Heberto Helder - foto: Alberto Cunha (detalhe)

Crítica: Herberto Helder e a poesia fundada por toda vida
– por Wilson Alves-Bezerra*

Finalmente o Brasil tem os “Poemas completos” do poeta português Herberto Helder (1930-2015). É o seu “poema contínuo”, lavrado de 1953 a 2013, o que significaria dizer, a partir de um verso do próprio poeta: “a vida inteira para fundar um poema”. Apesar de sua trajetória internacional, Helder é menos conhecido do que os leitores brasileiros mereceriam. Suas edições por aqui têm sido esparsas e recentes. Publicado apenas em 2000, pela Iluminuras, em coletânea, só teve mais uma edição, a da Girafa, de “Ou o poema contínuo” (2006), cujos poemas mais recentes eram de 1994. Passados mais dez anos, morto o poeta, a portuguesa Tinta da China, já operando no Brasil, apresenta uma edição nacional de sua lírica, reunindo a obra publicada em vida por Helder.

Os “Poemas completos” têm edição luxuosa e trazem, na contracapa, dois parágrafos de um ensaio do poeta Claudio Willer, publicado na revista eletrônica “Agulha”, em 2001. No fragmento, ele situa Helder na tradição dos poetas visionários, compara-o ao jovem Rimbaud, para finalmente destacar a permanência do ímpeto apaixonado de Helder ao longo de toda sua produção poética. O editor Pedro Mexia destaca, num parágrafo ainda mais breve, que Helder foi “o maior poeta que tivemos desde Pessoa”. Embora ambas as observações sejam precisas, o leitor brasileiro mereceria maior aparato crítico para se aproximar da poética do madeirense. Para tanto, pode recorrer ao sem número de artigos de Willer na internet, importante difusor de Helder no Brasil, e a livros como “A obra em rubro”, de Maria Estela Guedes, e “Se eu quisesse enlouquecia”, coletânea de ensaios sobre o poeta.

Já no primeiro livro da série, “A colher na boca” (1960), está todo Helder. Quem já leu ou ouviu “O amor em visita” não se esquece: “Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite./ Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher”; os temas vão variando ao longo do poema, colocando em cena um “amor mais terrível do que a vida”, no qual, à mulher cabe não a condição de dar a vida, mas seu oposto: “Em cada mulher, existe uma morte silenciosa”. É neste livro de estreia que se passa a enunciar e realizar uma poética que conjugará palavra e corpo, sentidos e não sentido. Há momentos de enunciação precisa: “Penso que deve existir para cada um/ uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse/ virgem de sentido e que,/ vinda de um ponto fogoso da treva, batesse/ como um raio/ nos telhados de uma vida, e o céu/ com águas e astros/ caísse sobre esse rosto dormente/ essa fechada/ exaltação.// Que palavra seria, ignoro”. Noutros, a desarticulação predomina: “as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.// É madrugada e a noite que rolam sobre os telhados/ do poema”.

Tal poética se desenvolverá e alcançará grau máximo em “A máquina lírica” (1963), quando Helder articula sintaxe própria, em versos que conjugam realidade linguística e realidade sensível, em poemas vigorosos, que suspendem o sentido, sem desarticular-se: “Seus peixes estremeciam/ como letras no alto das folhas/ poeiras de outra cor: girassol que se descobre/ como uma gota no mundo”.

É provável que o ponto de inflexão final da trajetória de Helder ocorra em seu último livro de fôlego: “A faca não corta o fogo” (2008). Nele, radicaliza-se a virulência, e a sexualidade surge em múltiplas colorações. Da mulher, em sua condição materna, diz: “mãe há só uma:/ que pela mesma vulva expulsa/ mijo, mênstruo e filho”. A poética que vinha se articulando desde o livro inicial ganha contornos perturbadores.

O livro final, “A morte sem mestre” (2013), é já em tom menor. Ali, os poemas são soturnos e sintéticos e tratam de dar cabo ao poema fundado por toda a vida: “queria fechar-se inteiro num poema/ lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena/ poema enfim onde coubessem os dez dedos/ desde a roca ao fuso/ para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo/ quero eu dizer: todo/ vivo moribundo morto/ a sombra dos elementos por cima”.

SERVIÇO
“Obras completas”
Autor: Herberto Helder
Editora: Tinta da China
Páginas: 736
preço: R$ 99,00

Cotação: Ótimo

* Wilson Alves-Bezerra é professor de literatura da UFSCar e autor de “O pau do Brasil” (Urutau)

Fonte: originalmente publicado ‘O Globo’, 21.1.2017.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS