Kathy Boggs Havens - monja Isshin

“Vivemos numa cultura de insatisfação e auto rejeição”, diz a líder budista. Para ela, meditar pode ser a solução.
– por Silvia Lisboa

Nascida em Washington, Kathy Havens chegou ao Brasil como musicista contratada pela Orquestra Filarmônica de São Paulo, em 1971. Já nesta época, ela flertava com o budismo. Mas sua iniciação se deu durante uma viagem ao Nepal e à Índia como intérprete. Na volta, se tornou discípula da Monja Coen, em 1996, e foi ordenada monja três anos depois, batizada de Isshin.

Psicanalista em formação, missionária oficial, orientadora espiritual da Sanga Soto Zen Budista Águas da Compaixão, em Porto Alegre, e autora de livros de mindfulness, Monja Isshin, hoje com 68 anos, acredita que a meditação tem de se transformar em uma atitude perante a vida. “Queremos estar em um estado de atenção plena e total presença o tempo todo e não somente durante a meditação”, diz. Segundo ela, o budismo tem muito a contribuir com os anseios por paz e busca de sentido na da vida moderna – e meditar faz parte desse caminho. Mas ela não é uma solução para tudo.

Monja Isshin falou com a SUPER via áudios de Whatsapp direto da Disney, onde passava uma temporada com o primeiro namorado, que ela reencontrou 50 anos depois. “Cometi muitos erros na minha vida. Mas havia uma coisa da qual eu me arrependia que era o fato de a minha relação com meu primeiro namorado não ter dado certo. Até que nos reencontramos na festa de 50 anos de formatura do colégio. Ficamos noivos, e o casamento está marcado para 2017. A vida pode ser um conto de fadas.”

Por que decidiu se tornar budista e depois monja?
Tive um primeiro contato com o budismo quando eu estava na Áustria, em 1969, através de livros. Me apaixonei pelos seus ensinamentos. Naquela época, não cheguei a encontrar nenhum professor, mas procurei aplicar os ensinamentos da minha vida da forma como eu os entendi. Em 1971, vim para o Brasil como musicista e, como não encontrava nenhum grupo de budismo, eu me tornei uma “buscadora espiritual”, uma experiência que me levou a respeitar todas as religiões. Em uma dessas buscas, eu estava fazendo um treinamento de xamanismo com um psicólogo junguiano em São Paulo quando surgiu um convite de viajar como intérprete de uma peregrinação budista para o Nepal, Tibete e Índia, em 1996. Foi na volta dessa vida dessa viagem que começaram a aparecer endereços e contatos de grupos de budismo. Um deles era um retiro zen budista, em português – era muito comum retiros onde só se falava japonês. Foi lá que conheci a Monja Coen, que se tornaria minha professora de ordenação, e iniciei a minha prática. No início, foi muito forte a sensação de ter chegado em casa na minha casa espiritual. Pedi e recebi ordenação monástica. Em 2000, fui para o Japão fazer um treinamento em mosteiros onde fiquei quatro anos. Depois passei mais um ano fazendo treinamento avançado nos Estados Unidos. Na volta, fiquei um ano em São Paulo, com a Monja Coen e vim para Porto Alegre no final de 2006. Recebi a transmissão de Darma com o mestre japonês Onoda-Roshi e, então, me nomearam missionária oficial.

Como é a sua rotina hoje, especialmente a rotina de meditação?
É uma correria. Me sinto abençoada de ter uma comunidade que, embora pequena, consegue manter as rotinas em dia para eu conseguir me dedicar à vida monástica e aos ensinamentos do darma (a verdade contida nos ensinamentos budistas). Eu gostaria de dizer que pratico mais meditação, mas muitas vezes não dá porque falta tempo. Sempre que posso me sento junto à turma para os horários regulares de meditação na nossa comunidade. Mas, na verdade, nós não queremos que haja nenhuma diferença entre os períodos de meditação sentada e a atenção plena e a total presença nas atividades diárias. Não queremos essas divisões. Queremos estar em um estado de atenção plena e total presença o tempo todo e não somente durante a meditação. Eu acabo viajando com frequência, parte por causa dos estudos e parte por causa das atividades como missionária. Também atendo como psicanalista humanista em formação. Estudo a psicanálise humanista da linha do filósofo Erich Fromm, autor de um livro chamado A Arte de Amar. É a linhagem que mais combina com o zen. O Fromm foi aluno de budismo.

Qual é a importância e o papel da meditação no budismo?
Sem meditação não temos budismo. Desde a época do Buda, os ensinamentos budistas se baseiam nos 3 treinamentos: o estudo sobre textos clássicos; a moralidade, isto é, como orientar a sua vida de uma forma digna, honrosa e ética; e a meditação. De uma escola para outra, o método da meditação pode variar. Alguns usam mantras; enquanto o zen usa a meditação silenciosa, focada na respiração.

