©Anna Silivonchik

1. A mesma ladainha

Começo do dia no apartamento da família Vieira. Dona Margarida, a mãe, acordou mais cedo do que os outros e tenta botar as coisas em movimento, como faz todos os dias. Chama o marido:
— Zé Roberto, olha a hora.
Chama a filha:
— Michelle, tá na hora, minha filha.
Chama o filho:
— Duda, acorda.
Ninguém se mexe.
Margarida tem uns 38 anos, Zé Roberto, quarenta e poucos. Michelle, 16, Duda, 11. O apartamento é pequeno, de classe média, mas tem três quartos.
Da cozinha, onde começou a preparar o café, Margarida grita:
— Zé Roberto, não é hoje que você tem uma reunião na firma? Olha a hora.
Margarida entra no quarto do Duda e sacode seu pé.
— Duda, tá na hora. Vamos, meu filho.
Duda só rosna.
Margarida entra no quarto da Michelle e também a sacode.
— Michelle, levanta. Aproveita que o banheiro está livre.
Michelle só rosna.
Margarida volta para o quarto do casal:
— Zé Roberto, sua reunião não é importante?
Zé Roberto produz uma frase ininteligível.
Margarida:
— Pelo menos esse está falando. Não sei o quê, mas está falando.
Colocando-se no corredor para ser ouvida por todos, Margarida bate palmas e grita:
— Vamos lá, pessoal. Já é dia. Ânimo! Coragem! Acordem! Desse jeito o Brasil não vai pra frente!
Depois, para si mesma, voltando para a cozinha:
— Ai meu Deus. Todo dia a mesma ladainha.

2. O ambiente

A família reunida na mesa do café. Zé Roberto lendo um jornal. Margarida pergunta a Duda quem vai levá-lo à escola.
— Hoje é dia da bruxa, mãe do Carlinhos.
— Duda, não fala assim da dona Ivana. Ela é uma ótima pessoa.
— Mas parece uma bruxa.
— Para a mamãe, todas as pessoas são ótimas — diz Michelle.
— E até prova em contrário são mesmo.
Zé Roberto, lendo o jornal:
— Prenderam um esquartejador de mulheres.
— Olha aí, mamãe – diz Michelle. — Esse também deve ser uma ótima pessoa.
— E poderia mesmo ser, se viesse de um ambiente familiar saudável, como o de vocês. O ambiente é tudo.
Michelle:
— Como é que você sabe que o Duda não vai ser um esquartejador de mulheres, quando crescer? A cara ele já tem.
Duda:
— O que é esquartejador?
Zé Roberto:
— Vamos acabar com essa conversa?
— Eu quero ser esquartejador! — protesta Duda.
— Tome o seu café – diz Margarida. – Já está todo mundo atrasado. A dona Ivana deve estar esperando.

3. Um beijo na bunda

Michelle e Duda saem do apartamento para a escola. Zé Roberto nota que Michelle esqueceu seu celular sobre a mesa do café.
— Olha aí, a Michelle esqueceu o celular dela. E tem uma mensagem… Onde estão meus óculos?
— Na sua cabeça, como sempre – diz Margarida.
Zé Roberto costuma colocar os óculos acima da testa e depois esquecer onde eles estão.
— Margarida, olha como termina a mensagem! Um beijo na bunda.
— De quem é a mensagem?
— Juca. Um beijo na bunda, assinado Juca.
— Eu não sei quem é esse Juca.
— Pois é alguém que está mandando um beijo na bunda da sua filha!
— Está bem, Zé Roberto. Não precisa ficar agitado desse jeito.
— Como não preciso ficar agitado? Tem um Juca que ninguém conhece mandando um beijo na bunda da minha filha e eu tenho que achar isso natural? Onde é que nós estamos?
— Você ainda está em casa quando devia estar indo pro escritório. Sua reunião não é às nove?
— Mas Margarida…
— Depois a gente fala sobre o beijo na bunda. Agora o importante é você não se atrasar.
— Mas um beijo na bunda, Margarida…
— Isso é o jeito dessa garotada falar. Aposto que o Juca nem conhece a bunda da Michelle. Ou são apenas bons amigos.
— Margarida…
— Vai, vai…
— Onde estão os meus óculos?
— Na sua cabeça, como sempre.
Margarida acompanha o marido até o elevador, deixando a porta do apartamento aberta. De dentro do elevador que chega sai uma mulher com mais ou menos 60 anos, carregando uma grande bolsa. Ela fica de lado enquanto Margarida despede-se de Zé Roberto com um beijo. Zé Roberto entra no elevador. Ouve-se o som da porta do apartamento batendo.
— Não! Bateu a porta e eu fiquei na rua!
A mulher que saiu do elevador sorri enquanto Margarida tenta, inutilmente, abrir a porta por fora:
— E agora? Como é que eu vou entrar?
— A senhora me permite? — diz a mulher, que gira a maçaneta e abre a porta.
Para espanto de Margarida, que agradece, maravilhada, e convida a outra a entrar.

