©Berthe Morisot

De tarde, de regresso à casa, encontramos uma enorme serpente-do-mar pregada pelo pescoço no batente da porta, e era negra e fosforescente e parecia um malefício de ciganos, com os olhos ainda vivos e os dentes de serrote nas mandíbulas escancaradas.

Eu andava, na época, com uns nove anos, e senti um terror tão intenso diante daquela aparição de delírio que fiquei sem voz. Mas meu irmão, que era dois anos menor que eu, soltou os tanques de oxigênio, as máscaras e as nadadeiras e saiu fugindo com um grito de espanto. A senhora Forbes ouviu-o da tortuosa escada de pedras que trepava pelos recifes do embarcadouro até a casa e nos alcançou, arquejante e lívida, mas bastou que visse o animal crucificado na porta para compreender a causa do nosso horror. Ela costumava dizer que quando duas crianças estão juntas, ambas são culpadas do que cada uma fizer sozinha, de maneira que repreendeu a nós dois pelos gritos de meu irmão, e continuou recriminando nossa falta de domínio. Falou em alemão, e não em inglês, como estava estabelecido em seu contrato de preceptora, talvez porque ela também estivesse assustada e se negasse a admitir. Mas assim que recobrou o fôlego voltou ao seu inglês pedregoso e à sua obsessão pedagógica.

– É uma Moreia helena – nos disse -, assim chamada porque foi um animal sagrado para os gregos antigos.

Oreste, o rapaz nativo que nos ensinava a nadar nas águas profundas, apareceu de repente atrás dos arbustos de alcaparras. Estava com a máscara de mergulhador na testa, um minúsculo calção de banho e um cinturão de couro com seis facas, de formas e tamanhos diferentes, pois não concebia outra maneira de caçar debaixo d’água que não fosse lutando corpo a corpo com os animais. Tinha uns vinte anos, passava mais tempo nos fundos marinhos que em terra firme, e ele próprio parecia um animal do mar com o corpo sempre besuntado de graxa de motor.

Quando o viu pela primeira vez, a senhora Forbes dissera a meus pais que era impossível conceber um ser humano mais belo. No entanto, sua beleza não o punha a salvo do rigor: também ele teve que suportar uma reprimenda em italiano por haver pendurado a moreia na porta sem outra explicação possível que a de assustar os meninos. Depois, a senhora Forbes mandou que a despregasse com o respeito devido a uma criatura mítica e mandou-nos vestir para o jantar.

Fizemos isso de imediato e tratando de não cometer um único erro, porque após duas semanas sob o regime da senhora Forbes havíamos aprendido que nada era mais difícil que viver. Enquanto estávamos debaixo do chuveiro no banheiro em penumbra, percebi que meu irmão continuava pensando na moreia.

“Tinha olhos de gente”, disse ele. Eu estava de acordo, mas fiz com que ele achasse o contrário, e consegui mudar de tema até acabar meu banho. Mas quando saí do chuveiro me pediu que ficasse para acompanhá-lo.

– Ainda é dia – disse a ele.

Abri as cortinas. Era pleno agosto, e através da janela via-se a ardente planície lunar até o outro lado da ilha, e o sol parado no céu.

– Não é por isso – disse meu irmão. – É que tenho medo de ter medo.

No entanto, quando chegamos à mesa havia feito as coisas com tanto esmero que mereceu uma felicitação especial da senhora Forbes, e mais dois pontos em sua conta da semana. Eu, em compensação, perdi dois pontos dos cinco que tinha ganho, porque na última hora me deixei arrastar pela pressa e cheguei à sala de jantar com a respiração alterada. Cada cinquenta pontos nos davam direito a uma ração dupla de sobremesa, mas nenhum dos dois havia conseguido passar dos quinze. Era uma pena, de verdade, porque nunca mais encontramos pudins tão deliciosos como os da senhora Forbes.

Antes de começar o jantar rezávamos de pé na frente dos pratos vazios. A senhora Forbes não era católica, mas seu contrato estipulava que nos fizesse rezar seis vezes por dia, e havia aprendido nossas orações para cumprir sua obrigação. Depois sentávamos, nós três, reprimindo a respiração enquanto ela comprovava até o detalhe mais ínfimo de nossa conduta, e só quando tudo parecia perfeito tocava a campainha. Então entrava Fulvia Flamínea, a cozinheira, com a eterna sopa de macarrão daquele verão aborrecido.

