©Ada Breedveld

Em plena juventude ela tentou se matar.
Despertando no hospital deparou com uma enfermeira que a interpelou: – Mas por quê, por quê? Ela respondeu, sucinta, lúcida, plena de sua própria dor: – Sem esperança. Todos conhecemos esses dias sem horizonte à vista. A experiência nos ensina que eles passam, a não ser que estejamos doentes ou sejamos ferrenhos pessimistas por natureza ou formação. Ser mais ou menos otimista depende de criação, ambiente familiar, disposição genética (ah, a genética da alma… ), situações do momento. Claro que ter confiança quando se está contente é fácil. Mas não somos só nossa circunstância, somos também nossa essência.
O grande pessimista colhe todas as notícias ruins do jornal e manda aos amigos cada manhã; acha que o ser humano não presta mesmo, o mundo é mero palco de guerras e corrupção. O excessivamente otimista acha que a realidade é a das telenovelas e dos sonhos adolescentes, das modas, das revistas, da praia, do clube. O sensato (não o sem graça, não o chato) sabe que o ser humano não é grande coisa, mas gosta dele; que a vida é luta, mas quer vivê-la bem; que existem – além de injustiça, traição e sofrimento – beleza e afetos e momentos de esplendor. Que se pode confiar sem ser a toda hora traído por quem se ama. Posso ser um pessimista essencial, por natureza ou formação ou circunstâncias. Posso porém estar apenas deprimido. Para sair de uma fase depressiva há mil recursos à disposição de qualquer pessoa. Terapia, uma bela caminhada, um novo amor, pintar o cabelo, jantar num lugar delicioso, mudar de lugar os vasos do jardim, ver o que acontece nas artes. Ler, refletir, observar o dentro e o fora. Comprar um cachorro, ir ao futebol, planejar uma viagem (pode ser só até ali). Tentar aproximar-se da arte, qualquer que ela seja. Renovar interesses e afetos, cultivá-los. Mas se eu curto a minha depressão ou minha visão negra de tudo, se com isso pretendo chamar a atenção dos outros ou puni-los (ou a mim mesmo), posso optar pelo eterno descontentamento. Aos poucos ficarei segregado do círculo dos que são os vitais amantes da esperança.
Mesmo depois que os anos devastaram muita coisa (talvez a família, o trabalho, o meu corpo, meus amores), o que foi bom pode permanecer – não sombra ou vazio, mas motivo de voltar a florescer. Arrastar a cadeira para fora da zona de sombra e sentar-me um pouco ao sol. Passado o primeiro horror de alguma perda grave, na treva da impotência e inconformidade, começam a abrir-se frestas por onde a antiga claridade se derrama no agora. Essa mesa nessa sala, esse filho e aquele amigo, esse som no piano, o ramo de árvore que a gente pretendia cortar, a calçada onde caminhava há muitos anos – tudo nos convoca: não mais para chorar o passado, mas para projetar no presente aquilo que tendo sido belo não se perdeu. E a gente vai tomando consciência de que deve também aos amores que teve, aos amigos que quase esqueceu, à casa vendida junto com parte da infância, à pessoa que se foi em todos esses anos, poder viver melhor outra vez. Com outra pessoa ou sozinha, em outra casa, com outros amigos, com novos objetos ou entre os antigos. Das coisas belas que acabaram nos vêm sempre uma luz e uma capacidade de ver o mais banal com algum encantamento. Essa é a secreta mirada que todos podem exercer mas que se turva pela pressa, pelo excesso de deveres e a exigência de sermos o que não podemos ser. Para viver qualquer fase com alegria, viver com elegância e vitalidade, é preciso acreditar que vale a pena.
Que existem modos de ser feliz, mais feliz, e podemos perseguí-los. Mas essa não é uma caça aos tesouros comprados com dinheiro: é uma perseguição interna, a dos nossos valores, do nosso valor, das nossas crenças e do nosso real desejo.
Quero, preciso, ter esse corpo, essa sexualidade, esses objetos de consumo que os outros exigem de mim – ou fico mais contente sendo como sou, saboreando o que posso adquirir e programando o que posso transformar? Para decidir isso devíamos abrir em nosso cotidiano um espaço de recolhimento, observação, auto-observação. É preciso o silêncio ativo de quem pensa. Mas é difícil fugir da convenção social que, se por um lado nos traz uma vasta coleção de livros e cursos que falam de meditação, reflexão, espiritualidade (que também anda se tornando moda… ), por outro lado comanda por todos os meios que a gente se agite: é preciso sair, viajar, tem de fazer, frequentar, aparecer.
