The Garden at Versailles (detail), by Edouard Manet

O fardo da flor
Cinza o dia em que ficou instituído
que toda bela, dócil e frágil
deve sempre ser a flor.

Deve chorar cada pétala caída
e toda rubra, mansa e sofrida
acatar inteiramente toda a dor.

Deve esperar placidamente ser colhida
toda meiga, ávida e sentida
resguardando na beleza seu calor.

Ah, que ledo engano se comete
ao crer que em seu lugar ela fragilmente permanece
entoando vossos hinos de louvor.

Não confundir doçura e docilidade
nem na calma longamente aprendida
uma ausência de luta com ardor.

Pois é na lida diária de reinventar-se
e seguir toda espinho, sonho e realidade
que ela transfigura o fardo de ser flor.
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Tecidos diários
Para a frágil tecitura do dia
Escolho o bordado tanto pela cor
Quanto pela candura

É que ser flor nessa ruidosa apatia
É, sobretudo,
Uma forma de luta.

Roubo da renda a força tesa
De não se render ao ferro que assusta
Enquanto o cetim me ensina a leveza
De moldar-se e ainda seguir em disputa
O caimento do brim, em sua maciez consistente
Ajuda a ser firme e não perder a ternura
Mas é sem a chita que eu não saberia
O movimento amplo das flores em rebeldia

Trajar-me em cotidiana poesia
É meu escudo-espada contra a rotina-espartilho
Infeliz e armada
Por isso quando à noite me dispo
Dos tecidos e das rimas em camada
Deixo em molho de sonhos o vestido
Para o luar quarar minha onírica empreitada
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

A família que inventei para mim
O irmão que inventei para mim caminha cuidadosamente ao meu lado
ombro a ombro, braço dado
como se desde o ventre do qual não nascemos, nunca nos tivessem separado.

A irmã que criei para mim é irmã de verso, rima e carta
e, nesse vai e vem de palavra de lágrima
trocamos mesmo o sentido do gene comum que nos falta.

A mãe que sonhei para mim, pintei nas cores das mães todas que me adotaram,
e hoje, em uma onírica e segura distância, ela entoa cantigas,
e balança um berço no qual nunca me colocaram,
enquanto o pai que forjei dos pais vários, partidos, que encontrei
vela meu sono com atenta e cega constância.

Assim sigo a sina
de encontrar tias e fazer primas
e plantar folhas e colher raízes,
inventando a família que jamais tive
como pincel que em suave deslize
desenha o que o olho nunca viu.

( o Amor, esse até um dia existiu,
mas, talvez por real demais, como veio, partiu
talvez apareça um dia para o chá
ou para saber da família)
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

~~

Correnteza
Espalha pó
Firme e só
Ali sólida espreita
O solo que a aceita
Vez que parte e se solta
É barco sem volta

Dispensa a vela, navega em pedra
Corre e desliza em leveza
Que só de si e de si ia presa

Escapa à rota, vasta essa orla
Descobre que a fluida dureza
Da pedra é saber ser correnteza

A consistência da rocha é toda sua incerteza
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Da morte e outras permanências
Encontrei-te na rua ontem! Ou vi somente uma foto?
Não sei. Os bilhetes de sempre na gaveta me esquecem o lógico.
Veja bem, não te procuro mais nem na cozinha nem na sala
Mas mesmo a chaleira sozinha deixa refém um cheiro de café na casa.

E há ainda uma conta que vem. Um hábito que o porteiro mantém.
Todo um “quê” que perdeu seu “quem”.

Não é tanto uma saudade. Nem, talvez, uma dor de ausência.
Mas ah, como é estranho,
Que os vestígios da tua partida
só contem da tua permanência.

Dizem: é preciso de vez enterrá-lo.
Repetem: feche o ataúde, é tudo monumento.
Não veem? Todos os teus túmulos te retém.

(Nossos mortos não morrem porque nossos
Nossos mortos não morrem enquanto nossos
Nossos mortos são nossas esquinas.)
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Sinastria
Há três nomes que me creem a mulher do seu destino:
o nome escrito na carta, nos astros,
o encontro só ainda sem data.
Há três nomes que me conjugam sempre futura
e, ainda assim, exata;
Como se mais que Norte eu fosse mapa.
Não sabem que meu desatino é, parada, despertencer ao chão,
desobedecer à verdade da rota por mim traçada.
Enquanto esperam em qual esquina ou rua me encontrarão,
Eu construo cidades.
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Encontro
Quando fiz-me cinza e vi-te cinza
nem de longe supus que nos daríamos cor
Veja meu bem quanta luz pode nascer
do encontro da nossa escuridão
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Ode à incerteza
Eu, que sou feita de cantos,
temo um tanto o que é por demais reto.
É que nas esquinas escondo o encanto
dos passos perdidos em ruas desertas.
Se na curva a meta não lembro,
faço do andar uma aventura secreta;
bifurco a estrada conforme caminho,
esqueço a chegada e tortuo a régua.
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Um jacaré que come flores
O mundo não é cinza. Nem é colorido.
É uma seria contra o mar revolto.
É a enchente que fecunda o Nilo.
É um jacaré que come flores,
O terrível que do belo se alimenta.
Improvável harmonia.
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

§

Canção ao marinheiro
Sei que o acordo foi que eu fosse porto
esteio certo para tua embarcação errante
ancoradouro firme e distante
pronto a acolher-te quando viesses barco
mareado desse velejar constante, de mar e mundo farto

Sucede que o mesmo vento que te fez descrever outro arco
Soprou para além do teu caminho vário
Correu-me o cais deserto, levou-me vigas, causou estrago

Mas descobri contente que o chão que se desprende flutua ao largo
É que, diferente da beleza de velar por vasta frota
Ser porto seguro de navio algum é fardo

 

Por isso, não posso ser porto, pois ora parto
Largo amarras e desato a corda
Grito adeus e cruzo a imaginária porta
Até o mar, marinheiro
– Mariana Imbelloni Braga (inédito)
– enviado pela autora –

Mariana Imbelloni Braga

BREVE BIOGRAFIA DA POETA
*Mariana Imbelloni Braga Albuquerque nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criada em São João del Rei, MG. Formada em História pela UFF e formanda em Direito pela PUC-Rio, dedica-se desde 2009 aos estudos de gênero nas duas áreas. Para conseguir lidar com isso tudo, apega-se à literatura e arrisca-se na poesia, lida, dita e vivida.

* Colunista deste site

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