No começo, quando estávamos sozinhos com nossos pais, a comida era uma festa. Fulvia Fiamínea nos servia cacarejando ao redor da mesa, com uma vocação de desordem que alegrava a vida, e no fim sentava-se conosco e terminava comendo um pouco do prato de cada um. Mas desde que a senhora Forbes tomou conta dos nossos destinos, nos servia em silêncio tão obscuro que podíamos ouvir o burburinho da sopa fervendo na terrina. Jantávamos com a espinha dorsal apoiada no respaldar da cadeira, mastigando dez vezes de um lado e dez do outro, sem afastar os olhos da férrea e lânguida mulher outonal, que recitava uma lição de urbanidade aprendida de cor. Era igual à missa de domingo, mas sem o consolo das pessoas cantando.

No dia em que encontramos a moreia pendurada na porta, a senhora Forbes falou-nos dos deveres para com a pátria. Fulvia Flamínea, quase flutuando no ar rarefeito pela voz, serviu-nos depois da sopa um filé grelhado de uma carne nevada com um cheiro esplêndido. Para mim, que desde então preferia o peixe a qualquer outra coisa de comer da terra ou do céu, aquela lembrança de nossa casa de Guacamayai foi um alívio para o coração. Mas meu irmão recusou o prato sem prová-lo.

– Não gosto – disse.

A senhora Forbes interrompeu a lição.

– Você não pode saber – disse -, nem provou.

Dirigiu à cozinheira um olhar de alerta, mas já era tarde.

– A moreia é o peixe mais fino do mundo, figlio mio – disse Fulvia Flamínea. – Prove para ver.

A senhora Forbes não se alterou. Contou-nos, com seu método inclemente, que a moreia era um manjar de reis na antiguidade, e que os guerreiros disputavam sua bílis porque infundia uma coragem sobrenatural. Depois repetiu para nós, como tantas vezes em tão pouco tempo, que o bom gosto não é uma faculdade congênita, mas que tampouco pode ser ensinado em qualquer idade, deve ser imposto na infância. De maneira que não havia nenhuma razão válida para não comer. Eu, que havia provado a moreia antes de saber o que era, fiquei para sempre com uma contradição: tinha um sabor suave, embora um pouco melancólico, mas a imagem da serpente pregada no portal era mais aguda que meu apetite. Meu irmão fez um esforço supremo com o primeiro pedaço, mas não conseguiu suportar: vomitou.

– Vá ao banheiro – disse a senhora Forbes sem se alterar -‘ lave-se bem e volte para comer.

Senti uma grande angústia por ele, pois sabia o quanto lhe custava atravessar a casa inteira com as primeiras sombras e permanecer sozinho no banheiro o tempo necessário para se lavar. Mas voltou num instante, com outra camisa limpa, pálido e levemente sacudido por um tremor recôndito, e resistiu muito bem ao exame severo de sua limpeza.

Então a senhora Forbes trinchou um pedaço da moreia, e deu a ordem de continuar. Eu passei um segundo bocado a duras penas. Meu irmão, porém, nem chegou a pegar os talheres.

– Não vou comer – disse.

Sua determinação era tão evidente que a senhora Forbes retraiu-se.

– Está bem – disse -, mas não vai ter sobremesa.

O alívio de meu irmão me deu coragem. Cruzei os talheres sobre o prato, do jeito que a senhora Forbes nos ensinou que deveríamos fazer ao terminar, e disse:

– Eu também não vou comer sobremesa.

– Nem vão ver televisão – disse ela.

– Nem vamos ver televisão – respondi.

A senhora Forbes pôs o guardanapo sobre a mesa, e nós três nos levantamos para rezar. Depois mandou-nos para o quarto, com a advertência de que deveríamos dormir no tempo que ela levava para acabar de comer. Todos os nossos pontos ficavam anulados, e só a partir de vinte tornaríamos a desfrutar de seus bolos de creme, suas tortas de baunilha, seus maravilhosos biscoitos de ameixas, como não haveríamos de conhecer outros no resto de nossas vidas.

Cedo ou tarde teríamos que chegar a esta ruptura.

Durante um ano inteiro havíamos esperado com ansiedade aquele verão livre na ilha de Pantelana, no extremo meridional da Sicília, e assim tinha sido durante o primeiro mês, em que nossos pais estiveram conosco. Ainda recordo como um sonho a planície solar de rochas vulcânicas, o mar eterno, a casa pintada de cal viva até os sardinéis, de cujas janelas via-se nas noites sem vento as hastes luminosas dos faróis da África. Explorando com meu pai os fundos adormecidos ao redor da ilha havíamos descoberto uma réstia de torpedos amarelos, encalhados desde a última guerra; havíamos resgatado uma ânfora grega de quase um metro de altura, com grinaldas petrificadas, em cujo fundo jaziam os rescaldos de um vinho imemorial e venenoso, e nos havíamos banhado num remanso fumegante, cujas águas eram tão densas que quase dava para caminhar sobre elas. Mas a revelação mais deslumbrante para nós tinha sido Fulvia Flamínea. Parecia um bispo feliz, e sempre andava com uma ronda de gatos sonolentos que estorvavam seu caminhar, mas ela dizia que não os suportava por amor, e sim para impedir que a comessem os ratos. De noite, enquanto nossos pais viam na televisão os programas para adultos, Fulvia Flamínea nos levava com ela para a sua casa, a menos de cem metros da nossa, e nos ensinava a distinguir as algaravias remotas, as canções, as rajadas de pranto dos ventos de Túnis. Seu marido era um homem jovem demais para ela, trabalhava durante o verão nos hotéis de turistas, do outro lado da ilha, e só voltava para casa para dormir. Oreste vivia com os pais um pouco mais longe, e aparecia sempre de noite com réstias de peixes e canastras de lagostas acabadas de pescar, e pendurava na cozinha para que o marido de Fulvia Flaminea vendesse no dia seguinte para os hotéis. Depois colocava de novo a lanterna de mergulhador na fronte e nos levava para caçar preás, grandes como coelhos, que espreitavam os resíduos das cozinhas. Às vezes voltávamos para casa quando nossos pais haviam deitado, e mal podíamos dormir com o estrondo dos ratos disputando as sobras nos pátios. Mas mesmo aquele estorvo era um ingrediente mágico de nosso verão feliz.

Só mesmo meu pai para resolver contratar uma preceptora alemã. Meu pai era um escritor do Caribe, com mais presunção que talento. Deslumbrado pelas cinzas das glórias da Europa, sempre pareceu ansioso demais para fazer-se perdoar por sua origem, tanto nos livros quanto na vida real, e havia se imposto a fantasia de que não restasse em seus filhos nenhum vestígio de seu próprio passado. Minha mãe continuou sendo sempre tão humilde como tinha sido quando professora errante na alta Guajira, e nunca imaginou que seu marido pudesse conceber uma ideia que não fosse proverbial. Portanto, nenhum dos dois deve ter-se perguntado com o coração como seria nossa vida com uma sargenta de Dortmund, empenhada em inculcar-nos à força os hábitos mais rançosos da sociedade europeia, enquanto eles participavam com quarenta escritores da moda de um cruzeiro cultural de cinco semanas pelas ilhas do mar Egeu.

A senhora Forbes chegou no último sábado de julho no barquinho regular de Palermo, e desde que a vimos pela primeira vez entendemos que a festa havia terminado. Chegou com umas botas de miliciano e um vestido de lapelas cruzadas naquele calor meridional, e com o cabelo cortado como de homem debaixo do chapéu de feltro. Cheirava a urina de mico. “Esse é o cheiro de todos os europeus, principalmente no verão”, nos disse meu pai. “É o cheiro da civilização.” Mas, apesar de sua pompa marcial, a senhora Forbes era uma criatura esquálida, que talvez nos tivesse suscitado certa compaixão se fôssemos maiores ou se ela tivesse tido algum vestígio de ternura. O mundo ficou diferente. As seis horas de mar, que desde o começo do verão haviam sido um contínuo exercício de imaginação, converteram-se numa hora, só e igual, muitas vezes repetida. Quando estávamos com nossos pais dispúnhamos do tempo todo para nadar com Oreste, assombrados pela arte e a audácia com que enfrentava os polvos em seu próprio ambiente turvo de tinta e de sangue, sem outras armas além de suas facas de luta. Depois continuou chegando às onze no barquinho com motor de popa, como fazia sempre, mas a senhora Forbes não lhe permitia ficar conosco nem um minuto além do indispensável para a aula de natação submarina. Proibiu que voltássemos de noite à casa de Fulvia Flamínea, porque considerava uma familiaridade excessiva com os serviçais, e tivemos que dedicar à leitura analítica de Shakespeare o tempo que antes desfrutávamos caçando preás. Acostumados a roubar mangas nos quintais e a matar cachorros a tijoladas nas ruas ardentes de Guacamayal, para nós era impossível conceber tormento mais cruel que aquela vida de príncipes.