4. Uma proposta inacreditável

Dentro do apartamento, as duas se apresentam.
— Margarida Nunes Vieira.
— Cremilda.
Margarida pede para Cremilda não reparar na bagunça, enquanto aumenta a bagunça fazendo o café. Cremilda detém Margarida, com alguma rispidez.
— Deixa que eu faço o café.
— Não, pode deixar que eu…
— Sente-se.
Margarida senta-se, intimidada. Com poucos movimentos, Cremilda faz o café e coloca na mesa para as duas. Margarida desculpa-se:
— Infelizmente, não tem mais pão.
— Tem sim — diz Cremilda, tirando dois pães da bolsa. — Vejo que a senhora está precisando de uma boa empregada.
Margarida diz que não podem pagar uma empregada. Cremilda sugere que façam uma experiência. Trabalhará de graça, como cozinheira e faxineira, até a situação da família melhorar.
— E se não melhorar?
— Aí eu saio perdendo. Mas eu prometo que vai melhorar.
E, antes que Margarida possa responder, Cremilda começa a pôr ordem na cozinha. Inclusive, sem que Margarida veja, Cremilda tira mais três ou quatro bisnagas de pão da sua bolsa e as guarda no armário. Pede para Margarida lhe mostrar onde fica o seu quarto.
Margarida, hesitante:
— Mas… Quando você pode começar?
— Já comecei.
— Mas você não precisa ir em casa, pegar suas coisas?
Cremilda mostra a sua bolsa e diz que ali tem tudo que precisa. Outra surpresa para Margarida.

5. Costeletinhas

Zé Roberto chega em casa.
Margarida:
— Você em casa a esta hora?
Zé Roberto de cara fechada.
Margarida:
— Como foi a reunião?
— A reunião foi ótima. Me chamaram para dizer que eu estou despedido.
— O quê?
— Despedido. Me chutaram. Com muita classe, com mil desculpas, mas me chutaram. Estou desempregado.
Surge a Cremilda e pergunta:
— Vai ter indenização?
Zé Roberto, atordoado:
— Vai, vai. Acho que vai.
Cremilda sai de cena e Zé Roberto pergunta:
— Quem é essa?!
Margarida explica quem é a Cremilda.
— Empregada, Margarida? E nós podemos pagar uma empregada? Ainda mais agora?
Margarida conta que Cremilda fez uma proposta inacreditável. Zé Roberto não acredita. Como a Margarida pode ser tão ingênua? A Cremilda quer trabalhar de graça até a situação deles melhorar? Quer é roubar tudo que eles têm.
— E nós temos alguma coisa para ela roubar, Zé Roberto? Até a nossa TV ainda é em preto e branco!
Zé Roberto insiste que Cremilda é obviamente uma vigarista. Não pode ficar ali nem mais um minuto. Reaparece a Cremilda e diz que já terminou de limpar os quartos e vai cuidar do almoço. Diz para Zé Roberto que vai fazer seu prato favorito, costeletinhas de porco com refogadinho de vagem e cenoura. Margarida avisa que não tem costeletinhas de porco em casa e Cremilda diz “Tem sim”, antes de entrar na cozinha.
— Como é que ela sabe que eu… — diz Zé Roberto. — Bom, ela fica até depois do almoço. Mas aí, rua.