Tem de ser alegre e atualizado, tem de aparecer, conhecer os lugares da moda, ser chique, viajar, claro – nem tanto para abrir os horizontes, mas para depois poder participar das conversas com os amigos ou conhecidos. O mais novo restaurante, a mais moderna galeria, a loja mais fantástica. Tem de ser feliz com hora marcada, nos fins de semana, assim como alguns casais precisam se amar (somente) nas tardes de sábado.
Na juventude somos aprendizes, somos amadores na vida. Na maturidade devíamos ser bons profissionais do viver: lúcidos e ainda otimistas, mais serenos, de uma beleza diferente, produtivos e competentes. Mas me disseram que passada certa fase não posso mais mudar de rumo, de casa, de roupa, de lugar. Mesmo na pior relação, nem pensar em me separar, em me apaixonar (ainda que eu seja livre), em ter uma boa vida sexual (ainda que eu seja saudável). Não teremos escolha, se passamos de “certa idade”? Com o passar do tempo efetivamente passa o “nosso tempo”? A escolha é nossa, de cada um de nós. Temos escolha, mas somos inseguros. Podemos mudar, mas não acreditamos nisso. Boa parte dessa hesitação vem de fora, de palpites alheios, de propósitos superficiais, de modelos tolos. Viver e ser feliz não deveria ser assim tão complicado, reclamou alguém. E por que a gente não simplifica ao menos o que pode descomplicar? Amadurecer deveria ser requintar-se na busca da simplicidade. Escrevo em meus romances sobre nosso lado obscuro, sobre conflito e drama. Tento desvelar a face trevosa, de perversidade, de autodestruição, de acúmulo de raivas e ressentimento que há no ser humano. Mas não acredito que ele seja principalmente isso. Gosto de gente. Sou solidária com os personagens de ficção que criei com minha imaginação. Quem não me conhece e me julga, pelos meus livros, um ser distante ou sombrio, engana-se: vive em mim uma incorrigível otimista que acredita em ser feliz. Em renovação, em superação, em sobrevivência = não como resto e destroço, mas como um ser a cada fase inteiro. Acredito que viver é elaborar e criar: são inevitáveis as fatalidades, doença e morte. O resto – que é todo o vasto interior e exterior – eu mesma construo. Sou dona do meu destino. É mais cômodo queixar-me da sorte em lugar de rever minhas escolhas e melhorar meus projetos.
“Como posso ser otimista se minha mãe sofre de Alzheimer e meu marido se aposentou com pouco dinheiro e está em casa deprimido, meu filho não encontra seu caminho.., se minhas mãos estão manchadas, o pescoço enrugado, o seio mais caído?” A gente consegue. Não necessariamente com novas técnicas sexuais não com objetos de grife, não no clube da moda ou na praia mais sofisticada: é aqui que aprendo isso. No silêncio de minha casa, de meu corpo, de meu pensamento. Na força de minha decisão, talvez no salto de minha transgressão. Se aceito a ideia de que tudo se encerra quando acaba a juventude, minha possibilidade de ser alguém válido diminui a cada ano. Essa perspectiva produz inércia e desperdício de talentos que poderiam ser cultivados até o fim, sem importar a idade.
Quando, separada do pai de meus filhos, refiz minha vida com outra pessoa, a frase que mais ouvi de amigos foi: “Mas na sua idade a gente ainda pode tentar ser feliz mais uma vez?” Eu me espantava: “Gente, tenho só 46 anos, não 146!” Isso foi aguçando meu interesse pela questão: somos modernos e tão antigos; somos liberados e tão limitados; somos do novo milênio e nem ao menos aceitamos com inteligência a passagem do tempo, e a nossa passagem no tempo. Lançadas as nossas bases – a juventude – começamos enfim a crescer. Aprendemos a relaxar, a ter mais humor, a driblar melhor as coisas negativas, a prestar mais atenção ao que se desenrola à nossa volta. A felicidade exige paciência: é soma, acréscimo, conquista e aperfeiçoamento.
