©Mark Conlan

A equipe de psicólogos e psicanalistas que trabalha em um grande hospital me pede uma palestra sobre perdas. A perda de uma pessoa amada ou a perda da própria saúde, e a proximidade imediata da morte. Que lhes podia dizer, a eles, competentes profissionais que enfrentavam diariamente os rios de dor, medo, esperança e morte que afluem a um grande hospital? Nisso todos eles, mesmo os jovens, tinham muito mais experiência do que eu. Então procurei ser simples. Falar das naturais dificuldades em lidar com qualquer perda. Primeiro, não queremos perder.
É lógico não querer perder. Não deveríamos ter de perder nada: nem saúde, nem afetos, nem pessoas amadas. Mas a realidade é outra: experimentamos uma constante alternância de ganhos e perdas, de que este livro procura falar.
Segundo, perder dói mesmo. Não há como não sofrer. É tolice dizer “não sofra, não chore”. A dor é importante, também é o luto – desde que isso não nos paralise demasiado por demasiado tempo para o que ainda existe em torno de nós. Terceiro, precisamos de recursos internos para enfrentar tragédia e dor. O apoio dos outros, o abraço, o ouvido e o colo, até a comida na boca são relativos e passageiros. A força decisiva terá de vir de nós: de onde foi depositada a nossa bagagem. Lidar com a perda vai depender do que encontraremos ali. Se crescem árvores sólidas ou apenas alguma plantinha rasteira, teremos muito ou pouco com que nos nutrir e em que nos apoiar. A tragédia faz emergir forças insuspeitadas em algumas pessoas. Por mais devorador que seja, o mesmo sofrimento que derruba faz voltar a crescer. Para outros, tudo é destruição. No seu vazio interior sopra o vento da revolta e amargura. A perda os atinge como uma injustiça pessoal e uma traição da vida. Sob o golpe da notícia de uma doença grave, ao saber que se pode morrer em breve ou perder a pessoa amada, a gente bate a cabeça contra uma parede alta e fria. Não falo só dos dolorosos rituais da enfermidade e da morte. Falo do que é ainda mais sério: não ver mais sentido em nada. Porque até o dia da perda vivemos sem pensar. Corremos desnorteados no tempo em que tínhamos, sem refletir e quem sabe sem valorizar isso que agora perdemos: uma pessoa, a saúde, amor, posição, tudo. Se vivemos superficialmente, na hora de meter as mãos em nosso interior encontramos desolação. Não acho que todos devêssemos ser filósofos, eremitas ou fanáticos de nenhuma religião. Não acredito em poses e posturas. Não acredito nem mesmo em muita teorização sobre a vida, a morte, a dor. Mas acredito em afetos e tenho consciência de que somos parte de um misterioso ciclo vital que nos confere significação. E que dentro dele, sendo insignificantes, temos importância. Essa é uma das razões por que maturidade e velhice têm segredos, beleza e virtudes que antes não se manifestavam tão plenamente.
Nesse debate sobre perdas observei como lidamos mal com a dor uns dos outros. Entre nós de momento estar alegrinho e parecer feliz é quase um dever, uma questão de higiene, como tomar banho e estar perfumado. Mas às vezes a gente tem de se permitir sofrer – ou permitir que o outro sofra. Todos nós, amigos, família, terapeutas, médicos, sentimos duramente nossa própria limitação quando alguém sofre e não podemos ajudar. Em certos momentos é melhor não tentar interferir, apenas oferecer nossa presença e atender se formos chamados. Que o outro saiba que estamos ali. Mas não (se) permitir o prazo normal de dor é irreal.
Quando é hora de sofrer não teremos de pedir licença para sentir – e esgotar – a dor.
Sofrimento, pobreza, doença, abandono, morte – são ameaças, corpos estranhos numa sociedade cujos lemas parecem ser agitar, curtir, não parar, não pensar, não sofrer. A dor incomoda. A quietude perturba. O recolhimento intriga e incomoda os demais: “Ele deve estar doente, deve estar mal, vai ver é depressão, quem sabe um drinquezinho, uma nova amante, um novo namorado… ” Para não se inquietarem, para não terem de “parar para pensar”, ou apenas porque nos amam e nosso sofrimento os perturba, a toda hora nos dão um empurrãozinho: “Reaja, vamos, saia de casa, para de chorar, bote um vestido bonito, vamos ao cinema, vamos jantar fora.” Também para isso haverá uma hora certa. O luto é necessário – ou a dor ficará soterrada debaixo de futilidade, sua raiz enterrando-se ainda mais fundo, seu fogo queimando nossas últimas reservas de vitalidade, e fechando todas as saídas. Não vou me alegrar jantando fora quando perdi meu amor, perdi minha saúde, perdi meu amigo, perdi meu emprego, perdi minha ilusão… perdi algo que dói, seja o que for. Então, por um momento, uma semana, um mês ou mais, me deixem sofrer. Permitam-me o luto no período sensato. Me ajudem não interferindo demais. O telefonema, a flor, a visita, o abraço, sim, mas por favor, não me peçam alegria sempre e sem trégua. Se não formos demais doentes nem perversos, a dor por fim se consumirá em si mesma. Se soubermos escutar o chamado – que pode ser até mesmo um bilhete amigo.
