Felipe Stefani - foto: acervo pessoal

Auto biografia
        A Arthur Rimbaud
.
“Je est un autre”
.
Quis que o migrar fosse minha forma.
Que a música fosse tudo, plena.
Que a embriagues fosse a norma.
Não tocaria uma só nota serena.
O desconforto fosse meu porto.
O descompasso meu próprio passo.
O mal estar meu maior conforto
E todo verso forjado a aço.
Assim, através de muitas cidades.
Como tudo estivesse ao inverso,
Tudo seria reinventando, as artes,
As crenças e, enfim, todo universo.
A iluminação alcançaria, eu cria,
Num inferninho musical urbano.
Dançando rock, frenético, romperia,
Ao infinito além do humano.
Mas claro que falhei! Oh néscio
Que eu era. Como um cão sofri, e tanto,
E em não querer sofrer, confesso,
Tudo era um tentar em vão. Portanto,
Hoje almejo o tempo de cessar o verso.
Simples, como um mercador fenício.
Nem mais uma linha ou traço.
Quero ser um mestre do silêncio.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

não há caminho no meio do nome posso aventurar-me a perguntar as flautas da terra as flautas do céu o que nada significa disso o grande labrego explode no ar e seu nome é vento sob as oliveiras choro morro amanhã nos espinhos sabem meus pés descalços os lírios sem a tristeza dos campos entorno onde ninguém compreenderá as quedas da paisagem desse corpo dilacerado que estremece e o silêncio continuo
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

Auto-retrato-caricatura, andarilho na Austrália em 2010

§

Meu coração é um violino.
Lá fora sopra o vento
contorcendo o mar.
Penso no infinito.

La fora passa o vento
digladiando com o mar.
A ideia é um precipício.
Por que há o vento
penso no princípio,
no sem fim, no caminho.

Triste verso que agora escrevo
(e que alguém vai lendo),
pensar é um abismo.

Sou pequeno bem pequeno,
mas minhas mãos tem gestos

que nunca terminam.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Um poeta que encontrasse as palavras puramente.
Migrando através de cidades diria,
por exemplo: a casa é rosa, sua boca azul,
seu ânus (o céu) é da cor das seivas invisíveis.

As palavras seriam alegria nas mãos do poeta.

Por exemplo: casa roxo festa ilimitado lodo estrela dançou lua.
Ou seja, tudo.

Adentraria as cidades e elevaria tudo.
Gatos raptos vestido de moça o moreno da pele
notas de jazz astros invadindo o escuro
a cigarra trama atrás das luas oblíquas notas colidem.

Um poeta assim bem antigo.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Cortar o lastro do enigma,
cantarolar o que resta,
réstia ou medusa.
Impossível o avesso da escrita.

O verso, cripta inatingível,
teço, regresso, desmereço.
Mundo de jades, flamas, labirintos.

Decepar desvios,
fio a fio.
A lua imita o templo,
por exemplo.
A caixa à savana, o amplo, o continuo.

Tudo roubo e olvido,
repetindo, repito-me,
indecifravelmente.

Árduo acumulo
de sois e sementes
inexistentes.

No fim, a dor da dor,

que enfim, completamente, existe.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Falo
para adentrar
o possível.

Calo
para pisar,
trabalho.

Mudo,
outro rumo,
cheio de sentidos.

(H)ouve

o imprevisto.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Mas a cabeça, violenta, envenena-se,
pela desordem e talento, eu me lembro:

Por dentro do dom, da demência,

sob o choque veemente do transe, do terror
das visões da morte.

Os rostos renascem na altura insubstancial
da ciência,
do giro,
do sono.

É um calculo: quebrar o visível,
mexer a água veloz,
até que sangre o trabalho de fluir.

Quem intui as noites abundantes por dentro da loucura?
Quem morre por elas?

É a medida, a busca e a mudez. Isso: Áspera, inocente, objetiva.

Um lento processo: Um vislumbre na própria substância
fundada pelos dedos, no ininterrupto de existir.

De tão compacto, o delírio inscreve-se no grande dia transparente.

É definitivo: Encontrar a forma e nudez,
na essência mesma da procura.

Um cálculo inocente no mortal silêncio da própria finitude.

É isso: Não se assemelha ao que se diz profundamente.

É uno,
áureo,
impossível.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Interiormente era uma flecha que morria.
Uma flecha que nascera agora, maravilhosa dentro da carne.
Uma flecha que sabia cantar luas enlouquecidas,
da a boca ao sexo pendendo
tanto.

Tanto interiormente essa flecha que um trajeto alucinante,
muito antigo, subia até o cu porque sondava até o nascimento
e almejava as margens fugitivas.

Uma flecha tão lúcida nos bosques do corpo
que supunha o ser ter uma massa alagada com campos inexistentes,
onde uma mulher se deita sobre todas idades do mundo.

