©Renoir Pierre-Auguste

Seu nome era Hannah, mas preferia ser chamada de Alice.
A menina olhava melancolicamente pela janela traseira do antigo Ford Model A de seu pai enquanto assistia a típica chuva inglesa a cair, gota a gota, pela imensidão acinzentada. O carro se movia quase tão lentamente quanto à paulatina queda das gotas, e ela se sentia entediada e desafortunada. Em meio ao silêncio quase fúnebre de seus pais, sentados no banco da frente, a menina entregava-se aos seus pensamentos também melancólicos. Nunca imaginaria que sua vida mudaria tanto em tão pouco tempo.
Este país é assim. Sempre cinza.
Hannah Schmidt Wasser era filha de uma mulher londrina, cujas raízes familiares eram oriundas da Inglaterra. Seu pai, judeu alemão e grande negociante empreendedor, a conhecera em uma de suas viagens para fora de seu país. Em pouco tempo, se casaram e juntaram as famílias, mesmo causando desgosto aos seus parentes. Os dois nichos familiares não se aceitavam muito bem, em especial pela incompatibilidade entre seus filhos, por conta de suas origens muito distintas.
Mas tudo mudou quando Hannah nasceu no dia 23 de fevereiro de 1926. A chegada da menina mudou o coração e o pensamento de muitos: não apenas dos familiares que não se aceitavam, como também gerou novos objetivos de vida para seus pais. Ludwig Wasser decidira deixar suas viagens a negócios de lado e escolheu fixar residência em sua cidade natal, Berlim, onde sua filha teria educação privilegiada, assim como boas condições de saúde e segurança. Sua mãe, Anna Schmidt, concordou. Desejava apenas estar ao lado do marido e da filha que tanto amava, não tendo os mesmos preconceitos de seus pais.
Com o tempo, as famílias se aproximaram: avós, tios e primos da pequena Hannah hospedavam-se na mansão da família Wasser em Berlim, e celebravam junto com todos inclusive os feriados judeus. Eram luteranos, e não exerciam a religião. Gradativamente, inseriram-se tanto na cultura judaica que a família Wasser fazia piada de que eram mais judeus do que luteranos.
Mas a suposta paz começou a ser ameaçada ao final da década de 30.
Hannah não se lembrava bem, mas sabia que havia tensão no ar. Seus parentes maternos não mais a visitavam, e, mesmo sendo uma criança, ela percebia que algo não estava bem. Ouvira comentários sobre “perda de cidadania”, perseguições, e a necessidade de fechar os negócios e se mudar.
Mas a menina não queria ir embora. Sua casa era ali, junto com toda a família de seu pai, e a quase constante visita de seus parentes ingleses. Fora lá que crescera, fora educada, tivera amigos e aprendera a ensaiar sua vida.
Porém, de nada adiantaram seus protestos. Era só uma criança, e não entendia de fato como o mundo funcionava.
Em 1936, seu pai a levou junto de sua mãe e seus avôs paternos para a Inglaterra. Hannah perguntou por que não levariam consigo toda a família residente em Berlim, mas seu pai, em resposta, manteve um longo silêncio, seguido de um sorriso amarelo. Em seguida, apenas improvisou uma suposta garantia de que eles embarcariam em outro navio, posteriormente.
Passaram-se dias, e ela perguntou novamente. Seu pai falou que demorariam mais algumas semanas. As semanas transformaram-se em meses, que, em seguida, formaram um ano: 1937.
Cansada de perguntas com respostas evasivas, a menina de onze anos surrupiou, em uma manhã, o jornal que era entregue pontualmente na frente da casa da família de sua mãe, onde naquele momento residiam.
Um homem chamado Churchill havia dado uma extensa entrevista, que aparecera na capa do jornal. Em diversos momentos, lia-se a palavra “guerra”, e “anti-semitismo”.
A menina chorou por dois dias, recusando-se a sair do quarto. Ainda não havia entendido completamente o que se passava, mas, mesmo assim… Desistiu de perguntar.
Hannah apenas tentava não pensar no que poderia acontecer ou teria acontecido aos seus parentes em Berlim. Embora eles sempre a visitassem, em seus pesadelos. Imaginava-os fugindo, sorrateiros, esgueirando-se furtivamente para algum navio para fora da Alemanha, tendo sempre suas tentativas frustradas da pior forma possível.
Ela acordava suando frio, sentindo taquicardia, seu corpo todo tremendo. Chorava baixinho, olhando pela janela da casa de sua mãe em Londres, encarando o céu sempre fechado e cinza. Cinza era a cor dos cadáveres… Ela estremecia, recordando.
Era a cor de seus parentes em seus sonhos.
Nesta rotina aflitiva, três anos se passaram. A guerra, por sua vez, se intensificou. O poderio nazista mostrava suas garras de aço e pólvora, e murmúrios sobre bombardeios eram cada vez mais escutados por ouvidos atentos. O pai de Hannah, desesperado, vendeu a propriedade da família em Londres, e decidira se mudar com todos os remanescentes para a pequena cidade de Bude, no norte da província de Cornwall, na Inglaterra. Pensava que isto lhes daria uma chance de, caso necessário, escapar por uma saída marítima não tão óbvia assim.
Enfrentaram horas de percurso na estrada, parando em pequenas estalagens para o pernoite. Por todo o tempo de viagem, foram castigados pela chuva fina e incessante.
E, enfim, Hannah foi brindada com a primeira visão de Bude.
Naquele preciso momento, enquanto acabara de adentrar junto à sua família os limites territoriais do minúsculo município, Hannah tentava sonhar. Devanear. Era a melhor saída para fugir da realidade, a qual tentava a todo custo puxá-la com força para baixo, com suas gafas de ferro, sangue e morte; se esforçando para arrastá-la para longe das nuvens, onde sua cabeça de jovem moça tentava repousar.
Contudo, as nuvens eram cinza, assim como seus pensamentos.
Em outros tempos mais felizes, a menina admiraria as pequenas pontes e moinhos que delicadamente se abriam aos novos moradores da cidade, evidenciando a paisagem idílica do lugar: uma cidade bucólica e campestre, próxima ao mar. Um pequeno refúgio.
Seguindo mais adiante, passaram pela rua central da cidade, na qual havia uma pequena igreja luterana, proeminentemente branca com detalhes azuis em suas bordas, localizada próxima a uma praça de tijolos brancos. O povo da cidade caminhava em seus afazeres costumeiros, e Hannah pôde reconhecer o padeiro local, marinheiros, crianças a brincar, e velhinhos que conversavam e fumavam cachimbo, sentados nos bancos da praça. Seria uma paisagem adorável, mas a sensibilidade de Hannah não podia ser tocada no momento.
Estava mais preocupada em pensar sobre como iriam recepcioná-la. Fora instruída pelos seus parentes a negar suas origens paternas, enquanto frequentasse a escola. Não usaria seu sobrenome Wasser, se apresentaria meramente como Hannah Schmidt. Todavia, desejava em seu íntimo apresentar-se como Alice.
Sabia que seu biótipo não a entregaria. Era muito diferente de seu pai, que detinha um nariz grande, e um corpo levemente atarracado, alguns dez centímetros mais baixo que a média dos ingleses, um povo de altos homens. Era idêntica a sua mãe: morena, pele alva como a neve, de cabelos escuros e lisos, levemente ondulados. Traços gentis, como o de várias moças inglesas. Era muito bela, mas não sabia. Desenvolveu-se cedo, menstruando com onze anos de idade, enquanto suas amigas ainda tinham aparência infantil, e era motivo de chacota na escola. Era a mais alta de suas colegas, e portanto se considerava desajeitada, como se tivesse crescido muito em pouco tempo.