Ainda assim, em pouco tempo percebemos que a senhora Forbes não era tão rígida consigo mesma como era conosco, e essa foi a primeira rachadura em sua autoridade. No começo ela ficava na praia debaixo do guarda-sol colorido, vestida de guerra, lendo baladas de Schiller enquanto Oreste nos ensinava a mergulhar, e depois nos dava aulas teóricas de bom comportamento em sociedade, uma hora atrás da outra, até a pausa do almoço.

Um dia pediu a Oreste que a levasse no barquinho a motor até as lojas de turistas dos hotéis e regressou com um maiô inteiriço, negro e reluzente como uma pele de foca, mas nunca entrou n’água.

Tomava sol na praia enquanto nadávamos, e secava o suor com a toalha, sem passar pelo chuveiro, de maneira que em três dias parecia uma lagosta em carne viva e o cheiro de sua civilização havia se tornado irrespirável.

Suas noites eram de desabafo. Desde o princípio de seu mandato sentimos que alguém caminhava pela escuridão da casa, bracejando na escuridão, e meu irmão chegou a se inquietar com a ideia de que fossem os afogados errantes dos quais Fulvia Flamínea tanto nos havia falado. Muito rápido descobrimos que era a senhora Forbes, que passava a noite vivendo a vida real de mulher solitária que ela própria teria reprovado durante o dia. Certa madrugada a surpreendemos na cozinha, com a camisola de colegial, preparando suas sobremesas esplêndidas, com o corpo todo coberto de farinha até a cara e tomando uma taça de vinho do Porto com uma desordem mental que teria causado escândalo à outra senhora Forbes. Naquela época já sabíamos que depois que íamos deitar ela não ia para seu quarto, mas descia para nadar escondida, ou ficava até muito tarde na sala, vendo sem som na televisão os filmes proibidos para menores, enquanto comia tortas inteiras e bebia até uma garrafa do vinho especial que meu pai guardava com tanto zelo para as ocasiões memoráveis. Contra seus próprios sermões de austeridade e compostura, engasgava sem sossego, com uma espécie de paixão desenfreada. Depois, a escutávamos falando sozinha em seu quarto, a ouvíamos recitando em seu alemão melodioso fragmentos completos de Die Jungfrau von Orleans, a ouvíamos cantar, a ouvíamos soluçando na cama até o amanhecer, e depois aparecia no café da manhã com os olhos inchados de lágrimas, cada vez mais lúgubre e autoritária. Nem meu irmão nem eu tornamos a ser tão infelizes como naquela época, mas eu estava disposto a suportá-la até o fim, pois sabia que de todos os modos sua razão haveria de prevalecer contra a nossa. Meu irmão, por sua vez, enfrentou-a com todo o ímpeto de seu gênio, e o verão feliz tornou-se infernal. O episódio da moreia foi o último. Naquela mesma noite, enquanto ouvíamos da cama o vaivém incessante da senhora Forbes na casa adormecida, meu irmão soltou de repente toda a carga de rancor que estava apodrecendo-lhe a alma.

– Vou matá-la – disse.

Fiquei surpreso, não tanto pela decisão, mas pela casualidade de eu estar pensando a mesma coisa desde o jantar. Ainda assim, tentei dissuadi-lo.

– Eles vão cortar a tua cabeça – disse.

– Na Sicília não existe guilhotina – respondeu. – Além disso, ninguém vai saber quem foi.

Pensava na ânfora resgatada das águas, onde ainda estava o sedimento do vinho mortal. Meu pai guardava porque queria mandar fazer uma análise mais profunda para averiguar a natureza de seu veneno, pois não podia ser o resultado do simples transcurso do tempo. Usá-lo contra a senhora Forbes era algo tão fácil que ninguém iria pensar que não tivesse sido acidente ou suicídio. Portanto, ao amanhecer, quando a sentimos cair extenuada pela fragorosa vigília, pusemos vinho da ânfora na garrafa do vinho especial de meu pai. Pelo que ele nos dissera, aquela dose era suficiente para matar um cavalo.

Tomávamos o café da manhã na cozinha às nove em ponto, servido pela própria senhora Forbes com os pãezinhos doces que Fulvia Flamínea deixava muito cedo no fogão. Dois dias depois da substituição do vinho, enquanto tomávamos o café da manhã, meu irmão me fez perceber com um olhar de desencanto que a garrafa envenenada estava intacta na cristaleira. Isso foi numa sexta-feira, e a garrafa continuou intacta durante o fim de semana. Mas na noite da terça-feira, a senhora Forbes bebeu a metade enquanto via filmes libertinos na televisão.

Ainda assim, chegou pontual como sempre ao café da manhã da quarta-feira. Tinha sua cara habitual de noite péssima, e os olhos estavam tão ansiosos como sempre atrás dos vidros maciços, e tornaram-se mais ansiosos ainda quando encontrou na cestinha dos pães uma carta com selos da Alemanha.

Leu-a enquanto tomava o café, como tantas vezes nos dissera que não se devia fazer, e ao longo da leitura passavam por sua cara as rajadas de claridade que as palavras escritas irradiavam.

Depois arrancou os selos do envelope e colocou-os na cesta com os pãezinhos que sobraram, para a coleção do marido de Fulvia Flamínea. Apesar de sua má experiência inicial, naquele dia acompanhounos na exploração dos fundos marinhos, e ficamos vagando por um mar de águas delgadas até que começou a esgotar-se o ar de nossos tanques e voltamos para casa para tomar lições de boas maneiras. A senhora Forbes não apenas esteve com um ânimo floral durante todo o dia, como na hora do jantar parecia mais viva que nunca. Meu irmão, por sua vez, não podia suportar o desânimo. Assim que recebemos a ordem de começar afastou o prato de sopa de macarrão com um gesto provocador.

– Estou de saco cheio desta água de minhoca – disse.

Foi como se tivesse atirado na mesa uma granada de guerra. A senhora Forbes ficou pálida, seus lábios endureceram-se até que a fumaça da explosão começou a se dissipar, e as lentes de seus óculos embaçaram-se de lágrimas. Depois tirou os óculos, secou-os com o guardanapo, e antes de se levantar colocou-o em cima da mesa com a amargura de uma capitulação sem glória.

– Façam o que quiserem – disse. – Eu não existo.

Trancou-se em seu quarto às sete. Mas antes da meia-noite, quando supunha que já estávamos dormindo, a vimos passar com a camisola de colegial levando para o dormitório meio bolo de chocolate e a garrafa com mais de quatro dedos do vinho envenenado.

– Coitada da senhora Forbes – falei.

Meu irmão não respirava em paz.

– Coitados de nós, se ela não morrer esta noite – disse.

Naquela madrugada tornou a falar sozinha um tempão, declamou Schiller em altos brados, inspirada por uma loucura frenética, e culminou com um grito final que ocupou todo o espaço da casa.

Depois suspirou muitas vezes até o fundo da alma e sucumbiu com um assovio triste e contínuo como o de uma barca à deriva. Quando despertamos, ainda esgotados pela tensão da vigília, o sol dava facadas através das persianas, mas a casa parecia mergulhada num lago. Então percebemos que eram quase dez da manhã e que não tínhamos sido despertados pela rotina matinal da senhora Forbes.

Não ouvimos a descarga da privada às oito, nem a torneira da pia, nem o ruído das persianas, nem as ferraduras das botas, e os três golpes mortais na porta com a palma da mão de negreiro. Meu irmão pôs a orelha contra a parede, reteve a respiração para perceber o mínimo sinal de vida no quarto contíguo, e no fim exalou um suspiro de libertação.

– Pronto! – disse. – A única coisa que se ouve é o mar.