Numa palestra sobre novos interesses na maturidade e na velhice notei que 90% dos frequentadores eram mulheres. Perguntei a um colega meu da mesa de palestrantes, médico: “Onde estão os homens que deveriam estar nesta plateia… Ele, brincando, devolveu a pergunta: “Você já ouviu falar em excursão para viúvos ou palestras para homens?” Eu nunca tinha pensado nisso. Por que não existem? Porque há menos homens viúvos, uma vez que morrem antes das mulheres, e os que ficam sozinhos raramente permanecem sozinhos, buscam logo outra companheira? É possível. Porque boa parte deles, ficando sozinhos, se resignam, se deprimem mais tempo, apoiam-se mais nos filhos? Também. Porque se ocupam mais com seu trabalho quando não se aposentam precoce e desnecessariamente? Idem.
Serão mais inibidos pela ideia que lhes é imposta de que não se pode mudar, é preciso conquistar e aferrar-se a uma posição, voltar atrás é fraqueza. Além disso mulheres têm maior capacidade de formar laços, de curtir afetos, de se reunir em grupo. São mais solidárias e mais cúmplices entre si. Talvez com mais capacidade de alegria. Vejo mulheres viajando sozinhas, em pares ou grupos, divertindo-se, conhecendo coisas e lugares, cultivando interesses, travando novas relações, voltando a estudar. Interagindo, progredindo. Não vejo tantas vezes homens fazendo o mesmo. Viajando em dois ou em grupos, desconheço.
Voltando a estudar, raramente. Por que aos 70 anos não se pode fazer uma pós-graduação, por exemplo? Ou entrar pela primeira vez em uma biblioteca pública para ver o que há nos livros? O que se vê de novo nos cinemas? Seja como for, todos precisamos encontrar uma solução para o inibidor medo da passagem do tempo, que é afinal medo de viver.
Preferíamos nem viver para não gastarmos a alma, encolhidos na concha da alienação. Mas como é que se pode ter vontade, se parece que cada dia a gente perde alguma coisa? Algo se perde? Muito se perde. Tenho hoje uma pequena lista de pessoas que amei que se afastaram ou morreram; se eu chegar aos 80 anos, ela certamente terá crescido. Mas tenho uma doce lista de pessoas que chegaram: não só netos, mas novos amigos de todas as idades. Sem falar nas inovações de técnica que quero conhecer ou utilizar, nas descobertas que tentarei acompanhar, nos livros por ler, nas coisas a fazer. Outro dia perguntei à minha filha médica se eu não estaria desidratada, porque minha pele estava diferente. Ela olhou, sorriu com esse jeito de mãe com que as filhas nos tratam às vezes, e disse com uma graça afetuosa: – Mãe, você tem 60 anos, né? É só isso.
Rimos juntas, nessa cumplicidade típica de mães e filhas. Nem por um segundo tive saudade da pele dos meus 20 anos, pois ela era acompanhada de todas as aflições (e delícias) daquela fase, das quais hoje estou poupada. Olhei bem no espelho, com os óculos de que desde sempre preciso para ler. Verdade: muita coisa mudou. Não estou acabada, estou diferente do que era. Fisicamente estou diversa da menina e da jovem mulher.
O que vou fazer? Me desesperar, me envergonhar, querer voltar atrás?
Prefiro me divertir, encarar com senso de realismo que mudei, e saber que os que me amam continuam me amando apesar de tudo – ou por causa de tudo. “Mas como é possível que algo melhore com a idade?”, me perguntaram com vaga indignação. Comecei a calcular, meio na brincadeira: eu me divirto muito mais, a começar no trabalho. Escrever, publicar, aguardar críticas e vendas do meu primeiro romance aos 40 anos foi um êxtase e um susto. Hoje, com tantos livros publicados e tantos leitores fiéis, sinceramente não dou mais a mínima. Não preciso mais mostrar serviço; preciso apenas fazer o que faço com mais leveza (nunca menos seriedade), mais alegria. Mais exigências, isso sim, mas sem demasiada tensão. Nunca me ocorreu ser agressiva em relação aos meus colegas, pois cedo aprendi que em nosso campo de trabalho há lugar para muitos, para todos. Posso me alegrar com o sucesso dos outros sem temer que ele afete o meu pequeno êxito. Porque sou generosa? Não: é porque embora muitas vezes me atrapalhe, erre, cometa todas as futilidades imagináveis, não tenho a afobação nem a insegurança dos 20 anos. Nem aquela simpática pontinha de arrogância que faz com que, jovens, pensemos que o mundo é nosso – e nos deve homenagens. Meu corpo está mudando como está desde que nasci. Meu coração se transforma a cada experiência. Mas ainda palpita, se sobressalta e se assusta. Ainda sou vulnerável ao belo e bom, ao ruim e ao decepcionante, como quando eu tinha 10 anos. Somos isso: somos essa mistura, essa contradição, essa indagação permanente. Estamos vivos.
