©Gustavo Aimar

O inverso afastamento

Outra era a vez. De sorte que de novo o menino viajava para o lugar onde as muitas mil pessoas faziam a grande cidade. Vinha, porém, só com o tio, e era uma íngreme partida. Entrara aturdido no avião, a esmo tropeçante, enrolava-o de por dentro um estufo como cansaço; fingia apenas que sorria, quando lhe falavam. Sabia que a mãe estava doente. Por isso o mandavam para fora, decerto por demorados dias, decerto porque era preciso. Por isso tinham querido que trouxesse os brinquedos, a tia entregando-lhe ainda em mão o preferido, que era o de dar sorte: um bonequínho macaquinho, de calças pardas e chapéu vermelho, alta pluma. O qual, o prévio lugar dele sendo na mesinha, em seu quarto. Pudesse se mexer e viver de gente, e havia de ser o mais impagável e arteíro deste mundo.
O menino cobrava maior medo, à medida que os outros mais bondosos para com ele se mostravam. Se o tio, gracejando, animava-o a espiar na janelinha ou escolher as revistas, sabia que o tio não estava de todo sincero. Outros sustos levava. Se encarasse pensamento na lembrança da mãe, iria chorar.
A mãe e o sofrimento não cabiam de uma vez no espaço de instante, formavam avesso — do horrível do impossível. Nem ele isso entendia, tudo se transtornando então em sua cabecinha. Era assim: alguma coisa, maior que todas, podia, ia acontecer?
Nem valia espiar, correndo em direções contrárias, as nuvens superpostas, de longe ir. Também, todos, até o piloto, não eram tristes, em seus modos, só de mentira no normal alegrados? O tio, com uma gravata verde, nela estava limpando os óculos, decerto não havia de ter posto a gravata tão bonita, se à mãe o perigo ameaçasse.
Mas o menino concebia um remorso, de ter no bolso o bonequinho macaquinho, engraçado e sem mudar, só de brinquedo, e com a alta pluma no chapeuzinho encarnado. Devia jogar fora? Não, o macaquinho de calças pardas se dava de também miúdo companheiro, de não merecer maltratos. Desprendeu somente o chapeuzinho com a pluma, este, sim, jogou, agora não havia mais.
E o menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si. Estava muito para trás. Ele, o pobrezinho sentado.
O quanto queria dormir. A gente devia poder parar de estar tão acordado, quando precisasse, e adormecer seguro, salvo. Mas não dava conta. Tinha de tornar a abrir demais os olhos, às nuvens que ensaiam esculturas efêmeras. O tio olhava no relógio. Então, quando chegavam? Tudo era, todo-o-tempo, mais ou menos igual, as coisas ou outras. A gente, não. A vida não parava nunca, para a gente poder viver direito, concertado?
Até o macaquinho sem chapéu iria conhecer do mesmo jeito o tamanho daquelas árvores, da mata, pegadas ao terreiro da casa.
O pobre do macaquinho, tão pequeno, sozinho, tão sem mãe; pegava nele, no bolso, parecia que o macaquinho agradecia, e, lá dentro, no escuro, chorava.
Mas, a mãe, sendo só a alegria de momentos. Soubesse que um dia a mãe tinha de adoecer, então teria ficado sempre junto dela, espiando para ela, com força, sabendo muito que estava e que espiava com tanta força, ah. Nem teria brincado, nunca, nem outra coisa nenhuma, senão ficar perto, de não se separar nem para um fôlego, sem carecer de que acontecesse o nada. Do jeito feito agora, no coração do pensamento. Como sentia: com ela, mais do que se estivessem juntos, mesmo, de verdade.
O avião não cessava de atravessar a claridade enorme, ele voava o voo — que parecia estar parado.
Mas no ar passavam peixes negros, decerto para lá daquelas nuvens: lombos e garras. O menino sofria sofreado. O avião então estivesse parado voando — e voltando para trás, mais, e ele junto com a mãe, do modo que nem soubera, antes, que o assim era possível.