De seu pai, havia herdado seu gentil par de olhos verdes, naturalmente lacrimosos, sempre com um curioso brilho umedecido. Gostava de imaginar que viera daí a origem do sobrenome Wasser, que significa, em alemão: “água”.
A viagem seguia, e, finalmente, a menina avistou grandes jardins, cercados por um muro vitoriano de pedra. A casa era toda construída em um típico estilo inglês, com suntuosas grades de ferro negras na entrada, portando um símbolo estranho acima delas.
Desceram do carro, e Hannah ajudou seus pais a retirarem as malas, até que o caseiro do local, contratado por seus avôs maternos, acompanhou-os e levou as malas para seus respectivos quartos. A menina parou na frente da entrada, absorvendo todo o novo cenário.
A casa era construída por tijolos antigos, umedecidos e enegrecidos pelo tempo. Era de um verde-acinzentado, como se tivesse criado musgo em suas paredes externas. Percebeu a saída de três lareiras diferentes, o que comprovava o quão fria deveria ser a temperatura média daquela cidade. Lembrava-lhe de uma casa de campo, o que muito lhe agradava, e aliviou levemente o fardo que carregava em seu coração.
Recordou-se curiosamente de como imaginava a casa próxima aos jardins que Alice se distraíra e caíra na toca do coelho, na obra de Lewis Carrol, e chegou a ter o ingênuo pensamento de que, naquela tarde, poderia passear pela propriedade e tentar encontrar a passagem para o país das maravilhas. Sorriu consigo mesma, e entrou na casa, seguindo seus pais.
Seus avôs maternos e paternos, que já se encontravam lá, aliviados, recepcionaram a todos com alegria e entusiasmo, e, por algumas horas, não se falou em guerra. Comeram, beberam — “Alice” tentou surrupiar a garrafa de vinho e servir-se a si mesma, mas foi flagrada por seu pai — e conversaram sobre a viagem, como se nada demais acontecesse no mundo.
Era um dia de domingo, e não havia nada a fazer.
Enquanto os adultos conversavam na grande sala de estar, “Alice” decidiu subir para conhecer seu quarto.
Ficava na extremidade direita da casa, e, pela pequena sacada, podia ver, muito ao longe, o horizonte marítimo. Depois de camadas e camadas de árvores, o céu cinzento parecia se juntar a outra superfície cinzenta, rumo ao infinito. Ela sorriu, pois gostava do mar.
Havia uma cama de solteiro, sustentada por materiais de ferro, junto a um criado-mudo, uma cômoda de madeira pintada de branco, com detalhes de flores próximos aos puxadores das gavetas. O piso era também de madeira, escura, e uma penteadeira com um grande espelho oval ocupava o resto de espaço das quatro paredes que formavam seu quarto. Serviria muito bem.
Em pouco tempo, absorvera a maior parte dos detalhes. Percebeu um singelo lustre no teto, provavelmente antigo, pois não era ligado a energia elétrica, e sim com velas dispostas acima de seus braços dourados. As paredes não pareciam tão velhas, pois o rosa pastel com que foram pintadas ainda não se esburacara com o tempo, apresentando poucas escoriações e rachaduras. Mas o detalhe mais curioso fora uma tábua que parecia não se encaixar com o piso do chão.
Abaixou-se para mexer no curioso objeto que não combinava, quando ouviu um delicioso barulho de água corrente. Seus parentes tinham terminado de conversar, deixando a casa mais silenciosa, no que permitiu que Hannah reparasse no ruído do pequeno córrego daquele terreno.
Correu até a janela, e, animada, desceu as escadas, para explorar a propriedade.
A menina atravessou partes do jardim, seguindo o ruído gostoso da água que corria. Quando finalmente alcançou o córrego, abaixou-se para tocar a água, e soltou um gritinho de alegria e surpresa. Era fria demais.
Decidiu segui-lo, para ver até onde chegaria. Seria sua primeira aventura naquele novo local, e quem sabe depois o que poderia descobrir?
Finalmente ela voltava a sentir sua alegria infantil tomando espaço em seu coração, a aliviando, mesmo que momentaneamente, do peso que carregava. Sorria, não apenas pela diversão de menina, mas por saber, enfim, que a capacidade de senti-la ainda não havia morrido dentro de si.
Quase aos saltos, ela seguia o rio corrente, mal disfarçando o sorriso bobo em sua face. Ao longe, havia um grande salgueiro, de troncos grossos, que poderia escalar. Sorriu ainda mais, e se aproximou lépida.
Quando quase alcançava a frondosa árvore, Hannah reparou que um rapaz alto, de dourados cachos, vestido de maneira curiosamente elegante, encostava-se em seu tronco, e também olhava para o rio que se abria à sua frente. Tomou um grande susto.
O que ele está fazendo na minha casa? Hannah sentiu vontade de sair correndo, gritando para chamar seus pais. Era um estranho, e invadira os limites de sua propriedade. Estavam muito longe dos muros que circundavam o local, e ainda mais longe da própria casa, isolados em um ponto do grande terreno.
Porém, enquanto pensava nisso, o rosto do jovem se virou para ela.
Sentiu um arrepio correndo por sua espinha, gelando-a até a nuca, e seu coração novamente quase parou; mas, dessa vez, ela não entendia o motivo.
O rapaz, de pele também alva, a fitava, quase apático, como se praticamente não a visse. Tinha traços finos e elegantes, e, apesar do tamanho susto que levara, não pôde deixar de reparar em como era belo.
Principalmente seus grandes olhos, azuis, misteriosos como o mar, e gentis como o rio que passava ao lado de ambos. Sua cor era de um tom claro, como um espelho d’água, e a melancolia e gentileza do seu olhar era enfeitiçante; etérea, mística… Como a água que deságua da cachoeira e encontra o vau do rio, perdida em uma clareira de uma densa floresta. Um recanto discreto e singelo, sublime em sua descoberta, inédito aos olhos dos vivos.
Hannah não conseguia desviar seu olhar daquele estranho homem parado à sua frente, e começava a lentamente formular o pensamento de que poderia estar parecendo muito estranha, paralisada, encarando-o dessa forma.
O jovem franziu o cenho levemente, como se estivesse surpreso com a atitude dela. Ou com a falta de uma, mas nada disse. Curiosamente, contudo, parecia encará-la cada vez mais e mais surpreso.
“Alice” fechou os olhos e estremeceu dos pés à cabeça, antes de proferir uma frase improvisada.
— Com licença, senhor, presumo que esteja equivocado. Está ultrapassando limites de uma propriedade — balbuciou as seguintes palavras, sua voz trêmula, as mãos suando de ansiedade.
— Ah. — O jovem soltou uma ligeira exclamação, polida. — Estou terrivelmente arrependido. — Algo na voz dele, embora educada, despertava a intuição de “Alice”. Por alguma razão, ela julgou que ele sabia muito bem onde se encontrava.
— Não desejei constranger-lhe, senhorita. — Ele se aproximou brevemente, e Hannah permanecia paralisada, surpresa com a própria falta de reação. — Mas, se me permite perguntar… — Parecia realmente interessado. — Qual é o seu nome? — O rapaz esboçou um sorriso educado, e Hannah novamente sentiu o mesmo intenso arrepio.
Que audácia.