Também não pretendo afirmar que maturidade é “melhor” do que juventude, velhice “melhor” do que maturidade: digo que cada momento é meu momento, e devo tentar vivê-lo da melhor forma possível, com realismo, com sensatez, com um grão de audácia, e com toda a possível alegria. Por dentro ainda sou a menina que se assusta ou diverte com qualquer bobagem que outros nem percebem, entretidos que estão com assuntos mais importantes. Me divido entre devaneio e vida prática, sem saber direito a qual pertenço. Com o tempo entendi que essa indefinição é só aparente, que a ambiguidade me torna sólida. Muita coisa esconjurei em meus romances, aprendi que o bom humor pode ajudar o amor. Tem algumas vantagens, esse tempo da madureza de que fala o poeta. Que liberdade não ter mais que decidir caminhos profissionais e afirmar-me neles; parir e criar filhos, comprar casa, apertar orçamentos; temer a vastidão do futuro – e haveria lugar para mim dentro dele? Muita coisa que em seu tempo foi dramática, hoje é lembrança que me faz sorrir compadecida com aquela que se enrolava em tantas trapalhadas. Se alguém me amar agora, não será por um belo corpo que fatalmente vai mudar, mas por isto que hoje sou sem disfarces. Nenhuma esplendorosa jovem de 20 anos me ameaça: meu território é outro. Tive perdas, e se multiplicam com o passar do tempo. Tive ganhos, num saldo que não me faz sentir injustiçada.
Especialmente, não perdi essa obstinada confiança que me impele a prosseguir quando o próximo passo parece difícil demais.
Estarmos abertos à renovação e mudança é estarmos vivos. Independe da fase em que estamos. E se aparecer um novo amor podemos renascer para isso, a qualquer momento. Não precisamos mais criar filhos, estabelecer família (o que eu quis muito, e me deu imensas alegrias). Cumprimos muitos deveres. Erramos, porque também isso é preciso. Sofremos, porque faz parte. As crianças que se agarravam à nossa saia hoje são adultos, perto ou longe de nós, mas ainda nossos filhos. A relação materna se enriqueceu e mudou. Podemos até partilhar um pouco com eles quando estivermos vivendo alguma história. “Mas que história?” “Sei (á, um novo projeto, uma viagem, um curso, uma amizade, um amor. “Amor? A essa altura?” Mães e avós são atuantes, viajando, amando, estudando, sendo simplesmente seres humanos pensantes e capazes até uma idade bastante avançada. Mas em algumas famílias, ai delas se, divorciadas ou viúvas, pensam em ter uma nova relação amorosa. São as incoerências de uma cultura que evoluiu precariamente: parece moderna, mas continua antiquada e infantil. “Não posso namorar, meus filhos iam me matar! Nem pensar, apresentar meu namorado em casa, meus filhos iam me achar ridícula!” Vai depender de cada um de nós que sua vida seja território seu ou apenas emprestado, com má vontade, de outros – mesmo filhos. Que seja campo para correr perseguindo projetos e colhendo vivências, ou cova estreita onde a gente se esconde e aguarda o golpe final.
“O tempo que rói e corrói precisa ser reinstaurado”, diz um personagem meu, e acrescento: – a nosso favor. Perdemos muito tempo tentando iludir o tempo. Fatalmente amadurecemos mas não nos sentimos mais serenos, nem estamos mais contentes. “Como é que posso me sentir contente a esta altura, com 50 anos? Aos 60, pior, aos 70, a catástrofe?”