Uma flecha violeta dormindo
pelos anos e anos dentro da música,
dentro do poeta sangrando.
Sangrando flores pelos ouvidos
aos pés, enlouquecendo terrivelmente.
A flecha amando em sua boca.
(A lucidez da flecha invadindo os poros da musa).

Tanto inexistia como era uma mulher. A flecha
ressurreta nas cores do ser eu via.
Uma vez vi a flecha mudamente migrando
no violeta das margens fugitivas, dentro do ser.
Flecha raríssima como pedra louca, que cobre e desvela-se.

Tão interiormente nascera, sondava e morria.
Girassol sombrio contra o ser-não ser. Sou,

mas não a flecha dentro de mim.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Desenho de 2014, inspirado em gravura japonesa ©Felipe Stefani

Relato
Deste tempo em que estamos
(de onde escrevo este relato),
uns dizem o fim de uma era,
outros, o início de um fraternal estágio.
Eu bebo meu chá.

Sou do tamanho da minha janela
e nela cabe até o mar.

Quando os cargueiros somem no horizonte
deixam de existir aos meus olhos carpinteiros.
Talho o mundo a minha medida.
Usei amores, naufrágios, despedidas,
e já não eram sentimentos,
eram versos.

Leitores do futuro
desculpem a falta de decoro,
falo de um tempo meio cego,
meio caolho.
Sei que Camões via só com um olho.
Pessoa via com oito.
E eu, com três, vejo por um vidro embaçado,
um tanto roto.

De minha janela vejo comícios,
revoluções. Lá embaixo gritam muito,
todos sabem de tudo.
Falam em recriar a escrita,
reverter o status.
Mas além do mar,
do mar sem fim,
vejo deuses e mitos antigos,
seus nomes ainda intactos.

Então meus olhos navegam,
conquistam novas terras,
alçam guerras,
cantam presságios.

E finalmente se apequenam,
como gota de sal
do imenso mar de Portugal,
em uma síntese impossível.

Ó mundo antigo, nós te recriaremos!
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2012.

§

Noturno
Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente as faces do mundo.

A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.

As barcas sonham a distância das flautas.

Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.

A inocência do mar submerge as cítaras.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

Verso.
Queria assim o verso,
extremo.
Mais que extremo,
inaudível.
Do abismo mais profundo
à luz sem margens,
sem limites.

Mas no trabalho lapidar do olvido,
A musa suspira:
“Impossível”.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

O silêncio invade
todas as rotas
da indagação fundamental.

Existo?

E as flautas do mar recobram o olvido.
.
(Queenscliffe, Australia, Abril 2010).
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

Só o toque das cítaras
contra a singeleza da paisagem

basta,
no despertar do silêncio continuo.
.
(Manly Beach, Australia, Março 2010).
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

E eu que amava o sonho dos pássaros,
dizia às vozes imprevisíveis
que dormiam no mar:

Como posso sonhar,
se a exatidão em que navegam as aves
é maior que a própria vida?

E as sombras do silêncio repetiam:
“É preciso cantar para invadir o segredo”.
.
(Manly, Australia, 2010).
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

Acorde noturno
O acorde da noite
mais uma vez tombou
sobre meu corpo migrante,
e, sendo a música a vastidão no instante,
deixei-me sonhar em volta dela.

Ela que me tocou na noite,
na correnteza de músicas estranhas,
como mar revolto entre as sombras dos naufrágios.

E navegamos,
sacrificando o mar, multiplicando as margens,
a infinita música dos presságios,
exilados nessa travessia,
onde somente as estrelas morrem por nós.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2008.

§

Poema místico
Repentino,
Na clareira vulcânica da idade,
Concebi assim a leitura da memória;
De que tudo que desata, cresce e morre
Tem um gesto,
Um gesto de princípio.

Deveríamos chamar “ritmo”
Tudo que nos torna exaltados.

Somos tentados a ver dentro do sonho,
Assim nos recriamos do que nos causa escândalo,
Nomeamos a noite, a tarde e a manhã dos tempos,
Como fôssemos deuses.

Somos ritmo do sonho,
Lembrando, vagando,
No fim de cada era,
Causando escândalo.

Vede as estrelas,
Os frutos das figueiras,
O templo,
Furiosamente serão lembrados.
Viveremos disso,
Dando ao mundo
Um nome de batismo.

Chamaremos “inspiração”
Tudo que concentra,
Avança e se enraíza.

Impérios definham.
Somos tentados a dizer que foi um sonho,
Um sonho dentro do sonho,
Se concebêssemos tal geometria.

Pois também se lavram as terras antigas.
Vede, as águas calmas
São também colhidas.

O sonho não é sonho,
A memória não é memória.

Há sempre um Deus a redizer a história.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2008.