— Sinto muito, senhor, mas meus pais me orientaram a jamais falar com estranhos. Caso não vá embora, serei obrigada a chamá-los. — Ela tentava usar um tom de voz impositivo, mas falhava miseravelmente. Sentia-se como se os azuis olhos do curioso rapaz com quem dialogava fossem capaz de desarmá-la, deixá-la incapaz de reagir.

Mais estranhamente ainda, ele sorriu, dessa vez mais sincero. — Perdoe-me novamente. Não fui apropriadamente educado. — O rapaz esboçou uma ligeira reverência com a cabeça, em seguida voltando-se para Hannah. — Meu nome é Thomas Williams. Não soa tão bem, eu sei. — Ele fez um sorriso pateta, debochando do próprio nome, arrancando um riso legítimo de Hannah, que, surpresa, crispou os próprios lábios. Encarou-a, virando a cabeça levemente para o lado direito, como se estivesse se divertindo, ao passo que sorriu, semicerrando os olhos.
Hannah sentiu algo quente subir-lhe pelo peito, e retesou suas pernas.

— Eu não gosto muito do meu nome também — Hannah soltou, ainda surpresa por estar se abrindo tão facilmente com um estranho.
— E qual seria ele? Teria a bondade de me dizer? — Algo no tom gentil que o homem lhe dirigia aquelas palavras fazia Hannah intuir que poderia confiar nele, contra o que seria razoável. Porém, ainda assim, sentia um leve formigamento na nuca, como se algo no rapaz não fosse exatamente o que aparentava ser.
— …Pode me chamar de Alice. — Hannah levantou levemente a sobrancelha, lançando o desafio. Era um estranho, não tinha motivos para ser sincera com ele. E poderia ser o primeiro com o qual testaria sua nova vida, sua nova identidade.
Ele abriu um largo sorriso e deu uma pequena risadinha. A falsa Alice o mirava, sem compreender sua reação.
— Muito bem. Serei então Lewis, a partir de agora. — Ele abriu um largo sorriso, que, novamente, despertou a mesma sensação quente dentro de Hannah, mais uma vez exasperada com sua reação inusitada.
— O que quer dizer com isso? — Hannah indagou, um tanto mal educada, mas não se importava. Sabia que havia algum sentido oculto naquela frase, embora não o compreendesse.
O sujeito apenas riu, e, subitamente, virou as costas.
Hannah novamente não entendeu. — Aonde você está indo? — ela bradou, chocada com o comportamento curioso do jovem homem.
— Invadi sua casa. Como você mesma frisou, não é uma atitude apropriada — falou, sem se voltar para ela. — Foi um prazer, Srta Liddell. — Ao ouvir tais palavras, Hannah sentiu seu corpo todo estremecer, mas não por medo. Liddell?

A menina ficou observando enquanto o misterioso sujeito se distanciava. Logo depois, caminhou brevemente até o grande salgueiro. Encostou-se no tronco, e respirou fundo. O rapaz iria embora, e as coisas voltariam ao normal.
Lembrou-se, como em uma avalanche de pensamentos, da situação que vivia. Recordou-se do que seria o seu normal, nos dias daquele tempo: da guerra, da morte, da perseguição, de seus parentes dos quais seu pai não falava, dos jornais, de seus pesadelos…
— Thomas! Thomas, espere! — Sem pensar, “Alice” correu em direção ao estranho. Não se importava mais com a razão, naquele momento. Enquanto conversava com ele, sentiu sensações novas, e havia tal mistério no jovem invasor que muito a intrigava. Se conversasse com ele, o mínimo de tempo que fosse, poderia se distrair, e, quem sabe, fazer um amigo. Decidira se arriscar e pagar para ver.
Não queria ficar sozinha com seus fantasmas.
Correu o mais rápido que podia, seguindo o caminho que o jovem escolhera. Quando chegou, finalmente, aos portões da casa, não havia sinal de pessoa alguma. Pássaros chilreavam, o vento acariciava as folhagens, sem vida humana por perto, exceto por Hannah.
Franziu as sobrancelhas, estranhando. Quanto tempo passara encostada à árvore, para que ele tivesse ido tão longe? Parece o Cheshire Cat, sumindo. Pensou, e sorriu. O gato era um dos personagens mais misteriosos do livro, combinava com o distinto e fascinante rapaz que acabara de conhecer.

Naquela noite, jantou com seus pais e avós, mas sua mente ainda se perdia em suas lembranças vespertinas. Ouvia, quando a casa ficava silenciosa, o som do rio corrente, como se a chamasse para conhecer mais sobre os mistérios do mundo…
…E sobre si mesma.
No dia seguinte, compareceu a nova escola em que fora matriculada. Falava inglês fluentemente, com o sotaque londrino de sua mãe e avós, o qual escutara por toda a vida. Isso impressionou os colegas, causando inveja em algumas meninas, como ela bem reparou. Para Hannah, tanto melhor. Enquanto não desconfiassem de sua origem judia, era melhor ser vista como a menina rica da capital.
Passou a tarde solitária, por não ter sido tão bem recebida. Distraiu-se tentando prestar atenção às aulas, até que, às três horas da tarde, o sinal tocou e foram liberados. Seus pais a ensinaram como voltar sozinha, uma caminhada de vinte minutos até a nova casa. Todavia, preferiu aventurar-se um pouco.
A escola ficava próxima da zona portuária. A pequena cidade era sustentada pela pesca, agropecuária e criação de ovelhas, assim, os portos eram largos, tendo pontos empobrecidos e outros mais valorizados.
A menina caminhou ao longo de um cais velho e maltrapilho, inspirando o cheiro da maresia que tanto gostava, entorpecente, sentindo como se seus próprios cabelos, banhados pelo vento salgado, estivessem sendo temperados com aquele gosto e fragrância. Sorriu levemente com o pensamento, se divertindo com suas fantasias.
Quando chegou ao final do cais, sentou-se, deixando os pés quase a tocar o mar. Sabia que não era algo muito higiênico, mas não se importava. Naquela hora, lembrou-se de seus parentes. Como gostaria que pudesse avistar um navio chegando no horizonte, trazendo toda a sua família de Berlim para morar consigo. A casa era grande o suficiente, e seus dias seriam finalmente alegres. Onde eles estariam agora? Seus pais e avós se recusavam a tocar no assunto, e não permitiam que ela ouvisse rádio ou lesse as notícias do jornal a respeito. Escutou as conversas na escola, mas ninguém tocou no assunto “judeu”. E, obviamente, ela era perspicaz o suficiente para saber que não seria seguro perguntar.
Seus lábios tremeram ao se lembrar de todos os seus sonhos desesperadores, e do consequente medo de que ela e seu nicho familiar fossem os próximos. Respirou fundo, fechando os olhos com força, franzindo as sobrancelhas de medo, angustiada. Ao olhar novamente para aquela infinita superfície marinha e ao ouvir o som das ondas que, vagarosas, batiam na madeira semi-apodrecida do longo cais, um pensamento intruso se desenhou em sua mente.
E se eu nadasse para bem longe, até não mais aguentar?

Ela engoliu em seco. Não deveria pensar naquelas coisas.
Começava a se repreender mentalmente pelo pensamento, quando sentiu um estranho formigamento em sua nuca. Intuitivamente, se voltou para trás.
Thomas estava parado na entrada do cais com o mesmo tipo de traje formal que usara no dia anterior, a fitando de longe. Sorria polidamente, e seus olhos expressavam gentileza.
A garota se levantou de um salto, e, pensando em como deveria parecer ridícula, agiu rapidamente. Correu em direção ao rapaz, porém, quando estava no meio do caminho para encontrá-lo frente a frente, ele deu meia volta e caminhou até um pequeno depósito portuário, contornando sua edificação.
Ao fim do cais, ela se controlou, diminuiu o passo, e passou apenas a andar rapidamente. Seguiu os passos do jovem, porém, quando contornou a casa portuária, mais uma vez ficou alarmada.
Ele não estava mais lá.
Não fazia sentido. Parecia que o rapaz brincava consigo. Despertava sua atenção, e, ao tentar encontrá-lo, sumia em pleno ar.
É claro que havia diversos lugares em que ele poderia se esconder, mas, com que intuito? Havia algo de muito estranho em seu comportamento. Hannah simplesmente suspirou, frustrada, decidindo retornar à sua residência.
A tarde estava novamente cinza, e o sol se punha na direção do mar. Lamentou-se por não ter esperado anoitecer, enquanto abria o portão de ferro e adentrava o terreno do jardim; provavelmente aquele pôr-do-sol teria sido um belo espetáculo de se assistir do porto.
— Está atrasada, Srta. Liddell. Sua mãe está preocupada. — Thomas surpreendeu-a, do lado de fora da propriedade, e sorria educadamente.
— Você tem algum tipo de prazer mórbido em dar sustos? — Hannah parou, em choque, segurando com força a grade do portão. Não havia reparado nem sinal dele. Como consegue?

