Tom Jobim

Musa para Jobim
Se ele ainda andasse
por aqui
na superfície ruiva, verde e azul
deste rotatório planeta
quem sabe
agora
estaria pescando
com a linha do horizonte
alguma nota solta
peixe que salta
eco que coa
céu que abocanha
em pleno ar
o som d’agua
fisgado por sua
mão-pulmão
de barbatana?
Quem sabe
ele estaria sentado
sobre a pedra
escrevendo
uma palavra verde
e o crepúsculo
simultaneamente
apagando-se
e além,
aquela única estrela
suspensa num raio
mantivesse o bater
de seu coração
já despedaçado?
Quem sabe
ele estaria agora
dedilhando as águas
nas teclas do seu piano
este pássaro
de asa
delta e negra
que sobrevoa a cidade
entre morros maravilhada?
Quem sabe
as portas do tempo
não fechassem
nunca mais.
E a casa
onde moram
da fonte
os nossos sentimentos?
E a sua terna
música
se fizesse ato
e transmutada
em cores
aromas e gestos
num último
halo
encobrisse tudo:
aqueles que amam
e aqueles que um dia
já amaram.
E se a morte
na curva
de seu próprio destino
perdida de amor
se arrependesse?…
– Carlos Walker

Ouça “Estrada Branca”, música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes cantada a cappella pelo intérprete Carlos Walker no Teatro Municipal de Niterói, anos 90.

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Acqua – Carlos Walker

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