©Phil Wrigglesworth

Os feriados daquele tempo eram poucos e bons. 1º de janeiro, para se festejar a fraternidade universal, que não se sabia bem o que fosse, mas, no alvoroço de começar o ano, significava boa disposição geral; 21 de abril, que nos ensinava a morrer pela liberdade; 3 de maio, quando éramos descobertos, apesar das dúvidas que pairavam sobre a data certa, e que ninguém pensava em resolver; 13 de maio, e era uma vez o cativeiro; 14 de julho, viva a Queda da Bastilha!; íamos sossegados até 7 de setembro, quando nos transportávamos ao Ipiranga e, com Pedro i e Pedro Américo, sacudíamos o jugo lusitano; uma pausa, e verificávamos que, existindo como país, não fôramos ainda descobertos como continente, e a 12 de outubro dávamos marcha a ré até Colombo; detínhamo-nos a reverenciar os mortos em 2 de novembro, logo depois era forçoso proclamar a República, e, ainda bem não era proclamada, escolher-lhe uma bandeira, tudo isso num mês excepcionalmente rico: três feriados! E daí, mais nada, acabou-se o que era doce. O resto eram festas de igreja, em que o Estado não se metia, ou datas pessoais, que encorajavam o menino a falhar à escola, o funcionário à repartição, o trabalhador ao trabalho — sob as penas da lei, está visto.
Com serem poucos, os feriados se envolviam numa aura de prestígio e encantamento, que os fazia longamente esperados e agudamente saboreados em sua polpa de descanso ou excursão. E como também as distrações fossem raras, ninguém tinha o problema de hesitar entre elas, ou se queixava porque o tempo fosse insuficiente para degustá-las todas. Ir ao cinema constituía uma aventura pouco menos que maravilhosa, para não dizer logo impossível; porque o cinema não funcionava durante o dia, salvo em grandes e pecaminosas cidades, como o Rio de Janeiro; nas pequenas cidades, tínhamos de esperar a noite de domingo, quando, depois de molhada convenientemente a tela, e tocada várias vezes a campainha, a imagem trêmula começava a projetar-se de cabeça para baixo, e era um custo reconduzi-la à posição exata. Não havia mesmo distração nenhuma durante o dia feriado, salvo o próprio feriado e nossa capacidade de fruí-lo. Alguma bola jogada a esmo, na cabeça ou na vidraça do próximo, até que se organizassem os primeiros times de futebol vadio, e o mais era o ar livre, com todas as suas sugestões. A tarde caía antes que o primeiro peixe fosse pescado; contudo, nossa pescaria fora tão cheia de peixes, anzóis, iscas, discussões, caminhadas, cismas, que voltávamos para casa com a fartura e o cansaço de expedicionários na África.
Depois, as coisas mudaram. Há duas explicações para isso. Primeira, que nos tornamos homens, isto é, bichos de menor sensibilidade. Segunda, o governo, que mexeu demais na pauta dos feriados, tirando-lhes o caráter de balizas imutáveis e amenas na estrada do ano. O Vinte e Um de Abril foi proscrito, porque já não fazia sentido morrer pela liberdade, era preferível viver sem ela; em seu lugar, houve o ensaio do Dezenove de Abril, que não entoou; o Quinze de Novembro, se não feneceu de todo, chegava a passar despercebido, e as trombetas, para substituí-lo, anunciaram o Dez de Novembro, de enfadonha biografia; também se experimentou o Três de Outubro, como edição nacional do Catorze de Julho, enquanto esse ia dormir no cemitério da história. Nada disso aprovou. Surgiram ainda os “dias”, consagrados a classes, e que eram feriados particulares, ou nem isso, de tão anódinos; multiplicaram-se os feriados enrustidos, ou dispensas de ponto e de aula, e perdemos, afinal, o espírito dos feriados.
Por ser precisamente um dos feriados extintos, o Dezenove de Novembro faz lembrar hoje, aos marmanjos do começo do século, não só a bandeira como a própria infância, tão perdida quanto esse feriado. O “salve, lindo pendão da esperança” (que era pendão?) canta ainda no íntimo de pessoas que desaprenderam cantar ou jamais o souberam. São feios, são bonitos os hinos aprendidos na escola? Eles aderem à nossa substância, eis tudo. E cantam dentro de nós, absorvidos pela alma dos feriados, em que se misturavam heroísmo e far niente, lutas, flâmulas, espadas, princípios, sol, passarinhos, banhos de riacho, frutas, caramelos… Alma dos feriados antigos, que eram fixos, poucos e belíssimos.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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