6. O mistério do manjar branco

Toda a família na mesa do almoço. Zé Roberto saboreia a última costeletinha, fazendo “mmmm”. Cremilda de pé ao lado da mesa:
— Todos prontos para a sobremesa?
Duda:
— Qual é a sobremesa?
— Pode escolher… sorvete com calda de chocolate…
Duda dá um pulo na cadeira:
— Minha favorita!
Cremilda:
— Ou pudim de laranja.
Michelle, batendo palmas:
— Minha favorita!
Cremilda:
— E para o dr. Zé Roberto, manjar branco igual ao que a mãe dele fazia.
Zé Roberto, perplexo:
— Como você sabe?
Cremilda diz para Michelle e Duda que eles terão sobremesa todos os dias se mantiverem seus quartos bem arrumados, como ela os deixou, mas que toda bagunça será punida.
Zé Roberto:
— Dona Cremilda, eu tenho uma coisa para lhe dizer. Por favor, não leve a mal, mas eu preciso fazer isto. A senhora já mostrou que é uma ótima empregada, uma ótima pessoa, uma cozinheira de mão cheia, mas a proposta inacreditável de trabalho que fez à Margarida é, realmente, inacreditável e me obriga a pedir que… que… a senhora… nos diga… O que vai fazer pro jantar?
— Eu estava pensando num pernil de cordeiro.
Margarida:
— Mas nós não temos um pernil em…
Cremilda abre a porta da geladeira, mostrando um belo pernil de cordeiro, e diz:
— Tem sim.

7. Quem é esse Juca?

Margarida e Zé Roberto na sala, cochichando para Cremilda não ouvir da cozinha.
— Essa mulher caiu do céu, Zé Roberto!
— Calma. Se ela tivesse caído do céu, porque cairia justamente na nossa casa? Essa mulher está querendo alguma coisa.
— Ela é perfeita!
— É perfeita demais. Como é que ela sabia que eu gostava de costeletinha de porco? E do manjar branco da minha mãe?
— Ela adivinhou.
— Como adivinhou? Aí tem coisa.
Michelle entra na sala e pergunta se alguém viu o seu celular.
— Seu celular? Ah, sim, sim, sim. Ele está aqui — diz Zé Roberto, e tira o celular do bolso. — Você esqueceu na mesa do café esta manhã. Aliás, com uma mensagem muito interessante na telinha, Onde estão meus óculos?
Margarida:
— Na sua cabeça, como sempre.
Zé Roberto, ajeitando os óculos no nariz:
— Uma mensagem muito interessante de alguém chamado Juca, que termina assim: um beijo na bunda.
— Pode me dar meu celular, por favor?
— Vou dar, mas antes preciso saber quem é esse Juca.
— É um amigo.
— Obviamente um amigo íntimo. Um amigo que beija a bunda.
— É só uma brincadeira, papai. Ninguém beija a bunda de ninguém. Pelo menos a minha ninguém beija. Me dá o celular?
— Eu gostaria de acreditar nisso, minha filha. Qual é o pai que não gostaria de ouvir que ninguém beija a bunda da sua filha? Mas nós não podemos conhecer esse Juca, para ter certeza?
Michelle, quase arrancando o celular das mãos do pai:
— Não!
Cremilda ouviu tudo da porta da cozinha.

8. Agente Araci

Saída da escola da Michelle. Cremilda, escondida, observa o movimento. Michelle e Juca saem da escola lado a lado, mas separam-se, depois de se despedirem com beijinhos nas faces. Michelle vai para um lado e Juca vai para o outro. Cremilda segue Juca, cuidando para não ser vista. Vê que ele se reúne com três ou quatro numa esquina e não é difícil notar que estão negociando drogas. Quando Juca se separa do grupo, Cremilda o segue. Aproxima-se dele e chama: “Juca”, e, quando ele para e se vira, convida-o a tomar um suco porque precisam conversar.
— Quem é você? — quer saber o Juca.
Cremilda mostra, rapidamente, uma identidade.
— Agente Araci, Polícia Federal, combate ao tráfico.
Os dois entram num local de sucos e Cremilda diz:
— Vou lhe fazer uma proposta inacreditável.
E para o balconista:
— Dois sucos de caju.

