Karl Hofer (1878 - 1955) Lesestunde, 1953. Reading

Na biblioteca ou na poeira, os anos passam por ele como sonhos. Mesmo esquecido durante milênios, basta abri-lo para que volte a pulsar – ele sempre sairá vencedor, pois alimenta-se das artimanhas do tempo
– por Gilles Lapouge (tradução Roberto Muniz).

Naquela noite, como não conseguia dormir, fui a Caracórum, na Mongólia. Não foi como ir à casa do vizinho, principalmente porque Caracórum desapareceu há séculos. Onde existiu a cidade, hoje só existe areia. Felizmente, eu tinha O Livro das Maravilhas, de Marco Polo. Bastou virar umas páginas para ir ao século 12 e me deparar com milhares de funcionários, soldados de capacete pontudo, artesãos usando bonés com a cor amarela, vermelha ou azul correspondente a seu ofício, mulheres tímidas e provocantes, dromedários, cachorros, porcos, cavaleiros, trovadores, bandos de monges com túnicas cor de açafrão. Passeei por duas horas. Em seguida, fechei meu Marco Polo e dormi.

Um livro é uma usina, a menor de todas, mas não há nada mais forte do que essa coisinha. Perto do livro, Volta Redonda ou Cabo Canaveral são frágeis, pequeninos, uma brincadeira. Já o livro, ou o pergaminho, ou o in-fólio, se comparados a elas são verdadeiros hércules.
Guarde-se um livro de poesias num sótão, num porão, numa urna. Esqueça-se da situação por alguns milênios, tempo em que dez impérios desaparecem e centenas de milhares de humanos nascem e morrem. Voltando ao local, encontraremos tudo coberto de detritos e poeira. Mas, ao soprar o pó, começa-se a ouvir ruídos tênues, como suspiros. É o livro que renasce. Pistões e bielas põem-se a funcionar. Lembra um coração que volta a pulsar. O livro é um relógio em que os deuses informam as horas. Remontado o pequeno mecanismo, a morte desaparece.

Essa estranha usina não se contenta em sobreviver. Aproveita seus longos sonos para instalar novos programas no disco rígido. A Odisseia ou a Ilíada podem ser as mesmas do tempo da Grécia antiga, mas foram enriquecidas com sentidos antes desconhecidos, ganharam melodias secretas. O livro jamais descansa. Na biblioteca ou na poeira, os anos passam por ele como sonhos, mas, indiferente, ele segue seu caminho. Resiste a tudo – aos séculos, aos leitores, aos críticos, aos que escrevem prefácios. Sai sempre vencedor. Alimenta-se das artimanhas do tempo.

Quando criança, eu colhia limões para fazer tinta transparente, a “tinta invisível”. Escrevia poemas com essa tinta. Com o papel exposto ao calor, os poemas surgiam do vazio. Depois, voltavam a desaparecer lentamente – os primeiros volumes de minhas “obras completas” não seriam nunca lidos. Mas isso não me assustava. Desde muito pequeno, sabia que as palavras, uma vez escritas, continuam a executar nas sombras seu teatro mágico.

Há muito não uso essa tinta invisível. Sua familiaridade, porém, deixou marcas em meu espírito. Atribuo a ela meu gosto pelo palimpsesto. E o que é um palimpsesto? Voltemos à Idade Média. Um escriba redige textos. Um dia, ele constata que não há mais pergaminhos no convento. Pega então um pergaminho usado, raspa seu conteúdo e, no pergaminho de novo virgem, escreve um novo texto.

Essa técnica era usada primeiramente para suprir a penúria de pergaminhos ou de velinos (pergaminhos mais finos, feitos de couro de bezerro). Mas também permitia censurar. Na guerra teológica, o palimpsesto era uma arma. Para abrir espaço aos grandes textos cristãos (Evangelhos, Pais da Igreja, Salmos, etc), apagavam-se do pergaminho textos originais que pudessem ser considerados perigosos, mandando-se para o inferno, ou seja, para o silêncio e a ausência, grandes autores pagãos – gregos, latinos e hereges em geral.
Os monges irlandeses do século 12, discípulos de São Columbano, eram eles próprios grandes santos. Do alvorecer à noite, no frio terrível dos conventos, copiavam os Evangelhos, os Cânticos, as Epístolas de São Paulo em pergaminhos antes ocupados por Cícero, Virgílio, Platão, Tácito ou Xenofonte. Algumas obras primas da Antiguidade desapareceram assim.

