Lima Barreto (1881-1922). Fonte: EBC.

Quando se aproximam as expressões “cinema brasileiro” e “Lima Barreto” o primeiro nome que surge à mente costuma ser o do cineasta Victor Lima Barreto, célebre pela realização do belíssimo “O cangaceiro” (1953), um dos primeiros sucessos de crítica e público nacionais no exterior. Mas o Lima aqui é outro, também Barreto: trata-se de Afonso Henriques, sim, o escritor carioca, dono de algumas dos mais belas páginas da literatura tupiniquim, de vida atormentada, fustigado pelo racismo e pelo álcool, falecido precoce e homenageado na Feira Literária de Paraty de 2017.

A presença de Lima Barreto no cinema pode ser considerada pequena, restrita a poucos filmes; menor que a de um Machado de Assis e sem uma grande adaptação – Graciliano teve “Vidas secas” dirigido por Nelson Pereira dos Santos, clássico do Cinema Novo, e uma excelente versão de “São Bernardo” rodada por Leon Hirszman. Outros, como Jorge Amado, tem boa parte da obra transposta para a telona. De Lima, há pouco, mas o que há merece atenção mais dedicada que a costumeira.

Já nos anos 50, época em que o nome do escritor, falecido em 1922, começava a ganhar o merecido reconhecimento, há um teledrama dirigido por Geraldo Vietri, adaptado do romance “Clara dos Anjos”. Mas entre telefilmes destaca-se “O homem que sabia javanês” (2003) sob a batuta de Xavier de Oliveira e com Carlos Alberto Ricelli, Sérgio Mamberti e Sérgio Viotti nos papéis principais. Com ótimo humor e assumida malandragem, explora bem a atmosfera do notável conto homônimo de Lima, além de possuir franco diálogo com o Brasil atual (ou o de sempre?): no conto e no filme, o microcosmos é coroado pela mediocridade, pela trapaça, pelo jogo de esconde por detrás de supostos títulos. Deveria ser obrigatório a todos os mestres e doutores que hoje temos – certamente 80% teriam identificação automática com o protagonista.

Cartaz de “Osso, amor e papagaios”. fonte: Cinemateca.

Em 1957 surge o hoje obscuro “Osso, amor e papagaios”. Dirigido por Carlos Alberto de Souza Barros e César Memolo, produção da lendária Vera Cruz, traz nomes notáveis como Ruth de Souza e Wilson Grey, além de Jaime Costa e Modesto de Souza como protagonistas. Adaptação do conto “A nova Califórnia”, acerta no tom de sátira às autoridades e colocar o humor negro do começo ao fim em primeiro plano. A história é conhecida: uma pequena cidade é “sacudida” com a chegada de um suposto químico, na verdade um alquimista, Raimundo Flamel, o homem que transforma ossos em ouro. Daí começa a caça aos cemitérios e a disputa pelos restos mortais de quem quer que seja. “Ossos, amor e papagaios”, com esse canhestro título, acentua a birra de Lima com positivismo e sua fé tola na ciência, e consegue, sem ser uma obra-prima, ressaltar a indignação quanto à ganância e pequenez do homem, tão típicos da obra do literato carioca.

Em 1973 aparece um curioso “Cassy Jones, o magnífico sedutor”, de Luís Sérgio Person, com Paulo José no papel principal. Aparentemente inspirado em personagens de “Clara dos Anjos” – aqui, e Clara é a musa de Cassy –, mas nada além de uma pequena influência. O longa de Person, travesso, amalucado, e brincalhão nada tem do romance de Lima.

Apenas em 1998 surgirá a adaptação da principal obra de Lima, um dos maiores romances brasileiros: Triste fim de Policarpo Quaresma. No cinema, virou “Policarpo Quaresma, herói do Brasil”, com direção de Paulo Thiago e excelente elenco. Para quem se familiarizou com o livro, notará alguns recursos usados na adaptação; por exemplo, de cara surge o escárnio a Policarpo (Paulo José, novamente) por propor o tupi-guarani como língua oficial do Brasil. Mas no todo, parece focado nos itens fundamentais da obra de Lima, publicada em 1915 pela primeira vez.

Giulia Gam e Paulo José em “Policarpo Quaresma”. fonte: Cinemateca.