Aparecimento do pássaro
Na casa, que não mudara, entre e adiante das árvores, todos começaram a tratá-lo com qualidade de cuidado. Diziam que era pena não haver ali outros meninos. Sim, daria a eles os brinquedos; não queria brincar, mais nunca.
Enquanto a gente brincava, descuidoso, as coisas ruins já estavam armando a assanhação de acontecer: elas esperavam a gente atrás das portas.
Também não dava vontade sair de jipe, com o tio, se para a poeira, gente e terra. Segurava-se forte, fechados os olhos; o tio disse que ele não devia se agarrar com tão tesa força, mas deixar o corpo no ir e vir dos solavancos do carro. Se adoecesse, grave, também, que fosse — como ia ficar, mais longe da mãe, ou mais perto?
Ele mordeu seu coração. Nem quis falar com o macaquinho bonequinho. O dia, inteiro, servia era para se fazer o espalhamento no cansaço.
Mesmo assim, à noite, não começava a dormir. O ar daquele lugar era friinho, mais fino.
Deitado, o menino se sentia sustoso, o coração dando muita pancada. A mãe, isto é… E não podia logo dormir, e pela dita causa. O calado, o escuro, a casa, a noite — tudo caminhava devagar, para o outro dia. Ainda que a gente quisesse, nada podia parar, nem voltar para trás, para o que a gente já sabia, e de que gostava. Ele estava sozinho no quarto. Mas o bonequinho macaquinho não era mais o para a mesa de cabeceira: era o camarada, no travesseiro, de barriguinha para cima, pernas estendidas. O quarto do tio ficava ao lado, a parede estreita, de madeira.
O tio ressonava. O macaquinho, quase também, feito um muito velho menino. Alguma coisa da noite a gente estivesse furtando?
E, vindo o outro dia, no não-estar-mais-dormindo e não-estar-ainda-acordado, o menino recebia uma claridade de juízo — feito um assopro — doce, solta.
Quase como assistir às certezas lembradas por um Qutro; era que nem uma espécie de cinema de desconhecidos pensamentos; feito ele estivesse podendo copiar no espírito idéias de gente muito grande. Tanto, que, por aí, desapareciam, esfiapadas.
Mas, naquele raiar, ele sabia e achava: que a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam.
As vezes, porque sobrevinhafli depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então não tinham gosto de tão boas, eram só um arremedado grosseiro. Ou porque as outras coisas, as ruins, prosseguiam também, de lado e do outro, não deixando limpo lugar. Ou porque faltavam ainda outras cóisas, acontecidas em diferentes ocasiões, mas que careciam de formar junto com aquelas, para o completo. Ou porque, mesmo enquanto estavam acontecendo, a gente sabia que elas já estavam caminhando, para se acabar, roídas pelas horas, desmanchadas… O menino não podia ficar mais na cama. Estava já levantado e vestido, pegava o macaquinho e o enfiava no bolso, estava com fome.
O alpendre era um passadiço, entre o terreirinho mais a mata e o extenso outrolado — aquele escuro campo, sob rasgos, neblinas, feito um gelo, e os perolíns do orvalho: a ir até a fim de vista, à linha do céu de este, na extrema do horizonte. O sol ainda não viera.
Mas a claridade. Os cimos das árvores se douravam. As altas árvores depois do terreiro, ainda mais verdes, do que o orvalho lavara.
Entremanhã — e de tudo um perfume, e passarinhos piando.
Da cozinha, traziam café.
E: — “Pst!” — apontou-se. A uma das árvores, chegara um tucano, em brando batido horizontal. Tão perto! O alto azul, as frondes, o alumiado amarelo em volta e os tantos meigos vermelhos do pássaro — depois de seu voo. Seria de ver-se: grande, de enfeites, o bico semelhando flor de parasita.
Saltava de ramo em ramo, comia da árvore carregada. Toda a luz era dele, que borrifava-a de seus coloridos, em momentos pulando no meio do ar, estapafrouxo, suspenso esplendentemente. No topo da árvore, nas frutinhas, tuco, tuco… daí limpava o bico no galho. E, de olhos arregaçados, o menino, sem nem poder segurar para si o embrevecido instante, só nos silêncios de um-dois-três. No ninguém falar. Até o tio. O tio, também, estava de fazer gosto por aquilo: limpava os óculos. O tucano parava, ouvindo outros pássaros — quem sabe, seus filhotes — da banda da mata. O grande bico para cima, desferia, por sua vez, às uma ou duas, aquele grito meio ferrugento dos tucanos: — “Crrée!”…
O menino estando nos começos de chorar. Enquanto isso, cantavam os galos. O menino se lembrava sem lembrança nenhuma. Molhou todas as pestanas.
E o tucano, o voo, reto, lento como se voou embora, xô, xô! — mirável, cores pairantes, no garridir; fez sonho. Mas a gente nem podendo esfriar de ver. Já para o outro imenso lado apontavam.
De lá, o sol queria sair, na região da estrela-d’alva. A beira do campo, escura, como um muro baixo, quebrava-se, num ponto, dourado rombo, de bordas estilhaçadas.
Por ali, se balançou para cima, suave, aos ligeiros vagarinhos, o meio-sol, o disco, o liso, o sol, a luz por tudo. Agora, era a bola de ouro a se equilibrar no azul de um fio. O tio olhava no relógio.
Tanto tempo que isso, o menino nem exclamava. Apanhava com o olhar cada sílaba do horizonte.
Mas não pudera combinar com o vertiginoso instante a presença de lembrança da mãe — sã, ah, sem nenhuma doença, conforme só em alegria ela ali teria de estar. E nem a ligeireza de idéia de tirar do bolso o companheiro bonequmho macaquinho, para que ele visse também: o tucano — o senhorzinho vermelho, batendo mãos, à frente o bico empinado.
Mas feito se, a cada parte e pedacinho de seu voo, ele ficasse parado, no trecho e impossivelzinho do ponto, nem no ar — por agora, sem fim e sempre.