Na verdade, os textos destruídos ou expulsos não desaparecem. Mesmo lavados, raspados, ilegíveis, continuam lá. Mexem-se. Murmuram. Debaixo do discurso oficial está a voz desaparecida. Ela emerge balbuciante, embora às vezes incompreensível ou inaudível. Como não pensar aqui na psicanálise? Há em cada um de nós um discurso do inconsciente sufocado nas profundezas, que foi repelido ou apagado para dar lugar à fala autorizada do consciente. A psicanálise sabe como reencontrar e fazer ouvir essa palavra mutilada.
O mesmo ocorre com os livros. Por exemplo, dois discursos de Arquimedes, o Tratado dos Corpos Flutuantes e o Método e Teorema Mecânicos, foram escritos no século 10. Duzentos anos depois, um monge de Constantinopla, que estava sem pergaminho, lavou o texto de Arquimedes para escrever em seu lugar uma oração. Esse homem, inocentemente, infligiu uma terrível mutilação à Biblioteca do Mundo.

Mas no século 20, depois de oito séculos de vazio total, o discurso de Arquimedes e seus desenhos, dos quais não possuímos mais nenhum exemplar, ressurgem das profundezas da noite graças a recursos científicos. Assim, podemos esperar que uma grande parte do pensamento humano que se perdeu no caminho possa ser salva. Na verdade, é do extravagante diálogo entre o texto que se permite ler livremente e o texto oculto, o texto proibido, que nasce a força e a nobreza do pensamento humano.

No Brasil, há cerca de 40 anos, vi um palimpsesto bizarro. Foi em Ouro Preto. Ali, no século 18, os escravos negros que trabalhavam nas minas de ouro às vezes preparavam fogos de artifício. Obtinham a pólvora raspando o salitre de cavernas. Em seguida, embalavam essa pólvora em partituras de música barroca que recolhiam do lixo. Bem mais tarde, já em nossa época, um músico teve a ideia de decifrar uma dessas velhas partituras reencontradas. Por acaso assisti a essa ressurreição. Foi comovente.

Em determinados momentos, a música era inaudível ou inexistia, substituída por silêncios. Eu me lembrava de que esses silêncios eram antigos, de 300 anos. No entanto, quase que se podia adivinhar sua forma.

O escritor russo Leon Tolstoi, autor de Guerra e Paz, em 1910, já com 82 anos, cansado da mulher e de uma parte dos 13 filhos, fugiu. Foi durante um inverno brutal. Ao deixar seu castelo em Isnaïa Poliana, Tolstoi teve uma bronquite. Queimando de febre, foi obrigado a descer do trem em uma estação, Astapovo. A notícia se espalhou. Como Tolstoi era a figura mais célebre do mundo, imediatamente afluiu a essa modesta estação uma horda de jornalistas, embaixadores, dignitários do czar. O chefe da estação cedeu o próprio quarto ao escritor. No pátio, a multidão cobrava notícias. A mulher de Tolstoi, Sophie, chegou e quis ver o marido. Tolstoi se recusou a vê-la. Fora, na neve, a multidão acompanhava a agonia do gênio. Tentava vislumbrar através dos vitrais embaçados pelo frio seus últimos instantes. Tolstoi, deitado, respirava penosamente. Com a ponta dos dedos, “escreveu” alguma coisa nos lençóis enrugados em que morria – seu último manuscrito, sua derradeira palavra antes de cruzar o portal do desconhecido. Era, porém, um manuscrito ilegível, inexistente, como a parte apagada de um palimpsesto. O que Tolstoi escreveu permanece oculto no nada.

Fonte: Estadão

* Gilles Lapouge (Digne-les-Bains, 1923) é escritor e jornalista francês.

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