9. O fim do Pacheco

Manhã no apartamento dos Vieira. Margarida levanta da cama e chama o marido.
— Zé Roberto, acorda. Está na hora. Dia de trabalho.
Zé Roberto faz sons ininteligíveis. Margarida sai do quarto e começa a ladainha.
— Michelle, levanta. Aproveita que o banheiro está livre. Duda, está na hora. Olha a escola. Acorda.
Ela entra na cozinha e vê, com surpresa, que Michelle e Duda já estão tomando café, servidos pela Cremilda. Volta para o quarto do casal. Chama:
— Zé Roberto, levanta. Está na hora.
Zé Roberto faz mais sons ininteligíveis, mais alto.
Margarida, se dando conta:
— É mesmo, você está desempregado. Não precisa levantar…
Cremilda aparece na porta do quarto e diz:
— Precisa levantar sim senhor. Para procurar emprego. Vamos, doutor. Ânimo!
Zé Roberto começa a se levantar, ainda zonzo. Margarida segue Cremilda até a cozinha. Diz:
— Nós esquecemos de comprar pão, ontem…
Cremilda mostra um cesto cheio de pão e diz:
— Pão é o que nunca vai faltar nesta casa, dona Margarida.
Ouvem tocar o interfone. Cremilda atende. Diz que tem um homem na portaria chamado Pacheco. Pode subir? Zé Roberto sai do quarto de pijama, cara de assustado.
— O Pacheco!
Cremilda:
— Mando subir ou não?
— Manda, manda — diz Zé Roberto.
Zé Roberto se coloca para receber o Pacheco, ainda de pijama. Cremilda vai abrir a porta. Entra Pacheco. É simpaticíssimo.
— Meu querido! — diz, ao apertar a mão de Zé Roberto.
Pergunta se Zé Roberto está doente. Sim, porque o procurou no emprego e lhe disseram que ele poderia ser encontrado em casa. É gripe? É grave? Na cozinha, Margarida e Cremilda escutam a conversa.
Cremilda:
— Quem é?
— É Pacheco, o agiota. O Zé Roberto tem negócios com ele.
Na sala, Pacheco está dizendo:
— Precisamos conversar sobre aquele nosso negocinho, querido. Você está me devendo. Os pagamentos estão atrasados. E você sabe: pagamento de dívida é como menstruação, se atrasar começa a preocupar. E eu estou muito preocupado, amigão.
Zé Roberto diz que vai pagar, que está em dificuldade momentânea mas vai pagar.
— Que bom — diz o Pacheco. — Senão eu teria que quebrar alguns dos seus ossos. À sua escolha, claro. Mas que bom que você vai me pagar amanhã.
— Amanhã?!
— Eu esqueci de dizer? Amanhã, a esta hora. É o prazo. E se cuide, parceiro. Essa gripe está matando.
Pacheco sai. Zé Roberto e Margarida se encaram. E agora? De onde vão tirar o dinheiro? Enquanto eles falam, Cremilda vai até a janela. Dali a um minuto ouve-se o ruído de um carro freando, uma batida, depois um grito de mulher, muitas vozes. Zé Roberto pergunta o que foi.
— O seu amigão Pacheco acaba de ser atropelado.

10. A troca

Saída da escola. Juca sai na frente, Michelle vem atrás e o alcança. Pergunta o que está havendo. Juca não a procura mais, parece estar querendo evitá-la.
— É que… me fizeram uma proposta inacreditável que eu tenho que aceitar, senão me ferro.
— Mas como, que proposta?
— Eu não posso ser visto com você, senão me ferro.
— Mas visto por quem?!
Aparece Cremilda, dizendo:
— Bom dia, crianças. Sr. Juca, tudo bem? Vamos, Michelle.
Cremilda sai quase puxando Michelle, que ainda grita:
— Me telefona, Juca!
Cremilda:
— Telefona não, Juca!
Cremilda e uma Michelle emburrada chegam em casa. Margarida as recebe, excitada.
— Michelle, vem ver. Olha que maravilha.
Na sala, em vez da pequena TV em preto e branco tem uma enorme TV a cores, ligada.
Margarida:
— Entregaram esta manhã.
Zé Roberto, maravilhado, mostra o controle que tem na mão:
— E com controle remoto!
Michelle:
— Mas quem foi que comprou?
Margarida e Zé Roberto se viram para Cremilda, sorridentes. Margarida, apontando para Cremilda:
— Alguém…
— Na verdade, foi uma troca. Eu levei a TV em preto e branco para o meu quarto e substituí por esta.
Michelle fica de boca aberta.