Há, em livro e no filme, as menções ao violão e às modinhas, tidas como “coisa vulgar” no Brasil da República Velha. E alguns diálogos pontuais ressurgem literais, sempre ácidos: “Só deveria ter livros que tivesse títulos acadêmicos. Evitava-se desgraças”. A história de Policarpo, tido como quixotesco, ultrapatriota, amante de tudo que é brasileiro, a ponto de ir às armas contra a traição a Floriano Peixoto e ser depois ser ele próprio traído, mantém-se viva no filme, com os tradicionais ataques ao positivismo, ao provincianismo da Belle Époque carioca e uma compreensão extremamente atual do modus operandi político do país. Um mérito especial do filme deve ser ressaltado: as opções para a recriação do livro mais dizem respeito aos anos de 1990 do que à época dos acontecimentos da história; e boa parte dessa reprodução ainda se faz bastante presente.

Por exemplo, a caracterização da justiça, seletiva, feita para os poderosos. Ou ainda, e de forma ousada, a inserção de uma procissão de miseráveis, “sem-terra” – coisa do filme e não do romance – que no longa de Paulo Thiago será adotada por Quaresma, que fala abertamente em reforma agrária e crítica o latifúndio, com frases que no livro saem da boca da afilhada Olga (Giulia Gam). Policarpo e Olga conversam sobre feminismo, direito ao divórcio e ao voto das mulheres (estamos em 1893). E quando um picareta tenta aliciar Quaresma para a conspiração contra Floriano, um golpe, diz nosso herói: “Ele está no governo, não se pode derrubá-lo assim. Isso aqui é um país, não uma quitanda”.

Os sem-terra inseridos no longa são atacados; a imagem do Brasil, rural e urbano, que o filme pinta, é essencialmente violenta, brutal, vingativa, nada cordial. Policarpo, ao tentar evitar arbitrariedades aos presos políticos, será condenado à morte. “Policarpo Quaresma, herói do Brasil”, é mais lembrado por estudantes de vestibular, por condensar algumas situações fundamentais – embora seja quase completamente inútil tentar penetrar na escrita de Lima sem perpassar suas páginas. Se é um filme tido como “enfadonho”, ao menos foi corajoso em suas opções narrativas: poucas coisas tão difíceis no cinema quanto a originalidade na adaptação de uma grande obra literária.

Fera Ferida teve Giulia Gam e Edson Celulari nos papéis principais. fonte: Memória Globo.

Novela das oito

No entanto, o maior sucesso envolvendo o nome de Lima Barreto certamente foi na televisão, numa novela global de alta audiência. “Fera Ferida”, exibida em horário nobre e escrita por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, compila diferentes obras do escritor e inúmeros personagens, tendo como protagonista o mesmo Flamel de “A nova Califórnia”, vivido por Edson Celulari. Mas também surgem a Clara dos Anjos, o carteiro Joaquim, Cassy Jones, Salustiana e Margarida Weber, de “Clara dos Anjos”; o Numa Pompílio do conto “Numa e a ninfa”; e até mesmo um alter ego do próprio Lima, Afonso Henriques, vivido por Otávio Augusto, poeta alcoólatra, deprimido e desprezado (há em “Clara dos Anjos” um personagem semelhante). E outros mais, inspirados em “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” e em noutros contos e crônicas do autor. Difícil será afirmar que trata-se de uma novela “barreteana”; porém, foi provavelmente o produto mais contribuiu para popularizar os personagens criados pelo literato.

Lima Barreto, morto em 1922, acompanhou todas as modas e novidades da Capital Federal no começo do século – por exemplo, em diversos momentos amaldiçoa o futebol. E cita o cinematógrafo nesta ou naquela ocasião, ao que parece, sem se aprofundar muito na matéria. O que terá Lima Barreto pensado sobre o cinema? Ou ainda, como veria sua própria obra transposta para a telona ou numa novela das oito?

André de Paula Eduardo é jornalista, formado na Unesp, onde fez mestrado em Comunicação. Pesquisa cinema brasileiro, torce pro Santos e é apaixonado por Brahms e Pink Floyd. Colunista e colaborador da Revista Prosa Verso e Arte.

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