Mares místicos - fonte: Mares e lugares

“Mares Místicos”, segundo livro de poemas de André Setti, é um passeio por símbolos, mistérios, danças, reinos, relâmpagos, estações de sonho e abismo, ou sonhabismos, ligados, relacionados, indissociáveis. Revela, também, diversas influências, sendo as mais destacadas as dos poetas Herberto Helder e Dylan Thomas e dos filósofos Friedrich Nietzsche e Heráclito.

Os universos do tempo, da música e do corpo, com seus séculos, ossos, cérebros e vértebras, flautas, pianos e melodias, se mostram bastante presentes ao longo do volume. Além disso, há diversas referências aos movimentos e ao mar, (ou, melhor dizendo, a uma ideia vaga de mar), com suas travessias, navegações e destroços, como o título sugere.
Na segunda parte da obra, há um longo poema, de nove páginas, dividido em cinco partes e intitulado “No Reino dos Homens”, o poema mais simbólico entre todos da seleção. Na terceira e última parte, há quatro poemas em parceria com os poetas Wagner Andriote e Felipe Stefani, sendo este último também o ilustrador do volume.

Entre a água e a loucura, ficamos com o livro, ou com o silêncio, ou com nada disso. Este livro-labirinto não pretende responder nada, mas ampliar a pergunta, ou as perguntas, ou, ainda, quem sabe, brincar de espalhar fascínios nalgum local indefinido.

Mas não cabe ao autor dizer o que é o livro. Que ele fale por si mesmo ou cale-se para sempre, preso em seu labirinto.
André Setti, 2017.

Leia abaixo cinco poemas do livro:

Música das idéias
   A T. S. Eliot

Por palavras eleitas,
a música do tempo
são pedras que entram no corpo,
órgãos do fogo,
cada uma canta o seu consolo.

As mais belas luas se desfibram,
numa espécie de hino aos gestos do sonho.

A chuva encobre o canto
na beleza de um abismo.

Nutro-me de madeiras que desfolham,
em léguas que não têm símbolo.

Um cego de mim me lerá destroços.

Voraz. Tenho olhos
para cantar o sonho e a sombra.
Tenho olhos para cantar o grito.

A chuva envolve o canto
na beleza de um abismo.
– André Setti, do livro “Mares místicos – poemas”. [ilustrações Felipe Stefani]. E-book. São Paulo: edição do autor, 2017.

§

Noite
Resta sempre fugir. Animei-me com o duelo de espadas cegas promovido pela corte. Resta sempre um verso, o vinho, uma dança. Ela era jovem e tinha palavras. Eu tinha medo. Ela tinha poço.
Resta sempre um furacão sem sono. Ainda bem que não é nosso.
Ela era bonita sem deixar de ser feia. Talvez fosse um monstro.
Fui visitar o mar. Visitar meu corpo. Entre eles não há espaço.
O mar estava triste e calmo. O mar estava velho, particularmente velho e indisposto aquela tarde.
A Grécia é o reino das pirâmides. Das pirâmides e dos astrônomos. Dos soldados e dos fósseis. Grécia, berço dos persas. E me vigia o sono.
Vou ler grande sertão. Veredas me espreitam do outro lado.
A noite é verde e todas as noites são verdes. O mundo é prêmio cínico por suportarmos as horas.
Depois as estações, a rota dos astros, o cosmos.
Impossível a fuga.
– André Setti, do livro “Mares místicos – poemas”. [ilustrações Felipe Stefani]. E-book. São Paulo: edição do autor, 2017.

§

Caminho das pontes
O que é aquilo
que grita ao longe?
E vemos os séculos
em caminhos ocultos,
ao som das pontes.

De onde vem
este som oculto?
E vemos as pontes
gritando ao longe
o caminho dos séculos.
– André Setti, do livro “Mares místicos – poemas”. [ilustrações Felipe Stefani]. E-book. São Paulo: edição do autor, 2017.

§

Gravitações místicas
Sobre a areia movediça do infinito, a velha centelha do cosmos, no alpendre do invisível, a nos dizer: “Talvez o canto cego seja a verdadeira roda do mundo, o último samurai do encanto, transfigurando o sopro dos sonhos com a fúria dos mitos”. “Eis o canto cego e austero”, cogito, precisamente ébrio e precário, mergulhando no silêncio e no fascínio, ressoando no caos das humanas ruínas, enquanto os ossos, lentos, a esmo e temerosos, suportam a dinamite das sombras neste imenso labirinto, entre os escombros do encanto e as vísceras do desassossego.
Nas galáxias do medo, em tresloucado movimento, o tempo escreve o silêncio mais vasto que o segredo.
– Wagner Andriote e André Setti (2017), do livro “Mares místicos – poemas”. [ilustrações Felipe Stefani]. E-book. São Paulo: edição do autor, 2017.

§

Telas do assombro
É preciso dançar sobre o papel.
O corpo é oco como a escrita.
Escute as palavras ocultas da pintura
Como a serpente que hipnotiza suas vítimas.

Acreditava que o mundo era lírico,
Pensador onírico da pintura mítica.
Do ódio ao ópio, o corpo emigra,
No ritmo das palavras que se buscam no limbo.

O verso é um cometa embriagado
Pelo corpo oco do papel.
– Felipe Stefani e André Setti (2008), do livro “Mares místicos – poemas”. [ilustrações Felipe Stefani]. E-book. São Paulo: edição do autor, 2017.

Quer o livro? 
Entre em contato com o poeta André Setti: http://inglesonline10.webnode.com/contato

Sabia mais sobre o autor:
André Setti – poeta

COMPARTILHAR
Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

RECOMENDAMOS





COMENTÁRIOS