Berthe Morisot -1887.

Manhã de março. E a campainha toca.
– Quem é? – pergunta Maria já ansiosa, na verdade inquirindo ao mundo por que me chamam em casa, o que querem de mim?
– A senhora foi escolhida – responde o rapaz, tão louro atrás da corrente que retém porta e segurança.
Fui escolhida para quê?, pensa Maria, não ouço rádio, não entro em concurso, fui escolhida não, mentira.
– Obrigada, não quero comprar nada – e Maria empurra a porta. Que não se fecha, porque o rapaz botou o pé na fresta.
– Ouça, não é nada para vender.
– Não, obrigada.
– Não é para pagar.
– Nem assim.
Maria faz força. Olha ostensivamente o pé dele, sandália. Depois o rosto, cabelos anelados ao redor.
– Com licença – diz Maria perguntando-se o que será que ele quer, e reparando na beleza dos cachos, que cachos harmoniosos, pensamento que corre sozinho como torneira esquecida aberta, por trás de outros pensamentos mais cortantes, de desconfiança, defesa.
– Quer fazer o favor de tirar o pé? – Maria usa sua voz mais autoritária para sobrepô-la ao medo crescente.
– A senhora não está entendendo. Eu sou um anjo do Senhor.
Um maluco. Era só o que me faltava. Logo hoje que estou sozinha em casa. Essa cidade está virando um hospício. Assim pensa Maria. Mas diz:
– Olha, meu amigo…
Ele repete – Eu sou um anjo do Senhor.
E então, lentamente, sorri.
Maria nem pensa que aquele sorriso é uma primavera. Sente-se apenas trespassar de mansidão, ensolarada. Maria sorri.
– Desculpe – diz. E, por dentro, como fui ser tão ridícula? – Desculpe – repete. – O que é mesmo que você queria?
– Posso entrar? – a pergunta parece tão lógica, tão absolutamente serena, que Maria se apressa a tirar a corrente, abrir a porta.
E o rapaz entra na casa de Maria.
– Você quer um café? – pergunta Maria. – Uma água?
– Quero que você sente aqui ao meu lado, Maria, porque tenho uma coisa importante para te dizer.
Maria nem se pergunta como ele sabe seu nome, esse homem tão lindo. Maria não tem nenhuma interrogação mais, só o desejo de sentar ali no sofá da sala, junto àquele rapaz de camiseta e cachos, e respirar seu hálito.
– Maria – diz ele -, você não vai acreditar, mas eu te trouxe um presente.
Não, Maria não acredita. Mas isso não faz diferença, porque a mão do rapaz é quente na sua coxa e o hálito dele é perfume e flor, e a boca dele, ah! a boca dele é um fruto do Senhor.
Despejada! Logo agora! Logo agora que a barriga retesada e plena como um ovo está prestes a culminar sua tarefa. Maria quase não acredita, não quer acreditar, mas a carta está ali, tinha acertado tudo com o senhorio, mas a carta está na mão dela, é isso, não tem como voltar atrás, não dá mais para ficar só esperando o nenén chegar, agora é preciso arrumar outro apartamento. E depressa.
Maria lê os classificados, recorta anúncios possíveis. E sai. Pega ônibus, pega metrô, anda, anda, sobe escadas, fala com porteiros, entra em elevadores, abre portas. Abre portas sobre apartamentos vazios, cheirando a já habitados, poeira nas frinchas. E a cada um se pergunta, será nesse que quero ficar? Não, lhe responde uma cor de parede. Não, a estreiteza de uma sala. Não, um corredor escuro, uma banheira rachada. Até que um dia, depois de tantas portas inutilmente abertas, sim, lhe diz uma janela sem cortinas aberta sobre árvores, sim, um piso claro, sim sim, o sol derramado nas paredes. Sim, parece dizer-lhe do centro de tudo o seu bebê. E assim Maria sabe que já encontrou uma casa para recebê-lo.
Precisará ainda fazer a mudança, juntar suas coisas, depois acompanhar o caminhão com seu próprio carro, pequena procissão através do trânsito da cidade, durante a qual os cristais mais delicados, que levou consigo num balaio, tilintam como minúsculos sinos.