Hoje o budismo está em alta. Você visita templos, como o de Três Coroas, na serra gaúcha, e eles estão sempre lotados. A que você atribuiu isso?
As pessoas buscam paz interior. Nós vivemos num mundo consumista e individualista e cada vez mais polarizado. Com muita discórdia e da cultura de oposição. Ninguém mais escuta o outro. O budismo tibetano e o budismo zen acreditam na natureza Buda de cada pessoa, na pureza de cada um. Isso é muito importante porque nós vivemos numa cultura que cultiva a constante insatisfação e uma certa auto-rejeição. O budismo vem para responder e curar esses aspectos.

Aumentou também muito o apelo da meditação, em especial do Mindfulness, em parte em razão das pesquisas científicas sobre seus benefícios. Você acha positivo essa popularização?
A meditação como caminho para a espiritualidade, independentemente de ser no budismo, no cristianismo, no judaísmo, no taoísmo, nunca precisou das pesquisas científicas para ser validada. Essas tradições se mantêm há mais de 3 mil anos. Mas é bastante interessante ver que uma versão bem básica e simplificada de meditação esteja sendo divulgada e tenha chegado aos consultórios médicos, aos hospitais e nos consultórios de psicoterapia. Eu acho isso muito positivo. Mas está faltando a bula, onde aparecem as instruções, as contra-indicações e os efeitos colaterais. Pouquíssimas pessoas falam dos cuidados necessários e das qualificações que as pessoas que orientam têm de ter para ensinar os outros a meditar. Meu receio é que as pessoas acreditem que a meditação como caminho espiritual é só isso que está sendo ensinado com mindfulness, uma simples técnica ou mais uma ferramenta da terapia. A meditação num caminho espiritual é muito mais que isso, mas não é uma panaceia.

Você acha essa busca espiritual puro modismo ou um bom sinal?
É um pouco dos dois. O movimento mindfulness tem um nível de modismo maior, em parte pelo excesso de oba-oba, por ser vendido como panaceia. Mas o modismo vai passar. E o que eu espero que sobre depois é o bom uso da meditação nos consultórios e nos hospitais. Mas é importante dizer que existe um risco que esse nível básico de meditação se esgote. Para relaxamento e para alcançar um determinado nível de autoconhecimento, praticar mindfulness de modo simplificado é bom e válido. Mas é preciso procurar professores com formação comprovada. Há muitos picaretas que são praticantes leigos há pouco tempo e se colocam como instrutores. Não entenderam nada.

Você acredita que o budismo responde a anseios do homem contemporâneo? Se sim, que tipo de anseios? Qual você considera o mais importante deles?
Paz, tranquilidade e uma transformação interna profunda que leva à equanimidade, que não significa um desinteresse, mas sim um equilíbrio emocional e psicológico. Isso traz um destemor, que é fantástico. O budismo também orienta a pessoa a buscar suas próprias respostas para a vida, o sentido dela. Mesmo o nível mais básico de ensinamentos já servem para trazer paz.

Que tipo de resposta o budismo traz para a busca da felicidade?
Prefiro não falar tanto de felicidade. Porque felicidade traz junto a ideia de infelicidade. Prefiro falar mais em bem-estar, em paz. Na meditação profunda, muitas pessoas relatam entrar em contato com uma alegria, como se o universo inteiro estivesse se divertindo muito. Se você observar, toda a pessoa que é realizada espiritualmente, não só no budismo, carrega essa alegria. Especialmente os zen budistas, que são conhecidos pelas suas gargalhadas.

E para o amor?
O budismo ensina desapego. Mas muitas pessoas confundem desapego com indiferença. Não é aquele cara que se separou 7 vezes. Desapego não é indiferença. Significa, na verdade, não possessividade. É preciso amar a si mesmo antes para amar sem sentimento de posse. Só assim se ama verdadeiramente. Porque amar é querer o melhor para o outro, que ele esteja bem, seja junto a mim ou não.

Existem muitos conceitos e ideias budistas que circulam por aí, mas que foram deturpadas?
Existem muitos conceitos e ideias bonitas circulando por aí. Mas um dos mais deturpados talvez seja o de que a meditação é relaxamento. Meditação não é assim tão fácil. A meditação é um treinamento da mente. Ao alcançar a meditação profunda, aí, sim, você encontra a paz e tranquilidade. Mas antes é preciso passar por todas as fases do encontro consigo mesmo, do encontro com nossa própria sombra, com sentimentos menos nobres. No budismo, a meditação faz parte de um pacote de práticas que levam à libertação e que envolvem também os estudos e a moralidade, como falei antes. A meditação sozinha não é o suficiente para a auto-transformação e a libertação plena.

Fonte: Super Interessante

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