Muitas boas coisas podemos fazer na maturidade, que ria juventude não conseguíamos. Faltava-nos disponibilidade, faltavam-nos experiência e liberdade, faltava-nos visão. Estávamos ocupados demais, tensos demais, divididos demais. Se não houver nada imediato para “fazer”, pois geralmente tomamos isso como agir, agitar, correr, inventaremos algo.
Pode ser apenas contemplação. Pensar. Ler. Olhar. Caminhar. Quando menos esperamos, salta à nossa frente algo para “fazer” concretamente. Até mesmo em lugar de curtir a síndrome do ninho vazio podemos preencher esse vácuo (pois filhos são sempre nossos filhos ainda que não morem conosco) com mil coisas a fazer. Vamos descobrir, quem sabe, que podemos nos expandir e crescer mais livremente sem tantas solicitações dentro de casa. Foram boas, foram alegres, foram estimulantes mesmo e difíceis, mas agora o tempo é outro. Porém não é tempo nenhum: e isso faz uma grande diferença.
Repensar e reformular-se pessoalmente fez muitas mulheres na maturidade saírem da sombra para se afirmarem em trabalho, ciência e arte. Quando os filhos cresceram, quando a monotonia se insinuava, notamos que ainda sobrava energia e vitalidade: à frente estendiam-se caminhos inexplorados. Saímos a desvendá-los. Muitas não se animaram. Muitas ficaram pelo caminho. Muitas perderam o rumo. Uma ou outra sentiu que era preferível ousar a desistir. Mas boa parte alçou voo e produziu, e participou – e floresceu ainda. No meu caso a insegurança ou a acomodação tinham decretado que eu não escreveria senão crônicas e poemas. O jogo que desde criança me atraía tanto, fazer ficção, parecia vedado: faltava confiança em mim mesma. Faltava a audácia que para algumas pessoas só vem na maturidade ou até depois. Eu adotara a posição confortável do “Eu? Imagina!” que nos exime de muito risco. Intuía que ao escrever romances iria extrair das entranhas personagens dramáticos, evocar medos e dúvidas bem além da minha experiência pessoal – pois falamos por outros, por muitos, por todos. Que estranhas criaturas iriam escancarar os armários onde estavam trancadas – e o que fariam comigo?
Que espaço exigiriam em meu organizado cotidiano? Por que tirar do sossego inquietações que estavam tão bem arquivadas? A fatídica “opinião alheia” ainda me constrangia um pouco: escrever e publicar foi um dos últimos exorcismos desse demônio que em mim nunca fora particularmente ativo, mas espreitava lá do seu recanto.
“O tempo que rói e corrói precisa ser reinstaurado” diz um personagem meu, e acrescento: – a nosso favor. Perdemos muito tempo tentando iludir o tempo. Fatalmente amadurecemos mas não nos sentimos mais serenos, nem estamos mais contentes. “Como é que posso me sentir contente a esta altura, com 50 anos? Aos 60, pior, aos 70, a catástrofe?”
Muitas boas coisas podemos fazer na maturidade, que na juventude não conseguíamos. Faltava-nos disponibilidade, faltavam-nos experiência e liberdade, faltava-nos visão. Estávamos ocupados demais, tensos demais, divididos demais. Se não houver nada imediato para “fazer”, pois geralmente tomamos isso como agir, agitar, correr, inventaremos algo.
Pode ser apenas contemplação. Pensar. Ler. Olhar. Caminhar. Quando menos esperamos, salta à nossa frente algo para “fazer” concretamente. Até mesmo em lugar de curtir a síndrome do ninho vazio podemos preencher esse vácuo (pois filhos são sempre nossos filhos ainda que não morem conosco) com mil coisas a fazer. Vamos descobrir, quem sabe, que podemos nos expandir e crescer mais livremente sem tantas solicitações dentro de casa. Foram boas, foram alegres, foram estimulantes mesmo e difíceis, mas agora o tempo é outro. Porém não é tempo nenhum: e isso faz uma grande diferença.
