Hart Crane

poemas de hart crane (edição bilíngue)

Louvor a uma urna
In memoriam: Ernest Nelson

Era do norte o rosto terno
De falso exilado, juntando
De Pierrô o olhar eterno
E a gargalhada de Gargântua.

Os sonhos que me confiava
Do travesseiro branco, insone,
Agora eu sei, eram heranças –
Corcéis suaves do ciclone.

No monte oblíquo a lua oblíqua
Nos deu presságios indistintos
Do que ainda vivo o morto abriga,
Questões da alma e dos instintos.

Iguais às que, no crematório,
Do alto o relógio remoía
Sem poupar nosso obrigatório
Louvor às glórias desse dia.

Mas ao lembrar a mecha de ouro,
Já não suporto o rosto baço
Nem as abelhas, surdo coro,
Atravessando a luz do espaço.

Espalha a cinza destes versos
Pelos subúrbios, no arrebol
Onde se perderão, dispersos.
Estes não são troféus do sol.

1921-22
.

Praise for an urn
In memorian: Ernest Nelson

It was a kind and northern face
That mingled in such exile guise
The everlasting eyes of Pierrot
And, of Gargantua, the laughter.

His thoughts, delivered to me
From the white coverlet and pillow,
I see now, were inheritances —
Delicate riders of the storm.

The slant moon on the slanting hill
Once moved us toward presentiments
Of what the dead keep, living still,
And such assessments of the soul

As, perched in the crematory lobby,
The insistent clock commented on,
Touching as well upon our praise
Of glories proper to the time.

Still, having in mid gold hair,
I cannot see that broken brow
And miss the dry sound of bees
Stretching across a lucid space.

Scatter these well-meant idioms
Into the smoky spring that fills
The suburbs, where they will be lost.
They are to trophies of the sun.

1921-22
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Jardim abstrato
A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
Mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.

E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.

1920
.

Garden abstract
The apple on its bough is her desire, –
Shining suspension, mimic of the sun.
The bough has caught her breath up, and her voice,
Dumbly articulate in the slant and rise
Of branch on branch above her, blurs her eyes.
She is prisoner of the tree and its green fingers.

And so she comes to dream herself the tree,
The wind possessing her, weaving her young veins,
Holding her to the sky and its quick blue,
Drowning the fever of her hands in sunlight.
She has no memory, nor fear, nor hope
Beyond the grass and shadows at her feet.

1920
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Viagens

III

Há uma infinita consanguinidade
No tema que me estendes e que a luz
Traz dos campos marinhos onde o céu
Renega um seio à onda que entoa,
Enquanto eu sulco as rotas de estilhaços
Lavados e esparzidos sem um golpe
Ao largo do teu flanco, aonde nesta hora
O mar ergue, também, mãos relicárias.

Admitido a portões negros, inflados,
Que soem sofrear toda a distância,
Sob pilares em ronda e tetos tontos,
A luz em luta eterna contra a luz,
Estrela amando estrela de onda a onda até
A dança do teu corpo!
lá onde a morte
Não é carnificina, mas só mutação, –
No fundo fim a flux de aurora a aurora,
Dúctil, sutil transmembramento da canção;

Consente, amor, que eu viaje em tuas mãos agora…

1921-1926
.

Voyages

III

Infinite consanguinity it bears —
This tendered theme of you that light
Retrieves from sea plains where the sky
Resigns a breast that every wave enthrones;
While ribboned water lanes I wind
Are laved and scattered with no stroke
Wide from your side, whereto this hour
The sea lifts, also, reliquary hands.

And so, admitted through black swollen gates
That must arrest all distance otherwise, —
Past whirling pillars and lithe pediments,
Light wrestling there incessantly with light,
Star kissing star through wave on wave unto
Your body rocking!
and where death, if shed,
Presumes no carnage, but this single change, —
Upon the steep floor flung from dawn to dawn
The silken skilled transmemberment of song;

Permit me voyage, love, into your hands . . .

1921-1926
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Ó ilha do Caribe!

A tarântula trôpega diante de um lírio,
Por entre os pés dos mortos, postos na areia branca
À beira dos corais – caranguejos cabriolas
Em zigzag na estrada (que saqueiam, subvertem
E anagramatizam teu nome) – Não, nada aqui,
Sob o torpor que um eucalipto alteia
Em sombras rotas – chora.