Hannah viu uma faísca no olhar do jovem. — De maneira alguma. Apenas lhe dei um conselho útil. — Ele acenou com a cabeça e foi caminhar pela estrada.
— Ei! EI! — Hannah gritou, para chamar sua atenção, e depois se sentiu estúpida. Não agia de forma nada cortês, se portando daquele jeito. Sentiu-se ruborescer.

Thomas girou nos calcanhares, e ficou parado, a cabeça pendendo para o lado esquerdo, esperando o que ela teria a dizer. Seus olhos azuis tinham um quê de mistério, mas agora, ela percebia, eram de um azul tão limpo, quase inocente… Como os olhos de um gato, encantadores e misteriosos. Mas, estranhamente… Mergulhada nas profundezas de sua água, parecia esconder-se uma melancolia tão infinita quanto o mar.
— Hã… — ela recompôs-se de sua admiração. — Desculpe-me. Não gostaria de ficar para jantar? Poderia conhecer minha família, eles ficariam felizes de saber que fiz um… Hã… Amigo — tentava reunir palavras, porém sentia que apenas se aparvalhava mais e mais.
Ele baixou os olhos para o chão, rindo consigo mesmo. Hannah se admirava com a fascinante presença daquele rapaz, e tinha plena consciência de que seu rosto estava em brasas de tão quente. — Não creio que seja uma boa ideia, Srta Liddell. — Ele sorriu enviesado. — Talvez noutro dia. Estou muitíssimo lisonjeado pelo convite. — Seu sorriso se tornou mais polido, lançando um último olhar para Hannah, que, percebia agora, estava boquiaberta. Não conseguia desfocar seus olhos de suas fulgurantes íris azuis.
Ele se afastou, caminhando elegante pela estrada defronte à propriedade. O sol batia em seus cabelos dourados, deixando sua luminosidade mais evidente ainda, dando um tom mais mágico e etéreo àquela cena, até mais do que já teria naturalmente.
Outra vez ela jantou silente com seus pais, apenas fazendo pequenos comentários aqui e ali para que não desconfiassem do que se passava consigo. Aquele rapaz tinha uma beleza fora do comum, mas não era isso o mais curioso a seu respeito. Era muito elegante, educado, um perfeito lorde inglês, como se dizia popularmente. Mas a menina intuía que seu fascínio ia, além disso, para algo que ela ainda não conseguia conceber em sua mera imaginação… Por mais que a fantasia nunca tivesse lhe faltado.
No dia seguinte, retomou sua rotina. Na escola, tentou se aproximar das colegas, mas ainda não a viam com bons olhos. Provavelmente, levaria algum tempo para que provasse ser uma boa companhia, e não uma menina metida de origem abastada.
Ao fim do dia escolar, decidiu não tomar mais atalhos, e seguiu direto para casa. Trazia uma específica esperança no coração, a qual não queria admitir para si mesma.
Desta vez, Thomas estava parado no portão de sua residência, os braços cruzados, como se esperasse alguma coisa. Será possível?

– Hã… — começou ela, ao passo que o rapaz devagar se voltava em sua direção. Seu rosto se abriu em um sorriso luminoso, e ela sentiu como se algo dentro de si derretesse. O que está acontecendo comigo?

— Boa tarde, Srta Liddell. — Ele parecia realmente alegre.
— Por favor, não me chame assim. Não entendo o que significa — pediu, um tanto exasperada. — Boa tarde — completou rápido, para não soar deselegante.
Ele riu da mesma maneira doce, como o riso de um menino, e mais uma vez ela se sentiu desajeitada.
— “Alice”. Se assim prefere. Mas eu sei que não é seu nome — o rapaz provocou, semicerrando os olhos.
— E eu não acho apropriado um quase estranho tomando tamanhas intimidades — ela reagiu, antes de pensar. Thomas aparentou contrição, mas ela prontamente se corrigiu. — Hã… Quero dizer, como sabe disso? Conhecemos-nos há dois dias, e eu não disse meu nome verdadeiro.
— Ouvi sua mãe lhe chamar ontem. É por isso que sei que estava atrasada — disse-lhe disse, com um sorriso de desculpas. — Sinto muito se a ofendi.
— Não se preocupe. — Sacudiu as mãos, atrapalhada. — Mas, se me permite… — Ela franziu as sobrancelhas. — Por que está sempre por aqui? Digo, próximo da minha casa? — tentou não soar grosseira.
— Eu… Moro perto de você. Foram meus parentes que venderam aos seus parentes esta casa, aliás. Quis apenas vir aqui para conhecer os novos proprietários. — Ele deu um sorriso sem mostrar os dentes, esclarecendo suas dúvidas.
— Ah. — Hannah acalmou-se. Aquilo fazia sentido. — Sim, é claro. Sinto muito pela desconfiança.
— Imagine, perdoe-me pela intromissão. — Thomas virou de costas, e ia seguir seu caminho, mas Hannah correu em direção a ele.
— Não quer realmente ficar para jantar, desta vez? — convidou-o novamente, e ele a fitou, contemplativo. Outra vez, ela teve plena ciência de que ruborizava à visão daqueles olhos de espelho d’água.
— Por que não me acompanha para um passeio? — sugeriu o rapaz. — Avise seus pais, é claro. Não os deixe preocupados. — Hannah sentiu-se envergonhada. Naquele momento, mais do que nunca, gostaria de parecer uma mulher madura.
Após ter avisado seus pais que sairia para caminhar — sem mencionar a companhia de Thomas — Hannah foi de encontro a ele, que continuava parado no mesmo lugar. O rapaz sorriu polidamente ao vê-la, e ela sentiu seu coração pulsar mais rápido. Não acho que aguentarei este ritmo.

Eles caminharam ao longo da estrada, de volta ao centro da cidade, e Thomas mostrou-lhe os pontos principais de Bude. Explicou-lhe que o nome original da cidade era Porthbud pela influência celta que havia no local, e lhe contou que ele, por sua vez, descendia de irlandeses, antes praticantes de tal cultura. Ela desejava lhe falar sobre suas origens também, mas não reuniu coragem para tanto.

Hannah ficou surpreendida com tamanho conhecimento que o rapaz detinha sobre a história e geografia do local. Sabia as origens de cada ponto mais conhecido, as linhagens que viveram em Bude’s Castle, e os distintos acidentes geográficos da região. Quando estava para escurecer, ele a acompanhou de volta para casa, ainda relatando mais detalhes pelo caminho.
Ao deixá-la na frente de seu portão, se despediu com um floreio de mão, lhe dando mais um sorriso galante. Hannah se sentia pasma por como isso lhe era tão natural, quando, para a maioria dos homens, eram gestos que soavam um tanto falsos e atuados.
— Quantos anos você tem? — ela perguntou bruscamente, antes que a deixasse só.
— Ah… Vinte e um anos de idade — respondeu, sorrindo gentil.
Ela se percebeu enrubescida. Sete anos mais velho! Mas não era tão estranho assim… Seus pais tinham uma diferença de 12 anos. O que você está pensando, garota?! Repreendeu-se. Sua intuição, porém, lhe dizia que aquilo não era completamente verdade.