Está justamente tentando definir lugares para os objetos na casa ainda caótica, quando o corpo moído exige que ela ponha as mãos nos rins e, projetando a barriga para a frente para aliviar o peso, Maria percebe que uma sombra se avoluma por dentro do ventre. Uma sombra que ainda não é dor, mas que cresce e, insistente, chama.
Deitada de lado como o médico mandou, Maria respira pausadamente enquanto a dor maior lhe dá repouso. E uma trégua apenas, ela sabe, logo a onda tentará submergi-la outra vez, vinda do pé, da terra que ela sequer toca, mas que está nela, passado de semeadura e colheita que habita toda mulher. Agora é tempo de colher. Como o Anjo disse que aconteceria, o filho está maduro para a luz.
O médico aproxima-se de Maria, fala com a enfermeira. Maria não lhe presta atenção, como se não o ouvisse. Maria está com a atenção voltada para dentro, ouvindo a conversa sem som do bebê que nela, e com ela, luta para derrubar as muralhas do corpo materno e libertar-se. Maria está ocupada demais em abrir-lhe passagem, para poder conversar com o médico, dizer-lhe como se sente. Pois Maria se sente como o bebê, sem palavras.
Sabe, porém que chegou a hora. Na maca, rumo à sala de parto, Maria pensa apenas no seu desejo de vê-lo, pegá-lo no colo, ela que há tantos meses o traz no regaço.
Frio, luz intensa, o corpo tão doído que quase o desconhece. Força, Maria, é preciso fazer força. Os músculos tensos, os dentes cerrados, o pescoço quase estourando. E de repente aquela sensação líquida, macia, de peixe esgueirando-se, saltando, como se a dor e o sangue e as vísceras de Maria se esvaíssem por entre suas pernas, deixando-a vazia e apaziguada.
– É uma menina – ouve o médico dizer do fundo da luz.
Uma menina?! Então, pensa Maria quase com alívio antes de resvalar para o torpor, então não era verdade, nada do que o Anjo disse era verdade, eu não fui escolhida, sou apenas uma mãe qualquer, mãe da minha filha amada, que bem-vinda seja.
Lá vem Maria com sua filha no colo entrando no apartamento novo. Olha em volta. Que desordem, não repare, querida. E o teu bercinho que não chegou, a loja acabou não entregando; também, com essa confusão toda de Natal… não há de ser nada, mamãe vai dar um jeito.
Maria deita sobre o sofá a nenen enrolada na manta. Vê um caixote vazio, ainda com palha da mudança, arrasta-o para o meio da sala, afofa a palha, põe almofadas por cima e, com gestos de quem quara roupa ao sol, abre sobre as almofadas o lençolzinho branco, bordado, que estava guardado numa gaveta com sachê cheiroso, para o primeiro dia.
– Pronto, querida, está feita a tua caminha, pode dormir sossegada.
Maria tira a manta, deita a nenen no berço improvisado, sem cobri-la sequer, que a tarde é quente.
Miau, faz o gato roçando nas pernas de Maria. E só então ela se lembra que o pobrezinho deve estar morto de fome, ele e o cachorro, sós no apartamento desde que ela foi para a maternidade, aos cuidados apenas do porteiro.
– Desculpem, vou cuidar de vocês também, não precisam ficar com ciúmes.
Na cozinha, Maria despeja a ração na tigela, abre uma lata de sardinhas para o gato, bate de leve com o prato no chão. Chama, psss, psss. Nem gato nem cachorro obedecem. Chama de novo, faz barulho com o prato. Nada. Que será que há com esse bichos, se pergunta Maria. Intrigada, vai até a sala. Não chega a entrar, porém, retida por um instante na porta, em devoção.
Lá está o caixote, onde ela o deixou. Mas o gato de um lado e o cachorro do outro bafejam delicadamente sobre a menina. E acima dela, pairando ofuscante na tarde que se vai, esparge sua fúlgida luz uma estrela.
– Então era verdade! O Anjo não mentiu!
Ajoelha-se Maria perto da filha. Sim, o Anjo disse a verdade. Sagrada é a menina que esperneia entre linhos. Como estava prometido, Ela chegou. Louvor aos céus, pois a Messias está entre nós.

— Marina Colasanti, no livro “Um espinho de marfim e outras histórias”. Porto Alegre: L&PM, 1999.

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