Alguma coisa positiva vai nos fazer dar o primeiro passo para fora da UTI emocional em que a perda nos colocou. Um dia espiamos para o corredor, passamos da UTI para um quarto, finalmente olhamos a rua e estamos de novo em movimento. Ainda estamos vivos, ainda em processo, até morrer.
A perda do amor pelo fim do amor, por abandono ou traição, supera toda a nossa filosofia de vida, nossos valores, independe de nós. Nada conforta, nada consola. Como o outro está ainda ali, vivo, talvez com outra pessoa, nossa mágoa e sentimento de rejeição se misturam à inconformidade e às tentativas, eventualmente danosas, de recuperarmos quem não nos quer mais. Uma mulher, rejeitada pelo amante, insistia em que ele a consolasse. “Só com você posso falar de nós” dizia. A dor a fazia ferir-se ainda mais. Foi preciso passarem mais tempo e mais mágoas para ela finalmente se desprender de quem a tratava como quem chuta um balde, irritado com o pedido impossível da que sofria. Muitas vezes, mais do que sonhávamos, um novo amor nos aguarda. Quando ele não aparece e se esgota o tempo, embora sempre seja tempo de amar – mesmo com 80 anos – ” aprendemos que há outras formas de amar. Não substituem mas iluminam: amigos, família, alguma novidade, um interesse.
Quem sabe perder nos faça amar melhor isso que só nos será tirado no último instante: a própria vida. Perda de saúde se compensa com lenitivos ou melhoras que a medicina traz. Perda de dinheiro ou emprego podem ser remediados, ainda que exijam novos limites e condições. Perda da juventude tem a ver com o quanto somos vazios ou o quanto são estreitos nossos horizontes. Mas a perda do amor levado pela morte é a perda das perdas. Ela nos obriga a andar por cenários do nosso interior mais desconhecido: o das nossas crenças, nossa espiritualidade, nossa transcendência em suma. Aprender a perder a pessoa amada é afinal aprender a ganhar-se a si mesmo, e ganhar, de outra forma – realmente assumindo -, todo o bem que ela representava (mas no cotidiano a gente nem se dava conta). Uma amiga querida viveu uma experiência semelhante à de tantas mulheres dedicadas: acompanhar a longa doença de quem um dia foi belo e atraente e bom, foi senhor de si. Mas agora se deteriora aos poucos, sente pavor, quer viver, luta entre otimismo impossível ou desalento patético. Podemos chorar com ele ou usar a máscara da serenidade. Falar, calar, contestar – às vezes fugir -, cada caso é absoluta e intimamente especial. O enfrentamento final não é um fato inesperado, muito menos isolado. É apenas o último de uma longa série de fatos concretos e de conquistas interiores: cada um fez o seu caminho – no sentido literal. Passamos pelo suplício da pompa e circunstância de velório e enterro (sobretudo de quem fica exposto ao público), e sobrevém esse estranhíssimo, mais doloroso aspecto da morte: o silêncio do morto. Não há palavra amiga nem gesto que possam ajudar. É preciso esperar a ação do tempo – que não é apenas um devorador de dias e horas, mas um enfermeiro eficiente. “Você escreve obsessivamente sobre a morte, por quê?”, pergunta o jornalista. Não, eu não escrevo obsessivamente sobre a morte, mas sobre a vida. Da qual ela faz parte. Como é inexato que eu seja, na minha literatura, derrotista ou amarga. Para quem souber ler, tudo o que escrevo é repassado de solidariedade pelos meus personagens, que não são pessoas reais mas inventadas; de um intenso amor, e uma indiscutível esperança. Escrevo sobre coisas que existem e são maravilhosas e outras que são tremendas, e algumas que poderiam ser melhores. Escrevo sobre o amor e a vida em todas as formas. Assim também necessariamente falo na morte. Fazendo aqui um pouco de literatura, posso dizer que a morte é que escreve sobre nós – desde que nascemos ela vai elaborando conosco o nosso roteiro. Ela é a grande personagem, o olho que nos contempla sem dormir, a voz que nos convoca e não queremos ouvir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles há de ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos poder dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje… devíamos tentar ser felizes hoje.