……………………………………..Mas, e se eu contar
Os dons de nácar dessas tropicais necroses,
Colares brutos, conchas, ao redor das tumbas
Crenadas com cuidado. Então

À areia branca hei de dizer um nome, fértil
Ainda que em língua estranha. Nomes de árvores, de flores
Negam a frágil cripta funerária. Devagar
O vento que se algema numa grande morte
Se dobra e se retrai. Sílabas pedem ar.

Mas onde o Capitão dos dobrões desta ilha
Sem cercas? Quem, salvo esses escribas caranguejos,
Patrulha as virilhas secas dos abrolhos?
Que homem, ou o Que
É o Fiscal do bolor para a tocaia dos sentidos?
A álgebra do Caribe enreda as lentes tórridas dos olhos!

Sob a poinciana, ao sol ou ao sol-posto,
Que os grãos de fogo em coágulos de luz
Filtrem o meu fantasma, branco e preto no ar,
Até encontrar o cômico anfitrião do azul.

Que o peregrino não se veja mais
Toda manhã no cais pregado como as grandes tartarugas
Para a lenta evisceração, os olhos duros de salmoura;
– Presas, de costa: que trovão em sua luta!
Bicos em cãibra à espera da maré vindoura!

Lixo do furacão, arrastado em seu fluxo,
Congelo-me entre ocasos, em cetim e ócio.
Dá-me a concha, Satã, – carbônico amuleto,
Selo de sal que o sol explode no oceano.

1926
.

O Carib isle!

The tarantula rattling at the lily’s foot
Across the feet of the dead, laid in white sand
Near the coral beach — nor zigzag fiddle crabs
Side-stilting from the path (that shift, subvert
And anagrammatize your name) —No, nothing here
Below the palsy that one eucalyptus lifts
In wrinkled shadows — mourns.

………………………………And yet suppose
I count these nacreous frames of tropic death,
Brutal necklaces of shells around each grave
Squared off so carefully. Then

To the white sand I may speak a name, fertile
Albeit in a stranger tongue. Tree names, flower names
Deliberate, gainsay death’s brittle crypt. Meanwhile
The wind that knots itself in one great death —
Coils and withdraws. So syllables want breath.

But where is the Captain of this doubloon isle
Without a turnstile? Who but catchword crabs
Patrols the dry groins of the underbrush?
What man, or What
Is Commissioner of mildew throughout the ambushed senses?
His Carib mathematics web the eyes’ baked lenses!

Under the poinciana, of a noon or afternoon
Let fiery blossoms clot the light, render my ghost
Sieved upward, white and black along the air
Until it meets the blue’s comedian host.

Let not the pilgrim see himself again
For slow evisceration bound like those huge terrapin
Each daybreak on the wharf, their brine-caked eyes;
— Spiked, overturned; such thunder in their strain!
And clenched beaks coughing for the surge again!

Slagged of the hurricane — I, cast within its flow,
Congeal by afternoons here, satin and vacant.
You have given me the shell, Satan, — carbonic amulet
Sere of the sun exploded in the sea.

1926
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

A planta do ar
Grand Cayman

Esse tufo que nasce de um salobro nada,
Polvo invertido, braços para o céu,
Rebento ressequido de palmeira de angra,
Quase ave – de ave quase um escarcéu,

É pulmonar ao vento que lhe move
Os tentáculos num meneio traiçoeiro.
A goela do lagarto, absorto com a mosca,
Infla-se, cauta, nesse trêmulo poleiro.

Serras e acúleos do cactus sangram
Leite da terra quando os vão cortar,
Mas este, sem espinhos, não espalha sangue,
Quase nem sombra, só a fala do ar.

Dínamo angelical! Ventríloquo do azul!
Enquanto o mar, covil de tubarões, se esgueira
Na praia, que conjuração dos ventos urde
O furacão – a apoteose derradeira!

1927
.

The air plant
Grand Cayman

This tuft that thrives on saline nothingness,
Inverted octopus with heavenward arms
Thrust parching from a palm-bole hard by the cove ⎯
A bird almost ⎯ of almost bird alarms,

Is pulmonary to the wind that jars
Its tentacles, horrific in their lurch.
The lizard’s throat, held bloated for a fly,
Balloons but warily from this throbbing perch.