— E você, Senhorita… Senhorita Alice? — Thomas parecia controlar o riso.
— Por que está rindo? — A garota se importou com aquilo. Não gostaria de fazer papel de boba, não na frente dele.
— Porque você é simplesmente adorável. — O rapaz parou de sorrir e a mirou, finalmente sério. Hannah arregalou os olhos, atestando-se imobilizada. Uma mecha dos seus cabelos caiu em seu rosto, quando ela abaixou a cabeça, tímida, e ela sentiu, mais do que viu, os dedos de Thomas se aproximarem para colocar seus fios no lugar. Ele ajeitou a mecha atrás da orelha esquerda da garota, e Hannah sentiu o mesmo forte arrepio de quando o avistara pela primeira vez.
Seu toque era gelado, ao contrário do que denunciavam seus olhos amáveis.
— Eu… Muito obrigada — respondeu, incapaz de encontrar melhores palavras.
— Eu ficaria encantado em saber quantos anos a senhorita tem — continuou Thomas, dessa vez sorrindo com sua cortesia característica.
— Tenho dezessete anos — mentiu. Ele franziu a sobrancelha e sorriu torto, como se duvidasse.
— Dezesseis… — a garota se corrigiu, mas o rapaz levantou uma sobrancelha, ainda cético.
— Está certo, tenho catorze anos! Está feliz agora? — Hannah confessou a verdade.
Ele riu. — É mesmo muito meiga. Senhorita Liddell. — Algo faiscou em seu olhar, e, outra vez, Hannah sentiu certo efeito tórrido percorrer-lhe as entranhas.
— Pare de me chamar assim! — reclamou, irritada, mas Thomas apenas riu com mais gosto.
— Vou lhe deixar em paz agora. — Sorridente, o rapaz mais uma vez se despediu. — Uma última informação que creio que gostará. Tem ideia do nome de sua propriedade? — questionou-a, divertido, ao passo que a garota meneou a cabeça, em negativa.
— Chama-se “Os Jardins de Salley”. Em homenagem à música folclórica de meus antepassados, “Pelos Jardins de Salley”. É por isso que há esse nó tríplice acima do portão. — Apontou para uma figura geométrica que parecia a união de três triângulos arredondados, com um círculo central. — Sabe o que significa este símbolo?
Ela novamente respondeu que não sabia.
— Então é uma história para um próximo dia. Boa noite, Srta Liddell. — Thomas riu da expressão irritada que “Alice” fez ao ouvir tal apelido, e pôs-se a caminhar rapidamente para longe.
Assim, Hannah andou pelos jardins de Salley, de volta para casa. O fardo da dor que sentia pelos seus parentes ainda pesava em seu peito, mas, agora, era acompanhado de um outro sentimento, diferente. Pulsante.
Os dias se passaram, e Hannah seguia a mesma rotina. Por vezes, recebia a visita de Thomas junto ao seu portão, o que muito a alegrava. Distrair-se na companhia do rapaz era muito mais agradável do que se perder em seus devaneios solitários. A cada novo dia, aprendia mais e mais sobre a cidade, e sobre a história da Inglaterra.

Assim, meses se passaram, e Thomas até a ajudava com as lições do colégio sobre a história e a geografia do país. Ele era muito culto, parecia até ter nascido em outra época.
Em um determinado dia, ambos estavam recostados à sombra de um grande carvalho, em um campo de flores silvestres à beira da estrada, alguns quilômetros de distância da casa de Hannah. Ela soprava um dente-de-leão, admirando as pequenas flores que voavam pelo seu ato.
— Pode me cantar a música da minha casa? — Hannah se sentou com melhor postura e olhou para Thomas, sorrindo. Agora que tinham mais intimidade ela se sentia mais confortável em sua companhia.
— Como? — fitou-a em retorno, sem compreender. “Alice” riu e esclareceu:
— “Pelos Jardins de Salley”! A música que você comentou, no primeiro dia que passeamos juntos.
— Você lembra — Thomas constatou e sorriu carinhosamente. Depois, levantou a mão, como se fosse acariciá-la. Estranhamente, parou no meio do movimento. Hannah franziu a testa.
— Sim… É claro que lembro — respondeu a garota, sem entender o gesto e o comentário. — Pode cantar? Por favoor? — pediu, enunciando as sílabas. Bateu os cílios e abriu um largo sorriso.
O rapaz riu do gesto infantil. — Tudo bem, Srta Liddell. — A menina fechou a expressão, e seu amigo sorriu novamente. — Mas não me culpe pela sua posterior dor de ouvidos.
Thomas desviou o olhar para a grama, e logo se pôs a cantar. Sua voz era linda, afinada e doce, meiga como a expressão típica dos seus olhos de espelho d’água.
— “Down by the salley gardens my love and I did meet… — O rapaz moveu os olhos lentamente para o rosto de Hannah, que sentiu suas bochechas arderem.
— …She passed the salley gardens with little snow-white feet. — Thomas fez cócegas com seu toque gelado nos pés descalços de Hannah. A menina riu e corou, envergonhada.
— She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree; but I, being young and foolish, with her did not agree…
Hannah sentiu profunda tristeza tocar seu coração. A canção era linda, emocionante, mas, a garota percebia, havia um significado maior naquelas palavras…
— In a field by the river my love and I did stand, and on my leaning shoulder she placed her snow-white hand. — “Alice” desviou o olhar, sabendo que deveria estar parecendo um morango de tão vermelha.
— She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs; but I was young and foolish, and now am full of tears… — Thomas terminou a canção e soltou um suspiro, retornando a olhar o horizonte.
Hannah começava a entender o que os versos significavam. Mas será? Não conseguia acreditar, seria muita petulância, pretensão em demasia…

Ela resolveu testá-lo. Levantou sua mão, corajosamente, e tentou tocar o ombro mais próximo de Thomas.
— Tom…

No momento em que iria tocá-lo, ele se desviou bruscamente de sua mão.
Hannah engoliu em seco, e sentiu seu coração apertar.

Thomas parecia exasperado, e se levantou abruptamente. — Está tarde. Tenho de levá-la para casa. Vamos. — Sua voz estava séria demais, muito diferente do tom habitual.
Ela sentiu seus lábios tremerem, mas não passaria vergonha na frente dele. Seguiu-o silenciosa, e se despediu polidamente. No jantar, fingiu, como havia fingido, que nem sequer sabia de sua existência, mas, em seu quarto, finalmente pronta para deitar, se deixou sucumbir. O que ele está fazendo comigo?

Sentiu-se tola por acreditar que ele havia se apaixonado por ela. Era apenas uma garotinha boba, que o admirava, quase o venerava; obviamente, deveria ser bem divertido para ele. Ele provavelmente se interessava por outro tipo de mulheres, e, talvez, poderia já ter uma noiva…
Hannah chorou, e, pela primeira vez em meses, voltou a ter seus pesadelos de guerra. Sonhou que era jogada em uma fossa, junto a vários cadáveres acinzentados, e o céu acima dela era de um cinza-chumbo, anunciando tempestade. Sentia-se morrer lentamente, mas, em seu derradeiro momento, viu um vulto se aproximar da borda do buraco onde se encontrava. Thomas estava vestido com um uniforme de guerra, e a olhava com desprezo.
No dia seguinte, a menina acordou com olheiras, e passou a maior parte do tempo quieta, perdida em pensamentos. Ouviu na escola as histórias sobre os bombardeios em diversas cidades inglesas, incluindo Londres, quase indiferente.
Thomas não a visitou nos dias que se seguiram. Em uma tarde de sábado, conversando com seu pai, ela lhe perguntou sobre os Williams, a família que lhes vendera a propriedade.
— Como soube disso? — o senhor Wasser estranhou.
— Olhei os papéis da transação — a garota mentiu. — Pai, conhece-os? — insistiu.
Ludwig ajeitou os óculos de leitura, e voltou o olhar para seu livro. — Trocamos algumas palavras. Tratamos com os Williams mais novos, os remanescentes. Não lhe recomendaria se aproximar muito — censurou-a.
— Por que diz isso? — A garota franziu as sobrancelhas, e sentiu seu coração pulsar de ansiedade.
— O filho deles lutou na Primeira Guerra Mundial. Ao lado da Tríplice Entente, é claro. — Ele virou a página do livro. — Não são muito simpáticos aos alemães — falou, rancoroso.
— Hoje em dia, eu compreenderia perfeitamente — a jovem admitiu.
Ele ralhou com a filha pela insubordinação. — Jamais diga isso na minha frente de novo! – seu pai quase rosnou. — Você nasceu alemã, e não há governo assassino algum que mude isso!
— Não, meu pai! Eu nasci judia, e a culpa por isso é sua! — a menina gritou, e se arrependeu logo depois. O rosto do pai se desfez em uma máscara de dor, e ele a puxou pelo braço, tirando seu cinto. Castigou-a com uma surra, e disse uma simples frase, a dor evidente em cada palavra. Hannah chorou a cada batida, o pesar se desfazendo em lágrimas.

