©Gustave Courbet

Ele tinha um olhar sonhador e distante, e sua voz triste, insistente, cortês como a de uma criada, parecia a plácida personificação de alguma melancolia arraigada. Ele era o Homem Leopardo, embora não tivesse essa aparência. Sua ocupação, da qual vivia, era aparecer em uma jaula de leopardos que se exibiam diante de grandes platéias e audiências vastas e excitar essas platéias por certas demonstrações de nervos de aço pelas quais seus empregadores o recompensavam em escala proporcional à excitação produzida.
Como digo, ele não parecia um leopardo. Tinha quadris e ombros estreitos e era anêmico, embora não parecesse tão oprimido pelo desânimo quanto por uma doce e gentil tristeza, cujo peso era também dócil e gentilmente suportado. Durante uma hora eu tentara tirar dele uma história, mas parecia faltar-lhe imaginação. Para ele não havia qualquer romance em sua magnífica carreira, nenhuma ação de ousadia, nenhuma excitação – nada além de uma monotonia cinzenta e enfado infinito.
Leões? Oh, ele havia lutado com eles. Não era nada. Tudo o que você tinha que fazer era ficar sóbrio. Qualquer um poderia bater num leão com uma vareta comum para que ele ficasse parado. Havia lutado com um por quase meia hora. Era só bater-lhe no focinho a cada vez que ele avançasse e, quando ele ficava ardiloso e avançava com a cabeça baixa, a coisa a fazer era esticar a perna. Quando ele fosse agarrar a perna, você a puxava para trás e batia-lhe novamente no focinho.
Com seu olhar distante e fala tranqüila, mostrou-me suas cicatrizes. Havia muitas, e uma recente onde uma tigresa tentara arrancar-lhe o ombro e afundara os dentes até o osso. Eu podia ver os rasgões cuidadosamente remendados no paletó que ele usava. Seu braço direito, do cotovelo para baixo, parecia ter passado por uma debulhadora, tal o estrago feito por garras e caninos. Mas não era nada, disse ele, só as velhas feridas o incomodavam um pouco quando chegava a época das chuvas.


De repente, seu rosto iluminou-se com uma lembrança, porque ele estava realmente tão ansioso para me contar uma história quanto eu para ouvi-Ia.
– Suponho tenha ouvido falar do domador de leões que era odiado por outro homem… – disse ele.
Fez uma pausa e olhou pensativo para um leão doente na jaula em frente.
– Está com dor de dentes – explicou. – Bem, o grande número do domador de leões para a platéia era botar a cabeça dele na boca de um leão. O homem que o odiou assistia a todos os espetáculos na esperança de algum dia ver aquele leão fechar a boca. Ele seguiu o show por todo o país. Os anos passaram e ele envelheceu, e o domador de leões envelheceu, e o leão envelheceu. E afinal um dia, sentado na primeira fila, ele assistiu ao que vinha esperando. O leão fechou a boca, e não houve necessidade alguma de se chamar um médico.
O Homem Leopardo olhou despreocupadamente para suas unhas de um modo que teria sido decisivo se não fosse tão triste.
– Agora, isso é o que eu chamo de paciência – continuou ele -, é meu estilo. Mas não era o estilo de um sujeito que conheci. Ele era um engolidor de espadas e prestidigita-dor francês, baixinho, magro e mirrado. Chamava-se DeVille e tinha uma esposa bonita. Ela trabalhava no trapézio e costumava mergulhar do telhado numa rede, descendo rodopiando da maneira mais bonita que puder imaginar.
“DeVille tinha reações rápidas, tão rápidas quanto sua mão, e a mão dele era tão rápida quanto a pata de um tigre. Um dia, porque o diretor do circo chamou-o de comedor de rãs, ou algo assim e talvez um pouco pior, ele o empurrou contra a parede de pinho macio que usava em seu número de atirar facas, tão depressa que o diretor não teve tempo para pensar, e lá, diante da platéia, DeVille manteve o ar em fogo com suas facas, afundando-as na madeira em volta do diretor, tão perto que atravessaram suas roupas e a maioria beliscou-lhe a pele.
“Os palhaços tiveram que arrancar as facas para soltá-lo, porque ele estava firmemente pregado. Assim, correu a notícia para que se tomasse cuidado com DeVille, e ninguém ousou ser algo mais do que ligeiramente cortês com sua mulher. E ela era uma biscateira muito da sonsa, só que todas as mãos tinham medo de DeVille.
“Mas havia um homem, Wallace, que tinha medo de nada. Ele era o domador de leões e fazia o mesmo número de pôr a cabeça na boca do leão. Ele a punha na boca de qualquer um deles, embora preferisse Augustus, um animal grande e de boa índole, no qual sempre se podia confiar.
“Como eu estava dizendo, Wallace – nós o chamávamos “Rei” Wallace – não tinha medo de coisa alguma, viva ou morta. Ele era um rei e ninguém tinha dúvidas. Eu o vi, bêbado, numa aposta, entrar na jaula de um leão que tinha ficado perigoso e, sem uma vara, dar fim nele. Fez isso simplesmente dando-lhe um soco no focinho.
“A Sra. DeVille. .. ”
Por causa de um alvoroço atrás de nós, o Homem Leopardo se virou. Era uma jaula dividida, e um macaco, metendo a mão pelas barras e ao redor da divisória, tivera sua pata presa por um grande lobo cinza que estava tentando arrancá-Ia com toda a força. O braço parecia ir-se esticando mais e mais, como um elástico grosso, e os companheiros do infeliz faziam uma algazarra terrível. Não havia um zelador por ali, então o Homem Leopardo deu alguns passos, bateu no lobo com um golpe certeiro no focinho com a pequena bengala que carregava e voltou com um sorriso tristemente apologético para completar sua frase inacabada como se não tivesse havido qualquer interrupção.
– … olhou para o Rei Wallace e o Rei Wallace olhou para ela, enquanto DeVille os olhava feio. Nós prevenimos Wallace, mas foi em vão. Ele riu de nós, como riu de DeVille um dia quando enfiou a cabeça dele num balde de cola porque ele queria lutar.
“DeVille ficou num estado lamentável – eu ajudei a limpá-lo, mas ele estava frio como gelo e não fez qualquer tipo de ameaça. Mas eu vi em seus olhos um brilho que tinha visto muitas vezes nos olhos de animais selvagens, e saí de meus cuidados para dar a Wallace um último aviso… Ele riu, mas não olhou tanto na direção da Senhora DeVille depois disso.
“Vários meses se passaram. Nada havia acontecido e eu estava começando a pensar que tudo não passara de um susto. Estávamos no Oeste naquela época, apresentan-do-nos em Frisco. Era o espetáculo da tarde, e a grande tenda estava cheia de mulheres e crianças, quando fui atrás de Denny Vermelho, o encarregado-chefe que tinha saído com meu canivete.