Preparamos nosso café da manhã pouco antes das onze, e depois descemos para a praia com dois cilindros para cada um e outros dois de reserva, antes que Fulvia Flamínea chegasse com sua ronda de gatos para fazer a limpeza da casa. Oreste já estava no embarcadouro estripando um dourado de seis libras que acabara de caçar. Dissemos a ele que havíamos esperado a senhora Forbes até as onze, e como ela continuava dormindo, decidimos descer sozinhos para o mar. Contamos ainda que na noite anterior ela havia sofrido uma crise de choro na mesa, que talvez tivesse dormido mal e preferido ficar na cama. Oreste não se interessou muito pela explicação, tal como esperávamos, e acompanhou-nos a perambular pouco mais de uma hora pelos fundos do mar. Depois indicou-nos que subíssemos para almoçar, e foi no barquinho a motor vender o dourado nos hotéis dos turistas. Da escadaria de pedra dissemos adeus com a mão, para que acreditasse que pretendíamos subir para a casa, até que desapareceu na curva das ilhotas. Então pusemos os tanques de oxigênio e continuamos nadando sem a permissão de ninguém.

O dia estava nublado e havia um clamor de trovões escuros no horizonte, mas o mar era liso e diáfano e se bastava de sua própria luz. Nadamos na superfície até a linha do farol de Pantelaria, dobramos depois uns cem metros à direita e submergimos onde calculávamos que havíamos visto os torpedos de guerra no princípio do verão. Lá estavam: eram seis, pintados de amarelo solar e com seus números de série intactos, e deitados no fundo vulcânico numa ordem perfeita que não podia ser casual. Depois continuamos girando ao redor do farol, na busca de uma cidade submersa da qual tanto e com tanto assombro Fulvia Flamínea nos havia falado, mas não conseguimos encontrá-la. Após duas horas, convencidos de que não havia novos mistérios por descobrir, saímos à superfície com o último sorvo de oxigênio.

Havia se precipitado uma tormenta de verão enquanto nadávamos, o mar estava revolto, e uma multidão de pássaros carnívoros revoava com pios ferozes sobre a trilha de peixes moribundos na praia.

Mas a luz da tarde parecia acabada de ter sido feita, e a vida era boa sem a senhora Forbes. No entanto, quando acabamos de subir a duras penas a escadaria dos rochedos, vimos muita gente na casa e dois automóveis de polícia na frente da porta, e tivemos consciência pela primeira vez do que tínhamos feito. Meu irmão ficou trêmulo e tentou regressar.

– Eu não entro – disse.

Eu, por minha vez, tive a inspiração confusa de que ao ver o cadáver já estaríamos a salvo de toda suspeita.

– Tranquilo – disse a ele. – Respire fundo e pense numa coisa só: nós não sabemos nada.

Ninguém prestou atenção em nós. Deixamos os tanques, as máscaras e as nadadeiras no portal, e entramos pela galeria lateral, onde estavam dois homens fumando sentados no chão ao lado de uma maca de campanha. Percebemos então que havia uma ambulância na porta posterior e vários militares armados de rifles. Na sala, as mulheres da vizinhança rezavam em dialeto, sentadas nas cadeiras que haviam sido postas contra a parede, e seus homens estavam amontoados no quintal falando de qualquer coisa que não tinha nada a ver com a morte. Apertei com força a mão de meu irmão, que estava dura e gelada, e entramos na casa pela porta de trás. Nosso dormitório estava aberto e no mesmo estado em que o havíamos deixado pela manhã.

No da senhora Forbes, que era o seguinte, havia um carabineiro controlando a entrada, mas a porta estava aberta. Espiamos para dentro com o coração oprimido, e mal tivemos tempo quando Fulvia Flamínea saiu da cozinha feito uma ventania e fechou a porta com um grito de espanto:

– Pelo amor de Deus, figlioli, não olhem!

Era tarde. Nunca, no resto de nossas vidas, haveríamos de esquecer o que vimos naquele instante fugaz. Dois homens à paisana estavam medindo a distância da cama à parede com uma fita métrica, enquanto outro tirava fotografias com uma câmera de manta negra como a dos fotógrafos dos parques. A senhora Forbes não estava sobre a cama revolta. Estava estendida de lado no chão, nua num charco de sangue seco que havia tingido por completo o soalho do quarto, e tinha o corpo crivado a punhaladas. Eram 27 feridas de morte, e pela quantidade e pela sevícia notava-se que tinham sido assestadas com a fúria de um amor sem sossego, e que a senhora Forbes as havia recebido com a mesma paixão, sem nem mesmo gritar, sem chorar, recitando Schiller com sua bela voz de soldado, consciente de que era o preço inexorável de seu verão feliz.
1976.

– Gabriel García Márquez, no livro ‘Doze contos peregrinos’. [tradução Eric Nepomuceno]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.

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