The needles and hack-saws of cactus bleed
A milk of earth when stricken off the stalk;
But this, ⎯ defenseless, thornless, sheds no blood,
Almost no shadow ⎯ but the air’s thin talk.

Angelic Dynamo! Ventriloquist of the Blue!
While beachward creeps the shark-swept Spanish Main
By what conjunctions do the winds appoint
Its apotheosis, at last ⎯ the hurricane!

1927
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Medusa
“Caia comigo
Nas estrelas frígidas
Caia comigo
Na luz do delírio
Mergulhe
Onde não há canção
Salvo as cãs dos ventos velhos.

Siga-me
Até o fim,
Até o caos estonteante
O eterno caos fervente
Dos meus cabelos!

Contemple a sua amante, −
Pedra!”

1916-1918
.

Medusa
“Fall with me
Through the frigid stars:
Faal with me
Through the raving light: −
Sink
Where is no song
But only the white hair of aged winds.

Follow
Into utterness,
Into dizzying chaos, −
The eternal boiling chaos
Of my locks!

Behold thy lover, −
Stone!”

1916-1918
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Imperator victus
Canhões ainda.
Claro calão
Que se deslinda.
Ainda. ainda –
Denunciarão
Ao Mar a vinda

Do Dólar e da Cruz.

Canhões ainda.
Repousa em paz.
Cabeça andina.

Ainda. ainda –
A estranha paz
Do rei da Espanha.

Que morto jaz.

Canhões ainda.
Ataualpa.
Imperator Inca –

Finda.

1927
.

Imperator victus
Big guns again.
No speakee well
But plain.

Again, again –
And they shall tell
The Spanish Main

The Dollar from the Cross.

Big guns again.
But peace to thee,
Andean brain.

Again, again –
Peace from his Mistery
The King of Spain,

That defunct boss.

Big guns again,
Atahualpa,
Imperator Inca –

Slain.
– Hart Crane, no livro “Poesia da recusa”. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Jardim abstrato
A maçã sobre seu ramo é seu desejo, ―
Brilhante suspensão e mímica do sol.
O ramo aprisionou-lhe o sopro, e sua voz
Mudamente articulada na queda e na ascensão
De galho sobre galho acima dela ofusca-a
Prisioneira da árvore e de seus dedos verdes.
E sonha-se ela assim a própria árvore,
Possuída pelo vento, que lhe tece as veias jovens,
Segurando-a contra o céu e o azul breve
Mergulhando no sol a febre de seus braços.
Não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e das sombras a seus pés.
.

Garden abstract
The apple on its bough is her desire,—
Shining suspension, mimic of the sun.
The bough has caught her breath up, and her voice,
Dumbly articulate in the slant and rise
Of branch on branch above her, blurs her eyes.
She is prisoner of the tree and its green fingers.
And so she comes to dream herself the tree,
The wind possessing her, weaving her young veins,
Holding her to the sky and its quick blue,
Drowning the fever of her hands in sunlight.
She has no memory, nor fear, nor hope
Beyond the grass and shadows at her feet.
– Hart Crane, em “Mário Faustino: poesia completa e traduzida”. [organização Benedito Nunes]. São Paulo: Max Limonard, 1985.

§

À ponte de Brooklyn
Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de emergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade –

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
– Até que os elevadores nos libertem do nosso dia…

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, –
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram…
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa… tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, –

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro…

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóboda sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.
.

To Brooklyn Bridge
How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull’s wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty—

Then, with inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
—Till elevators drop us from our day …

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver paced
As though the sun took step of thee yet left
Some motion ever unspent in thy stride,—
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky’s acetylene;
All afternoon the cloud flown derricks turn …
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon … Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!)
Terrific threshold of the prophet’s pledge,
Prayer of pariah, and the lover’s cry,

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path—condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited
Only in darkness is thy shadow clear.
The City’s fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year …

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies’ dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.
– Hart Crane, “A ponte (The brigdge)”. Hart Crane. [tradução de Maria de Lourdes Guimarães; introdução de Laureano Silveira]. Edição bilíngue. Lisboa: Relógio D´Água, 1995.