“Passando por uma das barracas que serviam de camarim, dei uma olhada por um buraco na lona para ver se o localizava. Ele não estava lá, mas bem na minha frente estava o Rei Wallace, de ceroulas, esperando sua vez de ir para a jaula dos leões amestrados. Ele assistia e se divertia muito com uma discussão entre um casal de trapezistas. Todas as outras pessoas na barraca do camarim assistiam à mesma coisa, com a exceção de DeVille, que percebi estar encarando Wallace com indisfarçável ódio. Wallace e os outros estavam ocupados demais para perceber isto ou o que se seguiu.
“Mas eu vi pelo buraco na lona. DeVille tirou o lenço do bolso, fez como se secasse com ele o suor do rosto (o dia estava quente) e, ao mesmo tempo, caminhou para trás de Wallace. Ele não parou, mas com um volteio do lenço deteve-se bem na soleira da porta, de onde virou a cabeça ao passar, e deu uma rápida olhada para trás. O olhar me perturbou na ocasião, porque não vi nele apenas ódio, vi também triunfo.
“DeVille vai ficar à espreita, eu disse a mim mesmo, e eu realmente respirei aliviado quando o vi sair pela entrada do circo e subir a bordo de um trem elétrico para o centro da cidade. Alguns minutos depois eu estava na grande lona, onde revistava o Denny Vermelho. O Rei Wallace fazia seu número e dominava a platéia enfeitiçada. Ele tinha um ar especialmente perverso e manteve os leões agitados até que estivessem todos rosnando, quer dizer, todos menos o velho Augustus, que era simplesmente gordo, preguiçoso e velho demais para ficar excitado com o que quer que fosse.
“Finalmente Wallace fez estalarem os joelhos do leão velho com seu chicote e colocou-o em posição. O velho Augustus, piscando com benevolência, abriu a boca e para lá foi a cabeça de Wallace. Então as mandíbulas se fecharam, nheco, bem assim.”
O Homem Leopardo sorriu de um modo gentilmente melancólico e o olhar distante voltou a seus olhos.
– E este foi o fim do Rei Wallace – continuou ele em sua voz triste e baixa. – Depois que a excitação baixou, esperei minha oportunidade, abaixei-me e cheirei a cabeça de Wallace. Então espirrei.
– E… e era… ? – indaguei com uma avidez hesitante.
– Rapé – que DeVille derrubou no cabelo dele na barraca do camarim. O velho Augustus nunca pretendeu fazer aquilo. Ele só espirrou.

Conto de Jack London
Tradução de Celina Portocarrero

– no livro “Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal”. [Organização de Flávio Moreira da Costa]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002

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