Escrevi aos 40 anos meu primeiro romance: até então não sabia bem para o que servia do ponto de vista profissional. Em casa repetia-se o diálogo: “Eu não consigo descobrir para o que sirvo do ponto de vista profissional.” “Então por que não se dedica mais à sua literatura?” “Mas como eu faria isso?” “Você vai descobrir.” Descobri. Com dor e dificuldade, acabei encontrando o caminho. E observei que naquele momento da nossa cultura muitas mulheres começavam a crescer como seres humanos e como profissionais mais ou menos naquela idade e com as mesmas vivências. Percebi que, nisso que provavelmente estava sendo a metade de minha vida, ainda havia muito por fazer. Como tantas mulheres, vi que não era hora de pensar em parar, em temer a menopausa, o futuro, a saída dos filhos de casa ou lamentar a juventude que passava.., mas de reestruturar, desenvolver, até iniciar muita coisa nova. Amadurecer começou ali. E foi uma sequência de descobertas, com muita dificuldade e muita alegria. Quem me amava me estimulou confiando em mim, e lhe serei sempre grata por isso: pelo amor que, em lugar de prender e controlar, me libertou e me ajudou a crescer.
Uma das questões, talvez a fundamental, é o que e quanto nos permitimos.
A tendência é de nos permitirem pouco, e de entrarmos nessa onda do: a esta altura? na sua situação? mas você acha mesmo que… ? Minha amiga divorciou-se, e ao ficar sozinha comprou um apartamento grande, iluminado, onde poderia morar confortavelmente uma família inteira. Em lugar de aplaudir, de a estimular, muitas pessoas se espantavam: “Mas pra que você, sozinha, num apartamento tão grande?”
E por que, estando só, ela deveria se acomodar num lugar pequeno – como se já não merecesse espaço? É como dizem às mulheres quando os filhos se foram e quem sabe o marido morreu: “Está doida, onde se viu, morar sozinha naquele casarão?” Mas por que (a não ser por questões reais de segurança, por exemplo) não se pode continuar morando numa casa grande para receber filhos, netos e amigos, e fazer festas – ou porque se aprecia? O espaço interior é necessário para a permanente recriação de si. São os aposentos que deveriam ser os mais generosos e iluminados.
Ali poderíamos analisar nosso trajeto feito, conferir nossos parâmetros, repensar os amores vividos e os projetos possíveis. Porém nesta nossa cultura do barulho e da agitação somos impelidos a fazer coisas, promover coisas, não a refletir sobre elas: precisamos de eventos, roteiros e programas, ou nos sentimos como quem fica de fora e para trás. Porém na verdade o que nos revigora é sossegar, entrar em nós, refletir. Nada se renova, inova, expande e se faz de verdade sem um momento de silêncio e observação. Depois disso podemos, devemos, querer e ousar.
Não nos salva o enquadramento medíocre e burocrático das almas documentais, mas o vasculhar corajoso dentro de si para encontrar o material essencial, e abraçado a ele saltar, às vezes até mesmo sem rede nem garantia. Não é necessário estar em todos os lugares para participar dos milagres e eventuais desconsertos de viver. Mesmo quieta em sua sala ou na mesa de trabalho, a gente pode existir, plenamente, conscientemente, validamente. Mais de uma vez, devido ao mito do escritor que ainda escreve a mão e detesta novidades, jornalistas me perguntaram o que eu acho da Internet, da Net, do computador, do celular, da tecnologia e dos avanços da ciência. Andar de avião é melhor do que ir de carroça; comunicar-me por e-mail com uma pessoa amada várias vezes ao dia – e tendo condições de fazer isso – é melhor do que escrever uma carta a cada duas semanas. Proteger uma criança com uma vacina é melhor do que deixá-la exposta à varíola, à caxumba, ao sarampo e à hepatite. Embora seja questão de gosto e hábito, e usar da caneta possa ter seu charme, eu há muitos anos não me imagino escrevendo e traduzindo a mão. O computador é o servo gentil e eficientíssimo que facilita meu trabalho. Não faz sentido optar por ficar mais isolada se tanta coisa se oferece na minha porta, na minha televisão, no meu computador… a não ser que eu prefira me encolher na pequenez do meu aposento interior sem janelas e talvez sem porta. Há quem goste de se fechar numa caverna. É uma escolha, e você a pode fazer. Mas, por favor, não esfrie o ambiente ao seu redor com os vapores de sua alma gélida.
Resumindo: primeiro, o progresso vem para ficar. Nadar contra a correnteza é no mínimo um desconforto inútil, pode parecer arrogante ou burro. Segundo, é melhor olhar as coisas do ângulo positivo. Nunca as pessoas se comunicaram tanto: amigos que jamais se escreveriam cartas (obsoletas as cartas, não?), se “falam” diariamente no e-mail. Pessoas que estariam na amarga solidão fazem novas amizades no chat. Amantes separados podem curtir um tipo novo de “presença”. O universo está à nossa disposição: mais recentes descobertas genéticas, livros de que aqui nem ouvimos falar ainda. Posso visitar os grandes museus, ler sobre cada obra, aproximar de minha vista cada detalhe.
Posso conhecer cidades remotas, ouvir música, jogar xadrez. A escolha é quase infinita. O lixo e o luxo das culturas estão ali para mim. “E o que a senhora acha de namorar ou até fazer sexo na Internet?” Como somos infantis, como são infantis alguns de nossos questionamentos.
Simpáticos, por isso mesmo. Respondo que não há de ser mais original do que faziam ou fazem escondidos os rapazinhos de outros tempos ou destes de agora com revistas especializadas. Damos importância excessiva a todos esses preconceitos, detalhes, pudores, censuras, quando há tanto para se deslumbrar. No vasto mar do vasto mundo – no qual as tecnologias não são boas nem más: dependem do seu uso. O gregário usará o computador para contactar pessoas, pesquisar, abrir-se para todo um universo. O deprimido vai querer se isolar mais. O psicopata exercitará suas grandes ou pequenas manias.
Finalmente, depois de tantas peripécias parece que ao menos do ponto de vista cronológico amadurecemos. Parece que chegamos a um patamar confortável. Superamos dores, cumprimos tarefas, já realizamos coisas que seriam impensáveis na juventude. Agora é recostar-se para trás e traçar projetos de liberdade: uma viagem, um novo curso, os livros para ler, as dores para esquecer, os amigos a encontrar. Mexer nas minhas plantas. Abrir as persianas e vibrar porque a manhã está deslumbrante e temos uma hora para caminhar nas ruas onde andamos há muitos anos: cada folha, cada muro é um conhecido íntimo – e também isso é bom. Mas a velha inquietação, duendezinho matreiro, espia e bota a língua de fora.
E agora, e agora? Vai ser só isso, essa calmaria? Tememos, quem sabe, que daqui em diante tudo se resuma a esse conforto interior no qual se aninham lembranças, tudo desenovelado e resolvido.., pensamos. A tarefa de viver nunca se conclui, a não ser que a gente determine. O sonho e o susto sopram em nosso ouvido quando tudo parece apaziguado. Logo a certeza de ter enfim chegado a um ponto imutável de acomodação começará a vacilar. Algo novo se posta junto da poltrona onde talvez estivéssemos inocentemente vendo televisão. Uma palavra ouvida, uma frase lida, um rosto novo, um velho conhecido, um quase-nada nos toca. Saímos do gostoso torpor, botamos a cabeça fora do casulo para ver melhor. Podemos optar: Vou ficar dormindo. Vou até a próxima esquina ver o que acontece.
Esse momento define a continuação de uma existência em movimento ou cristalizada, afinada ou fora de sintonia. Essa possibilidade de escolher assusta mas é apenas um sinal de que estamos embarcados, estamos em movimento e em transformação. Mesmo agora aquela nossa bagagem de tendências inatas, influência alheia e experiências vividas vai determinar como serão os próximos anos. E, atenção: isso acontece a qualquer instante – se ainda não estivermos empalhados. “O que há com você?” perguntam os amigos. “Você parece tão bem!”, dizem os colegas.
“Ouvi você cantando no banheiro!”, comentam os filhos. Aos poucos esse novo sopro de ar, que pode ser um projeto, um trabalho, uma viagem, uma amizade nova ou um amor, vai-se delineando melhor. Sua voz é clara e chama o nosso nome. Talvez a gente nem compreenda ainda, mas a sorte – que prepara as armadilhas boas e ruins onde fatalmente cairemos porque estamos vivos – sorri acenando com a nossa nova amante: a vida. O futuro pousa outra vez na nossa mão.