§

Hart Crane, por Walker Evans

HOMENAGENS

UM POEMA DE VINICIUS DE MORAES

O poeta Hart Crane suicida-se no mar
Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto…)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia…)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À idéia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?

De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?
– Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, 1953). no livro “Vinicius de Moraes – novos poemas II”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 15.

§

UM POEMA DE LEONILDE FREITAS

A Hart Crane

This fabulous shadow
only the sea keeps.
Acima da linha d’água
o homem delineia seu intento submersível.
Na manhã em que o obscurecer do sol
não é um aviso de eclipse
quase tudo é invisível:
Náufragos com suas respostas de silêncio
para ouvidos de espuma
Havana trezentas milhas ao norte
orlas, calafrios e lembranças
de salgueiros melodiando sons.

Em surdina o homem desveste seu casaco.

Abaixo da linha d’água
algas se movimentam
polvos nascem transparentes
peixes espreitam sob rochas:
o mar inteiro aguarda
a luz que desce.
– Lenilde Freitas, no livro “Tributos”. São Paulo, Editora Giordano, 1994.

§

Hart Crane

HART CRANE A POESIA EM TROFÉUS
– por Augusto de Campos – especial para a Folha

Uma plantação de frutas de sua avó materna, na Isla de los Pinos, em Cuba, fê-lo frequentar e amar os ares e mares do Caribe, que haveriam de inspirar-lhe todo um ciclo de poemas, o conjunto intitulado “Key West”, do qual foram extraídos três dos textos aqui divulgados. Vivendo entre Nova York (onde se fixou a partir de 1923) e a Isla de los Pinos (com uma breve incursão pela Europa) Hart Crane nunca superou –segundo seus principais estudiosos– o problema psicológico gerado pelos desentendimentos com o pai, um magnata do açúcar, e pela não-assimilação dos conflitos entre este e sua mãe.

Nesse problema irresolvido estaria a raiz do seu homossexualismo, assim como do alcoolismo desenfreado que, como no caso de Dylan Thomas, acabaria por conduzi-lo à morte prematura, em 1932. Voltava para Nova York, em viagem marítima, vindo da cidade de Vera Cruz, no México, onde estivera por um ano, sob o patrocínio de uma bolsa Guggenheim, com o projeto de escrever um poema sobre Montezuma; no dia 27 de abril, depois de vários episódios de embriaguez, iniciados na noite anterior, atirou-se ao mar, do convés do navio “Orizaba”, no Golfo do México, nas proximidades de Havana.

Marcante influência tiveram sobre ele a poesia e a crítica literária de Ezra Pound e de Eliot, e através destes, a poesia de Donne e dos “metafísicos” do barroco inglês. “The Waste Land” (“A Terra Devastada”) foi, declaradamente, o desafio que Crane tentou enfrentar no seu mais ambicioso projeto, o poema }The Bridge (“A Ponte”), com o qual pretendeu escrever uma epopéia moderna dos Estados Unidos, com alusões crípticas a um panteão de heróis paradigmáticos da poesia e das artes –Melville, Poe, Emily Dickinson, Whitman, Isadora Duncan– misturados a figuras históricas e míticas, como Cristóvão Colombo e Pocahontas (a lendária princesa pele-vermelha, que teria conseguido salvar a vida de um dos colonizadores ingleses, o capitão John Smith), ou Rip Van Winkle, descendente dos navegadores holandeses, personagem fantástico de um célebre conto de Washington Irving.

Sendo Hart Crane essencialmente um poeta lírico e cultivando uma poesia de índole metafórica, distante das articulações narrativas, não logrou êxito, a meu ver, nesse empreendimento em que Pound e Eliot excederam a todos. Diferentemente de “The Cantos” e “The Waste Land”, cujo aparente fragmentarismo se solda numa bem armada colagem construtivista, “The Bridge” –apesar de belos momentos e belos versos– não chega a organizar-se num conjunto estruturado, afigurando-se, antes, um ajuntamento não-coeso de poemas estilisticamente hesitantes entre a modernidade e a tradição.

