Lêdo Ivo - foto: Jairo Máximo

A clandestina
— Quem é esta clandestina
que dentro de mim viaja

e de mim não se separa
mesmo quando estou dormindo

e aparece nos meus sonhos
breve e leve como a neve?

Quem é esta clandestina
doce e branca e feminina

que me segue quando saio
sombra em mim dissimulada

e torna a voltar comigo
colada ao cair da tarde?

Quem é esta clandestina
que de mim não desembarca?

Sou seu trem ou seu navio?
Seu barco ou seu avião?

E sua voz me responde:
— És meu berço e meu jazigo.

Antes mesmo de nasceres
eu já estava contigo.

E sempre estarei em ti
até o fim da viagem.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

A escavadeira
Todo silêncio me incomoda.
Ele sempre omite alguma coisa:
uma traição tramada entre as glicínias
a explicação final sobre a existência ou a inexistência de Deus
o rumor dos ratos no entulho
o choque entre a hélice e o vento no aeroporto desativado.
Mas a manhã irrompe no canteiro de obras e ouço o barulho da escavadeira.
Os homens já acordaram e voltaram a construer e a destruir.
Vão fazer novas casas e novov túmulos.

Na manhã de sol o fusca pára no oitão do motel.
Mais uma vez pênis e vagina vão tenar entender-se
neste mundo de tantos descencontros.
A escavadeira escava e as esteiras avançam na cratera aberta como uma corola.
Visto pelo olhos sonolentos do trocador de ônibus que passa pela
avenida o mundo é uma representação.
– Lêdo Ivo, do livro “O rumor da noite”, 2000.

§

A eternidade premeditada
Isto será a eternidade:
um incessante subir de escadas.

E sempre estarás no começo da escadaria
muito embora todos os dias sejam degraus.

Deus, porque fizeste a eternidade?
Porque nos obrigas a subir tantas escadas?
– Lêdo Ivo, do livro “O sinal semafórico”, 1974.

§

A infância redimida
A alegria, crio-a agora neste poema.

Embora seja trágica e íntima da morte
a vida é um reino – a vida é o nosso reino
não obstante o terror, o extase e o milagre.

Como te sonhei, Poesia! não como te sonharam…

Escondo-me no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos.

Estou sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho
porque o Anjo me segue a qualquer parte.

Tenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia.
Maior, porém, era a beira da praia de minha cidade
onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto.

Maior ainda era o mar
diante do qual todas as tardes eu recitava poemas,
festejando-o com os olhos rasos d′água e às vezes sorrindo de [paixão,
porque grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo.
Ó mar de minha infância, maior que o mar de Homero.

Brinco de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas
e com este ar de jogral mantenho querelas com a morte.
Depois do outro lado, há sempre um novo outro lado a conquistar-se…
Por isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para as califórnias da vida.
Não és senão um sonho de infância, um mar visto em palavras.
– Lêdo Ivo, do livro “O sinal semafórico”, 1974.

§

A moradia
Se a chuva mora no céu
e o arrependimento na alma
terás que habitar em mim
como a chama na fogueira.

Mora o orvalho no capim
e o sangue mora nas veias.
Terás que habitar em mim
como o dia na paisagem.

Se a valsa mora na música
e o amor em toda parte
se os galos moram na aurora
terás que habitar em mim.

Mora a viagem nos navios
que vão por águas sem fim.
Reside o tempo nas horas
e as ilhas moram nos mapas.

Tu que passas como os autos
pelos asfaltos molhados
e deslizas como as folhas
fulminadas pelo outono

e atravessa o meu peito
como o punhal da Beleza
e te hospedas no vazio
como os anestesiados

terás que habitar em mim
na moradia sem portas
onde eu me consumo e gasto
dando calor, vida e forma

a estas palavras mortas
que são as telhas e os caibros
— terás que habitar em mim —
de tua casa, Poesia!
– Lêdo Ivo, do livro “O sinal semafórico”, 1974.