11. Muito estranho

Cremilda ajuda Duda com seu dever de casa na mesa da cozinha. Na sala, Zé Roberto, Margarida e Michelle, com a TV ligada, falam baixo, para não serem ouvidos da cozinha.
Margarida:
— As notas do Duda melhoraram muito depois que a Cremilda começou a ajudá-lo…
Michelle:
— E o meu quarto? Está sempre tão arrumado que eu tenho pena de deitar na cama pra dormir…
Margarida:
— Eu não faço mais nada dentro desta casa. A Cremilda faz tudo. Que mulher extraordinária!
Zé Roberto:
— Eu acho que ela é mais do que extraordinária…
Margarida:
— O que você quer dizer?
— Como é que ela sabia que eu gostava de costeletinhas, e do manjar branco da minha mãe?
Michelle:
— E os pães? Ninguém mais vai à padaria e a casa está sempre cheia de pães.
Margarida:
— Vocês acham que ela faz milagres? Que multiplica os pães?
Zé Roberto:
— Sei lá. Mas que essa mulher não é deste mundo, não é…
Margarida, pensativa:
— Ela abriu a porta da frente pelo lado de fora sem chave.
Zé Roberto e Michelle, juntos:
— O quê?!
Michelle:
— Não dá para abrir a porta da frente por fora.
Margarida:
— A Cremilda conseguiu. No dia em que chegou aqui.
Zé Roberto:
— Eu vou dizer uma coisa pra vocês. Achei muito estranho o Pacheco morrer atropelado daquele jeito depois de me ameaçar e sair daqui…
Margarida:
— Você acha que… foi ela?
— Alguém que consegue abrir a porta da frente por fora e multiplicar os pães consegue fazer qualquer coisa…
Cremilda aparece na porta da cozinha e diz:
— Estou fazendo pãozinhos de queijo pra comer com chá. Alguém se interessa?

12. Um telegrama!

Todos na mesa do café da manhã. Zé Roberto senta-se no seu lugar e vê que tem um pacotinho em cima do seu prato.
— O que é isto?
Cremilda:
— Um presentinho meu para o senhor, doutor. É uma correntinha, para pendurar os óculos no pescoço.
Zé Roberto não entende. Cremilda mostra:
— Para os óculos. Assim o senhor sempre sabe onde eles estão.
— Puxa, dona Cremilda. Muito obrigado.
Toca o interfone. Duda pula da mesa e vai atender. Diz:
— O quê?
Depois grita:
— O que é telegrama?
Todos na mesa se entreolham. Telegrama?!
Duda:
— Pode mandar subir?
— Pode, pode.
Michelle:
— Que coisa antiga. Ainda se usa telegrama?
Cremilda:
— Eu acho que é pra mim…
Ela vai para o seu quarto. O telegrama é entregue na porta. Cremilda emerge do seu quarto pronta para sair. Abre o telegrama, que lê rapidamente, depois diz:
— Como eu pensava. Vou ter que sair, dona Margarida. Alguém quer alguma coisa da rua?
Margarida:
— Se você puder comprar batatas…
— Já comprei, dona Margarida.
— Claro.
— Eu volto para fazer o almoço.
E sai, deixando todos intrigados com mais aquele mistério.