Por outros motivos, de resto, tanto William Carlos Williams como Louis Zukofsky fracassaram quando, por sua vez, se abalançaram à envergadura épica em “Patterson” e em “A”, dois poemas longos que em última análise não passam de diluições politicamente corretas dos “Cantos de Pound…”

Mas talvez a mais congenial influência recebida por Hart Crane, leitor assíduo dos simbolistas franceses, tenha sido a de Rimbaud, poeta com quem apresenta, mais do que qualquer outro, grandes afinidades. O “desregramento de todos os sentidos” poderia ser também o seu lema. Na senda aberta por Rimbaud para os vôos imaginativos do inconsciente e da transracionalidade, se a aventura dadá encontrou na moderna literatura norte-americana uma resposta “sui generis” na obra de Gertrude Stein, pode-se dizer que o espaço do surrealismo –não como dogma, mas enquanto linguagem liberta de amarras lógicas– terá encontrado em Hart Crane um livre-atirador muito peculiar.

Um poeta capaz de preencher o vazio desse movimento na poética moderna norte-americana, mas numa pauta nada ortodoxa, sensível e existencial, um tanto como Lorca, nos extraordinários versos do seu “Poeta en Nueva York” responderia às provocações de sectários menores como Dali e Bu¤uel.

A comparação não é despropositada, até porque esse livro, publicado postumamente em 1940, compreende poemas escritos entre 1929 e 1930, quando Lorca vivia em Nova York como estudante na Universidade de Columbia: entre os seus textos há, inclusive, uma “Ode a Walt Whitman” e um “Noturno da Brooklyn Bridge”, temas caros a Hart Crane e a “The Bridge” (1930), poema inspirado na Ponte do Brooklyn, à qual, cinco anos antes, também Maiakóvski prestara a sua homenagem, descrevendo-se a contemplá-la, absorto, “como um esquimó olha para um trem”.

Após a morte de Crane, o escritor Waldo Frank reuniu nos “Collected Poems” (1933) os dois livros publicados em vida do poeta –”White Buildings” (“Edifícios Brancos”), de 1926, e “The Bridge”, ao lado da “suíte do Caribe” intitulada “Key West” (poemas em sua maioria compostos entre 1926 e 27) e de alguns textos esparsos ou inéditos. Uma edição mais recente, com organização de Mark Simon, feita a partir de rigoroso cotejo de documentos originais e variantes, “Complete Poems of Hart Crane” (1986), vem a ser a coletânea mais abrangente e confiável, incluindo, além das obras publicadas, 70 outros poemas, dos quais 41 não reunidos em livro ou inéditos, e 32 incompletos.

Como Rimbaud, o poeta norte-americano faz uso de terminologia cientifizante, misturada a palavras arcaicas e neologismos. Mescla vocabulário poético e coloquial, o “sermo nobilis” e o “sermo vulgaris” uma gramática ambígua e cheia de idiossincrasias e uma metafórica arrevezada, nem sempre clara na relação de semelhança entre os seus termos e às vezes até mesmo impenetrável. Seus ritmos, aqui e ali instáveis e sincopados, se resolvem frequentemente em versos regulares e rimados, com ênfase nos decassílabos, que clausuram muitos poemas em estrofes e linhas magníficas. Usa e abusa de aliterações, paronomásias e jogos de palavras.

Clarence Arthur Crane (pai) e Hart Crane

Crane é acima de tudo um poeta de versos estonteantemente belos, que o laconismo da língua inglesa e a combinatória de um cerrado sistema sonoro-metafórico tornam, quase sempre, intraduzíveis. Veja-se o decassílabo:
The silken skilled transmemberment of song
Aqui os adjetivos “silken” (sedoso) e “skilled” (“hábil, sutil”) se comutam ou quase-anagramatizam em células sincopadas que materializam a transmutação poética explicitada no desabamento sonoro daquele inter-ecoante “transmemberment” (neologismo: transmembramento) para, logo depois, recaírem no regaço aliterativo (“song”) da canção. Não encontro um sistema absoluto de equivalências que permita traduzir esse, no mínimo, “dúctil, sutil transmembramento da canção” com que Crane alude simultaneamente ao mar, ao amor e ao próprio poema.

O mar, e o Caribe em particular, assumem um papel relevante no sistema de metáforas e alegorias que o poeta vincula à sensação de destruição e de morte. Não por acaso Crane escolheu para seu próprio desenlace vital uma “death by water”.