§

Ébrio
a noite levou-me qual ébrio furacão dentro do sono a casa o perfume nada sabia do silêncio unânime levava o vinho a janela do quarto negro negro minha treva me chamava madame colocava gelo no copo ah caminho vegetal de tentações mesquinhas na manhã abri as asas na revolta de um insone o vôo sobre a cidade a cidade a cidade a chaga imediata dos vícios deixei-a entorpecida pálpebra negra enquanto o sol faiscava uma loucura unânime migrei para as visões distantes a aurora e o beijo afundou-a até a doçura do sonho besta soberba no outro dia era um poeta
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

§

Vôo, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Poemas em prosa

Utopia
Da observação das coisas múltiplas, que rajem pelo olhar,
com o fogo místico que toca as entranhas,
o abismo me fez, do amor, um prisioneiro.
Entrevado no fluxo abismal onde o nada se entrelaça aos ossos,
num ranger medonho, seu corpo era um cárcere sem fim que, para além, nada existia.
Teu ventre tinha o odor de uma corrente onde se enlaçava toda a ação, e me tornava escravo e fremente.
Teu dorso, rede ampla, onde cabia a alma, cheia de âmbares, odores e deleites, dos quais seria impossível resistir, aniquilava qualquer inspiração de ser livre.
Teus seios eram manicômios, neles podia urgir toda minha loucura, que tu pedias mais, assim, minha demência sem fim, fica consumada para sempre.
Teus olhos escuros eram faróis, mas quando o naufrago, em tal calamitosa e amedrontante ilha, busca um sinal de esperança, revela – se um abismo maior,
uma prisão ainda mais mordaz e impetuosa.
E já que esse esplêndido deserto era para mim o universo,
em cada curva dele reconheci o mundo, e todas especulações metafísicas foram, ali, para mim reveladas.
Cada cheiro, cada toque e mínimo movimento do seu corpo ensinaram – me a ciência, a nova e a antiga. Fui iniciado em toda alquimia quando, anelados, éramos nós o demiurgo atroz, primordial, transformador. Nas manchas e precipícios de sua pele deslumbrei toda a geografia do mundo e a mineralogia foi – me, assim, ensinada. Em nosso enlace febril e canino vislumbrei todas as festas e orgias da historia. Em ti, enfim, reconheci todas as mulheres. Reinventei minha consciência. A precisão de dizer pouco me pareceu a única razão e sentido, e meu compromisso. Assim, e para sempre, tenho apenas o corpo e a linguagem, sem nenhum outro sentido ou mistificação.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2014.

§

Conto
Ela, a dama do parnaso, sob um manto antigo, lírico, com gestos magníficos,
mas recatados. Naquela manhã, chorava a falta de seu amante.
Ele, o desregrado cavalheiro, o mendigo, o andarilho que, cortejado pela própria indulgência, por um império de cegos, aceitou os dez reinos, ajuntou seu ouro, e devorou-o em um riso sarcástico.
Insaciável, devorou os súditos, em uma antropofágica alquimia e, sozinho em seu vasto castelo, o povo todo digerido, comeu as próprias fezes, e pelos campos e vilarejos devorou as árvores, a terra, as pedras, e bebeu dos rios e dos mares.
Esgotado e imensamente melancólico, sentou-se alquebrado a beira do caminho sinuoso, onde então deparou-se com a dama do parnaso. Vendo-o destruído pelo excesso, pela fome, e pela imoralidade sem limites, implorou-lhe apaixonada, “quero que me devores!” “Quero entregar-lhe minha alma!” Ele pedia. Então gargalharam, e riram tanto, e dançaram e dançaram, em uma dança extrema, de uma vastidão sem paralelos, como se o Sol fosse a própria melodia e, a grama sob os pés descalços, a própria razão e sentido da vida. Dançaram tanto e com tal desvelo que um ao outro aniquilaram, como se a música ficasse assim, sem margens, cristalizada, como se o gesto mais brusco do eterno, ou como se nunca tivessem existido, ou como se sempre, em tudo.
Morreram os dois, caídos, a beira do caminho sinuoso.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2014.

§

BREVE BIOGRAFIA
Felipe Stefani é poeta e artista plástico. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem os desenhos publicados no site PBase. Ilustrador, já ilustrou muitos livros de outros escritores, e também seus dois livros de poemas já lançados: “O Corpo Possível” (2008), e “Verso Para Outro Sentido” (2010). Prefere que sua arte fale por si mesma. Mantém o blog Cultuar.
Contato: [email protected]

Felipe Stefani – obra publicada
:: O corpo possível. São Paulo: Editora Dulcinéia Catadora, 2008.
:: Verso para outro sentido. São Paulo: Escrituras Editora, 2010.

Saiba mais sobre Felipe Stefani:
Escritores em traço do artista plástico Felipe Stefani.
Desenhos: A poesia no desenho de Felipe Stefani.

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