13. A Supervisora

Cremilda numa galeria. Entra por uma porta onde está escrito “Despachos”. A recepção é modesta. Uma secretária diz “Ela está lhe esperando” e faz sinal para Cremilda ir entrando por outra porta, que leva a um escritório também apertado, com pilhas de pastas pelo chão e em cima de uma mesa, atrás da qual está a Supervisora. Que diz:
— Ah, Cremilda. Recebeu meu telegrama. Ótimo. Você já sabe qual é o assunto. Por que eu ainda não tive notícia da morte de (consulta um papel) José Roberto Vieira? Ele era para ter morrido há semanas.
— Pois é, pois é. Me atrasei um pouco…
— Um pouco? Exatamente (outra consulta no papel) 23 dias, dona Cremilda! Se eu não estivesse tão atarefada com todas as mortes que acontecem nesta cidade e eu tenho que supervisionar sozinha, porque lá de cima não me mandam nem mais verba nem mais pessoal, teria notado o atraso antes. Só fui notar agora, e me perguntei: o que a Cremilda está fazendo que não providenciou a morte do… (nova consulta) José Roberto Vieira?
— Vou lhe confessar, Supervisora. É que eu simpatizei com ele.
— O quê?!
— Simpatizei. Com ele, com a família dele. Com a mulher, que é um doce…
— Cremilda, há quantos anos você trabalha neste metiê?
— 640 anos. 641 neste novembro.
— E você alguma vez teve notícia da morte simpatizando com alguém? E poupando alguém por decisão própria? Não é você que decide quem vai morrer e quem não vai, Cremilda. Você só tem que cumprir sua tarefa, como todas as outras mortes que atuam nesta cidade, e às vezes precisam fazer até hora extra. Imagina se todas elas começarem a decidir quem vai e quem não vai. Esta semana mesmo morreu um que não era para morrer, morreu antes da hora agendada. Um tal de Pacheco. Alguém andou improvisando. Assim não dá. Tem que haver um mínimo de organização. Senão vira bagunça, e eu é que tenho que me explicar, lá em cima, com o risco até de ser despedida.
— Pois é, pois é. Acho que, nestes anos todos, eu amoleci…
— Amoleceu mesmo. Agora volte lá e faça o seu serviço. Amanhã sem falta quero ter a notícia da morte do sr. João Roberto. Do coração, do que você quiser.
Cremilda, desanimada:
— José Roberto…
— José Roberto.

14. O jeitinho

Tarde da noite. Zé Roberto sozinho na sala, vendo televisão. Cremilda entra:
— Quer alguma coisa, doutor? Um chazinho?
— Não, não. Obrigado. Senta um pouco aí, dona Cremilda. Seu jantar, como sempre, estava maravilhoso. As batatas sautée, então…
Cremilda senta-se ao seu lado no sofá.
— Obrigada…
Depois de um silêncio em que é flagrante sua indecisão, Cremilda começa:
— Doutor Zé Roberto, eu preciso lhe dizer uma coisa…
— Sim?
— Eu não apareci na sua casa por acaso. Na verdade, eu vim com um objetivo. Vim cumprir uma tarefa. Só que não consegui cumpri-la…
— Uma tarefa?
— Eu sou a sua morte, doutor Zé Roberto.
Ele não sabe o que dizer. Ela continua:
— Era para o senhor estar morto há semanas. Mas, sei lá. Cheguei e vi a dona Margarida se despedindo do senhor, vocês se beijando, a dona Margarida, estabanada como sempre, deixando a porta bater e ficando na rua… Depois conheci os seus filhos… E não consegui cumprir minha tarefa. E nem vou conseguir.
— Quer dizer que… Eu não vou morrer?
— Se depender de mim, não. Pelo menos não agora.
— Mas se você não cumprir sua tarefa, o que acontece?
— Eu perco o emprego. Aí seremos os dois desempregados…
Os dois riem, depois ficam sérios. Zé Roberto pergunta:
— A morte do Pacheco, o agiota… Foi a senhora?
— Modéstia à parte, foi. Tive que improvisar.
— Agora eu entendo como a senhora sabia do manjar branco da minha mãe..
— A morte de uma pessoa está com ela desde que ela nasce. O senhor só não tinha me visto ainda, mas eu estive com o senhor durante toda a sua vida.
— E agora? Eles não podem mandar outra morte para me pegar, já que você falhou?
— Não. Iiih, trocar de mortes dá um trabalhão. Só a burocracia leva anos. E eu estarei aqui para proteger vocês.
— E o que faremos, os dois desempregados?
— Acho que dá para dar um jeitinho…

15. A padaria

Uma padaria, com os dizeres “Padaria do Zé” e “Pão sempre fresquinho” escritos na frente. Zé Roberto e Margarida atendendo no balcão, felizes da vida, e Cremilda no fundo, coberta de farinha, produzindo pães e mais pães como por passes de mágica.
Zé Roberto:
— Onde estão meus óculos?
Margarida dá uma risada e aponta:
— Pendurados no seu pescoço.

— Luis Fernando Verissimo, no livro “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

Saiba mais sobre Luis Fernando Verissimo:
Luis Fernando Verissimo – o cronista

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