Judith Rosenzweig 'Não se deve matar ninguém por causa de uma religião' - foto: T. Kramer/DW

Ela guardou silêncio por 40 anos. Mas desde que sabe que o Holocausto é negado cada vez mais abertamente, Judith Rosentzweig fala do gueto, das marchas da morte e dos campos de concentração que sobreviveu.

“O passado vive em mim, não se pode escondê-lo”, diz Judith Rosenzweig. Justamente agora, em idade avançada, as lembranças de infância retornam. Ela nasceu em 1930 na então Tchecoslováquia. Em 1942, foi deportada com a família para o campo de concentração de Theresienstadt e, de lá, para Auschwitz em 1944.

Rosenzweig, sua mãe e irmã conseguiram sobreviver. Depois de estações de trabalhos forçados, elas foram para o campo de concentração de Bergen-Belsen. Sua mãe morreu apenas uma semana após a libertação, do pai não se teve mais notícias. Em 1948, aos 18 anos, ela foi para Israel, onde formou uma família e trabalhou como enfermeira.
“Nem sempre houve compreensão para o que passamos”, afirmou Rosenzweig em entrevista à DW. “Passei 40 anos sem falar sobre a minha história. Apenas quando soube que estava se espalhando pelo mundo que o Holocausto não havia acontecido, comecei a falar”, explica a senhora de 87 anos, que hoje vive num asilo para sobreviventes do Holocausto em Haifa.

A instituição foi fundada pela iniciativa Yad Ezer L’Haver (Uma mão amiga a um amigo, em hebraico), que ajuda sobreviventes do Holocausto necessitados, sendo financiada, entre outros, por doações da Embaixada Cristã Internacional de Jerusalém (ICEJ), uma organização cristã-sionista.

A senhora ainda era uma criança quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Qual é sua lembrança dessa época?
Em minhas memórias, escrevi: nasci no paraíso, e de lá fui expulsa, assim como Adão e Eva. Eu nasci em 1930 e tinha somente nove anos quando os alemães vieram para a República Tcheca. Naquela época, tudo começou com uma série de portarias: não se podia ir para o parque, não se podia ir ao cinema. Em seguida, crianças judias foram proibidas de ir à escola, ou seja, não se podia mais aprender, e acabei só concluindo quatro anos escolares. No fim de 1941 as famílias judias começaram a ser enviadas para guetos. Em março de 1942 minha família foi para Theresienstadt.

Rosenzweig mostra desenhos que fez em Theresienstadt aos 12 anos – foto: T. Kramer/DW

Essa época em Theresienstadt foi relatada em suas memórias no livro A garota do quarto 28.
Na época, fiquei num quarto junto a outras 29 meninas. Permanecíamos ali o dia todo. Havia treliches, um sobre outro, quase não dava para sentar neles. Atrás da cama havia uma prateleira para colocar os objetos pessoais: escova de dente, pente ou uma tigela para a sopa. E esse era todo o espaço que tínhamos para viver. Nossa supervisora fazia todo o possível para nos ocupar, e tínhamos aulas, apesar de ser proibido.
Depois de Theresienstadt, sua família foi deportada para Auschwitz em 1944.

Trens passavam constantemente. Não sabíamos o que acontecia com as pessoas. Em outubro de 1944 fomos todos removidos, minha mãe, meu pai, minha irmã. Na ocasião meu irmão já havia partido. Ao chegarmos a Auschwitz, as mulheres foram postas numa fila, os homens em outra. E foi a última vez que vi meu pai, entre aqueles homens.
Quando se chegava a Auschwitz, Mengele [médico do campo de concentração que fazia experimentos desumanos em prisioneiros] decidia quem estava apto para o trabalho ou não, ou seja, quem era mandado imediatamente para a morte. Minha mãe, minha irmã e eu fomos enviadas para trabalhar. Fomos colocadas num pavilhão, onde tivemos que tirar a roupa, entregar tudo o que possuíamos e tomar banho. Então recebemos uma roupa fina. No dia seguinte, Mengele veio novamente e decidiu quem ia trabalhar ou não.

Algumas semanas antes da libertação de Auschwitz em janeiro de 1945, a senhora foi deportada para trabalhos forçados no campo de concentração de Bergen-Belsen.
Estávamos a pouco tempo em Auschwitz quando fomos enviadas para trabalhar em outro lugar, em pleno inverno, a pé. Em fevereiro, a viagem continuou em vagões abertos até Bergen-Belsen. Um lugar horrível, todo o mundo morria de fome e doenças. Passávamos horas do lado de fora, pois nos diziam que tínhamos de ser contadas. Até abril de 1945 – até a libertação. Muitas vezes eu perdia os sentidos, minha irmã me sustentavam por trás. Quando os soldados ingleses chegaram, eles tiveram certamente um grande choque ao nos ver. Então nos deram sopa, em seguida logo me senti melhor. Minha irmã adoeceu, e minha mãe morreu uma semana após a libertação.

Depois da guerra, a senhora voltou para a República Tcheca.
Quando minha irmã e eu voltamos para casa, meu irmão já estava lá. Mas haviam levado tudo da residência. Na ocasião, falei para a minha irmã e meu irmão: vou para Israel, não vou ficar aqui onde não me querem. Mas ainda se passaram dois anos até eu poder me mudar para Israel. O navio para Jaffa partiu de Marselha em 15 de maio de 1948, o primeiro dia de Israel [o Estado israelense foi proclamado em 14 de maio de 1948].

Quando chegou a Israel em 1948, a senhora tinha apenas 18 anos. Como foi recebida?
Fomos colocados em hotéis. No dia seguinte, nos perguntaram para onde gostaríamos de ir, e recebemos um bilhete de ônibus. Eu queria ir para perto de Haifa, para a casa da minha tia. Na época, eu queria voltar para a escola, mas com quase 18 anos eu já era velha demais.

Nem sempre houve muita compreensão com o que nós passamos. Minha tia me perguntou o que havia acontecido conosco na Europa. Eu comecei a contar e ela me disse: “Você está exagerando”. Então passei 40 anos sem tocar no assunto. Só quando soube que estava se espalhando pelo mundo que o Holocausto não havia acontecido, comecei a falar.

O MEMORIAL DO HOLOCAUSTO
Monumento incomum
Normalmente, monumentos celebram heróis de uma nação. O Memorial do Holocausto de Berlim é exatamente o oposto. Ele é, como afirmou o famoso escritor Martin Walser, em 2011, “o primeiro monumento construído por um povo em memória de seus crimes”. A construção recebe diariamente milhares de pessoas e fica 24 por dia aberto ao público.

Hoje, aos 87 anos, a senhora ainda continua viajando para contar sua história. Qual é a importância de preservar a lembrança daquela época?
Para mim é importante, porque há sempre gente dizendo que inventamos tudo. Já estive algumas vezes na Alemanha para falar em escolas. É muito importante preservar as nossas lembranças. Minha geração, nós somos os últimos sobreviventes que passaram por Auschwitz. É realmente muito difícil compreender o que fizeram com os judeus e por quê. Isso não deve acontecer novamente e é preciso divulgá-lo pelo mundo inteiro. Não se deve matar ninguém por causa de uma religião.

Fonte: publicado originalmente DW Brasil.

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