§

A necessidade
Uma porta fechada não é suficiente para que o homem
esconda o seu amor. Ele também necessita de uma porta aberta
para poder partir e se perder na multidão quando esse amor explodir
como o barril de pólvora no arsenal alcançado pelo raio.
Um telhado não basta para que o homem se proteja
do calor e da tempestade. Para fugir ao relâmpago
ele precisa de um corpo estendido na cama
e ao alcance de sua mão ainda temerosa
de avançar no excuro quando a chuva cai no silêncio do mundo aberto como uma fruta
entre dios estrondos.
Na noite que declina, no dia que nasce,
o homem precisa de tudo: do amor e do raio.
– Lêdo Ivo, do livro “Curral de peixe”, 1995.

§

A partícula
Nada sei sobre mim,
quem sou ou de onde vim.
Não sei para onde vou
quando me for para onde.
Não sei se esse ir me expõe
ou se esse ir me esconde.
Sei apenas que o sol
clareia meu jardim
onde uma lagartixa
me separa de mim.
Ignoro quem é este
que diz ou é ser eu.
E já que nada sou,
nada tenho de meu,
e nem mesmo de mim,
como ser um pronome,
essa ínfima partícula
que de si e dos outros
tem tanta sede e fome
e em lenta combustão
se queima e se consome?
Nem mesmo a vida resta
quando a gente regressa
do passeio à floresta.
Tudo na vida some.
E o vento sopra e leva
as letras do meu nome.
– Lêdo Ivo, do livro “O rumor da noite”, 2000.

A vã feitiçaria
Invento a flor e, mais que a flor, o orvalho
que a torna testemunha desta aurora.
Invento o espelho e, mais que o espelho, o amor
onde eu me vejo, vivo, num sarcófago.
E a vida, este galpão de sortilégios,
deixa que eu a invente com palavras
que são dragões vencidos pela mágica.
E não me espanta que eu, sendo mortal,
sujeito à injúria de tornar-me em pó,
crie uma rosa eterna como as rosas
inexistentes nesta flora efêmera.
Sonho de um sonho, a vida, ao vento, escoa-se
em vãs lembranças. Minha rosa morre
por ser eterna, sendo o mundo vão.
– Lêdo Ivo, do livro “Linguagem”, 1951.

§

Canto
A beleza não aprende a ser bela
e vive de ignorar
que o tempo a espreita sem a ver.

Antigamente nossos pais nos levavam para ver no campo
a madureza da fruta.
E no seixo que jogávamos no meio do rio,
cristal de impiedade, se espelhava a vida.

A beleza nada aprende
e ser é o seu segredo
— se você acender a lâmpada da sala,
até a varanda ficará clareada.

A beleza não aprende a morrer.

Não nos comunicamos com os corpos,
nossa parada é jogada com as almas.

As cortinas esvoaçam, nutrindo-se de noroeste
e as formigas preferem jantar os mortos.

A beleza quer sempre ficar acordada.

Sempre evitamos o conforto dos abismos.
Por isso são brancas as mortalhas
com que nos cobrimos na hora de dormir.

A beleza não concorda em morrer
e morre
como os antigos deuses, Ágata, que exaltaram a vida,
como os modernos deuses que inistem em apregoar a conveniência da morte.
– Lêdo Ivo, do livro “Poesia completa – Lêdo Ivo”. 2004.

§

Claridade
A minha claridade é noite escura,
sol negro desviado por um muro
branco de cal, clarão que apaga o sol,
luz que me ofusca, sendo treva e luz.

Às estrelas reclamo que iluminem
o papel branco do meu longo dia,
o grafito que suja o alvo muro
do sol que, sendo noite, me alumia.

Quanto mais luz procuro, mais obscuro
me torno em pleno dia, e mais me assombram
as sombras que se juntam no arrebol.

Recorro à noite se quero mostrar
as frutas expostas do meu ser.
E se quero esconder-me, busco o sol.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Compasso da calmaria
Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.

