer uma política humana e solidária, se se consegue convencer as pessoas. Mas não se consegue. Na Hungria, o sofrimento e a pobreza são muito grandes. Hoje reina aqui o egoísmo capitalista – e o egoísmo político. Na condição de antigo país socialista, os esforços rumo a um Estado social são muito pequenos. A solidariedade só existe na esfera privada. A política hoje é um ditame. Ela pouco se importa com o bem-estar, se fundamenta em medos, como a xenofobia por exemplo. E isso se soma ao novo problema: islamismo e terrorismo na Europa. Sobre os quais sabemos tão pouco aqui no Leste Europeu.

Quais são os requisitos para uma integração bem-sucedida?

– da parte dos refugiados?
– da parte dos cidadãos do país anfitrião?
Sim, Direito, Estado, valores fundamentais – sendo que acho muito importante a emancipação das mulheres.
Você conhece refugiados pessoalmente?

Sim, naturalmente. Eu me proponho a isso, é minha tarefa como escritora. Hoje todos somos refugiados. Minha família fugiu para Trianon. De Máramaros (hoje Ucrânia). Uma região da Europa que foi muito afetada pelo Holocausto. Escrevi sobre prostitutas húngaras na Suíça. Hoje mulheres e corpos de mulheres migram do Leste para o Oeste. Falamos pouco sobre isso. Elas também fogem – da violência, pobreza, por medo…

Você apoia refugiados concretamente?

Naturalmente.

Como a situação dos refugiados no seu país evoluirá

a) nos próximos dois anos?
b) nas próximas duas décadas?

Mais refugiados virão à Europa Central. Dos Bálcãs, da Albânia, Macedônia, Sérvia. Da Ucrânia. Armênia, Cáucaso, Rússia. Tenho certeza. E dos países do Oriente Médio.

Você consegue imaginar um mundo sem refugiados?

Nunca consegui, também não quero – sempre deve haver uma possibilidade de fugir de uma situação violenta. Nunca houve um mundo sem refugiados. Mas pode-se e deve-se aspirar a que haja menos violência e pobreza.

Você ou a sua família já passaram por alguma experiência de fuga no passado?

Sim, minha família vem originalmente da Armênia. No século 18, chegaram à Transilvânia. E a Máramaros. Depois fugiram para Trianon, depois da Primeira Guerra Mundial, depois da peste.

Você acredita que alguma vez poderá se tornar uma refugiada?
– Em caso afirmativo, por quê?

Sim, infelizmente, eu consigo imaginar isso facilmente, penso nisso todos os dias – por motivos políticos.

Quanto de “casa” você precisa?*

Só uma: casa, crianças, meus parentes próximos, tanto faz onde, mas, de preferência, se eu puder escolher, aqui em Budapeste ou em Kisoroszi, à margem do Danúbio.

*Essa pergunta foi extraída do questionário de Max Frisch sobre “Heimat” (pátria, terra natal, lugar de origem, casa)”.

Autora
Noémi Kiss nasceu em 1974, em Gödöllő, na Hungria e é considerada uma das mais importantes escritoras húngaras da nova geração. Ela ficou conhecida com livros como Was geschah, während wir schliefen (O que aconteceu enquanto dormíamos – 2008) e Schäbiges Schmuckkästchen: Reise in den Osten Europas. Bukowina – Czernowitz – Galizien – Gödöllő – Lemberg – Siebenbürgen- Vojwodina (Porta-joias surrado: Viagem pela Europa Oriental – 2015), entre outros. Seus livros foram traduzidos para o alemão, inglês, polonês, romeno, búlgaro e sérvio. Noemi Kiss escreveu sua tese de doutorado sobre o poeta judeu-alemão Paul Celan.
(tradução: Renata Ribeiro da Silva [Goethe-Institut e. V.]. Outubro de 2016)

Fonte: Goethe Institut

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