Carta a um amigo que não tem e-mail: Você vai me achar meio louca e intrometida com este bilhete que será longo. Terei de mandar por mensageiro (ainda bem que não tem de ser mensageiro a cavalo entre dois castelos distantes… ) em lugar de lhe passar imediatamente como anexo de e-mail. Pois você, embora podendo, ainda se recusa a ter um computador, detesta toda a sorte de modernismos, e acha que seu tempo passou. Sonhei esta noite com você sozinho e desolado numa enorme casa deserta num terreno ermo. Depois, na mesma casa, agora rodeada de árvores e flores, você organizava uma reforma: marteladas, gente preparando comidas deliciosas, amigos reunindo-se para uma festa.
Você tinha me dito que jamais permitira nenhuma reforma em sua casa, tudo devia ficar como fora trinta anos atrás. Onde se viu nunca reformar nada na casa, ou na gente mesmo? Achei o sonho tão simbólico que resolvi lhe contar. Você é um homem bom, culto, refinado, deprimido e resignado.
Alguns laivos de bom-humor mesmo na depressão mostram que vai sair dessa – se quiser. Vou lhe dar umas idéias que você vai considerar petulantes, mas peço que pense nelas. Não vêm de uma mocinha tola e sim de uma mulher que já andou pelo reino das sombras e voltou. Não tenha pena de si mesmo. Você não é vítima de nada. Você diz que ficou chocado ao perceber que tinha “perdido o bonde porque não estava preparado, não estava atento aos sinais”. Então saia desse distanciamento, mergulhe de cara, entregue-se. Se for preciso, dê um salto mortal: pode ser uma última oportunidade. Mudar é difícil, ousar mais ainda. Eu sei. Houve momentos em que ao acordar pensei: “Posso viver ainda uns vinte, trinta anos na situação em que estou agora. Quero continuar assim como estou?”
No mínimo uma nova postura interior dependia inteiramente de mim: o resto viria por acréscimo. Nem sempre o realizei. Nem sempre acertei. Porém mexer-se é melhor do que continuar na areia movediça na qual quanto mais ficamos mais estamos presos. Em geral as coisas práticas que podemos fazer para inovar são simples. Dependem de uma atitude interior aliada a possibilidades concretas como dinheiro e gosto. Para uma mulher doméstica, arrumar armários, botando fora uma porção de velharias inúteis, ou alterar a posição dos móveis a seu gosto – ainda que os outros da casa reclamem – pode ser um começo. Pra você, eu diria, por exemplo (correndo intencionalmente o risco de lhe parecer incrivelmente fútil): compre um computador. Entre na Internet pra pesquisar, descobrir ou se divertir e informar. Fique ligado.
Escolha o que há de positivo na modernidade. Pra que ficar de fora com ar tristonho? Há coisas belíssimas a serem saboreadas. Novidades não ruins por serem novas, mas, filhas do progresso, são as maravilhas da nossa tecnologia, ferramentas interessantes, motivação de se tomar mais inteiro e mais participante. Procure conhecer alguns lugares que você diz abominar por serem “da moda”. Não quero sugerir que vá a uma danceteria, mas a um desses locais simpáticos, novos, onde se come bem e se veem pessoas bonitas. Enclausurar-se não ajuda ninguém, muito menos a você mesmo. Não se boicote suportando calor apenas porque acha que “ar condicionado é ruim para a saúde”. Se fosse assim, metade da população de Europa e Estados Unidos, onde a calefação é uma constante, estaria morta.
Conheço profissionais da sua área, velhos, velhos mesmo, que ainda atuam ou apenas se informam e atualizam por puro prazer. Quem sabe você poderia ter um retorno? Não é verdade que uma profissão “largue a gente”.
É sempre a gente que ficou no ar, desatento. As vezes isso pode ser recuperado. Planeje uma bela viagem. Use seu tempo e dinheiro (já que você tem ao menos o suficiente) para sua alegria. A vida é uma mesa posta: tem venenos mortais e deliciosos pratos que dão prazer. Há os que escolhem veneno, e os que pegam as delícias. Espero que você não ache que prazer é impossível ou ruim. Eleja o positivo. Queira ser um pouco feliz, entusiasme-se por alguma coisa dentro de suas condições – mas fora de seu pessimismo. Ou, se nada disso for possível porque esse é seu jeito e sua opção, pelo menos não me queira mal por este bilhete que não foi senão um alô, talvez uma falta minha de… jeito.

— Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Saiba mais sobre Lya Luft:
Lya Luft – entrevista
Lya Luft – senhora absoluta de um universo

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