Leocádia Regalo - foto: Bagos d'Uva

AMPLEXO
Nunca o sol poente
me deixou marcas melancólicas
ou impressões de perda e de vazio.
Por isso me extasio
perante as paisagens do sul
possuídas pelo astro incendiado
que paulatinamente sobre elas desce
tocando-as com a força
desse amplexo
manso e envolvente
inundando-as do fulgor ignescente
com que as cobre subitamente desmaiado.

Depois cai a sombra
apaziguando o dia
e esbatem-se os contornos indistintos
do horizonte sossegado.

Se eu pudesse estar na vida
como as paisagens possuídas
pelo astro incendiado…
– Leocádia Regalo, no livro “Passados os Rigores da Invernia”. Coimbra: Caminho, 2003.

§

FRENTE AO MAR
O teu rumor por vezes adormece
a minha inquietação latente e vaga.
Ouço-te ao longe e mesmo assim parece
que a tua voz a minha alma afaga.

Imenso pélago a banhar a praia
de barcos emborcados no areal,
não há onda tua que não me atraia
para uma imersão profunda, vertical.

Que me faça descer às profundezas
do âmago transparente do meio aquoso,
onde tudo é líquido e silencioso.

E então voltar à tona das tristezas
como alga a flutuar em mar ventoso
arrastada por desígnios que não ouso
ADIVINHAR
FRENTE AO MAR
– Leocádia Regalo, no livro “Pela Voz de Calipso”. Viseu: Palimage Editores, 1998.

§

COMPONDO FÚRIAS
Na silhueta do teu corpo vítreo
escrevo ancoradoiro.
Diáfanas surgem
as fúrias
que irrompem no ar
apaziguadas.

Aprisiono-as no nome
que lhes dou
(compraz-me nomeá-las).

Pronuncio
relâmpago
meteoro
avalanche
degelo

Penso no contorno difuso
onde as faço fundear
e escrevo

fria madrugada
rubro esparso
pele molhada
espelho baço.
– Leocádia Regalo, no livro “Sob a Égide da Lua”. Viseu: Palimage Editores, 1999.

§

MEU OÁSIS
Escrevo-me agora noutra dimensão.
Cansada de atravessar a imensidão
de repente os olhos na miragem.
O mar de areia enrola-se a meus pés.
Surpreendidos, alados, encaminham-se
para o recorte do palmeiral na paisagem.

Alcanço-te, meu oásis, e enveredo
pelos veios do teu corpo vegetal.
Demoro-me sossegada à beira dos regatos,
onde sacio de ternura a sede das esperas.
Começo a apaziguar-me da longa caminhada
penetrando nos sibilinos desígnios
das sombras protectoras amenas
que abraçam de mistério a minha lassidão.

Em ti encontro o refrigério
das palavras pronunciadas em uníssono
fonte de afinidades donde mana
o teu verbo claro e líquido
diluído na linfa latejante
dos nomes que me revelam de surpresa.

Escrevo-me agora noutra dimensão
mais vasta na distância de encontrar-te
meu oásis de descanso e de paragem
onde abasteço o coração para a viagem
neste deserto ao sul da minha arte.
– Leocádia Regalo, no livro “Passados os Rigores da Invernia”. Lisboa: Caminho, 2003

§

ENTENDIMENTO
Quando me entregaste
a paleta das cores e disseste
pinta agora a alegria do abraço
o sabor do encontro
o colapso da entrega
eu colori a fogo as curvas da paisagem
arranquei do sol o brilho adamantino
com que pincelei teu corpo nacarado.

Quando me ofereceste o alaúde
timbrado e sugeriste
entoa agora a canção do vento
a toada leve que adormeça a fonte
e leve a tua voz lá longe
onde a bonança te espera para pernoitares
eu compus fugas na clave certa
percorrendo os tons da exótica harmonia
com que se exaltam divindades pagãs.

Quando me deste a beber
o néctar das estrelas e pediste
prova agora a frescura doce das manhãs
em que o cheiro da terra se evola
das montanhas paradas
como budas dormentes
eu finalmente ébria de entendimento
adormeci sobre o teu flanco nu
sem duvidar da quietação das nuvens.
– Leocádia Regalo, no livro “Tons do Sul”. Coimbra: Terra Ocre, 2011.

§

DE REPENTE O ARTISTA
Tinhas nome de evangelista
parecias-te com Caravaggio
não conhecias Monet nem Gauguin
nem Frida Kahlo
nunca tinhas entrado em Orsay
no Prado nem mesmo na Pinacoteca Nacional.

Na praça de Caraguá
abrias uma caixa escura
donde explodia o óleo tropical
improvisavas os instrumentos
o cartão telefónico alastrava
a tinta sobre o oceano
esvoaçava o manto sideral
a ponta dos dedos contornava
algas medusas corais
habitavas os poentes de respiração
o branco transparecia virgem
na orgia das cachoeiras.

Quando convidavas a noite
eram incolores os teus sonhos
por vezes pintavas sombras roxas
e a púrpura os olhos do anjo
caído no atelier da vida.

Depois assinavas
marcos
como se fosse marca-de-água.
– Leocádia Regalo, no livro “Tons do Sul”. Coimbra: Terra Ocre, 2011.

§

SEMPRE A VIVER
Lia
porque não me lês
poesia?

Porque hoje
estou cansada.
Viver sempre também cansa.

Mas, olha
também a lua
fica suspensa no céu
com aquela cara redonda
lá no alto a vigiar
o barco que apareceu
o peixe que está no mar.

E não se cansa de ser
a namorada do sol
escondida todo o dia
debaixo do seu lençol.
– Leocádia Regalo, no livro “Lia no país da poesia”. Coimbra: Terra Ocre, 2015.

§

BREVE BIOGRAFIA
Leocádia Regalo nasceu nos Açores, na ilha de São Jorge, e vive desde os dezanove anos em Coimbra. É licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tem desenvolvido a sua atividade cultural como professora, formadora, crítica literária e tradutora. Publicou estudos e obras de carácter didático-pedagógico, em edição e em revistas da especialidade. Tem colaboração na imprensa escrita.

É na poesia que se afirma na criação literária, tendo publicado, na Palimage Editores, Pela Voz de Calipso (1998), Sob a Égide da Lua (1999), Tons do Sul (2011) e, na Editorial Caminho, Passados os Rigores da Invernia (2003).

Lia no País da Poesia é o seu primeiro livro de literatura para a infância, ilustrado com pintura de Maria Guia Pimpão, publicado na Palimage/Terra Ocre Edições, em 2014 (1.ª edição) e 2015 (2.ª edição), tendo sido integrado no Plano Nacional de Leitura.
Está representada em antologias, revistas, jornais e blogues.

Vive em Coimbra, Portugal.

COMPARTILHAR
Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar



COMENTÁRIOS