A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. O modo como vamos chegar lá é coisa que podemos decidir em todos os anos de nosso tempo. O melhor de tudo é que ela nos lembra da nossa transcendência. Somos mais que corpo e ansiedade: somos mistério, o que nos torna maiores do que pensamos ser – maiores do que os nossos medos. Quando se aproxima dessa zona do inaudito, o amor tem de se curvar: com dor, com terror, submete-se a essa prova maior. Começa a ser ternura; aproxima-se de alguma coisa chamada permanência. Se acreditamos que viver é só comer, trabalhar, transar, comprar e pagar contas, a morte da pessoa amada será desespero sem remissão. Não nos conformamos, não acreditamos em mais nada. Mas se tivermos alguma visão positiva do todo do qual faz parte a indesejada, insondável mas inevitável transformação na morte, depois de algum tempo o amado acomoda-se de outro jeito em nós: continua parte da nossa realidade. Está transfigurado, porém ainda existe. “Com o passar dos anos dói menos”, disse-me um amigo que há trinta anos perdera uma filha ainda criança.
Conheço um pouco a Senhora Morte. Duas vezes a Bela Dona me pegou duro, me cuspiu na cara, me jogou no chão. Foi-se a cada vez um pedaço importante de mim. Mas como em certos animais, as partes perdidas se refizeram, diferentes – não me sinto mutilada, embora a cada dia sinta em mim aqueles espaços vazios que não voltarão a ser ocupados.
Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi é viver como ele gostaria que eu vivesse: bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis.
A maturidade me ensinou coisas boas e belas (nem sempre aprendi bem a lição). Espero que a velhice, quando chegar, me ensine ainda mais, e me encontre mais receptiva. Reaprendi algo da infância que havia esquecido nas correrias com família e profissão. Como todas as crianças – se não as estorvarmos demais -, eu gostava de ficar sozinha, quieta e totalmente feliz olhando figuras de um livro, escutando o vento e a chuva ou as vozes da casa. Passamos a temer a solidão em adultos, talvez porque a sentimos como isolamento, esse que também ocorre numa casa habitada. Vamos perdendo capacidade de sermos integrados com o universo, mesmo o minúsculo universo de um pedaço de jardim ou quarto de criança.
E nos privamos do necessário recolhimento que algumas vezes nos reabasteceria com o combustível da reflexão, do silêncio e do sentimento mais natural das coisas. Nesta casa de agora, afetos essenciais me povoam. Não há isolamento. Amigos de qualquer idade também vêm me ver.
Alguns por assuntos triviais e alegres. Outros por angústias severas com as quais na juventude eu certamente não saberia lidar. Na maior parte das vezes não sei o que lhes dizer: nenhuma sugestão, nenhuma frase brilhante. Mas talvez sintam que a esta altura vi, vivi, ouvi, observei muita coisa. Pouco me espanta. Quase nada me choca. Tudo me toca, me assombra e me comove: o mais cotidiano, e o mais inusitado. Tudo forma o cenário e caminho. Que a maturidade me fez amar com menos aflição e quem sabe menos frivolidade – não menos alegria.
Como não sou incapacitada, quando é preciso também viajo sozinha. Entro em restaurante sozinha, dirijo meu carro sozinha. Ainda há mulheres que, quando combinamos um almoço ou um jantar, me esperam na porta do restaurante porque não conseguiriam entrar sem companhia. E não falo de desamparadas donas-de-casa sem cultura, nem de camponesas que nunca entraram em um restaurante. Não é natural uma mulher madura ter medo de entrar sozinha num restaurante. Não é natural proibir-se de viver por causa da opinião alheia. Não é natural envergonhar-se de amar, desejar, em qualquer idade. É inatural não ter mais projetos aos 70 anos. O essencial é que a que estou vivendo seja a minha vida: não aquela que os outros, a sociedade, a mídia querem impor. Que ela seja desdobramento e abertura. Que neste universo de mil recursos e artifícios, de artefatos e inovações fantásticos, de agitação e efervescência, eu consiga ainda ter o meu lugar, aquele onde me sinto bem, onde estou confortável – não adormecido.
Onde eu possa ainda acreditar: não faz muita diferença em quê, desde que não seja unicamente no mal, na violência, na traição, na corrupção, no negativo. Para que o argumento da nossa história seja o de uma viagem de reis: não um bando de ratos assustados correndo atrás de seus próprios reflexos num labirinto espelhado.

— Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Saiba mais sobre Lya Luft:
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