Durante muitos anos tive vontade de traduzir “O Carib Isle”, mas esbarrava sempre na solução da armadilha verbal que o poeta propõe logo nas primeiras linhas. Cheguei a considerar inviável a tradução criativa desse texto. Mas como em arte só interessa o impossível, não desisti, mesmo depois de vários “false starts”. A resposta ao desafio é publicada com este artigo.

Em “O Carib Isle” Crane não se contenta com as muitas aliterações a partir da esplêndida abertura, “The tarantula rattling…”. Na verdade, a espinha dorsal do texto, que espelha o “timor mortis” ou quem sabe o contraditório “amor mortis” do poeta numa sucessão de metáforas orgânicas e truculentas, é o jogo verbal anagramático entre “Carib” e “crab” (caranguejo) patenteado nas linhas iniciais da primeira estrofe (“… crabs… which change, subvert and anagramatize your name”). Aliterações binárias, montadas sobre os fonemas “b” e “c”, reforçam e complementam essa subversão anagramática do texto.

Sem chegar aos exageros analíticos do último Saussure (quando quis vislumbrar no discurso poético um sistemático subtexto anagramático), é possível detectar, a partir das células iniciais, claros resíduos anagramáticos reverberando em vários passos do poema: “coral beach”, “brittle crypt”, “brine caked eyes”, “clenched beaks”, “carbonic”, para citar só os casos mais evidentes.

Essa disseminação fonêmico-temática contribui decisivamente para reforçar e solidificar as imagens violentas e agônicas que a desolada paisagem caribenha desencadeia na mente do poeta, sem esquecer a carga semântica que envolve a palavra “Carib” (etimologicamente associável a “canibal” e à idéia de devoração), aqui reforçada pelo seu par anagramático “crab”.

Na tradução, ante a inviabilidade de reconstituir esse par com o vocábulo “caranguejo”, decidi atuar sobre os substantivos que o qualificam diretamente, chegando, com alguma liberdade semântica, a “CABRIolas” e “(E)sCRIBAs” (ressalto aqui em maiúsculas o anagrama, que pode incluir ou não a vogal “E”, colocada entre parênteses).

Na pauta das aliterações em “b” e “c” pratico a disseminação anagramática, especialmente em: “aR(E)Ia BRanCA”, “B(E)IRA dos CoRAIs”, “CoIAREs BRutos”, “CApitão dos doBRões”, “BICos em CÃIBRA”. Neste último par a palavra “cãibra, só por só, já constitui um anagrama completo ou quase completo. Como no original, a palavra-tema “Carib” explode, ao final, naquele “CARBonlc amulet” da penúltima linha, que, entre “satin” e “Satan”, incorpora, capsula e catapulta os signos do Caribe e da morte na linha aliterativa final, “Sere of the sun exploded in the sea.” Na solução que adotei, mantenho as aliterações sibilantes e ao mesmo tempo conecto o meu “oceano” com aqueles “cetim” e ‘ócio” da antepenúltima linha numa semi-rima paronomástica, que busca contribuir para a explosão sonora final: “Selo de sal que o sol explode no oceano”, passando, como convém, do decassílabo ao dodecassílabo (alexandrino, neste caso), para recuperar a quantidade da informação textual do idioma inglês, sempre mais breve.

Segundo John Unterecker, biógrafo de Crane, o poeta presenciou em 1926, na Isla de los Pinos, um furacão que destruiu parcialmente a casa em que ele estava. Um dado que talvez contribua para a compreensão do clima aterrorizante do poema, composto nesse mesmo ano. “Eternity”, que alude explicitamente ao evento, e “Hurricane”, incluído pelo poeta no conjunto “Key West”, foram também criados por essa época. Assim como “The Air Plant” (1927), aqui traduzido, que participa do mesmo clima sinistro e que se destaca pelo imagismo denso, pelas metáforas zoomórficas de coloratura barroca e expressionista.
A dramaticidade que impregna tais poemas os distingue, desde logo, das produções homólogas de Wallace Stevens, cujo primeiro livro, “Harmonium”, de 1923, pode ter influenciado Crane com sua refinada linguagem pós-simbolista e abstratizante. Basta comparar as composições do ciclo caribenho com poemas como “Fabliau of Florida”, “O Florida, Venereal Soil” ou “Floral Decorations for Bananas” para perceber o quanto a visão patética de Crane se distancia da neutralidade crítica com que Stevens passeia o seu olhar sofisticado e sibilino pela paisagem das ilhas do sul.

Outro poema que me agrada muito, do mesmo ciclo caribenho, é “Imperator Victus”, que, através do seu esfíngico minimalismo, me parece uma sutil elegia às civilizações indígenas e pré-colombianas da América, que fascinavam Hart Crane. Fiz a sua tradução há pelo menos 30 anos e agora a divulgo com algumas correções (a nova edição dos “Collected Poems” contém uma estrofe a mais), numa montagem que associa o texto à imagem de uma antiga estátua incaica.
:: Fonte: Folha de S. Paulo. caderno +mais!, São Paulo, domingo, 7 de agosto de 1994.(acessado em 8.8.2016).

Harold Hart Crane

BREVE BIOGRAFIA DE HAROLD HARD CRANE
Hart Crane (1899 – 1932). Poeta lírico estadunidense nascido em Garrettsville, Ohio, que celebrou a vida na era industrial, conhecido pela sua meticulosa e disciplinada habilidade e exaltação a experiência americana, nos seus aspectos positivos relativos à vida urbana e industrial moderna. Filho de pais de comportamento emocionalmente instáveis, viveu parte de sua infanto-juvenol com a avó materna, em Cleveland (1909-1916). Infeliz, tornou-se alcoólatra ainda jovem, deixou a escola secundária e escrever poesia passou a ser seu principal objetivo. Mudou-se para New York City (1923) e fez contato e foi estimulado pelo mundo literário e dedicou-se a escrever poesias profissionalmente. Publicou dois livros de poesia em vida, White Buildings (1926) e The Bridge (1930) e um em prosa, At Melville’s Tomb (1926). Retraído pelos conflitos da grande cidade e com sua vida pessoal envolvida em um processo de uma caótica mistura de alcoolismo e homossexualidade, buscou refúgio em uma afirmação mística e recorreu a Walt Whitman, cuja influência em sua obra é evidente. Ganhou um prêmio de Poesia anual Americana (1930) e em seguida escreveu sua obra mais célebre, The Bridge (1931), cujo tema foi ambientado na ponte de Brooklin. Pouco depois de publicá-lo, foi como Guggenheim Fellowship, no México (1931-1932), mas seus dramas existenciais não diminuíram bem como seu alcoolismo e, deprimido, na viagem de volta para os Estados Unidos, pulou do navio e afogou-se no Golfo do México, onde seu corpo nunca foi encontrado.
:: Fonte: DEC/UFCG.edu.(acessado em 9.8.2016).

Obra poética de Hart Crane em português
:: A ponte (The brigdge). Hart Crane. [tradução de Maria de Lourdes Guimarães; introdução de Laureano Silveira]. Edição bilíngue. Lisboa: Relógio D´Água, 1995.

Antologia (participação)
:: Poemas famosos da língua inglesa. Antologia bilíngue. [seleção, tradução e notas Oswaldino Marques]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1956.
:: Poesia dos Estados Unidos. Coletânea de poemas norte-americanos. (Edgar Allan Poe, Emily Dickson, Walt Withman, Robert Frost, Ezra Pound, Joyce Kilmer, Marianne Moore, Horace Gregory, Hart Crane e Countee Cullen).. [organização, tradução parcial e notas Oswaldino Marques; outros tradutores]. Edição bilíngüe. Edições de Ouro, 1966.
:: Poesia da recusa. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

Outras fontes e referências de pesquisa
PONTY, Eric. Contemplação do urbano (ensaio sobre a poesia de Hart Crane). in: elsonfroes. Disponível no link. (acessado em 9.8.2016).
TORRES, Mário Jorge. Do caos à (des)ordem – processo de aprendizagem de Hart Crane, poeta modernista. (Dissertação Mestrado em Literatura e Cultura Norte-Americanas). Universidade de Lisboa, 1986.
BOOK. The Collected Poems of Hart Crane. [edited with an introduction by Waldo Frank]. New York: Liveright Publishing Corporation, 1946. Disponível no link. (acessado em 8.8.2016).
:: Hart Crane – Poetry Foundation
:: Hart Crane – Poet | Academy of American Poets

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