©Claude Monet

Uma das recordações mais vivas da minha infância é a descida de Santa Teresa.
Toda vez que dormia na casa de meu pai, em Santa, acordava ansiosa para ir ao colégio. Segundos depois do despertador tocar, vinha a tão esperada frase. “Vamos pela floresta hoje”, meu pai dizia.
Me arrumava correndo (às vezes, admito, sequer passava um pente no cabelo), pegava a mochila, e lá íamos nós.
Primeiro chegávamos à rede de arame farpado que separava o asfalto da floresta. Depois procurávamos a entrada para a floresta: um buraco bem definido no arame, que nos permitia chegar ao matagal. Tudo meio misterioso, tal como nas cenas iniciais dos filmes que me inspiravam.
A aventura então começava.
Entrávamos floresta adentro. Descíamos eu e meu pai aquela trilha mágica (um tanto coberta pela vegetação, é verdade, mas ainda bem marcada). E vez ou outra, meu pai me presenteava com doces que levava escondido no casaco. Passeávamos nós dois, naquele momento único, costurando a floresta e jogando conversa fora, abençoados pelo céu. Como se o mundo fosse composto apenas de duas pessoas: eu e ele. E só.
Pacientemente, percorríamos todo o caminho, até chegarmos ao asfalto novamente. Discutíamos a vida, contávamos um ao outro histórias, trocávamos confidências. Vencíamos cada um dos obstáculos – pedras, tocos de árvore, chuva, insetos, tudo. Me sentia invencível, capaz de realizar qualquer feito no caminho casa-colégio. Uma pequena super-heroína – que eventualmente ainda seria descoberta pela humanidade.
Na chegada à escola, compartilhava orgulhosa o meu particular percurso com todos os meus colegas de classe – que não entendiam porque iam ao colégio em máquinas sem a menor graça.
Um dia, revisitando as memórias, comentei com meu pai sobre as recordações das nossas aventuras pela floresta. Perguntei, intrigada, e reavaliando o (inusitado) trajeto, como ele dispunha de energia para descer comigo aquele matagal. Seu olho se encheu d’água, e ele me confessou, emocionado:
– Filha, às vezes o dinheiro para o transporte era curto.
E diante do choque de realidade não convidado, a minha fantasia repentinamente tornou-se mais colorida – resultado, penso eu, do contraste com o novo tom de cinza que se intrometeu no desenho. Minhas lembranças, ainda tão reais e sinceras, eram resultado de uma obra prima do meu pai-pintor, dedicado a poetizar minha infância com o (talvez único) recurso de que dispunha: amor. E deu certo.

* Juliana Ludmer, colunista da Revista Prosa Verso e Arte. Formada em Direito pela PUC-Rio e mestranda em Sociologia e Direito pela UFF.

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