O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.

Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.

Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.

Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.

Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.

Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.

Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
– Lêdo Ivo, do livro “O sinal semafórico”, 1974.

§

Conselho
Esconde a tua vida.
Guarda o teu segredo.
Tudo, neste mundo,
é engano cego e ledo.

De manhã é noite.
Mesmo à tarde é cedo.
A vida é meandro
sem qualquer enredo.

A ninguém confesses
teu amor ou medo,
teu sonho acordado.

Sê um caracol
fechado em si mesmo
na manhã de sol.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Descoberta do inefável
      À Leda

Sem o sublime, que é o poeta? Sem o inefável,
como pode louvar, não traindo a si mesmo,
a plena e estranha juventude da moça a quem ama?
Que é o poeta, que imita as marés,
sem adquirir com o tempo uma serenidade de coisa sempre nua
como se as estrelas estivessem caminhando governadas
pelo seu riso
e seus braços agitassem as árvores feridas pelo clarão da lua?

Sem que seu canto suba até os céus, sufocante música da terra,
que é o poeta?
Libertado estou quando canto. E quero
que minha respiração oriente a vontade das nuvens
e meu pensamento de amor se misture ao horizonte.
Cantando, quero outubro, gosto de lágrima, salsugem,
no instante anterior ao despertar, folha voando.

Sem o inefável, que dura sempre, sem permanecer,
como conseguirei louvar essa moça a quem amo
e que nasce em minha lembrança plena como a noite
e triunfante como uma rosa que durasse eternamente
e não se limitasse à glória de um dia?
Sem o inefável, que valoriza as mãos e faz o Amor voar,
não poderei descer de repente
ao inferno de seu corpo nu.

O sobrenatural ainda existe. E não seremos nós
que alteraremos a indizível ordem das coisas
com as nossas mãos que poderão ficar imóveis
em pleno amor, diante do corpo amado.

É inútil pensar que os anjos morreram
ou se despaisaram, buscando outros lugares.
Eles ainda estão, unidade admirável do Dia e da Noite,
entre as nuvens e as casas em que moramos.

Repentinamente, as vozes da infância nos chamam para a feérica viagem
e lembram que podemos fugir para o longe guardado ainda
no sempre.
Então, nossas necessidades não se reduzem apenas a comer,
dormir e amar.
Temos necessidade de anjos, para ser homens.
Temos necessidade de anjos, para ser poetas.

Vem, incontável música, e anuncia
(ao poeta e ao homem, humilde unidade)
a ressurreição diária dos anjos.
Restaura em mim a certeza de que a folha voando é seu indomável divertimento
pois às vezes sinto que meu primeiro verso foi murmurado talvez
sem que eu soubesse, por um anjo
perturbado com o meu ar desesperado de papel em branco.

Não é a manhã, depositando a semente de alegria no coração
dos homens.
Não é a vida, cântico triunfal descendo sobre as almas.
Não é o poeta, subindo pelos andaimes de carne da lembrança
de uma mulher.

São os anjos, que vieram ligar-nos mais uma vez
à ordem eterna e, à anunciação.
Não nos libertaremos jamais desses anjos
feitos de terra e mar, celestes criaturas
que deixam cair em nós o sol da harmonia.

É inútil matar os anjos.
Eles são invisíveis e traiçoeiros.
De repente, quando nos sentimos seguros, já não somos
os consumidores de instantes, e estamos
entre o Dia e a Noite, no umbral
de uma eternidade vigiada pelos anjos.
– Lêdo Ivo, do livro “Poesia completa – Lêdo Ivo”. 2004.

§

Firmamento
No dia cheio de estrelas
como a noite aguardo o vinto
que vai espalhar a minha alma
no firmamento.

Na noite da ventania
a morte será um frêmito,
o luzir de uma luz negra
no firmamento.

E tudo será silêncio
e será esquecimento
na eternidade da noite
e do vento.
– Lêdo Ivo, do livro “Calima”, 2011.

