Retirantes, Portinari - 1944 (detalhe)

“Será a calamidade da fome um fenômeno natural, inerente à própria vida, uma contingência irremovível como a morte? Ou será a fome uma praga social criada pelo próprio homem? […] Assunto tão delicado e perigoso por suas implicações políticas e sociais que até quase os nossos dias permaneceu como um dos tabus da nossa civilização – uma espécie de tema proibido ou, pelo menos, pouco aconselhável para ser abordado publicamente.”
– Josué de Castro, no livro “Geopolítica da Fome”. 2ª ed., Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1953.

“Quais são as causas ocultas desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome? Será simples obra do acaso que o tema não tem atraído devidamente o interesse dos espíritos especulativos e criadores dos nossos tempos? Não cremos. O fenômeno e tão marcante e se apresenta com tal regularidade que, longe de traduzir obra do acaso, parece condicionado ás mesmas leis gerais que regulam as outras manifestações sociais de nossa cultura. Trata-se de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido ou, pelo menos, pouco aconselhável de ser abordado publicamente.” 
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1959)

“A sensação de fome não é uma sensação contínua, mas um fenômeno
intermitente com exacerbações e remitências periódicas. De início, a fome provoca uma excitação nervosa anormal, uma extrema irritabilidade e principalmente uma grande exaltação dos sentidos, que se acendem num ímpeto de sensibilidade, a serviço quase que exclusivo das atividades que conduzam á obtenção de alimentos e, portanto, á satisfação do instinto mortificador da fome. Desses sentidos há um que se exalta ao extremo, alcançando uma acuidade sensorial incrível: é o sentido da visão. No faminto, enquanto tudo parece ir perecendo aos poucos em seu organismo, a visão cada vez mais vai se acendendo, vivificando-se espasmodicamente.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1959)

“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1958)

“São sombrias caravanas de espectros caminhando centenas de léguas em busca das serras e dos brejos, das terras da promissão. Com seus alforjes quase vazios, contendo quando muito um punhado de farinha, um pedaço de rapadura; a rede e a filharada miúda grudada às costas, o sertanejo dispara através da vastidão dos tabuleiros e chapadões descampados, disposto a todos os martírios. Sem recursos de nenhuma espécie, atravessando zona de penúria absoluta, gastando na áspera caminhada o resto de suas energias comburidas, os retirantes acentuam no seu êxodo as consequências funestas desta fome. Vê-los é ver, em todas as suas pungentes manifestações, o drama fisiológico da inanição.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1958)
Retirantes, Portinari (1958)

“Fome, o mais antigo e perverso tabu do mundo”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1958)

“O subdesenvolvimento não é, como muitos pensam equivocadamente, insuficiência ou ausência de desenvolvimento. O subdesenvolvimento é um produto ou um subproduto do desenvolvimento, uma derivação inevitável da exploração econômica colonial ou neocolonial, que continua se exercendo sobre diversas regiões do planeta.”
– Josué de Castro, no livro “Geopolítica da Fome”. 2ª ed., Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1953.

Retirantes, Portinari (1958)
Retirantes, Portinari (1958)

“Golpeado a fundo pelo cataclismo, com suas fontes de produção estagnadas, o sertanejo quase sempre desprovido de reservas cai imediatamente num regime de subalimentação. Começa por limitar a quantidade de sua ração e a variedade de seus componentes. A sua dieta nesta fase se reduz logo a um pouco de milho, de feijão, de farinha. Mas se a seca persiste, estes poucos gêneros desaparecem do mercado, ficando o sertanejo reduzido aos recursos das “iguarias bárbaras”, das “comidas brabas” – raízes, sementes e frutos silvestres de plantas incrivelmente resistentes á dessecação do meio ambiente.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes morrendo, Portinari (1958)

“[…] De fato, o enterro é um dos traços mais vivos e mais presentes na paisagem social do Nordeste, como ocorre na Sicília, como ocorre na China, enfim, em todos os povos muito ligados á terra, que fazem um grande alvoroço ao voltarem ao seio da terra. E verdade que a maior parte deles volta cedo, logo nos primeiros meses de vida, como se tivesse arrependido de ter nascido numa terra tão pobre, ou como se não tivessem vindo preparados para uma viagem mais longa. O fato é que as crianças nascem mais para morrer do que para viver.”
– Josué de Castro, no livro “Sete Palmos de Terra e um Caixão”. São Paulo: Editora Brasiliense, 1965.