O trabalho do pássaro
Assim, o menino, entre dia, no acabrunho, pelejava com o que não queria querer em si. Não suportava atentar, a cru, nas coisas, como são, e como sempre vão ficando: mais pesadas, mais-coisas — quando olhadas sem precauções.
Temia pedir notícias; temia a mãe na má miragem da doença? Ainda que relutasse, não podia pensar para trás. Se queria atinar com a mãe doente, mal, não conseguia ligar o pensamento, tudo na cabeça da gente daya num borrão. A mãe da gente era a mãe da gente, só; mais nada.
Mas, esperava; pelo belo. Havia o tucano — sem jaça — em voo e pouso e voo. De novo, de manhã, se endereçando só àquela árvore de copa alta, de espécie chamada mesmo tucaneira. E dando-se o raiar do dia, seu fôlego dourado. Cada madrugada, à horínha, o tucano, gentil, rumoroso: … chégochéghégo… — em voo direto, jazido, rente, traçado macio no ar, que nem um naviozinho vermelho sacudindo devagar as velas, puxado; tão certo na plana como se fosse um marrequinho deslizando para a frente, por sobre a luz de dourada água.
Depois do encanto, a gente entrava no vulgar inteiro do dia.
O dos outros, não da gente. As sacudidelas do jipe formavam o acontecer mais seguido. A mãe sempre recomendara zelo com as roupinhas; mas a terra aqui era à. desafiada. Ah, o bonequinho macaquinho, mesmo sempre no bolso, se sujava mais de suor e poeira. Os mil e mil homens muitamente trabalhavam fazendo a grande cidade.
Mas o tucano, sem falta, tinha sua soêncía de sobrevir, todos ali o conheciam, no pintar da aurora.
Fazia mais de mês que isso principiara. Primeiro, aparecera por lá uma bandada de uns 30 deles, vozeantes, mas sendo de-dia, entre dez e 11 horas. Só aquele ficara, porém, para cada amanhecer. Com os olhos tardos tontos de sono, o bonequinho macaquinho em bolso, o menino apressuradamente se levantava e descia ao alpendre, animoso de amar.
O tio lhe falava, com excessivos de agrado, sem o jeito nenhum.
Saíam — sobre o se-fazer das coisas. Tudo a poeira tapava. O bonequinho macaquinho, um dia, devia de poder ganhar algum outro chapeuzinho, de alta pluma; mas verde, da cor da gravata, tão sobressaída, com que o tio, de camisa, agora não estava. O menino, em cada instante, era como se fosse só uma certa parte dele mesmo, empurrado para diante, sem querer. O jipe corria por estradas de não parar, sempre novas. Mas o menino, em seu mais forte coração, declarava, só: que a mãe tinha de ficar boa, tinha de ficar salva!
Esperava o tucano, que chegava, a-justo, a-tempo, a-ponto, às seis-e-vinte da manhã; ficava, de arvoragem, na copa da tucaneira, futricando as frutas, só os dez minutos, comidos e estrepulados. Dai, partia, sempre naquele outro-rumo, no antes do pingado meio-instante em que o sol arrebolava redondo do chão; porque o sol era às seis-e-meia. O tio media tudo no relógio.
De dia, não voltava lá. Se donde vinha e morava — das sombras do mato, os impenetráveis? Ninguém soubesse seus usos verdadeiros, nem os certos horários: os demais lugares, aonde iria achar comer e beber, sobre os pontos isolados. Mas o menino pensava que devia acontecer mesmo assim — que ninguém soubesse. Ele vinha do diferente, só donde. O dia: o pássaro. Entremeio, o tio, recebido um telegrama, não podia deixar de mostrar a cara apreensiva — o envelhecimento da esperança. Mas, então, fosse o que fosse, o menino, calado consigo, teimoso de só amor, precisava de se repetir: que a mãe estava sã e boa, a mãe estava salva!
De repente, ouviu que, para consolá-lo, combinavam maneira de pegar o tucano: com alçapão, pedrada no bico, tiro de espingardinha na asa. Não e não — zangou-se, aflito. O que cuidava, que queria, não podendo ser aquele tucano, preso. Mas a fina primeira luz da manhã, com, dentro dela, o voo exato.
O hiato — o que ele já era capaz de entender com o coração. Ao outro dia seguinte. Aí, quando o pássaro, seu raiar, cada vez, era um brinquedo de graça. Assim como o sol: daquela partezinha escura no horizonte, logo fraturada em fulgor e feito a casca de um ovo — ao termo da achãada e obscura imensidão do campo, por onde o olhar da gente avançava como no estender um braço.
O tio, entanto, diante dele, parou sem a qualquer palavra. O menino não quis entender nenhum perigo. Dentro do que era, disse, redisse: que a mãe nem nunca tinha estado doente, nascera sempre sã e salva! O voo do pássaro habitava-o mais. O bonequinho macaquinho quase caíra e se perdera: já estando com a carinha bicuda e meio corpo saídos do bolso, bisbilhotados! O menino não lhe passara pito. A tornada do pássaro era emoção enviada, impressão sensível, um transbordamento do coração. O menino o guardava, no fugidir, de memória, em feliz voo, no ar sonoro, até a tarde. O de que podia se servir para consolar-se com, e desdolorir-se, por escapar do aperto de rigor — daqueles dias quadriculados.
Ao quarto dia, chegou um telegrama. O tio sorriu, fortíssimo.
A mãe estava bem, sarada! No seguinte — depois do derradeiro sol do tucano — voltariam para casa.

O desmedido momento
E, com pouco, o menino espiava, da janelinha, as nuvens de branco esgarçamento, o veloz nada.
Entretempo, se atrasava numa saudade, fiel às coisas de lá. Do tucano e do amanhecer, mas também de tudo, naqueles dias tão piores: a casa, a gente, a mata, o jipe, a poeira, as ofegantes noites — o que se afinava, agora, no quase-azul de seu imaginar. A vida, mesmo, nunca parava. O tio, com outra gravata, que não era a tão bonita, com pressa de chegar olhava no relógio. Entrepensava o menino, já quase na fronteira soporosa.
Súbita seriedade fazia-lhe a carinha mais comprida.
E, quase num pulo, agoniou-se: o bonequinho macaquinho não estava mais em seu bolso! Não é que perdera o macaquinho companheiro! … Como fora aquilo possível? Logo as lágrimas lhe saltavam.
Mas, então, o moço ajudante do piloto veio trazer-lhe, de consolo, uma coisa: — “Espia, o que foi que eu achei, para você”. — e era, desamarrotado, o chapeuzinho vermelho, de alta pluma, que ele, outro dia, tanto tinha jogado fora!
O menino não pôde mais atormentar-se de chorar. Só o rumor e o estar no avião o atontavam. Segurou o chapeuzinho sozinho, alisou-o, o pôs no bolso. Não, o companheirinho macaquinho não estava perdido, no sem-fundo escuro no mundo, nem nunca. Decerto, ele só passeava lá, porventuro e porvindouro, na outra-parte, aonde as pessoas e as coisas sempre iam e voltavam.
O menino sorriu do que sorriu, conforme de repente se sentia: para fora do caos pré-inicial, feito o desenglobar-se de uma nebulosa.
E era o inesquecível de-repente, de que podia traspassar-se, e a calma, inclusa. Durou um nem-nada, como a palha se desfaz, e, no comum, na gente não cabe: paisagem, e tudo, fora das molduras. Como se ele estivesse com a mãe, sã, salva, sorridente, e todos, e o macaquinho com uma bonita gravata verde — no alpendre do terreirinho das altas árvores.., e no jipe aos bons solavancos… e em toda-a-parte.., no mesmo instante só… o primeiro ponto do dia.., donde assistiam, em tempo-sobre-tempo, ao sol no renascer e ao voo, ainda muito mais vivo, entoante e existente — parado que não se acabava — do tucano, que vem comer frutinhas na dourada copa, nos altos vales da aurora, ali junto de casa.
Só aquilo. Só tudo.
— “Chegamos, afinal!” — o tio falou.
— “Ah, não. Ainda não…” — respondeu o menino.
Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida.
FIM

– João Guimarães Rosa, no livro “Primeiras estórias”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

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