§

Minha pátria
Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.
– Lêdo Ivo, do livro “Poesia completa – Lêdo Ivo”. 2004.

§

O futuro dos corpos
Quando não tivermos
mais nenhum desejo
ficaremos juntos
onde estiver Deus

no desfiladeiro
que saqueia as almas
e devolve aos corpos
a nudez final.

Quando apenas formos
o sopro do vento
e a pureza da água

a nossa união
resplandecerá
no céu libertado.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

O jogo
No dia perdido, no dia estilhaçado,
tudo é dividido ou multiplicado.

O eu e eu duplo atravessam a praça
colados numa efígie de moeda ou selo.

O uno vira triplo no alto da escada
e se derrete ao sol como uma pedra de gelo.

O singular é plural. O vento varre
o tombadilho do navio ancorado

e um fanal de espuma aponta o momento
da última pá de cal. Então o todo e a parte

se fundem afinal em ninguém e em nada.
– Lêdo Ivo (Vaso Roto, Barcelona), do livro “Rumor noturno”, 2009.

§

O portão
O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.
Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.
– Lêdo Ivo, do livro “A noite misteriosa”, 1982.

Oceano secreto
Quando te amo
obedeço às estrelas.
Um número preside
nosso encontro na treva.

Vamos e voltamos
como os dias e as noites
as estações e as marés
a água e a terra.

Amor, respiração
do nosso oceano secreto.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Os confins
Mais que ser. Não esquecer
que a vida flui, descoberta,
ora burleta na praia,
ora uma rosa entreaberta.
Que o vento levante a saia
da mulher que vai passar!
Natural permancer
e querer sempre durar.

Mais que ser. Não esconder
que há lágrimas, no entanto…
— as construtoras do pranto
na indelével fonte pura.
Não aceitar de joelhos
a humilhação do nada.
Os rostos ficam no espelho,
haja sol ou noite escura.
– Lêdo Ivo, do livro “O sinal semafórico”, 1974.

§

Passeio no jardim
Quem aspira o perfume
deste longo jardim
de palavras cortadas
como se fossem caules
vê no chão espalhadas
as pétalas da rosa:
estilhaços de mim.

Nunca me completei
e sonho o que seria
se a mim me reunisse
a mim mesmo somado
como um ramo de flores
ou a gota de orvalho
na manhã condenada.

Sempre me procurei
dentro de mim perdido
em meus próprios domínios.
E no nunca me achar
é que me encontro e sou.
Só parto ao regressar.
Só venho quando vou.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Promontório
Sempre busquei a profusão das chuvas
e celebrei o excesso.

A porta que se abre à claridade do relâmpago
divide o dia em partes desiguais.
Mas entre a luz e a sombra há um espacço
onde o sonho e a vida acordada se juntam como dois corpos
separados das almas desunidas.
É a este lugar que retorno
quando a chuva cai em Maceió e derruba as folhas
dos cajueiros floridos.
Os goiamuns inquietos percebem nas locas a alteração do mundo
que oscila entre a lama e as raízes dos mangues
como duas cores do arco-íris.

Berço de tanajuras, patria ameaçada pelo trovão,
dunas sonâmbulas que só caminham à noite,
mar que umedece os lábios rachados da areia,
vento que dilacera o promontório,
longe de vós serei um exilado.
– Lêdo Ivo, do livro “Curral de peixe”. 1995.

§

Respiração
Não minto nem digo a verdade
Sou como o vento que sopra
e a chuva que cai.
Sou a luz que ao anoitecer
devolve claridade.

Sou como as escadarias
que aparecem nos sonhos:
um clarão entre degraus,
uma sombra entre dois passos,
uma nuvem esbraseada.

Sou como a erva que cresce
e o frio que une os corpos.
Não falo nem silencio.
Desperto para sonhar.
Não respondo nem interrogo.

Apenas respiro
junto ao dia que nasce.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Sinal vermelho
Todos querem a imortalidade:
o deus, o vampiro e o ladrão.
E o preá acossado no mato
pelo crepitante fogo de verão.

