Sherlock Holmes, de Guy Ritchie

Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. vivendo Sherlock, e Jude Law no papel de dr. Watson, é o mais novo lançamento numa longa série de filmes. O que não deixa de surpreender. O personagem foi criado há mais de um século — e sobrevive. Por quê?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que Holmes é um produto da Inglaterra vitoriana, uma sociedade em que a repressão, sexual, inclusive, era a regra. Os instintos reprimidos emergiam sob a forma de violência física e de crimes misteriosos, como aqueles de Jack, o Estripador. Diante disso, o raciocínio passava a ser a principal arma do detetive. E este raciocínio, por sua vez, tinha uma base científica. Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock, era médico, e inspirou-se num famoso cirurgião de Edimburgo, o dr. Joseph Bell, com quem trabalhou. Bell era capaz de fazer diagnósticos antes mesmo que os pacientes abrissem a boca, graças a seu notável poder de observação e a seu arguto raciocínio.

Sherlock Holmes igualmente parte de pequenos detalhes para suas seduções. Curiosamente, o dr. Watson, o amigo de Sherlock, é médico, mas não tem nenhuma habilidade especial. Na verdade, funciona mais como um interlocutor do que qualquer outra coisa. Mas Sherlock Holmes serve, sim, de modelo para um médico: o dr. House, da já longa série House, que foi escolhida como a melhor série televisiva no People’s Choice Awards, realizado em Los Angeles, e que, diferentemente do Oscar, resulta da votação do público via internet. Interpretado por Hugh Laurie, antropólogo de formação, House é um gênio do diagnóstico, mas um homem cínico, sarcástico, que não mostra muita simpatia para com os pacientes.

O dr. Bell sabia que era o modelo de Holmes. E não gostava disso. House explica a razão. Bell sabia que medicina não é apenas fazer diagnósticos, muito menos fazer diagnósticos brilhantes. Na maioria das vezes, isso não é necessário — nem difícil, com a avançada tecnologia hoje disponível. Difícil é tratar a doença, difícil é cuidar do paciente. Ao fim e ao cabo, a medicina é isso, uma relação especial entre pessoas.

Não são poucos os médicos que se transformaram em personagens, seja da literatura, seja do cinema, seja da tv, que gosta muito do hospital como cenário para seus dramas e ali coloca figuras como as de Ben Casey, do dr. Kildare, Marcus Welby, Meredith Grey (de Grey’s Anatomy). Funciona: na Inglaterra, um curioso estudo mostrou que as pessoas conheciam mais o dr. Kildare, e mesmo o dr. Watson, do que médicos ingleses cujo trabalho beneficiou extraordinariamente a humanidade: Joseph Lister, que introduziu a assepsia, e Edward Jenner, pioneiro da vacinação.

O dr. Bell tinha razão: ao menos em termos de medicina, há uma longa distância entre a realidade e a ficção. E a ficção às vezes ganha a briga.

[23/1/2010]

— Moacyr Scliar, no livro “Território da emoção: crônicas de medicina e saúde”. [organização e prefácio de Regina Zilberman]. São Paulo: Companhia das Letras, 2013

Saiba mais sobre Moacyr Scliar:
Moacyr Scliar – uma vida entre a medicina e a literatura

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