©Vincent van Gogh

Era de doidos a festa, amigo? Era de bêbedos? Fizeste muito bem em enlouquecer e embebedar-te também. Ficaste otimamente pondo a máscara de papel pintado sobre a máscara moral com que cobres eternamente o rosto, meu pérfido! Ser bobo é chic, está na moda!
E, como gostas dela, foste bobo também! Que pândego que te achei, envolvido em panos encarnados, arrotando vinho! Que bem que fizeste abandonando a gravidade da vida! Quem é que quer ser sério no Carnaval? Há lá seriedade nisso! E ainda que quisesses exibir alguma, pensas que Baco consentiria? Passarias por idiota se procedesses assim…
Bateu-te à porta a orgia e, com a sedução das bacantes, caíste-lhes bêbedo aos braços, tratante! Melhor não poderias ter feito. Se o vinho é deus, se o vinho impera, era mister que te entregasses de corpo e alma ao seu domínio! Beber! Transportar-se de um trago às paragens encantadas do prazer… Que delícia!
E, depois de todas essas loucuras, depois de tantas noites a braços com o vício, ir, genuflexo e piedoso, receber na testa a cruz de cinza!
Que contraste! E que é a vida, afinal, senão uma intérmina sucessão de contrastes?

Nota
1. X [Graciliano Ramos]. “Garranchos III”. O Índio. Palmeira dos Índios, ano 1, nº 3, 13 de fevereiro de 1921, p. 1.
— Graciliano Ramos, no livro “Garranchos”. Rio de Janeiro: Record, 2013

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