Ninguém aceita ficar sob a terra
como jóia guardada num cofre.
Todos querem alcançar o outro lado
mesmo quando o campo é minado.

Idiota ambição dos passantes
quando a tarde baixa e anuncia
a extinção do dia e dos homens.

A luz vermelha, a porta fechada!
Todos atravessam o sinal
ou procuram no bolso a chave.
– Lêdo Ivo, do livro “Curral de peixe”. 1995.

§

Soneto ao tempo
Por ser tempo, é que o tempo não me basta
e se escoa, cantante, pelas margens
da vida feita de água que o arrasta
para o mal-entendido das viagens.

E leva tudo em seu roldão, deixando
perdido o tempo achado, como a fonte
se perde no existir, e vai cantando
entre as pedras e os bosques do horizonte.

Quadrante do real, ó velho espelho
dos dias, debruçado em ti, me vejo
igual e diferente, moço e velho,

sonho a que me assemelho no desejo.
E o tempo, eternidade decaída,
é meu contemporâneo, sendo a vida.
– Lêdo Ivo, do livro “Poesia completa – Lêdo Ivo”. 2004.

§

Soneto da conciliação
Que o amor não me iluda, como a bruma
que esconde uma imprevista segurança.
Antes, sustente o chão em que descansa
o que se irá, perdido como a espuma.

Veja que eu me elegi, mas sem nenhuma
razão de assim fazer, e sem lembrança
de aproveitar apenas a esquivança
de que o amor não prescinde em parte alguma.

Que também não se alheie ao que esclarece
o motivo real, de uma oferta,
reunir o acessório e o imprescindível.

Antes, atente a tudo o que se tece
distante do seu dia inconsumível
que dá certeza à noite mais incerta.
– Lêdo Ivo, do livro “Acontecimento do Soneto”, 1948.

§

Soneto das alturas
As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh′alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.
– Lêdo Ivo, do livro “‘Acontecimento do soneto’. ‘Ode à Noite'”, 1951.

§

Soneto de amor
Doce fogo do amor, como me queimas
e me fazes arder por entre neves
como se eu fora a pálida fogueira
acesa pelo sol na noite breve.

Doce rival do fogo verdadeiro,
quanto mais rompo contra as tuas chamas,
elas se alastram mais na minha cama
e, guerreiro, por ti sou guerreado.

Mais me queima teu frio, mais intacto
respiro e te combato; e fatigado
da luta em que me abrasas, mais descanso.

Oculto nos lençóis, fogo de estio,
escorres, ledo e manso como as águas
— a água serena do amoroso rio.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Soneto de ninar
Dorme, oceano.
Minha canção te embala
na treva lacerada
pelas constelações.

Dorme, doce terra impura.
Minha canção te cinge,
leve gesto de amor
na escuridão.

Dorme, vento
que surprende as árvores
no ar.

Durmam até as pedras
repousadas e felizes
em seu sono de pedra.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Soneto de outono
Se mais que a forma e mais que o pensamento
guardado na vigília, sem temor.
Fica no meu olhar, como no amor
verteria teu nome em verso atento.

Sê mais que a forma sempre em movimento
tornada mais humana pela dor.
Fica dormindo em mim, quando eu me for
e te deixar entregue ao desalento.

Sê minha mesmo que eu não te conheça
e te ame sem te ver, sempre te vendo
na forma que jamais fuja ou pereça.

Para tocar-te, eu sempre as mãos estendo
mas não te alcanço, e em minhas mãos transformas
teu corpo imaginário em puras formas.
– Lêdo Ivo, do livro “Poesia completa – Lêdo Ivo”. 2004.

§

Soneto puro
Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.

Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.
– Lêdo Ivo, do livro “Crepúsculo civil”, 1990.

§

Saiba mais sobre o poeta Lêdo Ivo
:: Lêdo Ivo – uma aventura poética

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