Enterro na rede, Portinari (1958)

“Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens”
– Josué de Castro

Retirantes, Portinari (1957)

“Queimam-se os espinhos e dá-se ao gado, cujos beiços se enrijecem com as cicatrizes que os acúleos lhes deixaram, sangrentos, doloridos, depois calejados… Vai-se buscar água aos poços ou cacimbas a quatro léguas de distância, em lombo de burro, nos jegues incansáveis. Mas o cacimbão vai mostrando o fundo. Se o gado morre à míngua, não há mais a esperar, a retirada… Uma trouxa do que se pode salvar e levar, e com os outros que passam na estrada, é a mesma amargura, o calvário de mais passos apenas… O homem esgota tudo em torno para nutrir-se: o cardo, o xique-xique, em beijus; a batata da macambira em farinha; a maniçoba como se fora mandioca; as sementes da mucunã torradas, pisadas, lavadas, relavadas em nove águas, em goma; carnaúba em sopa; o umbu é um agrado da providência… O palmito da carnaúba, a palmeira providencial, até ela, último recurso… Que extrair desta parca e até, às vezes, nociva alimentação? Nem alento, nem esperança… Fugir, se não se cai vencido ante esta resolução que tanto custa… Deixar a terra onde se sofre tanto…” (74)
– Afrânio Peixoto, citado por Josué de Castro, no livro “Geografia da fome”. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984. [ (74) Peixoto, Afrânio, Clima e Saúde, 1938. 228].

Retirantes, Portinari (1957)
Retirantes, Portinari (1955)

“[…] esgotadas as suas esperanças e reservas alimentares de toda ordem, iniciam os sertanejos a retirada, despejados do sertão pelo flagelo implacável. Sem água e sem alimentos, começa o terrível êxodo. Pelas estradas poeirentas e pedregosas ondulam as intermináveis filas dos retirantes “como se fossem uma centopéia humana”(72). Homens, mulheres e crianças, todos esqueléticos, “deformados pelas perturbações tróficas, com a pele enegrecida colada às longas ossaturas, desfibrados e fétidos pelo efeito da autofagia” (73).”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da fome: o dilema brasileiro – pão ou aço. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984. [ (72) Duarte Filho, João, O Sertão e o Centro, 2.ª edição, 1939; (73) Almeida, José Américo de, op. cit.]

Retirantes, Portinari (1955)

“Pelo Brasil afora se tem a idéia apressada e simplista de que o fenômeno da fome no Nordeste é produto exclusivo da irregularidade e inclemência de seu clima. De que tudo é causado pelas secas que periodicamente desorganizam a economia da região. Nada mais longe da verdade. Nem todo o Nordeste é seco, nem a seca é tudo, mesmo nas áreas do sertão. Há tempos que nos batemos para demonstrar, para incutir na consciência nacional o fato de que a seca não é o principal fator da pobreza ou da fome nordestinas. Que é apenas um fator de agravamento agudo desta situação cujas causas são outras. São causas mais ligadas ao arcabouço social do que aos acidentes naturais, ás condições ou bases físicas da região.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1955)

“Estes estados de espíritos extremos representam, em última análise, as exteriorizações do tremendo conflito interior que se trava entre os impulsos e instintos da fome e os que levam a satisfação de outros desejos e aspirações. Entre a alma de homem e a do animal de rapina, entre o anjo e o demônio que simbolizam a ambivalência mental da condição humana.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1955)

“E pagamos bem caro por esta despreocupação da ciência geográfica em face da realidade dinâmica. Daí a validez daquela frase pronunciada por um geógrafo e estadista britânico de que “o custo da ignorância geográfica tem sido incomensurável”. Grande parte das dilapidações das riquezas naturais, da violentação e do desequilíbrio provocado pelo homem nos quadros ecológicos regionais e mesmo das violentações dos grupos culturais, se deve ao pouco conhecimento das realidades geográficas em sua expressão dinâmica, exercida através do jogo de suas intenções e implicações do natural sobre o cultural e vice-versa.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1955)

“Não é mal de raça, é mal de fome. É a alimentação insuficiente que lhe não permite um desenvolvimento completo e um funcionamento normal. Não é a máquina que seja de ruim qualidade; e se o seu trabalho rende pouco, ela estanca e pára a cada passo e se despedaça cedo é por falta de combustível suficiente e adequado.”
– Josué de Castro, no “livro Documentário do Nordeste.”. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959.

Retirantes, Portinari (1955)
Onze Retirantes, Portinari (1955)

“Muito mais do que a seca, o que acarreta a fome no Nordeste é o pauperismo generalizado, a proletarização progressiva de suas populações, cuja produtividade é mínima e está longe de permitir a formação de quaisquer reservas com que seja possível enfrentar os períodos de escassez– os anos das vacas magras, mesmo porque no Nordeste já não há anos de vacas gordas. Tudo é pobreza, é magreza, é miséria relativa ou absoluta, segundo chova ou não chova no sertão. Sem reservas alimentares e sem poder aquisitivo para adquirir os alimentos nas épocas de carestia, o sertanejo não tem defesa e cai irremediavelmente nas garras da fome.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirante, Portinari (1954)

“A história dos homens do Nordeste me entrou mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Entrou-me por dentro dos meus olhos ávidos de criança sob forma destas imagens que estavam longe de serem claras e risonhas… Nada eu via que não provocasse a sensação de uma verdadeira descoberta. Foi assim que eu vi e senti formigar dentro de mim a terrível descoberta da fome.”
– Josué de Castro, no prefácio do livro “Homens e caranguejos”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

Menino retirante segurando bauzinho, Portinari (1947)

“Um dos fatores mais constantes e efetivos das terríveis tensões sociais reinantes é o desequilíbrio econômico do mundo, com as resultantes desigualdades sociais. Constitui um dos maiores perigos para a paz, como a tranquilidade da ordem, o profundo desnível econômico que existe entre os países economicamente bem desenvolvidos de um lado, e de outro lado os países insuficientemente desenvolvidos. Desnível que se vem acentuando cada vez mais, intensificando as dissensões sociais e gerando a inquietude, a intranquilidade e os conflitos políticos e ideológicos […] Embora o desenvolvimento econômico de cada país deva constituir uma responsabilidade nacional é evidente que sem uma ampla cooperação internacional é muito difícil que este desenvolvimento se processe em ritmo desejável nos países pouco desenvolvidos, de forma a preservar o equilíbrio  político e social do mundo”
– Josué de Castro, no “O livro negro da fome”. [ilustrações Anna Kindynis]. São Paulo: Brasiliense, 1960.

Retirantes, Portinari (1945)

“Acontece, porém, que a verdade sobre a fome incomoda os governos e fere as suscetibilidades patrióticas e, por isso mesmo, são frequentemente vedadas ao grande público, pelas respectivas censuras políticas.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da fome: o dilema brasileiro – pão ou aço. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.

Retirantes, Portinari (1944)
Retirantes, Portinari (1939)

“A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é conseqüência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil. Aventura desdobrada, em ciclos sucessivos de economia destrutiva ou, pelo menos, desequilibrante da saúde econômica da nação: o do pau-brasil, o da cana-de-açúcar, o da caça ao índio, o da mineração, o da “lavoura nômade”, o do café, o da extração da borracha e, finalmente, o de certo tipo de industrialização artificial, baseada no ficcionismo das barreiras alfandegárias e no regime de inflação.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Seca, Portinari (1939)

“A luta contra a fome no Nordeste não deve, pois, ser encarada em termos simplistas de luta contra a seca, muito menos de luta contra os efeitos da seca. Mas de luta contra o subdesenvolvimento em todo o seu complexo regional, expressão da monocultura e do latifúndio, do feudalismo agrário e da subcapitalização na exploração dos recursos naturais da região.”
– Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”. 8ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Retirantes, Portinari (1936)

“Constitui, pois, a luta contra a fome, concebida em termos objetivos, o único caminho para a sobrevivência de nossa civilização, ameaçada em sua substância vital por seus próprios excessos, pelos abusos do poder econômico, por sua orgulhosa cegueira— numa palavra, por seu egocentrismo político, sua superada visão ptolomaica do mundo.”
– Josué de Castro, no “O livro negro da fome”. [ilustrações Anna Kindynis]. São Paulo: Brasiliense, 1960.

Retirantes, Portinari (1936)

“A história da humanidade tem sido, desde o princípio, a história de luta pela obtenção do pão-nosso-de-cada-dia.”
– Josué de Castro, no livro “Geopolítica da Fome”. 2ª ed., Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1953.

Retirantes, Portinari (1960)

“É preciso antes de tudo trabalhar para extirpar do pensamento político contemporâneo esta ideia errônea da economia considerada como um jogo em que alguns devem sempre perder para permitir a outros sempre ganhar. É preciso fazer da economia um instrumento de distribuição equilibrada dos bens da terra, a fim de que em nosso tempo, já não se possa aplicar a esta ciência a definição amarga que lhe dera Karl Marx no século passado, quando falava das ciências das misérias humanas.”
– Josué de Castro, no “O livro negro da fome”. [ilustrações Anna Kindynis]. São Paulo: Brasiliense, 1960.

Saiba mais sobre:
:: Candido Portinari – a alma – o povo e a vida brasileira
:: Josué de Castro – e a geografia da fome

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