— Vá para o seu quarto e não saia até amanhã. — Ludwig se ergueu e bateu a porta da sala de estar.
Hannah subiu as escadas, sentindo apenas a perna, onde apanhara do pai, pulsando de dor. Conseguia ver o rosto dos seus familiares, e os imaginava nas mais horrendas situações.
Jogou-se na cama, e chorou até anoitecer.
Quando levantou o rosto do travesseiro, seu olhar foi novamente atraído para a tábua semi-solta no piso. Resolveu investigá-la, e dirigiu-se até onde ela estava.
Retirou a tábua com certa facilidade, e, surpresa, reparou no conteúdo. Havia uma caixinha de música em forma de um trevo de três folhas, e um colar com um pingente delicado, aparentemente de ouro, do mesmo nó tríplice que havia em cima do portão de ferro da casa.
Hannah guardou o colar dentro de uma gaveta da cômoda, escondendo-o debaixo de algumas de suas roupas, e abriu a janela da pequena sacada do quarto. Respirou o ar noturno, sentindo o vento que suspirava tanto quanto ela. Logo depois, se deitou mais uma vez em sua cama, cobrindo seu corpo e dispondo a caixinha de música ao lado, acima de seu criado-mudo.
Deu corda, e esperou a música tocar. Era um som delicado, como um minúsculo piano, tocando uma melodia que lhe parecia conhecida…
Naquela noite, a menina sonhou com verdes jardins, uma grande árvore na beira de um rio, e Thomas a admirando com seus olhos amorosos.
Na outra manhã, ela resolvera ir até a casa dos Williams. Não interessava a opinião de seu pai, embora estivesse profundamente arrependida do que dissera. Poderia pedir desculpas depois. Pensava, enquanto seguia a passos firmes até aquela propriedade, que vivera suficiente dor para ter amadurecido. Podia fazer algumas escolhas por conta própria.
Ao finalmente chegar na frente da casa, ela reuniu coragem e tocou a campainha. Parecia uma casa simples, para uma família que, dizia Thomas, fora por um tempo tão abastada.
Uma mulher idosa e baixa, com olhos parecidos aos de Tom, cumprimentou Hannah, lhe perguntando o que desejava.
— Eu… Ah… Estou encantada, senhora… — Não sabia o nome da mulher.
— Rebecca Williams. — A idosa delicadamente sorriu, solícita.
— Senhora Williams, é um prazer. Poderia falar com o Thomas, por favor? — A menina retribuiu o sorriso, nervosa.
— É claro. — A pequena senhora a guiou até a sala de visitas. — Thomas! A senhorita Schmidt gostaria de ter com você! — avisava a mulher.
Um homem comprido como o Tom que ela conhecia se levantou de uma poltrona e foi até ela, apertando sua mão. — Está bem, querida? Algum problema com a casa? — Ele sorriu tristonho.
— Hã… Na verdade… Este não é o Thomas que eu procuro — disse, mantendo o sorriso atrapalhado.
Nada prepararia Hannah para o choque que levaria em seguida.
O casal simultaneamente modificou suas expressões. Pareciam alarmados, terrivelmente ofendidos com a sugestão da garota.
— Como ousa? — a senhora falou, seu rosto tão triste quanto o de seu pai na noite anterior.
— Você acha que isso é algum tipo de brincadeira? — o homem disse, rispidamente, enquanto a levava para fora de sua casa. — Não venha aqui novamente, ou não serei tão educado. — Expulsou-a, e bateu a porta na cara da menina.
Ela não entendera absolutamente nada.
Aparvalhada, a menina seguiu caminho, indo em direção à praia. Caminhava pela vegetação rasteira, pensando no que fizera para ofendê-los tanto, quando foi surpreendida outra vez.
— Bom dia, senhorita Wasser. — Thomas aproximava-se dela, vindo da areia da praia.
Ela não respondeu prontamente. Não estava preparada para encontrá-lo naquele momento, e ainda estava magoada por seus sumiços.
— Vejo que já conheceu meus pais. — O rapaz deu um sorriso fraco, tristonho.
— E não entendi nada do que aconteceu — ela retrucou ríspida. — Pode me explicar o motivo de você simplesmente sumir? E por que eles me trataram daquela forma? — Ela o fuzilava com o olhar, exigindo respostas, cheia de bravura.
— Há uma explicação plausível… Mas eu preferiria poder ter te poupado disso. — Parecia triste e arrependido, e Hannah não aguentava mais ver tantas pessoas com pesar ao rosto.
— Por favor, me conte o que está acontecendo! — Ela sentiu seus lábios tremerem, e, dessa vez, sucumbiu ao choro. — Você não tem ideia de como estou sozinha… — confessou, se sentindo infantil, mas não suportava continuar a se reprimir.
Thomas parecia genuinamente tocado pela sua dor. Aproximou-se dela, quase o suficiente para enlaçá-la, como se sentisse urgência de consolá-la.
— Eu imploro que me perdoe.

