Negra tatuada vendendo caju, de Jean-Babtiste Debret, 1827

O estudo da indumentária não diz respeito apenas à moda. A fusão de indumentária e história não pode ser compreendida como uma novidade. A vestimenta, os símbolos e os objetos estão, há muito tempo, delimitando fronteiras geográficas, classificando castas, caracterizando tribos e ajudando a localizar as sociedades no tempo. A construção da imagem de uma civilização só pode ser feita através da pesquisa de sua origem e do conhecimento de suas peculiaridades.

A indumentária é uma linguagem social que nos fala sobre fenômenos humanos. Ela pode resultar de fatores naturais, como clima e região, ou pode carregar as marcas de valores religiosos e rituais. A resistência em compreendê-la como uma tecnologia possível e eminente, não a apaga dos registros historiográficos e etnográficos.

Aqui, tomamos como exemplo a análise da indumentária da população de origem africana que habitava o Rio de Janeiro do século XIX, pelos registros visuais feitos pelo pintor Jean-Baptiste Debret, e a contribuição da leitura de sua obra para decifrar os códigos da vestimenta desta camada da sociedade.

Faz-se necessário o conhecimento do status da moda naquele contexto, de maneira mais ampla, passando pelas classes altas compostas por pessoas brancas, que eram as recebedoras e disseminadoras de tendências européias no Brasil.

Estabelecidas as diferenças entre os conceitos da importância do vestir-se para as duas camadas social e economicamente opostas (uma, negra e predominantemente escrava, trazendo consigo traços especificamente originários dos inúmeros grupos étnicos que compõem a cultura africana; a outra, branca, com acesso às informações vindas de países como França e Inglaterra, para a qual a roupa era um meio de ostentação de riqueza e poder, e sinal de civilização, uma vez que se tentava seguir os padrões europeus, mesmo isto consistindo em sacrifício físico devido às diferenças climáticas extremas), é preciso compreender de que maneira se dá o trânsito de influências entre elas. Como descreve Eduardo França Paiva, a respeito da mistura cultural instalada nos centros urbanos, tanto os do Rio de Janeiro, como os de Minas Gerais e da Bahia, após o que ele chama de “boom da mineração” ocorrida em fins do século XVII, resultando no grande desenvolvimento experimentado por estas regiões à época:

A população da América portuguesa aumentou rapidamente a partir da imigração de muitos portugueses, mas, principalmente, por conta da entrada de muitas dezenas de milhares de escravos africanos no Brasil. O universo cultural da colônia é naturalmente incrementado e se torna muito complexo, instigando trocas de experiências, de conhecimentos e de tradições, acentuando conflitos e distinções e possibilitando a formação de uma sociedade biológica e culturalmente mestiça (PAIVA, 2006, p. 54).

A partir destas janelas no tempo abertas por Debret, se pode alcançar os significados por trás das cenas retratadas por ele, cristalizando nestas imagens sua versão da história, entre desenhos e aquarelas das cenas urbanas do Rio de Janeiro que compõem seu Caderno de Viagem e o Catálogo Raisonné do artista, fornecendo um material valioso para a iconografia brasileira, sem utilizar eufemismos. “Neste sentido, a publicação do caderno é inestimável como mais uma fonte para um assombroso quotidiano, que era, ao mesmo tempo, pitoresco e cruel” (BANDEIRA, 2006, p.6).

Jean Baptiste Debret – Vendedoras de pão-de-ló- (1826)

É importante teorizar a função da indumentária como elemento cultural, e sua pertinência enquanto objeto de estudo na história, para isso, buscando embasamento onde a moda é tratada não como marginal, mas como peça importante numa época, conflitando noções em que é tomada como exclusiva das sociedades emergentes a partir da Idade Moderna, pois, segundo o filósofo Gilles Lipovetsky, está ligada à mudança e à efemeridade, o que exclui, desde modo, tanto as civilizações antigas, como as tribos remotas que cultivam hábitos milenares e estão alheias à mudanças; e elucidando o objeto da moda, ou seja, a roupa e sua ligação com o indivíduo (ou cultura), no papel de “coisa” fundamental, sem a qual perde-se parte da dignidade, respeitabilidade e capacidade de se afirmar perante a sociedade em que se insere, o que aproxima o vestir-se a um ritual onde a roupa é uma proteção e uma insígnia.

No livro O Casaco de Marx: Roupas, memória e dor, o autor Peter Stallybrass narra os altos e baixos aos quais a família de Karl Marx fora submetida na fase em que o pensador alemão viveu exilado em Londres, em condições precárias que o obrigavam, por várias vezes, a recorrer a penhora dos objetos pessoais dele, de sua esposa e filhas. Sobre isto, o autor conclui:

Tornou-se um clichê dizer que nós não devemos tratar as pessoas como coisas. Mas trata-se de um clichê equivocado. O que fizemos com as coisas para devotar-lhes tal desprezo? E quem pode se permitir ter este desprezo? Por que os prisioneiros são despojados de suas roupas a não ser para que se despojem de si mesmos? Marx, tendo um controle precário sobre os materiais de sua autoconstrução, sabia qual era o valor de seu próprio casaco (SRALLYBRASS, 2000, p. 124).

Neste prisma, à indumentária é atribuído um fetiche, ou seja, imprime-se nela um valor quase místico, um poder imaginário. Algo parecido com a prática muito comum de se guardar um objeto, uma peça de roupa que pertenceu a um ente querido, como se ali ficasse a memória, o espírito daquela pessoa. Este conceito é expresso não apenas nestas pequenas práticas que conhecemos, mas também está presente em realidades muito distantes temporal e geograficamente. Sabendo que, por roupa é compreendido o artifício usado para cobrir-nos o corpo, fica evidente a idéia de fetiche praticado em culturas indígenas e africanas, onde os indivíduos se pintam, adornam seus corpos com penas e ossos de animais, acreditando incorporar-lhes a força. De forma semelhante, entende-se o significado de adereços usados pelos negros no Brasil, como mostra Eduardo França Paiva, ao discorrer sobre Negra tatuada vendendo caju, de Jean-Baptiste Debret:

A mesma negra retratada por Debret ou idealizada por ele a partir de sua atenta e perspicaz observação da realidade brasileira traz à cintura uma penca de balangandãs. Essa coleção de penduricalhos, durante muito tempo, não passou aos olhos historiográficos de exóticos adornos usados pelas escravas e pelas libertas, sobretudo na Bahia e no Rio de Janeiro. Hoje se sabe que não se trata de um ornamento apenas, mas que eram amuletos e objetos que simbolizavam uma série de conquistas femininas, como, por exemplo, a alforria individual e familiar, a ascensão econômica e a preservação de valores culturais africanos e afro-brasileiros (PAIVA, 2006, p. 96).

Confirmando que a moda precisa ser levada a sério, abandonando o julgamento que a declara frívola e banal, há na contemporaneidade produções onde ela serve de apoio para a elaboração de estudos sobre diferentes assuntos humanos, relativos à socialização, arte e estética. Por isso, não só em produção relativa diretamente à moda podemos lançar nossos olhares, mas sim, de forma mais abrangente, devemos observar elementos que passam incólumes, não permitindo que a concebamos como linguagem, meio e objeto de pesquisa.

Mayra Muniz, colunista da Revista Prosa Verso e Arte. Designer e ilustradora.

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