Ele se abaixou e a abraçou.
Hannah havia ansiado por isso por meses. Fechou os olhos, e se entregou ao abraço, feliz por finalmente poder tocá-lo.
Porém, ao tentar responder ao abraço de Thomas, com sua pele incrivelmente gelada, ela acabou por abraçar a si mesma. Seus braços atravessaram as costas do homem, como se ele não fosse feito de matéria, como se não existisse…
— O quê… O que você é? — Ela cambaleou para trás, respirando com dificuldade.
— Eu gostaria de lhe mostrar. — Thomas, pesaroso, aproximou-se dela, e pôs alguns dedos em seu rosto. Como se poder realmente tocá-la, deixá-la sentir sua própria pele, o calor que seus dedos poderiam ter, fosse a coisa que mais desejasse.
O rapaz tocou sua mão, e ela apenas sentiu frio, eriçando seus pelos. Thomas olhou triste para suas mãos e pediu para que ela andasse ao seu lado.
Hannah o seguiu, sentindo que dividiam iguais feições melancólicas. Passaram por densos arbustos, e a garota percebeu que seu amigo a levava de encontro a um pântano.
— Eu lutei pelo meu país durante a Primeira Guerra Mundial — ele começou. — Voltei, triunfante, em um navio que desembarcou em Londres. Porém, quando finalmente cheguei a Bude, as coisas não se deram como eu planejava.
— Cheguei sozinho, e, enquanto caminhava pela praia, ansioso para ver meus pais, encontrei com um grupo de alemães que se escondia em uma falésia. Provavelmente eram náufragos de um barco em missão, e tentavam sair do país desapercebidos. — O jovem homem franzia o rosto tristemente. — Quando me viram, voltando com medalhas, meu uniforme do exército inglês… Eu tinha apenas vinte e um anos — o rapaz suspirou.
— Eu vou poupá-la de maiores detalhes. Deixarei que veja por si mesma. — Thomas afastou um arbusto, e, a essa altura, Hannah já estava com água lodosa até a altura do quadril.
Olhou para baixo, e vislumbrou uma mão, saindo de um uniforme do exército britânico. Ela engoliu em seco, enquanto Thomas puxava o próprio cadáver, e o revelava para Hannah. Ela levou as mãos à boca, em horror.
Era tão cinza quanto os cadáveres de seus sonhos, mas a água do pântano evitou que apodrecesse rápido. Era e não era Thomas, não como o conhecia.
Ela desviou rapidamente o olhar, cobrindo o rosto com as mãos. — Por que você está fazendo isso comigo?! — gritou, desesperada. Não entendia exatamente o que o rapaz era, mas não aguentava mais. Não podia lidar com mais mortes, horror, desolação.
— Porque eu preciso da sua ajuda. — Thomas deixou o cadáver novamente abaixo d’água.
Tirou as mãos do rosto, e ergueu os olhos para ele. — Como? — Suas íris marejadas encontravam as também marinhas íris azuis de Thomas, querendo, mais do que nunca, poder tocá-lo de verdade.
— Eu preciso que mostre meu corpo aos meus pais — pediu, cheio de pesar. — Não por mim. Por eles.
Ela ainda não entendia, então o rapaz continuou. — Eu sou um fantasma, Hannah — falou, lúgubre e triste.
Era por isso que ele sumia e aparecia com tanta facilidade. Por isso tinha tantos conhecimentos, e mantinha seu porte do começo do século. Por isso sua roupa era sempre o mesmo traje formal, e evitava tocá-la. Ele não tinha matéria, não como a garota. Era apenas… Essência.
— Para meu espírito ter paz, eu preciso que você acalme o coração dos meus pais. Eles perderam tudo, depois que eu morri. Desistiram de trabalhar. Estão cheios de dívidas. Minha mãe passa horas no cais, pensando se poderia se afogar e se livrar da dor…
Hannah estremeceu, se lembrando de si mesma. — Eu não conseguiria carregá-lo até lá — a garota balbuciou.
— Não Hannah, não quero que faça isso, de maneira alguma! — Thomas parecia horrorizado. — Preciso que os traga até aqui. Pegue, isso vai comprovar que sou eu. — Tirou uma carta do bolso de seu uniforme, completamente molhada, com a caligrafia e assinatura de sua mãe. A letra ainda estava legível.
— Mas… — a menina hesitou. — Por que… Por que eu? — Em sua pergunta, haviam múltiplos sentidos escondidos.
— Porque só você me viu, desde… Desde 1918. Não reparou em como meus pais são velhos? Meus avós estão mortos há muito tempo, eu acompanhei, de perto e de longe, o enterro de cada um deles… — confidenciou, repleto de dor. Hannah queria ainda mais abraçá-lo, poder consolá-lo de alguma maneira. — E eu não entendo porque você. Mas isso sempre me deixou muito feliz. — Ele deu um pequeno sorriso, quase imperceptível, como o de um garoto triste e solitário.
Hannah baixou os olhos para a água pantanosa, ainda tonta por tantas revelações.
— Por favor… — Ele a puxou, com uma rapidez sobrenatural, para longe daquele túmulo. Levou-a rapidamente até a vegetação rasteira, seca, e ela levantou o rosto para encará-lo. A luz do sol subia alta, e banhava os dourados cabelos de Thomas, revelando o brilho de seu espelho d’água, a luz que a encantara.
— Eu amo você — o rapaz finalmente disse, com todas as letras. Seus olhos pareciam enxergá-la com uma clareza ainda inédita, e a menina não poderia desviar de seu olhar. Era como a correnteza do rio, que puxa os incautos e os leva a seguir seu fluxo, sem defesa. Para Hannah, aquilo significou sua salvação.
— Eu sempre amei você. — Ela se inclinou, e viu, satisfeita, que ele portava o sorriso mais largo e sincero que já havia visto em seu rosto, repleto de luz, como o brilho d’água de seu olhar. Ele se curvou e finalmente a beijou.
Poderia não estar morta, mas sentiu que viveu a eternidade.
Algum tempo depois, Hannah voltou até a casa dos pais de Thomas, e, após muitas deliberações, conseguiu lhes entregar a carta. Incrédulos, eles seguiram a menina, que, acompanhada por Tom, os levou até onde jazia seu corpo.
Ela nunca vira cena mais emocionante. Os pais do rapaz entraram no pântano sem pestanejar, ao verem o braço que ficava visível acima da superfície da água. Abraçaram o corpo do falecido jovem, ambos chorando, soluçando como crianças, unidos, finalmente. Thomas os abraçava também, embora eles não conseguissem vê-lo, e sua expressão estava enfim calma, tranquila… Em paz.
Hannah chorou junto a eles, tocada por aquela cena, e pelo amor que transbordava daquela família.
Depois de um tempo, despediu-se, e a convidaram para o funeral de seu filho. Ela estranhava o fato de ser a única que ainda conseguia ter contato com o rapaz, e se perguntava se seria uma boa ideia comparecer a tal cerimônia. Não lhe fazia muito sentido.
Assim como não lhe fazia sentido algum estar perdidamente apaixonada por um fantasma.
Thomas caminhou com ela de volta para sua casa, enquanto a menina tentava limpar o melhor que podia seu vestido e suas botas. Quando chegaram em frente ao portão de ferro, ela o abriu para que entrassem, mas o rapaz continuou parado.
— Acho que é hora de nos despedirmos, Hannah. — Thomas sorriu tristemente.
Ela não entendia sua expressão. Fizera o que ele havia pedido, e o rapaz parecia, agora, tão mais calmo…
— Pode ficar mais um pouco. É domingo. — A menina sorriu.
— Eu sei. Todos os dias são domingo, para mim — o jovem homem tentou fazer graça. — Mas não foi isso que eu quis dizer. — Fitou-a, sério.
Com um choque de realidade, a garota pareceu perceber. — Você está querendo dizer que… — Sua voz saiu trêmula e preocupada.
— Não acho que nos veremos novamente. — Thomas não sorria.
A menina sentiu seu coração palpitar sem parar, suas mãos suando frio. — M-mas…
— O que me prendia a este mundo, nesta… Existência — falou, um tanto angustiado — Era a dor de meus pais. Eles não me deixavam seguir em frente. Agora que finalmente me encontraram, poderei seguir. Adiante — o rapaz tentava explicar, mas, apesar de calmo, não parecia tão satisfeito.
Hannah sentiu que iria desabar. Mas tinha de ser forte. — Eu… Eu entendo — a garota tentou expressar por aquelas poucas palavras tudo o que sentia, mas não seria capaz.
— Minha linda menina. — Segurou o rosto de Hannah com as mãos, e, novamente, ela apenas sentiu frio junto a uma sensação quente, em contrapartida, subindo pelo seu peito, tomando-a por completo. — Não sabe como eu queria ter te conhecido antes… Antes de… — Ele parou no meio da frase, e a puxou para si, embora ela não pudesse retribuir o abraço.
— Eu sempre vou amar você.

Soltou-a, e desvaneceu.
Hannah ficou minutos, talvez horas, a encarar o ar diante de si. Momentos antes, ali estava o rapaz que ela amava, com o qual passou horas, durante meses, conversando, dividindo seu tempo, sua afeição e, sonhava ela, seu calor… O homem com o qual queria passar o resto da vida.
Embora ele estivesse morto.
Ela subiu até seu quarto, silenciosa em seu pranto contido, perdida em pensamentos. Se Thomas se fora, se ele desaparecera deste mundo, como poderia vê-lo outra vez?
A resposta era macabra, funesta. Se quisesse estar ao seu lado… Teria de morrer também.
Ela se atirou em seus travesseiros, abafando seus lamentos. Por que tudo aquilo acontecera? Por que tinha de carregar tanta dor?
Lembrou-se de Tom cantando, seus doces versos embalando sua dor, assombrando-a carinhosamente: “Down by the salley gardens my love and I did meet…”

— Thomas… — ela sussurrou.

“She passed the salley gardens with little snow-white feet. She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree; But I, being young and foolish, with her did not agree…”

— …Thomas, por favor… — implorava.

“In a field by the river my love and I did stand, and on my leaning shoulder she placed her snow-white hand. She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs; but I was young and foolish, and now am full of tears…”

Ela se levantou, e colocou a caixinha para tocar. Já sabia: era a mesma canção. O acalanto de Thomas, a música que embalava seu coração. Sua primeira e incomparavelmente triste declaração.
Hannah caminhou em direção a sacada, e não pensava em mais nada. Apenas no par de olhos azuis de espelho d’água, no qual sonhava se afogar.
Pé ante pé, ela chegava mais perto da bancada. Bastava apenas levantar as pernas, e o vento cuidaria do resto…
— Não faça isso. — Hannah olhou para trás, incrédula com a voz que ouvia. Thomas estava sentado em sua cama, sua mão acima da caixinha de onde tocava a canção, a fitando preocupado. Seu semblante antes calmo agora estava sério e aturdido.
— Thomas! — Ela correu em sua direção, desejando pular em cima dele. — Você… Voltou? — a garota disse, feliz.
— Eu não pude ir. — O jovem abaixou os olhos, sorumbático.
— Mas… O que houve? — O coração dela acelerou outra vez.
— Você não me deixou ir — respondeu, honesto, e Hannah sentiu seu estômago revirar. — Eu pude ouvir cada palavra sua… Ouvi seus pensamentos. — Thomas parecia sentir tanta dor quanto ela.
“Alice” sentou-se ao seu lado, e ele colocou a mão acima da dela, tentando apertar carinhosamente seus dedos. — Eu preciso que você entenda. Eu te amo, amo muito, mas não posso ficar. Isso… Isso é apenas um reflexo do que eu fui. Uma imagem. Não pertenço a este lugar. — O rapaz deu um sorriso suave e triste.
— Você pertence ao meu coração — Hannah sussurrou, sincera, sôfrega, suplicante.
— E você ao meu. — O rapaz passou a mão pelos cabelos dela, que sentia seus olhos umedecerem. — Mas não podemos estar juntos. Não agora — ele disse, e ela sabia, no fundo de sua alma, serem palavras de uma verdade inescapável.
— Eu quero viver com você ao meu lado — a menina murmurou, enquanto Thomas continuou a afagá-la.
— Não vou te abandonar. Jamais. Estarei sempre olhando por você. E, quando chegar a hora, vamos nos reencontrar. Prometo. — Ele sorriu com sinceridade, e ela não pôde evitar retribuir-lhe o sorriso. — Você não pode apressar isso, Hannah. Não é certo. Jamais nos encontraríamos, se tirasse sua própria vida, e meu espírito não teria paz — reiterou, muito sério.
Hannah se manteve silenciosa. Não queria aceitar aquilo, embora não tivesse escolha.
— Eu não sei o que fez com que apenas você me visse, senhorita Liddell. — Ela sorriu, lembrando-se do apelido que não entendia. — Eu gosto de pensar que foi serendipidade. — Thomas também lhe brindou com um sorriso, e seus olhos brilharam, voltando-se lentamente para perscrutar a alma de Hannah, hipnotizando seu olhar.
— O que é isso? — perguntou, encantada mais uma vez.
— Serendipidade é quando um evento fortuito ocorre ao acaso. Como o fato de você vir exatamente para este país, para esta cidade, para a casa em que eu morava… — Ele abaixou-se e beijou-lhe a testa. — E para o meu coração.
Hannah fechou os olhos, desejando que aquele momento durasse para sempre.
— E senhorita Liddell significa apenas o sobrenome de Alice. A Alice de Lewis Carrol, a quem ele presenteou com o país das maravilhas. Carrol era consideravelmente mais velho e alguns julgam que ela foi sua paixão platônica. — “Alice” sorriu, finalmente compreendendo.
— Eu prometo que, quando chegar a hora, levarei você para lá. — Encarou-a cheio de afeto e amor, e finalmente se levantou.
— Isso é um adeus temporário. Mas, antes disso… Onde você escondeu o colar do nó tríplice? — O rapaz sorriu, seus olhos brilhando astutos.
Hannah sorriu sem jeito, envergonhada, e abriu a gaveta, encontrando o cordão. Thomas gentilmente o retirou de suas mãos, e prendeu-o ao redor do pescoço da menina.
— Este pingente, um símbolo de proteção, significa diversas coisas, dentro da cultura celta. Pode ser a terra, a água e o ar; o nascimento, a morte e a ressurreição. Mas o meu preferido é, sem dúvidas, o amor eterno… Sempre firme, resistindo aos anos, incapaz de ser desfeito… — Levantou a mão direita e passou-a pela rosto de Hannah, que fechou os olhos, ansiando para senti-lo. — E eu o entrego a você, minha Alice. — Ela novamente sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.
Thomas se dirigiu até a bancada. — Por favor, Hannah, feche os olhos agora — o rapaz pediu com doçura, ao passo que lhe dava um último olhar.
— Eu gostaria que você soubesse que cada minuto de espera, de amargura e tristeza, sofridos enquanto passei este tempo perdido… Valeu a pena. — Seus olhos brilharam. — Porque encontrei você. — Seu sorriso meigo espalhou-se mais uma vez pela face que Hannah tanto amava, e ela sabia que jamais esqueceria aquela visão.
— Eu sempre vou amar você — ela disse intensamente.
– Eu também — o rapaz repetiu, e a garota fechou os olhos, sorvendo uma última vez seu olhar de espelho d’água, para, quem sabe, mergulhar perdidamente em sua imensidão de amor.
Quando abriu os olhos novamente, não viu mais nada. Alguma coisa em seu coração lhe dizia que ele se fora, para muito longe, além de onde ela podia alcançar.
Andou até a sacada, e, sentiu, agradecida, uma lufada de vento vinda de muito longe, do mar, trazendo-lhe o aroma e o entorpecimento da maresia…

****
A senhora Hannah Schmidt levava seus netos para visitar a Fundação Thomas Williams Para Vítimas de Guerra, a ONG que fundara e auxiliava todo o tipo de pessoas, de diversas nacionalidades, que sofreram perdas por tais conflitos bélicos. Do Holocausto a genocídios africanos, a organização não via fronteiras, credos, cor ou etnia, um dos maiores sonhos que Hannah tornara real em sua vida, e que acalmava seu coração, tão ferido desde jovem.
Enquanto seus netos caminhavam para a entrada, ela lhes avisou:
— Queridos, a vovó quer passear um pouco sozinha. Encontro vocês lá dentro. — Os jovens assentiram, e entraram no grande casarão que antes fora sua moradia.
Hannah caminhou pelos jardins de encanto e mistério, até, com grande esforço, encontrar o salgueiro que conhecera tão bem anteriormente. Era mais velho do que ela, mas lá estava, firme e forte.
Ela se sentou à sua sombra, e pôs-se a cantarolar consigo mesma os versos que jamais esquecera. Quando chegou ao final, estava cansada, tão cansada… Seus olhos pesaram, e ela não viu mais nada.
A última lembrança que teve foi a de se sentir adormecer.
Finalmente, depois de passada uma vida de tanta dor, sofrimento e espera, Thomas encontrava-se parado à sua frente, jovem e alegre, estendendo-lhe a mão. Ela piscou diversas vezes, até finalmente acreditar, e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Oh, Tom… — dizia, chorosa, enquanto olhava para as próprias mãos, jovens novamente. Estava outra vez com a aparência de catorze anos de idade, como quando o conhecera.
Então é assim que acontece…

— Eu esperei tanto por você — disse, semicerrando os olhos, também repletos de alegria.
Ela deu-lhe a mão direita, e, finalmente, como tanto aguardara por toda a vida, enfim pôde tocá-lo. Sentiu sua pele, a textura de seu corpo, e, assim, comprovou que seu calor não pertencia apenas ao seu doce olhar repleto de amor.
Thomas a levantou e ela pulou em seus braços, também finalmente em paz. Beijaram-se pelo que poderia ter sido a eternidade, felizes, completos, apaixonados.
— Bem-vinda, minha Alice — Thomas a saudou, enquanto a levava pelas mãos. — Posso apresentá-la aos Jardins de Salley? — Ele sorria, meigo, brincalhão, adorável… O homem que ela amava, e que sempre amou.
Estava, finalmente, em seu país das maravilhas. A segunda chance nos Jardins de Salley, onde o amor era verdadeiro e puro… Eternamente infinito.

— Clarice Lippmann (inédito) – enviado pela autora, em maio de 2016.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS